29 de dezembro de 2015

Bonny Hills



Saí de Evans Head pelas dez da manhã e fui descendo a costa, deixando a estrada principal aqui e ali para visitar uma ou outra praia que me parecia mais atrativa. São às centenas, fantásticas, ao longo desta costa Oriental da Australia, com ondas excelentes para os surfistas e milhares de casas com vistas fabulosas. Aqui, tal como em Africa, há espaço para não haver prédios.
Acabei o dia no melhor parque de campismo onde fiquei até agora. Muito arranjado e impecavelmente limpo tinha uma ótima relva, onde me instalei sobre uma ravina que dava para o mar. Fabuloso. A cozinha e sala de jantar eram ao lado com uma frente toda em vidro e um terraço a dar para o mar.
Podia ter ficado por ali mais um dia ou dois mas tinha que partir.
Arranquei direito a Sydney onde iria apenas jantar com amigos e passar a noite, pois já tinha visitado a cidade durante os dez dias que lá fiquei o mês passado.
Na estrada vi um sinal que indicava “National Motorcycle Museum”. Não podia deixar de o visitar. Ao meu lado no parque de estacionamento estava uma Triumph e o dono tinha deixado os dois excelentes blusões de cabedal pousados sobre a moto enquanto visitava o museu. Uma situação impensável na maioria dos países do mundo. De facto, na Australia não parece haver roubos e não só toda a gente deixa as coisas à vista sem problemas como a maioria das casas não tem sequer vedações ou muros à volta. O Hotel onde estava em Darwin ficava com as portas abertas à noite e passados dois dias de andar com a moto deixei de a trancar enquanto nos parques de campismo deixo muitas vezes capacete e blusão pousados em cima da moto.
O museu era fantástico e, embora a maioria das motos não estivesse restaurada, tinham centenas de motos do século passado, muito acentuadas nos anos 50, 60 e 70’s.
Depois de visitar o museu parei num pub para almoçar. Por sorte, era dia de jazz e atuava uma excelente cantora, acompanhada de um baixo, piano e bateria, que levaram os velhos a dançarem animadamente, tarde fora. Muito giro.


28 de dezembro de 2015

Evans Head



Os Australianos que vivem fora das cidades, aliás como na maioria dos países, são muito simpáticos.
Estava ainda a instalar a tenda neste parque de campismo com uma situação fantástica sobre um rio quando veio uma vizinha fazer conversa. Lá partiu e passado pouco tempo apareceu outra:
-       “You must be very tired. Will you join us for tea?”
-       “Yes, sure”
Já eram seis e meia da tarde e achei estranho estar a convidar-me para tomar chá mas, conforme combinado, fui ter à roulotte da senhora quando acabei de montar a tenda. Só quando lá cheguei me lembrei que estes velhos chamam “tea” ao jantar. Lá estava ela a cozinhar uns legumes e bacon fantásticos e fiquei com aquele casal muito simpático a jantar debaixo do toldo que tinham montado junto ao rio. Muito bom.
Pelas nove da noite despedi-me e fui até à cozinha do acampamento, que nestes sítios funciona também como sala de reunião, com o computador debaixo de braço. Apareceu um gordo, divertido, com ar mais latino que australiano a perguntar de onde eu tinha surgido. Ficámos à conversa e pouco depois juntou-se a nós a mulher e outro casal amigo. Faziam parte de um grupo maior de amigos, mais de 40 casais, que todos os meses se juntavam, entre 20 a 30, para acamparem com as suas roulottes em diferentes parques do país.
Quando eles partiram para as suas casas ambulantes,  pelas dez da noite, pude finalmente abrir o computador. Estava a ajudar a minha filha num trabalho para a Universidade quando se abateu sobre o acampamento uma tempestade, como ainda não tinha apanhado na Australia, com chuva e ventos fortes.
Corri para a tenda debaixo de chuva porque tinha deixado a porta aberta. Entrei apressadamente, atirei o blusão encharcado que trazia sobre a cabeça para um canto e caiu em cima da almofada. Fechei a tenda com a chuva e vento a aumentarem de intensidade e voltei a ligar o computador para continuar com o trabalho. Pouco tempo depois acabou-se-me o crédito de internet. Li um pouco e adormeci pelas onze da noite, embalado pelo som do vento e chuva a baterem na tenda. Acordei às duas da manhã com a lateral da tenda a bater-me contra a cara. O vento tinha aumentado de intensidade e comecei a imaginar-me a levantar voo com a tenda. De vez em quando espreitava cá fora para ver se o rio, a não mais de meio metro abaixo do relvado, não teria aumentado de caudal a um ponto de entrar pelo parque dentro. Comecei a ter que segurar com as mãos a lateral da tenda com medo do seu colapso eminente. Assim fiquei até à seis da manhã, quando parou de chover mesmo com o vento a continuar a bater forte. Saí cá fora, coloquei a moto numa posição para proteger um pouco a tenda do vento e, estafado, fui tomar um duche quente. Voltei para a tenda e consegui dormir mais duas horas. Quando acordei a tempestade tinha passado.
As minhas vizinhas vieram perguntar-me como tinha passado a noite.
- “How terrible. I thought about you during the night”

27 de dezembro de 2015

Surfers Paradise



A Australia, sendo um dos países mais ricos do mundo, não tem praticamente autoestradas. São quase tudo estradas nacionais, bem alcatroadas, mas só com uma faixa em cada sentido. A exceção é a entrada e saída das grandes cidades onde há autoestradas com umas dezenas de quilómetros ou, mais provavelmente, uma via rápida com duas faixas em cada sentido e separador central mas que, por vezes, atravessa vilas e tem vários locais para se fazer inversão de marcha. No fundo percebe-se a solução adoptada porque não lhes faz muita falta autoestradas por haver relativamente pouco transito, quando comparado com a Europa ou Ásia. A única vez que apanhei um engarrafamento foi numa destas autoestradas, à entrada de Brisbane. Tinha havido um desastre e formou-se uma fila de uns bons 15 Km, parada. Comecei a passar pela berma alcatroada e via várias motos na fila atrás de carros até que um deles veio atrás de mim e, às tantas, já éramos quatro. No fim fizeram-me sinal a aprovar a solução “portuguesa”.
Como eles normalmente não têm filas ficam sossegados atrás dos carros.
Decidi não parar em Brisbane porque já lá tinha estado dois dias quando fui às Ilhas Fiji e desci mais um pouco até Surfers Paradise.
O casal meu amigo das “Chopper” tinha-me dito que o melhor era nem parar naquela zona que era “horrível, só prédios”.
Quando lá cheguei percebi a ideia deles mas ainda bem que lá fiquei. O local é mágico. Realmente tem prédios porque tem mais gente e movimento que as outras regiões de praia mas a natureza é fantástica, com praias fabulosas, ondas ideais para surf e muitas árvores nas ruas, muitas delas do tipo dos pinheiros escandinavos, canteiros bem arranjados e tudo com bom aspecto e limpo.
Instalei-me num Parque de Campismo a condizer, onde me cobraram o equivalente a 35 euros para poder montar a “barraca”.
Acordei, às seis e meia da manhã, debaixo de chuva de maneira que fiquei a ler na tenda por mais uma hora. Ás sete  e meia fui ao escritório cravar mais um pin de internet e instalei-me na “camp kitchen”. Tomei o pequeno almoço, um duche e saí por volta das dez, a minha hora habitual.
Fui percorrendo a costa, calmamente, a tirar fotografias aqui e ali. O tempo estava cinzento mas surfistas não faltavam pelas praias, com os mais batidos a instalarem-se junto a zonas com rochas, onde as ondas eram melhores.
Encontrei uma miúda gira na rua, acabada de sair de dentro de água com ar triste porque tinha acabado de partir a parte de trás da prancha contra uma rocha. Pedi-lhe para tirar uma fotografia junto à moto. Era francesa mas falava português porque tinha estado a viver em Portugal com os pais durante três anos, pois o pai é oficial da Nato. Tinha comprado uma carrinha velha e estava há três meses a passear pela Australia.
-       “Agora vou ter que trabalhar porque estou a ficar sem dinheiro”.
Fui andando costa abaixo até parar numa pequena vila, Evans Head, com um parque de Campismo fantástico, junto a um rio. Instalei-me por lá, com vista sobre o rio.

26 de dezembro de 2015

Hervey Bay



Quando cheguei a Hervey Bay fui direito ao porto onde tinha acabado há pouco uma corrida de barcos “offshore”
Estavam a carregar os barcos nos sofisticados atrelados e fiquei a admirar aquelas peças de arte.
Depois rodei junto à costa para escolher o parque de campismo, de entre a meia dúzia que havia num espaço de uns 10 Km.
Fui parar ao lado de um casal de velhos que ali tinha ido passar o fim de semana, cada um na sua moto. A dela uma Honda 750 e a dele uma Yamaha, destas a imitarem as Harley. Ele, barrigudo, em tronco nu e com um enorme bigode, tal como a moto, também parecia uma réplica de um condutor de Harley. Os dois muito simpáticos.
No acampamento reservei um passeio a Fraser Island que se vê do continente e é a maior ilha em areia do mundo, com 120 Km de comprimento.
Passaram buscar-me às sete e um quarto da manhã já num autocarro 4x4, de suspensão levantada. Fomos direitos a um Ferry que nos levou para a ilha onde não há estradas alcatroadas. Todas elas são em areia solta de maneira que, infelizmente, não poderia ter levado a moto.
Já na ilha visitámos primeiro o lago McKenzie, rodeado de uma faixa de areia de praia muito fininha e com uma água tão transparente que parece estarmos numa piscina. Tomámos uns banhos e depois seguimos para a praia propriamente dita parando antes no que penso ser o único Hotel da ilha, para almoçar.
A parte oriental da praia é larga e tem muitas dezenas de quilómetros. Jipes e autocarros podem rolar na areia de maneira que entrámos com o autocarro 4x4 pela areia, com uns trinta passageiros a bordo e rodámos durante uns bons 40 Km pelo areal. Parámos junto aos destroços de um barco do início do século XX e depois numa zona onde desagua um rio, de águas transparentes e límpidas. No mar da ilha não é possível tomar banho pois como há muito peixe na zona também há tubarões.
Parámos então junto a este rio onde estavam não só uma boa dezena de jipes mas também três avionetas que iam levantando e aterrando na praia com turistas a bordo.
Foi um dia realmente fora do comum.
A ilha tem a particularidade de ter muitas nascentes de água que formam diversos rios e grandes lagos. É também a única ilha no mundo de areia com uma floresta tropical no interior que se formou por existir naquela areia uma bactéria que alimenta as árvores, algumas, enormes, com mais de 1500 anos. No trajeto o guia contou-nos ainda que os portugueses foram os primeiros a chegar àquela ilha, muito antes do Captain Cook, e que os habitantes locais adoptaram mesmo algumas palavras portuguesas.

23 de dezembro de 2015

Agnes Water


O parque de campismo em Seventeen Seventy estava superlotado e fugi rapidamente. Andei dois ou três quilómetros para o interior e acabei por me instalar em Agnes Water num parque com um ar mais civilizado. Á minha frente estava um casal de Australianos muito simpático, como a maioria por aqui:
-       “Hi, mate. How are you today”?
Estavam à espera de duas amigas, que tinham conhecido noutro parque dois dias antes, uma delas muito animada. Convidaram-me para me juntar ao grupo a beber umas cervejas e por ali ficamos a tarde na cavaqueira com o homem a abrir cervejas umas atrás das outras, embora eu me tenha ficado por duas.
A seguir fui até à cozinha do parque de campismo, que são geralmente ao ar livre sobre um telheiro, por nesta zona da Australia nunca estar frio para precisarem de paredes. Por lá estava outro animado grupo, estes dos seus trinta anos. Um australiano que tinha estado a viver em Espanha e de lá trouxe uma espanhola que falava inglês com sotaque espanhol, com muitos rrr, como quando elas dizem “rebajas”.
Fazia ainda parte do grupo um Australiano mais velho, daqueles com uma pronuncia complicada e um francês, que tinha vendido o seu restaurante em Lyon e estava há um ano a estoirar a massa, viajando. Não dizia uma palavra de inglês e eu fazia de tradutor. Foi divertido. O australiano trouxe uma carrada de cervejas da carrinha e por ali ficámos. O francês foi dormir às onze e eu aguentei até à meia noite o que, para parque de campismo é uma noitada. Os outros ainda por lá ficaram. Fiquei com o contacto deles mas no dia seguinte, quando deixei o parque, o casal ainda dormia.
Fui almoçar a Byron Bay, que tem um ambiente giríssimo, do tipo anos setenta mas com a nova geração. Muitos descalços na rua, a beber copos nos cafés que o tempo não estava para praia, embora um animado grupo de quarentões se divertisse a aprender surf em “long boards”.
Almocei no restaurante junto à praia uma espécie de caldeirada que no menu vinha como “portuguese seafood stew” e foi a melhor refeição que tive desde que cheguei à Australia.

18 de dezembro de 2015

Yeppoon


Para o segundo dia que fiquei em Airlie Beach tinha reservado um passeio num velho barco à vela que incluía irmos até Whitsunday Island, onde existe uma das praias mais famosas e fabulosas do mundo, Whithaven Beach. A praia, de uma areia muito fina e branca, faz uns recortes que formam uma espécie de lagoas com diferentes tons de azul turquesa, conforme a profundidade. A vista do alto da ilha é, simplesmente, deslumbrante.
Estivemos na praia umas duas horas e voltamos a bordo para almoçar. De tarde fomos fazer “snorkling” para uma ilha perto. Fazendo aquelas ilhas parte do Great Barrier Reef a fauna marítima e, principalmente, os corais, são fabulosos com variações de cores e texturas constantes.
Neste passeio conheci uma escocesa giríssima, tatuada nos braços e pernas e com nariz, orelhas e boca atravessados por  piercings. Uma viagem fantástica no velho veleiro que começou às sete e meia da manhã e só acabou com o pôr do sol, à seis e meia da tarde. Inesquecível.
Deixei Airlie Beach pelas dez horas da manhã seguinte. Um Australiano que conheci no acampamento recomendou-me Yeppoon, a pouco mais de quinhentos quilómetros de distancia e foi para aí que vim.
O parque de campismo é fantástico porque se estende ao longo de uma estreita faixa costeira mesmo em cima da praia. Aqui já não há as alforrecas que têm aterrorizado o norte do país e mal acordei tomei um banho de mar fantástico. Depois do pequeno almoço ainda fiz uma máquina de roupa (não é assim que elas dizem?) antes de partir conhecer a zona. Fui visitar umas grutas que não eram nada de especial e parti para almoçar numa vila mais a Sul que é um parque natural, Emu Park, com enormes praias rasas onde a maré avança uma boa centena de metros.
No dia seguinte acordei cedo e, ainda não eram sete da manhã já estava a dar um mergulho na praia. Parti depois a caminho de Seventeen Seventy, a pouco mais de 200 Km. Já lá perto parei para almoçar num típico pub Australiano onde os clientes estão ao bar de chapéu de abas largas. Era numa pequena vila e alguns dos homens vieram perguntar-me de onde era a matricula da moto e desejar-me boa viagem. Aqui na Australia ligam pouco à moto e muitos, quando lhes digo que vim de Portugal, não acreditam.
Respondem: “pois, está bem. Aqui na Australia começou onde?”

14 de dezembro de 2015

Airlie Beach


Em Cowley Beach fui parar a um “camping” de fraca qualidade, numa praia quase ao abandono mas em que a senhora era simpática.
Quando perguntei se tinha wi-fi riu-se. “Nãao. Aqui não se apanha nada disso” Ela fez o preço na hora e perguntou-me:
- “o que acha de 10 dólares ?”
- “acho bem”.
Até as maquinas de lavar a roupa levavam só 3 dólares em vez dos habituais 4.
Aqueci qualquer coisa que levava comigo mas quando estava a meio do jantar começou a chover e lembrei-me que tinha a roupa a secar. Parecia uma dona de casa atarantada a correr recolher a roupa com o jantar a arrefecer.
 No dia seguinte fiz a mala com a roupa húmida e arranquei pelas nove e meia.
Percorri perto de 500 Km e cheguei a Airlie Beach, que tem um ambiente fantástico. Uma vila pequena mas com muito comércio, casas e apartamentos com bom aspecto, junto ao mar e nada menos que três marinas repletas de barcos de todos os tamanhos e feitios. Não espanta. Ali à volta há um grupo fabuloso de ilhas e o famoso Great Coral Reef.
Montei a “barraca” no bem organizado “camping” local. O espaço reservado aos “unpowered”, aqueles que não têm roulottes ou autocaravanas para ligar à eletricidade, era em terra com muitas árvores repletas de pássaros. Durante a noite ouvia uma ou outra discussão entre eles mas, a partir das cinco da manhã, quando nascia o sol, era um regabofe pegado. Um barulheira de conversas cruzadas com muitos piares distintos. Alguns pareciam estar a rir-se às gargalhadas, qual grupo de jovens a contarem as aventuras da noite anterior. Apetecia sair da tenda e gritar para a copa das árvores: “shut the fuck up. There are people trying to sleep, here”.
No primeiro dia que por ali fiquei comecei por dar um mergulho na boa e pouco concorrida piscina do parque,  onde fiquei a ler um pouco. Fui depois até à praia, onde tinham uma zona protegida por redes contra tubarões e, principalmente, para reterem as tais alforrecas assassinas.
Pela hora de almoço peguei na moto e fui visitar uma praia cerca de cinquenta quilómetros a Norte. É estranho como há zonas que estão bem exploradas turisticamente e outras, muito perto, quase abandonadas. Dingo Beach está como a terão deixado há décadas atrás, com casas de fraca qualidade e quase deserta. Um pequeno barco à venda na rua com ar de ninguém lhe pegar e um café restaurante onde o dono fez uma cara de perturbado quando lhe disse que queria comer qualquer coisa e me mandou falar com a mulher que me acabou por vender um pequeno filete em cima de um monte de batatas fritas oleosas por 15 dólares. O homem tinha entretanto abandonado o bar para se sentar ele a almoçar num canto de restaurante mas a senhora lá acabou por vir também ao bar tirar-me a cerveja.
A seguir ao almoço fiquei por ali a ler e dei um passeio a pé pela praia onde não se podia tomar banho pois a rede protetora estava  desfeita e podre.

13 de dezembro de 2015

Cowley Beach




Choveu muito durante a noite mas dormi bem. Quando estava a sair, pelas dez e meia da manhã, já voltava a americana da sua exploração matinal aos lagartos.
- “Vais já hoje embora? Nããão”.
Arranquei com um dia cinzento a caminho de Millaa Millaa onde me disseram haver umas cascatas fantásticas. De facto, num espaço de quinze quilómetros visitei três cascatas, duas delas fabulosas.
Parti depois em direção à costa, já a sul de Cairns. Fui primeiro até Mission Beach, onde almocei um hamburger excelente num café muito giro junto à praia e depois passei em Etty Bay, onde me tinham dito que havia um "camping" junto à praia muito simpático. Afinal tinha muita pouca graça e a dona não era muito simpática de maneira que decidi não ficar.
Ali havia pessoas a tomar banho no mar mas numa zona protegida por uma rede, provavelmente não só para tubarões mas também para estas alforrecas venenosas que são o terror do momento e matam mais que tubarões.
As pessoas, de um modo geral, são muito simpáticas aqui na Australia. Fazem um pouco lembrar-me a primeira vez que entrei num bar em Nova Iorque. A mulher virou-se para mim e disse efusivamente: “Olá, como é que você está hoje?”  e eu pensei: está a confundir-me com alguém. Só depois vi que tratava da mesma forma toda a gente que passasse aquela porta. Aqui é a mesma coisa. Todas falam como se nos conhecessem lindamente. Ontem num supermercado até fiquei atrapalhado com a maneira como a menina da caixa me disse aquilo com uma voz sexy e olhos nos olhos. Pensei, bolas, se tratas assim todos os clientes deve ser um desassossego. Quando estava a pagar já estava a convidá-la para vir dar um mergulho ao lago e ela a dizer-me que tinha lá estado essa manhã e a água estava optima.
Os homens que encontramos na rua aqui pela província também falam quase sempre: “Hi, mate. How are you today?”
Ficamos com a sensação de um “easy going” da maioria da população. Eles no fundo vivem bem, de um modo geral, e não devem ter muitas preocupações.
Nas vilas e cidades costeiras, até em Sydney, é curioso ver bastante gente descalça, homens, mulheres e principalmente crianças. Quando têm entre cinco e oito anos andam quase sempre descalços pela rua, mesmo quando a mãe que as acompanha usa sapatos ou havaianas.
No entanto já vi vários restaurantes, que nunca são muito sofisticados, com letreiros à porta a dizerem: “No shoes, no shirt, no food”.

12 de dezembro de 2015

Cairns - 2


Saí do “camping” só por volta das onze horas e decidi dar um passeio pela região, através das fantásticas estradas de montanha por entre a floresta. Fui visitar uma velha cidade mineira, onde a simpática mulher do centro de informações, quando lhe disse que era português, me contou que fazia parte do grupo que, em Melbourne, contestou a ocupação indonésia de Timor. Organizavam manifestações e eram muito ativas. Disse-me que todas as mulheres do grupo, que na altura teriam vinte e poucos anos, estavam fascinadas com o Xanana Gusmão. “Ele a lutar no mato”, dizia-me ela com um ar encantado. “E casou com uma australiana”, acrescentou.
Da parte da tarde fiz um corta mato por uma estrada de terra através de campos verdes, numa paisagem que podia ser austríaca, para ir ver o lago Eacham, que se formou numa cratera de vulcão e onde bastante gente aproveita para dar uns mergulhos, mesmo com este tempo chuvoso, pois a água é morna.
Instalei-me num pequeno “camping” muito giro por ter muitas árvores e ser inclinado até um lago em baixo.
Junto a esse lago estava montada uma tenda grande em lona verde tropa com duas cadeiras de pano à porta, deixadas à chuva, que parecia de um explorador africano. Encontrei-me com a miúda que a ocupava quando preparávamos os nossos jantares na cozinha do “camping”. Uma americana, divertida, que ficou fascinada quando lhe disse que tinha vindo de moto de Portugal. “that’s cool”.
Estava ali a viver sozinha há um mês, a fazer um estudo para a Universidade sobre uns lagartos que há junto ao lago.
A noite prometia chuva e frio e a velhota dona do “camping”, muito simpática, veio oferecer-nos cobertores e almofadas.

11 de dezembro de 2015

Cairns



Quando arranquei de manhã comecei logo por rodar numa zona muito diferente da Australia daquela onde tinha passado os últimos oito dias. Aqui, já a cerca de 200 Km de Cairns, na costa oriental Norte, começam a aparecer pequenas vilas a cada 30 ou 40 Km, há movimento nas estradas e pessoas de um lado para o outro, mesmo tendo em conta que a Australia não é um país muito populoso.
Passei por pequenas vilas muito bem arranjadas, com flores nos espaços públicos, a relva cortada e comercio e pequenos hotéis com bom aspecto.
À volta de Cairns existe uma floresta tropical ou “rain forest” como eles lhe chamam, e toda a zona é muito verde, nalguns locais até junto da costa.
Apanhei uma estrada de montanha através da floresta fabulosa. 70 Km de curvas e contra curvas em bom piso que me deram imenso gozo.
Entrei depois na cidade de Cairns e fui até à zona das praias. Visitei as várias que há a Norte da cidade e quando parei num parque de campismo junto a uma das praias, a simpática mulher que me atendeu deu-me um mapa com todos os locais de interesse na região. Almocei por ali num excelente “fish and chips” (filete de barra) e como ainda era cedo, segui viagem para Norte, até Port Douglas e dali até Mossman, onde aproveitei para ir visitar Mossman Gorge, uma zona de um rio na floresta  onde se forma uma lagoa com uma pequena queda de água e onde algumas pessoas aproveitam para tomar banho, à falta de o poderem fazer no mar. É que entre Outubro e Março aparecem por aqui umas pequena alforrecas venenosas que matam mesmo, de maneira que os poucos que se atrevem a mergulhar no mar vão equipados com fatos de borracha.
Pelas cinco da tarde acabei por me instalar num simpático “camping” junto a uma das praias.
Aqui na Australia há parques de campismo por todo o lado e as pessoas utilizam muito o sistema, seja com tendas ou autocaravanas, devido ao preço exorbitante dos hotéis.
Além disso, em muitas zonas não só há mais parques de campismo que Hoteis, como os parques, por terem pouca construção, têm direito a ocupar espaços muito melhores que os Hoteis, muitas das vezes em cima de praias, rios ou lagos.

9 de dezembro de 2015

Mount Garnet



Estava estafado depois da grande etapa do dia anterior. Às nove da noite enfiei-me dentro do saco cama a ler e meia hora depois apaguei a luz e adormeci. Acordei às seis da manhã, fresco que nem uma alface. Antes de arrumar as coisas peguei na moto e fui para a porta de um pub onde tinha estado na tarde anterior com acesso à internet. Sentei-me na escada cá de fora, pois ainda estava fechado, e liguei o computador. Uma hora depois voltei ao acampamento arrumar a tralha e tomar um duche e o pequeno almoço. Arranquei pelas dez da manhã, como de costume.
Ao longo do dia e à medida que me aproximava mais do oceano, a temperatura foi ficando mais agradável e parei para almoçar numa pequena cidade já com um ar civilizado, Charters Towers.
Queria ir a Cairns, na costa mas mais a norte do ponto em que estava e em vez de escolher ir direito à costa e apanhar uma estrada que iria mais tarde percorrer em sentido inverso, preferi rumar a norte pelo interior. Era mais uma vez uma estrada muito isolada e 200 Km depois de sair de Charters Towers, onde pensava existir uma pequena cidade, o local não era mais que um posto de abastecimento muito básico, com um parque de campismo sinistro. Perguntei onde era a próxima vila e disseram-me ficar a cerca de 160 Km de maneira que, embora já tarde para mim, porque evito o mais possível andar de noite, arranquei para Mount Garnet.
A minha teoria sobre a hora dos cangurus saírem para a estrada confirmou-se quando, ao final da tarde, comecei a ver primeiro dois cangurus na berma da estrada,  mãe e filho, com ar de quem hesitava, com medo de serem atropelados e, mais à frente, três adultos aos saltos a atravessarem a estrada. Aqui percebi porque são tantas vezes atropelados. É que eles dão saltos grandes e, não olham para ver se vêm carros ou motos, simplesmente saltam da berma para o meio da estrada. Foi 100 metros à minha frente e por isso não corri o risco de os atropelar mas, ao constatar que era aquela hora que eles saíam à rua fui o resto do trajeto com enorme atenção, até porque a vegetação começava a ser bastante mais densa.
Cheguei a Mount Garnet já ao cair da noite e acabei por montar a tenda com muito pouca luz.

5 de dezembro de 2015

Julia Creek



Arranquei de Camooweal pelas dez da manhã, depois de comprar a habitual garrafa de água matinal no supermercado junto ao parque de campismo. O transito aumentou um pouco aqui em Queensland. Continua a ser muito escasso mas a cada cem quilómetros já me cruzo com meia dúzia de carros e três ou quatro “road trains”, estes camiões gigantes. Desde que saí de Darwin ainda não vi uma única moto. Talvez devido às altas temperaturas, que nesta altura do ano rondam os 40º, as pessoas preferem deslocar-se de carro com ar condicionado.
Pelo caminho passei por uma cidade maior, Mount Isa e estava à espera que o transito aumentasse significativamente a partir daí mas, muito pouco. Também não se vêm autocarros e comboios só de mercadorias. Penso que as pessoas que vivem nestas vilas maiores saem pouco para fora.
Parei para almoçar e comi um bife horrível. Acho que ainda não tive uma refeição decente desde que estou na Australia. Mesmo em Sydney é difícil.
Depois do almoço o termómetro da moto marcava 44º, um record nesta viagem.
Depois de deixar os parques tenho percorrido cerca de 500 Km por dia através deste quase deserto em rumo à costa.
Neste dia fui até Julia Creek, mais uma pequena vila perdida no meio do nada. Os parques de campismo não costumam ter ligação à internet e desta vez safei-me, primeiro no centro de Informações, sem movimento aparente, e depois na Biblioteca local.
De Julia Creek até Richmond são cerca de 130 Km de duas ou três retas traçadas através de uma planície de erva seca muito rasteira, a perder de vista. Nesta pouco mais de centena de quilómetros passei por centenas de cadáveres de cangurus atropelados, em diversos estados de decomposição, alguns que terão morrido nas ultimas 24 horas. Ninguém os recolhe e acabam por ser devorados por aves de rapina, cobras e outros animais. O incrível é que não vi nenhum canguru a atravessar a estrada ou sequer vivo na beira da estrada. Calculo que estes atropelamentos se devem dar ao final da tarde e à noite, quando está um pouco menos de calor e eles sairão a procurar alimento.

28 de novembro de 2015

Camooweal



Three Ways é perdido no meio de nada. O posto de abastecimento mais perto para Norte fica a 200 Km e para Oriente a 300 Km. Fiquei por lá a acampar. Tinham uma pequena piscina com a vantagem de a água não estar morna.
Contam-me que aqui, ainda há pouco tempo, alguns dos rancheiros locais, baseados a centenas de quilómetros, aterravam  as suas avionetas na estrada e vinham à bomba abastecer e beber uma cerveja. Um que vivia a 500 Km vinha de helicóptero só para beber uma cerveja e fazer dois dedos de conversa com quem por lá estivesse.
Estes ranchos, que tinham algumas das maiores manadas do mundo, com milhares de cabeças de gado, mudaram-se, na maioria, para terras com melhores pastagens, quando a zona começou a ficar mais seca.
Arranquei para Oriente, depois de atestar o depósito, pelas dez da manhã. Nos 300 Km seguintes cruzei-me com dois carros e três camiões. De resto não se vê ninguém nem qualquer construção. Cangurus, que estava à espera que se atravessassem constantemente à frente, só encontrei cadáveres, já atropelados, na estrada. Um ou outro de grande porte.
A vegetação passou a rasa, só umas ervas secas que se estendem a perder de vista. Por vezes, rabanadas de vento fazem abanar a moto. Os poucos camiões que se cruzam comigo, monstros de cinquenta metros que se deslocam a mais de 100 Km/h, formam quase que uma parede de ar, que mais uma vez me chocalham, qual andorinha em vendaval.
Durante o trajeto há uma ou duas áreas de descanso dessas que não são mais que um banco com uma sombra e onde por vezes paro para beber água e sou assaltado por moscas. “Touph”.
Depois de percorrer os 300Km parei no posto de abastecimento  para descansar. Nestes locais estão muitas vezes miúdas suecas, francesas, alemãs, etc. que decidem vir trabalhar para a Australia e, depois de um ano por cá, dão-lhes visto para mais um se vierem três meses para um destes sítios recônditos a que chamam “rural Australia”. Elas lá se sujeitam e dão um ambiente agradável a estes locais, perdidos no meio do nada. Lá estava uma a limpar as ventoinhas de tecto.
Uma delas quis convencer-me a acampar por ali mas ainda eram duas da tarde e decidi avançar até ao próximo posto, 150 Km à frente.
Apanhei um ótimo parque de campismo em Camooweal, com uma piscina de água que refrescava e onde pude lavar roupa numa máquina e cozer um esparguete. Tinha acabado de entrar na província de Queensland.

25 de novembro de 2015

Three Ways


À medida que vou andando para sul a paisagem torna-se mais seca e rasteira. Deixa de haver árvores e passam a ser arbustros de menos de dois metros, uma espécie de savana Africana, que aliás faz sentido pois devo estar à mesma latitude que essa zona de Africa.

Ainda a cerca de 200 Km do posto de Three Ways, parei em Daly Waters. A vila é famosa porque salvou o primeiro explorador a atravessar o continente de Sul para Norte que ali encontrou água.  Tem um Pub com um ambiente fantástico. No interior coleções e recordações várias desde centenas de notas de todo o mundo a roupa, que calculo de cientes, que inclui cuecas e soutiens, bonés, etc. Daqueles pubs que estão cheios de tralha. Um avião em lata pendurado na parede, peças de ferreiro, sei lá, um mundo de material espalhado à volta do bar. É local de paragem obrigatória para quem atravessa o país pelo centro. O dono é daquele género simpático mas de cara séria que já não tem muita paciência para os clientes. À porta, sentado na esplanada estava o pai, dos seus 70 anos, barrigudo e bonacheirão, garrafa de cerveja na mão, que me falou numa pronuncia tão cerrada que lhe pedia para repetir cada frase que dizia. Enquanto tomava o meu “brunch”, pelo meio dia e meia, chegou uma camionete com turistas alemães. O dono e duas miúdas despachadas lá atenderam os 30 ou quarenta clientes com o ar de quem preferia que não tivessem aparecido.
Do outro lado da rua a pequena bomba de gasolina onde depois abasteci também lhe pertence. Entre outras decorações tem um helicóptero em escala ¼ em lata no telhado.
À medida que me vou afastando de Darwin, capital do Northern Territory, o preço da gasolina vai aumentado, provavelmente devido ao transporte para aqueles locais recônditos e pela pouca quantidade que devem vender. Enquanto em Darwin a gasolina de 95 custava o equivalente a 90 cêntimos, aqui para baixo já a cheguei a pagar a 1,90 dólares (1,30 euros) o litro. A água também é um bem escasso e começa a entrar no orçamento diário. Uma garrafa de litro e meio custa 4 euros e, com este calor, nunca bebo menos de duas por dia.
De resto, tudo é caro aqui na Australia. Por um quarto numa barraca pré fabricada de um parque de campismo não pedem menos de 75 euros por noite. Por isso tenho sempre acampado. Custa entre 7 e dez euros e têm casas de banho decentes, muitas vezes uma pequena piscina e um telheiro equipado com fogão e frigorifico onde cozinhar.
Para dizer a verdade não conheço parques de campismo em mais nenhum país, nem mesmo em Portugal, mas calculo que estes sejam  bons.

23 de novembro de 2015

Mataranka



Arranquei em direção a sul, pelas dez da manhã, com as temperaturas a continuarem a rondar os 40º. A estrada tem muito pouco movimento e as distancias são grandes entre  pequenas povoações. Cerca da uma da tarde, ao parar numa das poucas área de descanso, que se resumem a uma sombra com bancos e, às vezes, uma casa de banho, encontrei uma família francesa de uma mãe e três filhas, uma delas acompanhada do namorado. O casal estava a trabalhar em Katherine, ali perto, na apanha da manga e as irmãs e a mãe vieram-nos visitar.
Contaram-me que  60 Km mais à frente havia uma nascente onde se podia tomar banho. Fui até lá dar um mergulho e por ali fiquei, montando a tenda no parque que havia junto.
Nessa noite caiu uma carga de água como não via há muito. Por sorte tinha montado a proteção para chuva na tenda e acabei por voltar a adormecer ainda com a chuva a cair. Acordei às oito da manhã debaixo de um sol lindo e 36º de temperatura. Antes de sair voltei dar um mergulho junto às nascentes de água, transparente mas morna.
Decidi percorrer uma etapa mais longa, de 550 Km ainda para sul, que me levaram até Three Ways, o cruzamento onde iria virar para Oriente.
A estrada, de apenas uma via em cada sentido, é bem alcatroada. São longas rectas, por vezes de muitas dezenas de quilómetros, com muito pouco movimento. Durante o dia cruzei-me só com dois ou três carros e outros tantos camiões. Esta suposta “highway” é ladeada de árvores de médio porte a maioria com os troncos queimados, propositadamente. Fazem estas queimadas controladas, poupando as copas, para evitar incêndios de maiores dimensões. Quando chega a época das chuvas, tudo volta a ficar verde. Chego a percorrer mais de cem quilómetros sem ver um carro, camião ou vivalma. As únicas construções são os montes em terra construídos pelas “termites” ou formiga branca, que chegam a atingir mais de dois metros. Curioso foi os que vi em Litchfield Park, em formato de uma espécie de lâmina, sempre construídos no eixo norte/sul. Cientistas acharam estranho estas formigas conseguirem construir estes espécies de abrigos para milhões delas sempre neste sentido sendo elas cegas e portanto não se podendo orientar pelo sol. Depois de experiencias em que através de poderosos ìmans mudaram o campo magnético de certas zonas, levando-as a mudar o sentido das construções, chegaram à conclusão que elas têm uma espécie de bússola incorporada no corpo. Extraordinário.