30 de abril de 2019

Golfo da Guiné

Um dos tripulantes informou-me que o cais de onde saímos ainda tinha sido construído pelos alemães, há mais de cem anos atrás e, desde então, não tinha sofrido qualquer melhoramento ou reparação. A base da estrutura ainda estava lá para durar mas viam-se carris de vagões inutilizados à décadas e várias carcaças de barcos encalhados que ninguém pensou em remover.
O delta do Wouri é lindo, com vegetação cerrada até à água.
Mal saímos do porto alguns dos tripulantes começaram a deitar lixo, garrafas de plástico vazias e trapos com óleo, provenientes da viagem de ida, pela margem fora, deixando um rasto de sujidade atrás do barco. Fui tentado a dizer alguma coisa mas seria certamente infrutífero o meu comentário.
Olhei para a dúzia de passageiros que estavam na sala  de 200 lugares sentados onde iriamos passar as próximas horas, a única divisão com ar condicionado. Tinham-me dito que o que os piratas procuravam eram passageiros que lhes pudessem render bom dinheiro de resgate e pensei que, se fosse pirata e tivesse que escolher entre aquele grupo de Camaronenses e Nigerianos de fracos recursos financeiros e um europeu, branco como a cal, não só pela origem da sua pele como pela situação em que se encontrava, não hesitaria. 
Fui até ao convés, apreciar a magnifica vista enquanto não anoitecia e fiquei como que a meditar, sentado num dos bancos, em calma profunda.
Quando voltei para dentro, ao anoitecer, a menina do bar perguntou se não queria jantar. O prato único era galinha frita com um legume que eles cortam em lascas e fritam como batatas. Tinha um aspecto terrível.
- Mais tarde, respondi.
Quando me decidi pelo jantar pedi que me aquecesse a refeição num microondas que a tinha visto utilizar.
- Não funciona. E para o provar fez uma tentativa.
- Tem cerveja?
- Não. Só garrafa de sumo. 
Comi a galinha fria e dois ou três pedaços daquele legume frito, acompanhados da espécie de sumo e distrai-me a escrever. 
Pelas nove e meia da noite, já com todos os passageiros a dormir, tirei o fio da televisão que emitia mais ruído que vozes da ficha, descalcei as botas e adormeci numa fila de bancos, com a mala onde transporto o computador e documentos a fazer de almofada e uma das luzes do tecto a piscar com um mau contacto a dar à sala quase escura um certo ar de bar de alterne de província.
O barco era um velho ferry norueguês, dos seus 40 metros, provavelmente adquirido a caminho da sucata, em que a rampa de acesso e muitas outras coisas já não funcionavam nem nunca voltariam a funcionar. Mas, espreitando para a cabine de comando quando estava no convés, vi que tinham GPS e ouvi um rádio, o que me deixou mais descansado.
Acordei às três da manhã com o barulho do ferro a descer.
Faltavam quatro horas para o amanhecer. Quem chegaria primeiro ali, a marinha ou os piratas.
Mesmo com esse pensamento em mente consegui voltar a adormecer.
Com o raiar do dia saí ao convés. Havíamos ancorado junto a uma plataforma de petróleo na esperança que, tendo eles segurança própria, nos pudessem socorrer no caso dos piratas chegarem antes da polícia. 
A nossa tripulação revezava-se, com um par de velhos binóculos, na observação de cada canoa de pesca a motor que se aproximava mais, todas elas potenciais barcos piratas.
- Já sabem a que horas vem a marinha?
- Disseram-nos que às oito e meia. Devem estar a acompanhar outro barco para o porto. Normalmente não se atrasam muito.  
Passava pouco das oito e meia quando o capitão recebeu uma comunicação via rádio. Vinha um petroleiro a chegar que passaria junto a nós. Deveríamos segui-lo, o mais próximo possível, até à entrada do porto, que um dos semi-rígidos da marinha nos acompanharia aos dois.
Lá seguimos atrás do petroleiro, a todo o gás para o conseguirmos acompanhar. Ainda tínhamos cerca de quatro horas de viagem pela frente.
Só que, pouco mais de meia hora depois o petroleiro começou a abrandar e…. parou.
- O que se passa? Perguntei a um dos marinheiros
- Parece que está com um problema de motor.
- E agora ?
Todos faziam a mesma pergunta. O semi-rígido da marinha seguia conosco ou ficava a acompanhar o petroleiro até ser socorrido?
A resposta veio via rádio.
Seguíamos viagem. O Semi-rigido acompanhava-nos duas ou três milhas e voltava para junto do petroleiro. Um outro iria ao nosso encontro um pouco à frente.

Stress.


28 de abril de 2019

Camarões 2



Os Camarões estão praticamente em guerra civil em alguns pontos do país. No Norte são os terroristas do Boco Haram e nos estados do “South West” e “North West” grupos da população anglófanos pretendem tornar-se independentes por não se sentirem integrados na sociedade francófona.

Em meados do século XIX os principais países europeus queriam ter pelo menos uma colónia em Africa, terras que prometiam enormes potencialidades de culturas que não se davam na Europa, como a da árvore da borracha, enquanto rumores já circulavam acerca das grandes reservas minerais do continente. Em tratados muitas vezes secretos repartiam entre si o continente com acordos onde os locais não tinham uma palavra a dizer, mesmo se por vezes a forma mais fácil de os ocuparem passasse por entendimentos com os lideres locais, que não encontravam alternativa para se protegerem de outros europeus. Num destes tratados secretos Ingleses e Alemães, por incrível que pareça face à suposta antiga aliança entre Portugal e Inglaterra, chegaram mesmo a acordar dividirem entre si os territórios de Angola e Moçambique, expulsando os portugueses.
A maioria da costa Atlântica africana havia sido conquistada pelos portugueses, mesmo se, por falta de meios, nos mantivéssemos junto à costa. Perto do final do século fomos expulsos de grande parte dessa costa por potencias mais fortes militarmente como os holandeses e franceses. 
O próprio nome de Camarões havia sido atribuído ao local, no Sec. XV, pelo explorador português Fernando Pó, que encontrou grandes quantidades de Camarões na foz dos rios Ndian e Wouri. 
Em 1885 foi a Alemanha que ficou com o que são hoje os Camarões mas, no final da primeira grande guerra, ingleses e franceses, como vencedores, repartiram entre si o território. Quando, em 1960, os franceses decidiram conceder a independência às suas colónias africanas, o país foi reunificado mas as populações anglófonas, em menor numero, sempre se consideraram excluídas. Em 2017 revoltaram-se pretendendo separar-se do resto do país para criarem um estado independente. Formaram milícias que têm causado muitos conflitos, com largas baixas. O governo, por seu lado, tem reagido violentamente, com militares a matarem vários civis de forma bárbara na semana em que lá passei.
A região pior é onde se encontra a fronteira com a Nigeria mais a Sul que, o ano passado, chegou mesmo a ser fechada. A entrada do Norte, pelo seu lado, é ocupada pelo Boco Haram, um grupo terrorista extremamente violento.

Assim, sem ter passagem terrestre para a Nigeria, resolvi ir ao porto de Limbe para tentar encontrar um barco que me levasse até ao outro lado da fronteira, Calabar, na Nigeria.
Acontece que Limbe é outra das zonas anglófonas, onde também tem havido conflitos, pois está no “South West State”. E, por azar, as autoridades captaram comunicações a organizarem uma revolta para o dia em que cheguei a Limbe, sem o saber. Tinha ficado em Douala na noite anterior, a 60 Km de distancia mas já nesse estado.
Estranhei tanta tropa na estrada entre Douala e Limbe. A cada 5 Km havia uma patrulha militar, armada até aos dentes, a mandar parar os carros que lhes parecessem mais suspeitos. A mim recomendavam repetidamente que, se não podia evitar andar por ali, nunca saísse da estrada principal.
Fui até ao porto de Limbe mas estava fechado. Disse o que pretendia ao guarda de serviço e ele recomendou-me que procurasse no pequeno porto de Tiko, 20 quilómetros para trás. 
Perto do porto parei na beira da estrada junto a uma mulher que preparava maçarocas num fogareiro e foi esse o meu almoço. Perguntei-lhe o caminho para o porto e também insistiu para que não saísse da estrada principal. Só que os últimos três quilómetros até chegar ao porto eram uma estreita estrada de terra. Num primeiro posto policial perguntaram-me onde ía mas depois de um pequeno interrogatório, deixaram-me seguir. Mais à frente, já junto ao porto, um segundo posto com as mesmas perguntas.
Estava um pequeno cargueiro a descarregar e fui falar com o capitão. Sim, seguiria no dia seguinte para Calabar e poderia transportar-me a mim e à moto. Negociei um pouco o preço, sem grande convicção, pois tanto eu como ele sabíamos que não tinha alternativa e acordámos perto de 200 Dólares.
Pediu-me para lá estar no dia seguinte às três da tarde.
- Partiremos às seis. A meio da noite vamos largar amarras ao largo pois teremos que esperar que um barco da marinha venha ter conosco, ao nascer do dia, para nos acompanhar até ao porto, pois há muitos piratas na zona.
Não me parecia um programa atractivo mas não tinha alternativa. 
- Conhece algum Hotel aqui na zona ou será melhor ir ficar a Limbe esta noite?
- Não conheço mas penso que há alguns. Não volte hoje para Limbe que a situação está muito tensa e são esperados conflitos.
Mas fui, por ser o local mais perto onde encontrar um Hotel decente.
O Hotel era em cima do mar e tinha excelente vista para umas ilhas no horizonte e, mais perto da costa, uma plataforma de petróleo.
Na manhã seguinte pedi para deixar o quarto só à uma da tarde e almocei antes de sair. Passei numa loja de câmbios a trocar Dólares e parti para o Porto. 
Os dois postos policiais à entrada do porto, com pouco que fazer, voltaram fazer-me um interrogatório completo.
- O que traz nas malas?
- Roupa
- Não traz armas?
- Não
- De certeza que não traz armas?
O segundo posto foi mesmo ao ponto de me revistar todas as malas.
Carimbei o passaporte num pequeno posto fronteiriço do porto montado num contentor e esperei pelo embarque enquanto os carregadores acabavam de descarregar. O ambiente dos estivadores é péssimo com quase todos, um a um, a virem-me cravar dinheiro sem qualquer justificação.
Um dos homens da alfandega, que me acompanhou até junto do barco para confirmar com o capitão que eu e a moto iriamos mesmo embarcar antes de me colocar o carimbo no passaporte, dizia-me às tantas:
- É português? Sabia que foram os primeiros a cá chegarem? Porque se foram embora? Já viu o estado em que este país está. Diga lá para voltarem, a ver se colocam isto em ordem.

O navio, que tinha vindo carregado de mercadoria da Nigeria, largou o porto com não mais que uma dúzia de passageiros e a minha moto, às seis em ponto. Estávamos na zona anglófona do país. Ali parecem cumprir horários.

27 de abril de 2019

Camarões 1

O Norte dos Camarões é maioritariamente muçulmano. Transmitem uma tensão, uma espécie de revolta interior difícil de explicar. Na vila da fronteira as mulheres na rua andam todas de cabeça tapada e muitos homens, principalmente mais velhos, usam túnica.
Uma mulher na fronteira recomendou-me o único Hotel possível da vila e foi lá que fiquei.
Estava cansado e, como o Hotel era decente e barato, decidi por ali ficar mais um dia. Na tarde do dia seguinte procurei uma oficina destas pequenas motos, para tentar soldar os apoios do GPS em alumínio, que se haviam partido. Encontrei uma perto do Hotel. Rapidamente se juntaram vários populares à volta da moto enquanto desmontávamos as peças para o homem as levar a soldar. Estes tipos parecem estar sempre a discutir, revoltados com tudo e todos. Não sei do que estariam a falar mas era uma bagunça à minha volta. No video que fiz até comentei se estariam a discutir sobre a forma de me cozinharem, com cebola ou em tomate.
Enquanto esperava que o homem chegasse com as peças que levara para soldar fui até ao outro lado da vila para trocar dinheiro. Depois de o fazer liguei a GoPro no capacete para filmar a confusão daquela localidade, com muitas centenas de pequenas motos a circularem de um lado para o outro na que era a rua principal. Quando me preparava para arrancar um homem, que estava com duas mulheres muçulmanas e as mandou seguir, parou junto a mim, disse que era polícia e perguntou se eu tinha autorização para filmar. Pedi-lhe que se identificasse por estar à paisana mas em vez de o fazer disse que o seguisse até à esquadra local. Mandou parar uma das muitas motos que passavam, montou-se atrás, ordenou ao rapaz que o levasse à esquadra e fez sinal para que os acompanhasse. Na delegação, uma barraca de madeira que só pude identificar pelo carro de polícia estacionado à porta, contou aos dois guardas, fardados, que me tinha apanhado a filmar, como se de um crime se tratasse.
- Não sabe que está na fronteira e não pode filmar?
- Eu sou turista e como tal estou a filmar a vida local. Isto não é a fronteira.
- Ai não é a fronteira? Não é a fronteira? Não sabe que isto é a fronteira? É mesmo a junção de três países, Gabão, Guiné (Equatorial) e Camarões. Temos tido problemas com mercenários estrangeiros que passam para a Guiné.
- Acha-me com cara de mercenário? Eu sou um simples turista.
- Nunca se sabe. Apague o filme por favor e deixe-me ver o seu passaporte para ficarmos com a sua identificação.
Fingi que apaguei o filme enquanto anotavam os meus dados.
- Porque visitou tantos países nos últimos tempos?
- Sou turista. Ando a gastar dinheiro no vosso país. Deviam receber-me bem.
Estava a ficar chateado mas esforcei-me por manter um sorriso.
E lá me deixaram seguir. 
O mecânico tinha regressado com as peças soldadas e montamo-las, já no lusco fusco, antes de regressar ao Hotel.
Na manhã seguinte parti em direcção a Yaoundé para depois desviar para Douala.
Atravessava uma aldeia a meio do dia quando vi um banco em madeira junto à estrada. Parei para descansar. Do outro lado da rua, um velho à porta de uma barraca chamou-me:
- Não se quer deitar aqui em casa a descansar?
-  Não, obrigado, estou aqui bem.
Atravessou a rua e veio oferecer-me dois Abacates. Sentou-se ao meu lado a conversar
- Você é um homem da minha idade. De onde vem?
Contei-lhe um pouco da minha viagem.
- Extraordinário. Vou a casa buscar um papel e uma caneta para lhe deixar a minha morada.
Com uma mão que se esforçava por controlar, a lembrar-me a da minha mãe quando, já com noventa anos, lhe custava escrever, assentou morada e telefone no papel.
- A morada já não serve de muito, dizia-me desconsolado. Deixaram de distribuir correio por aqui. É triste quando isso acontece. Era tão bom receber uma carta escrita à mão.  
Juntara-se uma dezena de jovens, rapazes e raparigas, à nossa volta a ouvirem atentamente a conversa dos dois velhos.
- Não se preocupe. Tem filhos?
- Tenho, 12. Oito rapazes e quatro raparigas. Um está no Canadá e três em França.
- Está aqui algum?
- Sim, está.
O velho olhou à volta a tentar reconhecer alguma das caras dos miúdos.
Um deles identificou-se.
- Vou deixar o meu email a este seu filho e vamos comunicar por email. Concordo que não é a mesma coisa mas é o que temos agora.

Despediu-se de mim com três beijos na cara. Simpatizei com aquele velho.



26 de abril de 2019

Gabão



De manhã segui em direcção a Libreville, a capital. Não era o meu trajecto mas teria que lá passar para tratar do visto para os Camarões. A paisagem é fantástica, com a estrada a rasgar a floresta tropical, de muitas especies diferentes de árvores. A economia do país é baseada na exploração petrolífera e florestal e, tal como no Congo, nas estradas vemos enormes camiões carregados de árvores de enorme porte.
Pela hora de almoço parei numa tasca junto a uma rotunda. Estava a cerca de 200 Km da capital mas teria que voltar aquele local quando regressasse, a caminho dos Camarões. A senhora propôs-me carne de crocodilo para o almoço, que os há por ali em quantidade. Aceitei e gostei embora a pele, gelatinosa e dura, não me tenha agradado.
Da parte da tarde segui até à capital. Os últimos sessenta quilómetros são um martírio, com a estrada que já foi alcatroada em muito mau estado.
Ao chegar fui até à marginal, para sentir o cheiro do mar, que me fazia falta.
Um tipo num jipe pediu que parasse e veio fazer conversa. Gostava de motos e tinha planeado, em tempos, vir da Europa até ali com o irmão e um amigo mas o projecto não se concretizara. Perguntei-lhe por um Hotel razoável e acessível e guiou-me até onde me instalei. Só nessa altura verifiquei que era Sábado e portanto no dia seguinte não poderia tratar do visto que ali me levara. 
A manhã nasceu chuvosa e aproveitei para descansar, ler e escrever, sem sair do Hotel.
Segunda de manhã fui à Embaixada dos Camarões tratar do visto. Quando saía, um dos guardas fardados que estava à porta, chamou-me à parte e pediu-me uma gorjeta. Não lhe dei.
Da parte da tarde tratei de mudar o filtro de ar à moto. Havia-o substituído na Africa do Sul, há cerca de dez mil quilómetros, mas as estradas do Congo e Gabão tinham-no deixado em mau estado.
Parti na terça enfrentar aquela horrível estrada, única via de entrada e saída da capital. Como estava mais descansado, pela manhã, não me custou tanto. 
Voltei a almoçar na mesma tasca de três dias antes, desta vez Javali, que não me soube tão bem como o Crocodilo.
A partir daquela rotunda, o caminho para os Camarões é por uma serra em que a estrada ziguezagueia através da densa floresta por mais de 400 Km. É uma paisagem exuberante onde por vezes os gigantescos bambus formam um leque sobre a estrada. Árvores de grande porte misturam-se com outras de diversas folhagens que nos deixam encantados a cada curva que passa. 
Devem ser estas paisagens que levam muitas das mulheres africanas a perguntarem-me, quando sabem que estou a atravessar o continente.
- Não tem medo dos animais selvagens?
Porque elas imaginam um Leopardo ou Cheetah prontos a atacarem a cada curva da floresta.
Pelas quatro e meia da tarde cheguei à vila de Ndjolé e, sem tempo para chegar à cidade seguinte com luz do dia, decidi por ali ficar. O único Hotel decente era caro e mais uma vez não tinha Francos CFA que chegassem para a diária. O dono não quis aceitar dólares e fui procurar quem os trocasse na vila. Acabei por encontrar um tal de Assan, um árabe dono de uma mercearia que resolveu o assunto.
Continuei o trajecto a caminho dos Camarões por serras verdejantes, agora junto à fronteira com a Guiné Equatorial, que contornei.

Depois da ultima vila no Gabão são uns 30 Km até à fronteira. Quando lá cheguei não me deixaram passar pois deveria ter carimbado o passaporte na delegação aduaneira daquela vila. Quem poderia adivinhar. Não tive outro remédio senão voltar atrás para mais uma sessão de cópias de passaporte e preenchimento de livros à mão com nomes de pai e mãe, etc.

21 de abril de 2019

Dolisie - Ndende 4

Pus o meu saco de roupa suja a fazer de almofada por baixo do lençol, tirei a lâmpada do casquilho por não existir outra forma de a desligar e adormeci ao som daquela pretensão de ar condicionado. Acordei oito horas depois, cheio de calor. O aparelho estava desligado.
- É que durante a noite desligamos o gerador.
O meu prato sujo do jantar estava onde o havia deixado, em cima da mesa plástica da entrada. Entornei água do gerrican da cozinha para o lavar e à frigideira e fiz os restantes ovos para o pequeno almoço.
No rio mulheres lavavam roupa e crianças.
Antes de arrancar perguntei ao homem da mão partida se achava que já poderia montar o guarda lama na moto.
- É melhor não. Só no Gabão. Ainda pode apanhar dessa lama pegajosa.
Não tinha percorrido cinquenta metros na estrada de terra de acesso ao Hotel quando, a dez à hora, ainda em primeira, os tubos do travão da frente que, à falta do guarda lama, havíamos fixado à suspensão com bocados de câmara de ar, prenderam no pneu, trancaram a roda e… catrapum, fui ao chão. Bom começo de dia.
Estavam dois homens ali a passar que foram chamar um terceiro para levantarmos a moto sem ter que desmontar as malas e segui até à vila muito devagar, onde voltei a montar o guarda lama, não fosse o diabo tecê-las.
Meia hora depois voltei a cair, à saída de um lamaçal. Pensei que ficaria mais uma hora à espera de alguém, como no dia anterior mas, passados cinco minutos, surgiu um jipe em sentido contrário. Trazia três homens dentro mas só um saiu para me vir ajudar.
- Venha você também, disse para o condutor que parecia não querer sujar os sapatos.
Lá saiu do carro e até era simpático. Ficaram espantados por verem um velho numa moto daquele tamanho por aquelas bandas.
Numa das vezes que parei antes de atravessar um lamaçal vinha um rapaz dos seus trinta e poucos anos, a pé, que parecia não fazer parte daquele cenário. Vestido de preto, tinha ar de intelectual de esquerda, com rabo de cavalo, um bigode fininho à mosqueteiro e óculos escuros modernos. Passou por mim sem dizer nada mas parou uns dez metros à frente, voltou-se para trás e perguntou:
- Você é turista?
- Sim, sou.
- Como se faz para ser turista? É que eu gostava de ser e não sei como.
A questão já me tinha sido colocada de outra forma. Muitas pessoas aqui pensam que turista é uma profissão e até nas fronteiras já me perguntaram se a minha profissão era turista.
A este disse-lhe que, para ser turista, tinha primeiro que trabalhar a vida toda de forma a amealhar dinheiro e, quando fosse velho como eu, então poderia ser turista. Ficou satisfeito com a explicação e lá partiu para a sua vida.
A fronteira tinha uma velha barreira com ar de ser muito pouco aberta, junto a umas enormes valas na estrada de terra. Antes de levantarem a barra de ferro ferrugenta tive que passar por três barracas de madeira distintas para verificarem o meu passaporte e escreverem os meus dados em folhas de enormes livros. Só um deles me carimbou o passaporte.
Vinha na esperança de ali encontrar uma bomba de gasolina e onde pudesse trocar dólares pois tinha deixado os últimos Francos CFA, a moeda utilizada no Congo, Gabão e Camarões, na compra dos ovos e cerveja do dia anterior. A moto havia ali chegado só com um resto de gasolina e não poderia partir sem abastecer. Um miúdo veio dizer-me que vendia gasolina, em garrafas de água, a 1.000 Francos o litro, quase o dobro do que custava nas bombas. O problema é que não aceitava dólares pois nunca ía à cidade mais próxima do lado do Congo, Dolisie, de onde eu havia saído no dia anterior, mais de 200 Km atrás. Perguntei ás poucas pessoas que estavam por perto, incluindo os guardas fronteiriços, se alguém trocava dólares mas todos negaram. Até que um homem me disse para lhe mostrar uma nota de dólar. Quando a tirei do bolso verifiquei, para meu espanto, que ainda tinha 3.000 Francos CFA. Estava safo. O rapaz foi buscar as garrafas e perguntei-lhe se, além dos três litros não me vendia mais um por um dólar. 
- Por dois vendo.  
De maneira que reabasteci quatro litros com 3.000 Francos e dois dólares, suficientes para chegar à primeira vila do Gabão. 
Do lado do Gabão não existe ali um posto fronteiriço mas apenas um polícia numa barraca que verificou se eu tinha visto, escreveu os meus dados numa folha de papel e disse-me que teria que ir à delegação fronteiriça na primeira vila, a cerca de 40 Km.
Lá segui viagem sem voltar a cair pois nesta parte as enormes poças não estavam tão enlameadas e escorregadias. Por isso comecei a passá-las sem parar para avaliar o nível da água e, numa delas, era tão alto que a água passou por cima do pára brisas da moto. Tive medo que tivesse entrado para o filtro de ar, que seria o suficiente para partir o motor mas, felizmente, não.
Quando atingi as primeiras réstias de alcatrão à entrada de Ndende senti um enorme alívio. Uns miúdos tomavam banho num rio à entrada da vila e parei para me refrescar. Tinha acabado a água, estava a morrer de sede, já desidratado e sem dinheiro para comprar água. Estive muito tentado em beber a água do rio mas resisti, com medo que pudesse estar contaminada.
Fui à cidade e perguntei numa mercearia se podia pagar uma garrafa de água em dólares mas recusaram. Com poucas forças fui até à bomba de gasolina mais próxima. Pedi para falar com o gerente e perguntei se aceitava dólares para pagar gasolina e água. 
- Não. Ainda se fossem Euros.
Procurei na carteira. Ainda tinha uns Euros. Trocou-me cinquenta aproveitando-se da minha necessidade para fazer um cambio ruinoso mas ficava com dinheiro para água e gasolina. Bebi um litro logo ali, praticamente de seguida, e abasteci.
Cansado, procurei um Hotel onde ficar. O primeiro era pretensioso e caríssimo, o segundo, onde cheguei seguindo o dono através de uma estrada cheia de grandes poças, a recordarem-me pesadelos recentes, também recusei.
Fiquei num duma simpática e extrovertida gorda que, quando entrei, estava deitada no sofá a ver um jogo de tênis com o Federer, de quem revelou ser fan. Simpatizei logo com ela. Discutia desporto com os clientes como um homem. Só lhe faltava a garrafa de cerveja na mão. Passava o dia a ver desporto na televisão e não perdia um Grande Prémio ou Motogp. Contou-me que o filho do Schumacher havia assinado pela Ferrari como piloto de testes. Trocou-me dólares ao preço de mercado.

Com algumas excepções, como esta mulher, no Gabão as pessoas não são tão simpáticas como no Congo. De feitio parecem-se mais com os velhos colonizadores franceses, mas com outra cor de pele. Bem, a maioria dos franceses também já terá esta cor de pele.

Dolisie - Ndende 3

Haveria um Hotel naquela pequena Vila?
Disseram-me que o único possível era fora da vila, junto ao rio. O encarregado estava por ali.
- Sim, os quartos têm casa de banho com duche e ar condicionado.
- Não, a cozinha não está a funcionar.
- Está lá alguém para me mostrar o quarto?
- Não. Sou só eu. Já vou para lá.
- Poderei levar alguma coisa para cozinhar lá? É que na vila não há um único restaurante.
- Sim, sem problema.
Dei 50 Dólares aos dois irmãos do taxi pela ajuda, na condição de me pagarem o equivalente a seis, em Francos, que custava o Hotel, comprei meia dúzia de ovos e uma cerveja na Mercearia local com os trocos que me restavam e fui para o Hotel.
Parecia o de um filme de terror.
A situação era fantástica, em cima de um rio, mas o aspecto era de ter sido abandonado há anos, antes mesmo de a obra estar concluída. 
A entrada, com meia dúzia de degraus e colunas forradas a estuque, afastada uns vinte metros do rio, dava para uma enorme sala de chão em mosaicos brancos. Os únicos móveis eram uma mesa de plástico junto à entrada e quatro cadeira empilhadas, onde jantei e tomei o pequeno almoço. À direita uma sala mais pequena com dois sofás velhos onde o responsável e empregado único do Hotel dormia. Dessa sala seguia um corredor vazio que dava para um hall com uma telefonia velha com ar de não funcionar há décadas em cima de outra mesa plástica carregada de pó e sujidade. Entrámos no quarto e o homem colocou uma lâmpada no fim de um fio pendurado para o iluminar. Noutra ponta do fio ligou a ficha do barulhento e totalmente ineficiente aparelho de ar condicionado. As paredes estavam sebentas e no parapeito cheio de pó de uma janela de grades mas sem vidros que dava para a casa de banho, estava pousada uma escova de dentes usada. Parecia-me um regresso à India mas em pior.
Por cima do lençol sujo bem esticado, como se estivesse lavado, estava um cobertor dobrado de uma maneira a fazer um efeito, ao estilo dos hotéis pretensiosos.
- Não tem almofadas?
- Não, isso não temos.
- E lençol de banho?
- Também não. Estão na arrecadação e não tenho a chave.
Dentro da casa de banho sebenta um grande balde e o que parecia um bidon de gasolina de vinte litros em plástico amarelo.
O homem tinha uma mão partida, inchadíssima, resultado de ter levado com um ferro numa cena de pancada na semana anterior, com isso justificando a sujidade geral que parecia acumular anos de desprezo.
- E não vai ao Hospital?
- Aqui não há Hospital.
- Mas vá a Dolisie ou a Ponta Negra.
- Não tenho dinheiro para o transporte. Tenho dores 24 horas por dia. Não consigo dormir nem trabalhar. Quer que faça os seus ovos? 
- Não, Vou tomar um duche e já os faço.
Despi-me, entrei na casa de banho e abir a água do duche. Não corria.
Enrolei-me no toalha que trago na mala e fui procurar o homem que jazia no seu sofá.
- A água não corre nas torneiras.
- Pois não. Por isso está lá o gerrican com água e o balde onde a colocar. Quer uma caneca para entornar água por cima?
- Assim seja.
E lá tomei banho a entornar canecas de água tiradas de um balde por cima do corpo. No estado em que estava soube-me a duche em Hotel de cinco estrelas.
Fresco e lavado fui então fazer três ovos mexidos para o jantar. Os outros três ficariam para o pequeno almoço.
Com uma lanterna, o homem guiou-me até à cozinha através de duas salas onde chão e paredes ainda estavam em cimento rebocado, sem portas nem móveis.
A cozinha conseguia ser a divisão mais suja da casa e o fogão, onde só funcionava um dos quatro bicos, tinha perto de um centímetro de felugem e restos de comida a cobri-lo.
Abri o primeiro ovo para dentro de um prato supostamente lavado. Estava podre. Felizmente tinha sido o primeiro. O homem espantou-se por os dois seguintes estarem bons.
- Tem manteiga?
- Não, mas tenho óleo

Coloquei um fio de óleo no fundo da velha frigideira de alumínio sem pega e fiz dois ovos mexidos, guardando os outros três para o pequeno almoço.


18 de abril de 2019

Dolisie - Ndende 2

Lá me fui safando, de lamaçal em lamaçal, na esperança de não voltar a cair. O problema maior seria se caísse dentro de um em que a moto ficasse submersa porque aí acabava-se a viagem. Para evitar essa situação, antes de avançar para cada um dos lamaçais maiores, saía da moto e ía a pé verificar a altura da água. Se passasse muito os joelhos tentava procurar uma parte que fosse mais baixa, mesmo que por vezes tivesse que mudar de trajecto a meio dos enormes aguaceiros.
Fui ficando cada vez mais cansado à medida que a água das poças se confundia com o suor que me escorria pelo corpo sem parar. Comecei a parar para descansar debaixo dos telheiros das pequenas povoações. Pedia para me sentar num banco ou no chão, se os não havia, e ali ficava à conversa com estas populações locais.
Por vezes eram apenas conversas de ocasião, sobre o estado da estrada de ali para a frente, a previsão de chuva ou a tal bebida estranha que alguns bebiam, a que eles chamam vinho mas é feito com a fermentação da folha de Palma. Outras vezes era mais séria.
O chefe de uma das aldeias dizia-me em certa ocasião:
Nós vivemos aqui tranquilos e em paz. Vocês Ocidentais é que criaram os problemas em Africa, com a ganancia do dinheiro, ao virem para cá explorar os nossos recursos naturais. Olhe para estes camiões que aqui passam, carregados de madeira, que andam a devastar a nossa floresta. Vai toda para os vossos países e nem o dinheiro que vale cá fica.
Não pude deixar de lhe dar razão.
Às tantas cheguei a um lamaçal maior, que nem carros nem camiões conseguiam transpor. Atravessei-o a custo e do outro lado estavam dois ou três carros e outros tantos camiões. Haviam recrutado vários voluntários entre condutores e passageiros para abrirem uma via alternativa através do mato e uma dezena e meia de pessoas preparavam-se para passarem ali a noite. Um homem pediu-me que lhes deixasse água mas não o pude socorrer pois andava a poupar, estava desidratado e já só tinha menos de meio litro.
Pelas cinco da tarde estava tão cansado que pensei em ficar a dormir numa das aldeias mas os aldeões avisaram-me que viria aí chuva forte e que se eu não atravessasse os dois enormes lamaçais à saída da aldeia naquele dia provavelmente teria que ficar ali uns quinze dias ou mais à espera que a água voltasse a baixar. Recomendaram-me, por isso, seguir e sugeriram que os miúdos da aldeia viessem a pé ajudar-me, para o caso de eu ficar preso na lama. De passagem também estava um dos três ou quatro taxis que fazem regularmente aquele trajecto, quando a chuva o permite. Com o condutor estava o irmão, um rapaz dos seus trinta anos, mecânico, e dois clientes. 
Segui direito ao primeiro lamaçal com meia dúzia de miúdos a correrem atrás e, por fim, o taxi.
O mar de lama era intransponível em andamento e fiquei rapidamente enterrado até meio das rodas. Os miúdos, descalços e banhados em lama, pareciam saber o que fazer e foram tirando a lama de frente das duas rodas da moto enquanto outros a empurravam ao mesmo tempo que eu, em primeira, ía avançando pouco a pouco, com a roda de trás a levantar um leque de lama que encharcava os miúdos da cabeça aos pés. Passado o primeiro lamaçal o irmão do taxista, vendo o meu ar derreado, perguntou se não queria que ele passasse o lamaçal seguinte com a moto, que sabia o que estava a fazer. Disse-lhe que sim e ele tirou as havaianas que tinha nos pés e, descalço, pôs-se em cima da moto. Com a ajuda dos miúdos lá foi passando o lamaçal. Vi que estava habituado à situação e, quando me pediu para levar a moto até à vila, poucos quilómetros à frente, aceitei.
Distribui notas de dólar pelos miúdos que ficaram radiantes e arrancámos atrás da moto com aquele condutor descalço, no velho taxi Toyota que, inacreditavelmente, ía como que flutuando por cima dos lamaçais.
Dois ou três quilómetros depois a lama tornava-se mais argilosa e começou a agarrar-se aos pneus de tal forma que o espaço entre a roda da frente e o guarda da lama da moto ficou cheio de lama, a roda bloqueou e o homem foi ao chão. Embora descalço não se magoou mas tivemos que desmontar o guarda lama para que conseguisse seguir viagem.
Chegámos à vila onde o taxi iria ficar já de noite. Ainda faltavam 40 Km com vários lamaçais até à fronteira e outros tantos já no Gabão até à vila de Ndende, onde regressaria a estrada alcatroada.

Decidi que teria que ficar por ali aquela noite. Tinha passado quase onze horas em cima da moto em condução muito cansativa e com temperaturas próximas dos 40º e humidade de quase 100%.

17 de abril de 2019

Dolisie - Ndende 1


Por contactos na Internet soubera que os 250 Km que teria que percorrer entre Dolisie no Congo e Ndende no Gabão seriam os mais difíceis que teria que enfrentar ao longo desta viagem, mas não pude imaginar que fossem tão complicados como se revelaram. O trajecto agrava-se muito nesta época de chuvas e, por isso, os poucos motociclistas que o percorrem, escolhem normalmente vir na época seca. Eu tinha previsto vir mais cedo, antes do fim do ano, mas o atraso no envio da moto a partir do Brasil para a Africa do Sul fez com que só pudesse ter vindo agora. 
Os primeiros quarenta quilómetros correram bem, com algumas poças de água grandes mas um piso de terra relativamente bom. Comecei a pensar que afinal seria fácil e as dez horas que me diziam necessárias para percorrer os primeiros 160 Km um exagero. 
Depois começou o drama, na forma de enormes lamaçais que me pareciam impossíveis de transpor e a estrada enlameada a escorregar muito em alguns locais.
Tinha percorrido uns 60 Km quando, depois de atravessar um lamaçal, uma subida com uma lomba no meio fez a roda da frente escorregar, acelerei para a tentar segurar mas a moto atravessou-se e fui ao chão. 
Felizmente só me magoara um pouco numa perna mas estava completamente isolado, sem possibilidades de levantar a moto. A temperatura aproximava-se dos 40º e a muita humidade faziam-me suar sem parar. Trouxera o habitual litro e meio de água mas esgotava-se rapidamente e não parecia chegar carro ou motorizada com quem me pudesse ajudar. Esperei mais de uma hora sem querer tirar o blusão que me protegia dos muitos insectos que zumbiam à minha volta e que, quase a delirar, me faziam confundir o seu barulho com o de algum carro ou moto.
Finalmente surgia um dos três ou quatro taxis que percorrem aquelas duas centenas de quilómetros quase diariamente, sempre que as condições o permitem, para distribuirem os habitantes das pequenas povoações de palhotas que se encontram no trajecto quando têm que ir à cidade. São carros Toyota, sobrelevados e com suspensão reforçada, a caírem de podres mas só com tracção dianteira, com pneus de todo o terreno, que com muita perícia e conhecimento dos seus condutores, conseguem atravessar a maioria dos lamaçais.
Saíram uns cinco ou seis homens do carro que rapidamente levantaram a moto. Sugeri então ao condutor que me levasse o saco onde transporto tenda e saco cama no carro, para aliviar o peso da moto, e que me seguisse todo o restante trajecto, para me poderem voltar a levantar a moto quando caísse, a troco de um pagamento, obviamente. O homem concordou e lá seguimos viagem. Uns dez quilómetros depois fizeram-me sinal para parar numa das aldeias, onde deixavam dois passageiros e descansavam um pouco. Achei óptima a sugestão.
Nestas aldeias no mato as populações, homens mulheres e crianças, reunem-se debaixo de um toldo em colmo comum, com bancos em madeira, onde ficam à conversa entre dois copos de um vinho feito à base de Palma. O fornecedor local até tinha cerveja fresca que me soube lindamente. Tinha percorrido penso que um terço do caminho mas já estava de rastos.
Dois ou três quilómetros depois de deixarmos a aldeia deixei de ver o carro nos retrovisores. Esperei um pouco e, como não havia sinal dele, voltei atrás. Tinha partido uma transmissão e o homem não tinha outra de substituição.
- E agora?
-Vou ter que pedir que me tragam uma de Dolisie. Ficamos a dormir por aqui.
Despedi-me dos homens. Voltava à estrada com o saco na parte de trás da moto e sem apoio. 

15 de abril de 2019

Dolisie



Antes de deixar Ponta Negra fui a uma oficina de uns portugueses pois tinha chegado à conclusão que o pneu da frente tinha ficado mal montado além de estar a ficar com folga nos rolamentos da roda, fruto de muitos maus caminhos por esse mundo fora com a moto carregada.
O dono da oficina, dos seus cinquenta e poucos anos, perguntou-me se não era o Francisco Sande e Castro. Reconhecera-me dos programas de televisão com que em tempos colaborei e que via no Congo, ao passarem na SIC Internacional.
Levamos a roda a uma oficina de pneus para o desmontarem e voltarem a montar correctamente, demos um aperto mais forte no eixo da frente para remediar a folga nos rolamentos e segui viagem, com uma maçã e uma sandwich de queijo que me mandaram fazer.
Parti em direcção a Dolisie, uma cidade a uns 150 Km de distancia, do outro lado de uma montanha, onde se chega através de uma fantástica estrada construída recentemente, de curvas rápidas e bom alcatrão. Deu-me imenso gozo percorrer aquela estrada, para mais com vista fabulosa através da floresta, mesmo se a suspensão da moto não estava nas melhores condições e os pneus de Cross não aconselhavam inclinações exageradas.
Chegado à cidade procurava um Hotel quando parei junto a uma velha esquadra da polícia aparentando uma ruína para a fotografar. Não reparei que ainda era utilizada e logo veio um polícia dizer para parar a moto junto a outra porta e ir lá dentro para me identificar.
Depois das habituais perguntas sobre o que faço ali, custando-lhes a acreditar que atravesso Africa com a moto, escreveram todos os meus dados num papel, incluindo nome de pai e mãe e deixaram-me partir. Perguntei-lhes se haveria um Hotel decente na cidade e o chefe mandou um dos polícias numa 125 à minha frente para me guiar até ao Foula Palace, que de palácio não tinha nada.
Tomei um duche e, antes de anoitecer, saí para atestar o depósito, pois sabia que o dia seguinte seria longo e difícil.
Na esplanada do Hotel, um francês dos seus quarenta anos que estava numa reunião de trabalho com um grupo de locais ficou às tantas só e, vendo que eu não tinha mesa disponível, perguntou se não me queria sentar na dele. Tinha estado encarregue da construção dos dois pórticos de portagem que a estrada que eu percorrera naquele dia tinha à entrada em Ponta Negra e ali à saída, em Dolisie. A estrada recente e, pelo menos por enquanto em bom estado, havia sido construída por Chineses mas esta firma francesa estava encarregue não só de construir os pórticos de portagem como de recolher o dinheiro das portagens, que entrariam em funcionamento dentro de dias.
- Então esse dinheiro que recolhem das portagens é para pagar a estrada construída pelos Chineses?, perguntei inocentemente.
- Não. A estrada é paga pelo Fundo Monetário Internacional.
- Então para quem vai o dinheiro das portagens?
- É uma pergunta para a qual é melhor nem eu nem você sabermos a resposta. Nós entregamos o dinheiro a quem nos dizem para entregar. Não se esqueça que estamos em África.

Jantei a sandwich de queijo que me tinham oferecido em Ponta Negra acompanhada de uma cerveja e deitei-me cedo.