25 de agosto de 2016

Hamaoka - Honshu




Arranquei de Minakuchi por volta das dez e meia, como é meu costume. Não tenho mapa do Japão porque os nomes vêm todos em japonês e por isso serve-me de pouco. Costumo por isso ver na noite anterior no “google maps” o trajeto que pretendo fazer e escrevo num papel as cidades por onde tenho que passar, assim como os números das estrada a seguir. Uns e outros costumam estar escritos nos sinais de trânsito, também em Inglês.
Neste caso, a caminho de Tóquio, não havia muito que saber, porque teria simplesmente que seguir a estrada nacional nº1 que raramente tem mais que uma faixa para cada lado, de maneira que tenho feito pouco mais de 200 Km por dia.
Neste dia aconteceu uma cena caricata. Por vezes nestas estradas aparecem cruzamentos, assinalados, em que a estrada segue para a esquerda ou direita e não em frente. Tenho que ir com uma certa atenção para não me enganar.
Desta vez distrai-me e fui em frente em vez de virar à esquerda. Comecei a achar estranho a estrada estar a tornar-se estreita de mais para uma nacional 1 e o movimento baixar drasticamente. Achei que me tinha enganado mas decidi andar mais um pouco para ter a certeza. Até que... entrei pelas instalações de uma central nuclear. O portão era largo e estava aberto de maneira que nem reparei que existia. Ouvi uma voz num altifalante que até parecia em português a dizer : Onde vai?. Se calhar é parecido em japonês, como algumas outras palavras, mas achei que não era para mim.
Continuei por ali dentro até começar a ver mais porta paletes e camions na estrada que carros. Constatei que me tinha enganado e dei a volta só então percebendo que aquilo era uma central nuclear. Fiquei chocado com o que vi e tirei duas ou três fotografias, felizmente desta vez sem ser preso, como me aconteceu no Irão. No portão estava um homem à minha espera que me mandou sair com ar de mau e sem qualquer ameaça de vénia.
O que me chocou foi o estado lastimável em que se encontrava a Central Nuclear, com tubos e depósitos cheios de ferrugem.
O que se passa é que depois do desastre de Fukushima, em 2011, o governo japonês prometeu fechar todas as centrais nucleares no país. Só que é mais fácil dizer do que fazer. 30% do fornecimento de eletricidade no país estava baseado nas Centrais Nucleares e para acabar com elas tinham ou que ter barragens e outra produção limpa de energia em quantidade suficiente, o que não é o caso, ou passarem a produzir eletricidade queimando combustível, o que iria contra todos os recentes acordos internacionais a nível de poluição ambiental. Penso que sejam esses os motivos pelos quais eles mantêm uma ou outra central nuclear em funcionamento, enquanto não tiverem uma alternativa viável. O problema é que, como esta, muitas estarão em péssimo estado e não as podem renovar pois se as desmontam já não faz sentido construir novas, depois de anunciarem que as iriam eliminar. Assim vão mantendo alguns destes monos em funcionamento. Esta, pelo que li depois de lá passar, estará desativada mas continua com muito movimento pois não deve ser fácil verem-se livres dos materiais radioativos quando decidem acabar com elas.
O problema é que o país tem tremores de terra fortes a cada 5 anos e, se o de 2011 provocou aquele desastre, pelo tsunami que veio atrás, estou convencido que se calha terem um com o centro num sítio como esta central nuclear de Hamaoka aquilo desmancha-se tudo. Pelo menos é a ideia que dá ao olharmos para ela e aprendi  que uma coisa para estar em bom estado tem que, em primeiro lugar, aparentar estar em bom estado.
Neste dia passei ainda por um simpático casal, cada um na sua Harley. Quando passei por eles disse-lhes adeus e o rapaz para me corresponder o aceno quase se estampou. Parei mais à frente numa loja para comprar água e eles viram-me e também pararam. A miúda andava de moto há um ano e ele, pelo que vi, devia andar há um ano e dois dias. Bom espírito.

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