31 de agosto de 2016

Kuki


Quando acordei na manhã seguinte estava a chover forte. Hesitei em sair mas ao acalmar o tempo arranquei para ver umas cascatas perto da estalagem.
Voltou a chover com mais intensidade e, quando deixei as cascatas, já com as calças ensopadas, regressei à estalagem para trocá-las pelas impermeáveis do fato que não tenho usado aqui por as temperaturas andarem sempre à volta dos 35º.
Parti depois visitar o “Shrine” de Nikko, sem duvida o mais espetacular e interessante que encontrei no Japão, até por parecer mais original e conservado que outros. Os Shrine são locais de culto da religião Shinto, que acredita haver deuses tanto no céu como na terra enquanto os “Temple” pertencem à religião Budista, a seguida pela maioria dos japoneses.
Numa das salas, para onde tivemos que entrar descalços, os visitantes eram divididos em pequenos grupos e depois um monge mostrava o eco provocado por dois paus a baterem um contra o outro. Primeiro em várias partes da sala, em que não havia qualquer eco e depois ele chamava a atenção para quando batia os paus por baixo de um enorme dragão pintado no teto da sala. Aí o eco produzia uma vibração que podia parecer o rosnar de um animal. O grupo de japoneses disse “HOOOOOO”! em uníssono e a miúda que estava ao meu lado, emocionada, ficou com os olhos molhados e deixou cair uma lágrima pela cara, que limpou com a mão. Depois cada um deles, por recomendação do monge, juntou as mãos e pediu um desejo de frente para a estátua correspondente ao seu signo chinês.
- o senhor, que signo chinês é?
- Não faço ideia.
E rapidamente rapou de uma tabela com os anos.
- Em que ano nasceu?
- 1955
- Então é cabra. É aquela segunda estátua do lado de lá.
- Obrigado.
Tinha previsto, depois da visita a Nikko, seguir calmamente de volta a Kobe ao longo de três dias, para entregar a moto a fim de ser embarcada para os Estados Unidos. A entrega teve que ser adiantada 24 horas por motivos alfandegários e por isso tinha só aquela tarde e o dia seguinte para percorrer os  800 Km. Nessa tarde arranquei em direção a sul, ainda debaixo de chuva, com a ideia de fazer cerca de 200 Km até perto de Tóquio para no dia seguinte percorrer o trajeto que me faltava, maioritariamente em autoestrada, a única forma de lá chegar a tempo.
Passados pouco mais de 50 Km deixou de chover mas perdi-me na estrada e fui parar a uma que, estranhamente, não tinha transito. Pouco depois percebi porquê. Um sinal indicava que me deveria afastar daquela zona. Estava próximo da zona de proteção que decretaram como possível de ter sido afectada por radiações provenientes do desastre de Fukushima, quando, em 2011, um tremor de terra seguido de tsunami, destruiu a central nuclear local.
Dei meia volta e acabei por encontrar a estrada principal.
Normalmente não se vêm muitas motos a circular no Japão, o que é estranho para o principal país que as produz. Pequenas 125c.c, por exemplo, praticamente não existem quando na Indonésia, a fabrica da Honda local, produz e vende cinco milhões por ano do veiculo a motor mais vendido no mundo desde sempre.
As motos grandes que aqui vemos são quase todas ou antigas, vi uma boa dúzia de Kawasaki 900 da primeira geração, ou Harleys e algumas BMW. É a tal ideia de que a galinha do vizinho é melhor que a nossa quando, na realidade, eles produzem as melhores “galinhas” do mundo.
Mas vinha eu numa via rápida, das muito poucas que encontrei, embora com semáforos a cada 500 metros, quando parou ao meu lado uma Kawasaki Ninja 1200R. Fomos os dois “picados” entre os vários sinais seguintes mas constatei que, mesmo naquelas distancias curtas entre sinais, estávamos a ultrapassar os 200 Km/h quando me tinham dito que as motos vendidas no Japão tinham um limitador aos 180 Km/h.
Passado um pouco parámos os dois a beber um café e ele cotou-me que a sua moto tinha “full power”.
- Mas como é possível? Disseram-me que as motos aqui estavam limitadas a 120 cv. e 180 Km/h de velocidade máxima.
- Pois. Por isso importei-a da Malásia.
O Japonês, dos poucos que ouvi falarem inglês, tinha estudado no Texas. Indicou-me um caminho mais curto para evitar a entrada em Tokyo e seguimos cada um para seu lado.
Já de noite voltei a perder-me e, quando dei por mim, tinha feito 50 Km em sentido contrário.
Encontrei um pequeno hotel, já passava das oito, na cidade de Kuki, junto à linha de comboio. Preparava-me para tomar um duche quando senti novamente o chão a tremer. Será outro tremor de terra? Mas não. Cada vez que passava um comboio de alta velocidade o Hotel abanava todo. Foi uma espécie de embalo para adormecer.

30 de agosto de 2016

Nikko


No Segundo dia que passei em Tokyo já não chovia. Tinha decidido ir assistir a uma luta de Sumo e nesta altura do ano os lutadores profissionais só treinam entre as 7,30 e as 10,30 da manhã. Levantei-me cedo e saí do Hotel às oito mas decidi ir de metro, para mão me perder, até porque o local era muito perto de uma estação. O metro à hora de ponta em Tokyo não é o caos que fazem dele. Há obviamente muita gente a circular, até porque os japoneses usam muito os transportes públicos. Só que os metro têm mais carruagens que qualquer outro que vi até agora, a preencherem plataformas com mais de 200 metros de comprimento, de maneira que vão cheios mas ninguém se atropela.
As lutas de Sumo são um espetáculo fascinante. Cada luta dura poucos segundos, com os enormes e pesados lutadores a fazerem um show de preparação em que se põem de cócoras e depois arrancam um contra o outro com uma força brutal. Ganha quem atirar o outro ao chão ou o conseguir empurrar para fora do espaço estabelecido. Eles são grandes e gordos mas também fortes.
O que tem graça é ver os miúdos, futuros lutadores, a verem os profissionais porque a maioria, tal como 99% dos japoneses, não são nada gordos e, estando ali, a estudarem para serem profissionais de Sumo, sabem que têm que engordar, e muito. O Sumo tem também um pormenor que não se vê em qualquer outro desporto. O vencedor não mostra uma grande felicidade nem faz espalhafato nenhum quando ganha, para mostrar respeito pelo vencido. Além disso consideram que o importante aqui não é vencer mas o esforço que se faz para tentar vencer. Típico japonês.
Depois de assistir ao treino de Sumo fui ainda visitar um parque fantástico. O
“Shinjuku Gyoen National Garden” parece não ter sido construído como um jardim no meio da cidade, transmitindo antes a ideia que a maioria das árvores e plantas são uma floresta que já lá estava antes da cidade crescer e ali foi mantida. Árvores seculares, lagos e espaços com vários tipos de jardins, desde o inglês ao francês, passando obviamente pelo japonês, tornam aquele parque muito especial.
Deixei Tokyo por volta da uma da tarde e parti em direção a Nikko, cerca de 170 Km a Norte da capital.
A viagem decorreu sem sobressaltos mas quando ia a chegar a Nikko às tantas vi um polícia numa scooter à minha frente e reduzi drasticamente a velocidade, para não o ultrapassar, com medo de infringir os limites de velocidade que, em muitas vilas e cidades, estão marcados no chão com um 40. Mas o homem ia tão devagar que decidi passa-lo. Quando chagámos ao semáforo seguinte ele parou atrás de mim e, pelo retrovisor vi-o tirar uma caneta de uma bolsa e escrever a matricula da minha moto nas costas da mão. Deve ter gerado uma confusão naquela esquadra.
Fui parar a uma estalagem familiar, no meio da floresta. O dono, um enorme Nigeriano a falar um inglês perfeito, era casado com uma japonesa e tinham quatro filhos pequenos. A estalagem tinha ar de anos sessenta. Uma enorme sala, com um pé direito de sete ou oito metros, servia também de casa de jantar. Junto corria um riacho com forte e barulhenta corrente mas que mal se via por entre a densa vegetação. O homem propôs fazer jantar o que me evitou pegar na moto de noite para ir à pequena vila procurar um restaurante que provavelmente fecharia às oito e meia da noite. Fez uma fantástica galinha com um óptimo molho, acompanhada de batatas cozidas em vez de arroz, a meu pedido e de um casal de italianos que eram os dois outros únicos hóspedes, fartos que estávamos todos de comer arroz.
Depois do jantar os italianos foram-se deitar assim como a japonesa e as crianças e o Nigeriano trouxe uma garrafa de aguardente de batata e ficámos à conversa. Ele estava nacionalizado inglês, tinha sido Marine e combatido nas Faulkland, pouco, dizia ele. Depois voltou à Nigeria onde foi militar de alta patente. Contou as extraordinárias histórias de corrupção e roubo que se passam com os governos e militares africanos. Despediu-se da tropa a abriu um bar no Hawai, onde conheceu esta japonesa.
Estávamos nesta conversa pelas dez e meia da noite quando o chão começou a tremer forte e as janelas a abanarem como só me lembrava de ter assistido uma noite em Portugal, teria eu uns 13 anos.
- O que é isto?
- Um tremor de terra, disse ele calmamente.
Durou uns 30 segundos.
- Mas isto é usual?
- Muito não mas de vez em quando acontece.
- Felizmente não foi dos grandes, disse eu.
- Pode ter sido grande noutro local do país.
No dia seguinte vi que foi ali perto e que atingiu 5.3 na escala de Richter, sendo dos maiores do ano.  Durante a noite, felizmente, não houve réplicas.

28 de agosto de 2016

Tokyo


Tokyo é lindo. Não estava à espera. Nos filmes vemos uma confusão enorme de gente a atropelar-se, sem espaço para se mexerem. A realidade é completamente diferente. A cidade estende-se por muitos quilómetros quadrados e, no centro, tem avenidas largas e vários parques e jardins fabulosos a criarem enormes espaços verdes. Vê-se que é uma cidade relativamente recente e bem planeada.
Instalei-me no Hotel e saí pelas nove da noite para jantar. Mesmo nas cidades onde há muitos turistas, como Tókyo, e por isso restaurantes de todas as nacionalidades, tenho preferido ir aos restaurantes dos locais, normalmente só frequentados por japoneses, onde janto por dez ou onze euros. Fui ao primeiro que encontrei, perto do Hotel. Tinha um sistema que já tinha visto antes em Kyoto. O cliente começa por se dirigir a uma máquina onde escolhe o jantar e a bebida, através de fotografias e botões e paga. Dirige-se então à mesa ou balcão e entrega os talões a um dos empregados. Como nunca há gorjetas é um sistema prático. As refeições já estão meio cozinhadas e normalmente não demoram mais de cinco minutos a vir. Os japoneses não perdem tempo com nada. Aqui até tinham uma máquina para tirar a cerveja onde a menina punha a caneca e a máquina inclinava-a e servia na quantidade certa, endireitando antes de acabar para ficar com a espuma correta.
Quando se está acompanhado não são nada atrativos estes sistemas mas para quem está só é muito prático.
No dia seguinte fiquei de manhã a tratar de mails e escrever e saí do Hotel ao meio dia e meia de capacete na mão mas, quando cheguei cá fora o céu ameaçava chuva forte e voltei lá dentro deixar o capacete e pedir um guarda chuva. Quando voltei a sair chovia muito e tive que esperar um quarto de hora para ir até à estação de metro mais próxima, ainda debaixo de chuva mas mais fraca.
Em Tokyo tinha ideia de não visitar Templos e museus, que já tinha visto em cidades mais antigas e decidi antes ver coisas únicas daquela cidade.
Por sugestão da “Time” americana comecei por subir ao segundo andar do Starbucks café de Shibuya Crossing, que na pratica é um primeiro andar porque eles aqui não contam o R/C ou 0 a que chamam 1º. De aí temos vista para um dos cruzamentos mais movimentados de Tokyo, que quis filmar. A curiosidade é que neste cruzamento, às tantas, os sinais luminosos ficam encarnados para todas as cinco entradas de carros e os dos peões verdes pois para além das passadeiras que existem na entrada de cada uma das ruas há uma outra maior que atravessa todo o cruzamento em diagonal, razão pela qual os carros deixam de passar e um enxame de gente apressada invade a estrada. Espetacular visto de cima.
Ao meu lado no balcão do Starbucks, virado para a enorme janela, estava uma americana de Nova Iorque, de origem chinesa, dos seus quarenta e muitos, cinquenta anos, com uma Canon fantástica, que achou que eu tinha cara de milionário. Meteu conversa a propósito das fotografias e quis mostrar-me que estava a tentar focar chapéus de chuva encarnados.
-Olhe este que eu apanhei há bocado, não é espetacular?
-Usa uma Go pro? Que engraçado. Pensei em comprar uma.
Conversa puxa conversa e passado um bocado perguntou-me:
- Você é alemão ou suíço?
Quando lhe disse que era português a atitude dela mudou radicalmente. Consciencializou-se que eu era um pobre e quando a filha, uma miúda dos seus 25 anos, com ar vivo e esperto entretanto apareceu, despachou-me para ela, como quem se vê livre da raia miúda.
-Olhe, este senhor anda a dar a volta ao mundo de moto. Muito interessante. Tipo, fale lá com ele. Dei dois dedos de conversa à miúda e arranquei, à procura do bairro Ebisu, ali perto, que tinha lido ter bons restaurantes locais.
Quando cheguei a Tokyo pensei que as pessoas aqui não poderiam ter a mesma simpatia das da província porque é assim em todo o mundo. Estão mais stressadas, sei lá. Achei normal por isso quando, ao entrar na cidade, um dos chauffeurs de táxi a quem perguntei uma indicação, numa fila para os sinais luminosos, olhar para mim e fazer-me sinal que não, sem sequer abrir a janela. Também um miúdo nos seus vinte anos, naquela manhã ia pelo passeio a ouvir auscultadores abanou a cabeça e seguiu o seu caminho quando lhe fiz uma pergunta.
Mas depois, ao sair do Starbucks, perguntei a um trabalhador de fato de macaco e capacete plástico na cabeça onde era o bairro Ebisu e ele disse-me muito amavelmente, venha cá que lhe mostro e subiu uma enorme escadaria por onde eu teria que passar mas ele não, só para me explicar melhor o caminho que eu teria que tomar.
Depois, a seguir ao almoço um casal nos seus quarenta anos a quem perguntei como se ia para um parque que queria visitar disse-me: venha connosco que vamos nessa direção e acabaram por me oferecer um café pelo caminho.
Quando entrei no parque também dois miúdos que por ali passeavam, ela com 18 anos e ele com 20, quando lhes perguntei onde era uma parte do parque que gostava de ver, ele procurou no telemóvel e ela disse: “venha, nós vamos consigo”. Eram giros, os miúdos. Passeámos juntos durante cerca de duas horas e de cada vez que eu lhes dizia para não se prenderem comigo eles insistiam. “Não, não. Nós queremos ir consigo”. Falavam inglês e estavam a estudar alemão na universidade. Muito simpáticos. No final da tarde acompanharam-me até à estação de metro e despedimo-nos.
São atitudes que dificilmente vemos na capital de outro país e que evidenciam uma cultura e maneira de estar muito particular desta gente. Fascinante.

26 de agosto de 2016

Kakegawa


Ao fim do dia cheguei à cidade de Kakegawa onde procurei um Hotel. Encontrei um de uma cadeia “Smile” que achei graça porque o emblema era mesmo um desses “smile” como os do facebook. Só deixei de rir quando cheguei ao quarto que tinha a alcatifa toda suja e um aspecto bastante desolador, mas não quis procurar outro com medo de não encontrar alternativa. De qualquer forma foi mais barato que o costume e, tal como me dizia um professor em Inglaterra, “you pay for what you get”.
Pelas nove da noite saí à procura de um restaurante onde jantar. À esquina encontrei um único onde duas simpáticas e giras miúdas pareciam esperar o primeiro cliente da noite. Pedi a ementa e um Biru (cerveja) mas a partir daí a comunicação foi mais difícil. Elas não falavam uma palavra de inglês e o menu, sendo numa cidade de província onde não há turistas, estava todo em Japonês e não tinha fotografias, como muitas vezes têm. Nem sequer havia outros clientes para eu poder escolher através do que tinham pedido e apontar para o prato deles. Estivemos uns bons minutos a rir os três com a situação até que uma delas se lembrou de procurar fotografias de pratos na internet. E assim escolhi o que queria através das fotografias no telemóvel da rapariga. Original
E já que não havia mais clientes elas sentaram-se na mesa ao lado da minha também a jantarem. Muito engraçado.
Já só estava a duzentos e poucos quilómetros de Tokyo de maneira que marquei pela internet Hotel para os dois dias seguintes na capital e fiz-me à estrada.
A zona que passa junto ao monte Fugi é linda, primeiro com uma estrada no topo da montanha com vista para o famoso monte, com o glaciar no topo, de um lado e um lago em baixo do vale do outro. Infelizmente o céu nublado do dia não me permitiu ver o Fugi mas a vista para o lago lá de cima é espetacular. Além disso, a estrada que desce até ao lago e sobe a montanha do outro lado é linda, com uma vegetação muito densa e grande variedade de árvores. O transito é que estava praticamente parado com o que parecia ser um passeio típico para as gentes de Tokyo. Lá fui eu pela faixa contrária a passar o traço contínuo, sempre que a segurança o permitia.
Ao entrar em Tokyo decidi fazer um filme com a Go pro no capacete porque é sempre engraçado a conversa que tenho com as pessoas a perguntar caminhos, comigo a falar inglês e eles a responderem invariavelmente em japonês mas, como a conversa é acompanhada por gestos, lá nos vamos entendendo. Neste caso era para encontrar o caminho para o Hotel. Ainda não vi o filme de mais de uma hora mas deve estar giro. Principalmente porque, já no final, passei uma fila de carros que estava parada no sinal luminoso para virar para a rua do Hotel e parei à frente deles. Quando arranquei estava uma mulher polícia ao lado de um alto motão, creio que uma Honda 750, a mandar-me parar. Era uma miúda giríssima, mesmo, que não teria mais de 25 anos. Fiquei embasbacado a olhar para ela, fardada e de capacete na cabeça com um enorme emblema dourado na frente. Sexy. Mas fiz um sorriso e disse-lhe que tinha toda a razão em mandar-me parar. O que vale é que ela também achou graça e falava inglês, para minha surpresa. Disse-me que eu tinha cometido uma infracção e pediu-me a carta japonesa.
-Não tenho
-Não tem?? Como??
-Não. Só tenho portuguesa.
-Não pode ser. E o que faz aqui?
-Sou turista.
-Turista, de moto?
-Sim. Tem matricula portuguesa
-Como é possível?
E para não complicar mais a conversa mudei o tema.
-Ajude-me lá. Sabe onde fica o Richmond Hotel? Disseram-me que era nesta rua.
- Sim. É ali em cima.
-Depois do cruzamento?
- Sim, no segundo sinal luminoso.
-Ah, óptimo. Muito obrigado
E resolvi a questão com mais um sorriso simpático. Apetecia-me dar-lhe um beijo mas achei que me levaria preso e desisti da ideia.

25 de agosto de 2016

Hamaoka - Honshu




Arranquei de Minakuchi por volta das dez e meia, como é meu costume. Não tenho mapa do Japão porque os nomes vêm todos em japonês e por isso serve-me de pouco. Costumo por isso ver na noite anterior no “google maps” o trajeto que pretendo fazer e escrevo num papel as cidades por onde tenho que passar, assim como os números das estrada a seguir. Uns e outros costumam estar escritos nos sinais de trânsito, também em Inglês.
Neste caso, a caminho de Tóquio, não havia muito que saber, porque teria simplesmente que seguir a estrada nacional nº1 que raramente tem mais que uma faixa para cada lado, de maneira que tenho feito pouco mais de 200 Km por dia.
Neste dia aconteceu uma cena caricata. Por vezes nestas estradas aparecem cruzamentos, assinalados, em que a estrada segue para a esquerda ou direita e não em frente. Tenho que ir com uma certa atenção para não me enganar.
Desta vez distrai-me e fui em frente em vez de virar à esquerda. Comecei a achar estranho a estrada estar a tornar-se estreita de mais para uma nacional 1 e o movimento baixar drasticamente. Achei que me tinha enganado mas decidi andar mais um pouco para ter a certeza. Até que... entrei pelas instalações de uma central nuclear. O portão era largo e estava aberto de maneira que nem reparei que existia. Ouvi uma voz num altifalante que até parecia em português a dizer : Onde vai?. Se calhar é parecido em japonês, como algumas outras palavras, mas achei que não era para mim.
Continuei por ali dentro até começar a ver mais porta paletes e camions na estrada que carros. Constatei que me tinha enganado e dei a volta só então percebendo que aquilo era uma central nuclear. Fiquei chocado com o que vi e tirei duas ou três fotografias, felizmente desta vez sem ser preso, como me aconteceu no Irão. No portão estava um homem à minha espera que me mandou sair com ar de mau e sem qualquer ameaça de vénia.
O que me chocou foi o estado lastimável em que se encontrava a Central Nuclear, com tubos e depósitos cheios de ferrugem.
O que se passa é que depois do desastre de Fukushima, em 2011, o governo japonês prometeu fechar todas as centrais nucleares no país. Só que é mais fácil dizer do que fazer. 30% do fornecimento de eletricidade no país estava baseado nas Centrais Nucleares e para acabar com elas tinham ou que ter barragens e outra produção limpa de energia em quantidade suficiente, o que não é o caso, ou passarem a produzir eletricidade queimando combustível, o que iria contra todos os recentes acordos internacionais a nível de poluição ambiental. Penso que sejam esses os motivos pelos quais eles mantêm uma ou outra central nuclear em funcionamento, enquanto não tiverem uma alternativa viável. O problema é que, como esta, muitas estarão em péssimo estado e não as podem renovar pois se as desmontam já não faz sentido construir novas, depois de anunciarem que as iriam eliminar. Assim vão mantendo alguns destes monos em funcionamento. Esta, pelo que li depois de lá passar, estará desativada mas continua com muito movimento pois não deve ser fácil verem-se livres dos materiais radioativos quando decidem acabar com elas.
O problema é que o país tem tremores de terra fortes a cada 5 anos e, se o de 2011 provocou aquele desastre, pelo tsunami que veio atrás, estou convencido que se calha terem um com o centro num sítio como esta central nuclear de Hamaoka aquilo desmancha-se tudo. Pelo menos é a ideia que dá ao olharmos para ela e aprendi  que uma coisa para estar em bom estado tem que, em primeiro lugar, aparentar estar em bom estado.
Neste dia passei ainda por um simpático casal, cada um na sua Harley. Quando passei por eles disse-lhes adeus e o rapaz para me corresponder o aceno quase se estampou. Parei mais à frente numa loja para comprar água e eles viram-me e também pararam. A miúda andava de moto há um ano e ele, pelo que vi, devia andar há um ano e dois dias. Bom espírito.

23 de agosto de 2016

Minakuchi - Honshu - Japan


Em Kyoto comecei por visitar Gion, o tal bairro das Gueixas. Ás vezes encontram-se na rua, todas produzidas mas, como não vi nenhuma, pedi a duas meninas vestidas com trajes tradicionais para tirarem uma fotografia ao pé da moto.
- “Não são verdadeiras gueixas? Oh, que pena”.
Deixei a moto estacionada no passeio e fui a um parque tirar umas fotografias. Quando voltei tinha dois policias de volta da moto, a olharem muito para a matricula portuguesa com cara de quem não sabiam o que fazer com aquele caso. Ficaram com um ar aliviado quando eu cheguei e puderam explicar que no Japão não se pode parar no passeio e logo me mandarem seguir, satisfeitos.
É curioso que em todo o Japão não se podem parar os carros na estrada junto ao passeio, tendo toda a gente que tem carro obrigação de ter um espaço previsto para o estacionar. Quando vão a algum lado têm sempre que o deixar em estacionamentos, normalmente pagos mas nunca junto ao passeio. Até porque a maioria das estradas só tem uma via para cada lado, com o tal traço continuo ao meio, de maneira que não há espaço para estacionamentos. O mesmo se aplica às motos que não podem ser paradas em qualquer lado. Tenho infringido algumas vezes esta regra porque eles acho que não sabem como multar uma moto ou carro com matricula estrangeira.
De Gion parti a ver o Templo dourado, que antes foi coberto a folha de ouro pelo seu proprietário mas depois do ultimo restauro está simplesmente pintado de dourado. A imagem é bonita porque o local onde está, junto a um lago, também é fantástico.
Nos restauros dos templos reparei que os japoneses não se preocuparam muito com a originalidade, aliás porque muitas vezes não sabem exatamente como era por dentro, por exemplo. Assim fazem uns restauros à sua maneira muitas das vezes utilizando pormenores como pedra cortada à moderna no chão ou outros pormenores que para quem aprecia bons restauros escandaliza um pouco.
Depois do Templo Dourado ainda fui dar um passeio pela floresta de bamboo, em Arashiyama. Muito gira.
Nesse dia deixei Kyoto pelas quatro da tarde e pus-me a caminho de Tokyo onde saberia que só chegaria dois ou três dias depois. Evitando as auto estradas aqui na ilha principal fazem-se médias muito baixas pois há semáforos a cada 300 metros, e como os carros se arrastam a 40 ou 50 Km/h por todas as estradas o transito torna-se infernal, mesmo de moto. De carro nem quero imaginar o que passam. Qualquer pequeno cruzamento tem direito a semáforos e eles, quando calculam o tempo que se demora a fazer certa distancia, é sempre a médias de 20, 25 Km/h. De moto vou mais rápido mas muitas vezes nestas estradas fiz médias que não ultrapassaram os 40 Km/h.
Assim, passadas duas horas tinha percorrido pouco mais de 70 Km e decidi instalar-me num hotel que encontrei à beira da estrada.
Quando saí para jantar já passava das oito e meia e a gerente do Hotel achou que se calhar já não me serviam. Então propôs-se vir comigo até ao Restaurante.
- Vem jantar comigo?, perguntei.
- Não, vou só acompanhá-lo até lá. É a cinco minutos de aqui.
Nunca me tinha acontecido uma cena destas. Lá veio comigo até ao Restaurante, pediu-lhes que ainda me servissem jantar, por a cozinha já estar supostamente fechada, ajudou-me a escolher a ementa e despediu-se. Único.
No dia seguinte foi a mulher que limpava os quartos que se desfez em vénias quando eu saí do quarto. Acompanhou-me até ao elevador em pequenas vénias, sempre a dizer coisas em japonês que deviam ser maravilhosas de ouvir, chamou o elevador para mim e, quando eu entrei fez uma única vénia mas em que o corpo fez um ângulo de 90º na cintura e assim ficou. Temi que se desequilibrasse e se estatelasse no chão.
Este género de cenas só se passam nestas pequenas terras de província onde, quando aparece um estrangeiro, ficam numa excitação. Nas grandes cidades são  mais comedidas e as vénias mais reduzidas, o que é uma pena.

22 de agosto de 2016

Kyoto - Honshu - Japan




 
Kyoto, que foi capital do Japão por mais de mil anos, até 1869, é uma cidade fantástica. Tem um ambiente descontraído para uma cidade com um milhão e meio de habitantes. Avenidas largas, com espaço, um transito que não é caótico, apartamentos espetaculares sobre o rio, cultura, gastronomia e … Gion, o ultimo bairro japonês onde ainda há Gueixas.
Fiquei encantado com o ambiente e alegria da cidade e tive uma cena curiosa:
Os táxis em Kyoto são quase todos de um modelo Toyota dos anos 70, grande, de tração traseira. São todos pretos e sempre impecavelmente limpos, a brilhar. Provavelmente fabricaram-nos até tarde, tal como os táxis londrinos. Os chauffeurs são uns senhores, vestidos de fato e gravata, discretos e educados. Alguns até andam de boné, como usavam nos anos sessenta em Lisboa.
Serão milhares destes táxis a circularem na cidade.
No dia em que cheguei parei numa bomba de gasolina onde estava um a abastecer enquanto o taxista dava uns retoques de limpeza no porta bagagens.
Perguntei-lhe o caminho para o Hotel que tinha reservado e, muito simpaticamente explicou-me, não sem antes se concentrar para contar quantas ruas eu teria que passar antes de virar à esquerda ou direita para depois explicar com firmeza: one, two, three, four, FIVE, LEFT. One, two, THREE, RIGHT. E assim me indicou o caminho, com convicção. Muito engraçado.
Agradeci-lhe e segui viagem. No dia seguinte, quando procurava o caminho para Gion, já longe de ali, seguia por entre os carros numa enorme fila e decidi parar junto a um dos muitos táxis para perguntar o caminho ao taxista. Era o mesmo do dia anterior. Inacreditável. Ele achou tanta graça quanto eu e desatámos os dois a rir com ele a dar-me palmadas no depósito da moto antes de me explicar o caminho da mesma forma. One, TWO, RIGHT. Extraordinário.
 Na noite anterior tinha saído do Hotel para procurar um restaurante onde jantar. Na esquina de uma movimentada rua vi um “steak house” com bom aspecto. A parte onde me sentei era uma pequena sala mas com janelas largas, a dar para duas ruas, só com meia dúzia de mesas pequenas e altas e bancos para nos sentarmos. Tinha boa onda e boa música a tocar. Sentei-me na única mesa livre. Pedi o menu e uma cerveja à menina gira que me atendeu. Recomendou-me a carne de lombo. Avisou-me que os pratos traziam só 100 gramas de carne, uma batata, um tomate e grelos. Junto trazia outro A4 plastificado onde recomendavam o Kobe beef. Olhei para o menu. O lombo na carne normal custava 1890 yenes, o equivalente a 17 euros. Do Kobe, que vinha por cima, pareceu-me ver 1200.
Pedi-lhe que me trouxesse então carne do lombo mas desse mais barato, de Kobe. Ela só ouviu essa parte e confirmou:
- “so it’s a Kobe beef Sirloin”
- “yes, that’s right”
Passado um bocado trouxe-me um prato rectangular, com uns vinte centímetros de comprimento e dez de largura onde estavam os tais 100 gramas do lombo de Kobe, cortado às fatias, uma rodela de batata, grossa, um mini tomate e um reduzido cacho de grelos. Pedi faca e garfo mas não precisava. Quando provei o primeiro bocado de carne não queria acreditar. Em sessenta anos de vida nunca tinha comido uma carne tão boa, de longe. Era muito tenra mas ao mesmo tempo não se desfazia, o sabor era extraordinário, estava grelhada no ponto exato e tinha a pequena e certa quantidade de gordura. Inexplicável. A primeira coisa que pensei foi que estaria ali caído no dia seguinte ao almoço.
Saboreei bem aquela carne maravilhosa mas despachei os 100 gr mais a rodela de batata, o tomate e os grelos em cinco minutos. Pensei em pedir uma segunda dose mas, como sou rapaz de pouco alimento, achei que por hoje chegava.
Dirigi-me ao bar para pagar a conta, um costume no Japão onde nunca se deixa gorjeta porque eles não estão à espera e até consideram uma ofensa. A menina que me serviu apresentou-me a conta: 13.340 Yenes.
- “Desculpe mas enganou-se. Não são 13.000 mas 1300”.
- “Não. São 13.000. O senhor pediu “Kobe beef”.
- “Mas no menu”.
- “No menu vem lá Kobe beef a 12.000 Yenes”. E foi buscar o menu.
Onde eu, á primeira vista tinha visto 1.200 até por parecer o mais lógico, estavam 12.000. Ou seja, aquele jantar, composto por 100gr de carne, uma rodela de batata, um mini tomate, 10gr de grelos e uma cerveja custou-me a módica quantia de 120 euros. Rir foi o melhor remédio.
Quando regressava ao Hotel pensei: ainda bem que isto me aconteceu. Se tenho sabido o preço antes nunca tinha passado por esta experiencia de comer uma carne que nem sabia existir e sei que é uma coisa que nunca irei repetir na vida pois, mesmo que um dia seja rico, nunca vou pagar 120 euros por cem gramas de carne porque, simplesmente, acho um desperdício. Esta deve ser a tal carne de que tinha ouvido falar de vacas a quem fazem massagens e põem a ouvir música clássica enquanto não vão para o tacho. 

21 de agosto de 2016

Nara - Honshu - Japan


Na tarde em que me despedi dos meus amigos ainda fiz uns 200 Km. Cheguei à conclusão que tanto as estradas como a paisagem nestas ilhas são mais interessantes para o interior de serra que na costa pois a construção japonesa não faz jus aos antigos pagodes e é muito feia, de um modo geral. O interior das ilhas tem muito pouca construção e muita vegetação com grandes declives resultando em paisagens fantásticas.
Pelas quatro e meia da tarde comecei a procurar um Hotel mas, ainda por causa do Obon, em que os japoneses tiram uns dias de férias, estavam todos cheios. Num dos vários em que parei ainda veio a menina a correr cá fora quando eu estava a arrancar dizer que tinha acabado de falar uma pessoa a cancelar mas era caro para o meu orçamento e segui viagem. Era quase noite quando finalmente encontrei um quarto. Entretanto tinha ficado sem dinheiro porque naquela ilha os cartões estrangeiros não funcionam nas máquinas multibanco, onde me abasteço em todos os países. Felizmente nos hotéis e bombas de gasolina deixavam-me pagar com cartão de crédito e, como levo comigo uns dólares de reserva, no dia seguinte, ao terceiro banco lá consegui trocar 100.
Continuei perto da costa oriental sem mapa e portanto evitando afastar-me muito. Pelas quatro da tarde fui a um hotel perguntar se tinham vagas mas como estava cheio optei por acampar num parque de campismo junto à praia, só o segundo que vejo no Japão.
Encontrei um americano que tinha estado três anos a dar aulas de inglês na ilha e partira, estrada fora, numa viagem de bicicleta até Tokyo. Foi bom poder mais uma vez falar com alguém pois para além do Servio e da mulher passei a semana toda só a comunicar por gestos ou, em muitos casos, eu a falar inglês e eles, sem perceberem patavina, a responderem em japonês, como se eu percebesse perfeitamente.
Choveu a noite toda, felizmente já depois de ter montado a tenda. Mesmo assim dormi bastante bem e só acordei perto das oito. Tomei um grande banho de mar e depois um duche nos balneários da praia que funcionava com moedas de 100 yenes. Quando pus a primeira não reparei que não tinha mais de maneira que me vi naquela situação tipo Mr Bean em que tive que voltar a vestir o fato de banho com o corpo coberto de sabão e a cabeça de shampoo, para ir à loja local trocar dinheiro.
Nesse dia deixei a ilha de Shikoku e voltei à confusão de Honshu, a maior e onde estão as principais cidades japonesas. Fui direito a Nara, a mais antiga capital, antes de Kyoto e Tokyo, que um japonês me tinha recomendado visitar. Chegado lá fui direito ao parque da cidade que tem a curiosidade de ter centenas de pequenos veados à solta, que se passeiam tranquilamente pelo parque, por vezes vindo para as estradas, alimentados por bolachas dadas pelos turistas. Criam um ambiente giro. No dia seguinte voltei lá para visitar o templo Todai Ji onde está uma das maiores estátuas de Buda e certamente a mais valiosa. Tem quinze metros de altura e para a construir foram utilizadas 437 toneladas de bronze e 130 de ouro. Fantástico.
Fui ainda visitar o Kofuku Temple que, com cinco andares, foi transferido de Kyoto em 710 d.c. para residência da família Fugiwara, a mais influente da época.
Da parte da tarde, antes de partir para Kyoto  passei a ver o mais antigo templo Japonês, o Horyu-Ji, fundado no ano de 607.

19 de agosto de 2016

Shikoku Island






Já estava perto da costa oriental da ilha e tinha decidido atravessar para Shikoku, com um certo medo porque achei que não podia gostar tanto do resto do Japão como daquela ilha de Kyushu.
Arranquei a caminho do ferry passava pouco das dez e ao meio dia e meia estava no porto de Usuki. Sabia que só havia dois ou três ferries por dia mas sem ver as horas pensei em ir até ao porto e esperar pelo próximo, mesmo que isso significasse ter que lá ficar para o dia seguinte.
Estava um barco atracado e a carregar. Comprei o bilhete e fiquei no hall de entrada à procura de qualquer coisa para comer na viagem de três horas e meia.
Estava por ali distraído quando um homem de capacete plástico na cabeça vem ter comigo a mostrar uma mensagem escrita no telemóvel pelo tradutor automático.
“they’re waiting for you to go on board”.
O barco estava à minha espera para partir. Assim, dez minutos depois de ter chegado ao porto estávamos a “largar ferro”.
O mar ali é muito calmo e a viagem é linda, através de várias das muitas pequena ilhas que compõem o Japão. Viajei quase sempre cá fora e só lá fui dentro para almoçar uma sopa de massa com supostamente marisco que comprei numa máquina automática. Horrível.
A sala dormitório era composta por quatro grandes espaços alcatifados onde os viajantes se deitavam. Lembrei-me logo dos quartos de pensão ao estilo japonês, que consiste em dormir no chão.
Cheguei a Shikoku sem conseguir arranjar um mapa da ilha e por isso quando saí do barco decidi manter-me mais ou menos junto à costa, com uma ou outra saída para o interior e estradas fantásticas de montanha, nesta ilha mais estreitas e sinuosas e portanto menos divertidas mas muitas delas praticamente desertas.
Numa dessas, depois de circular uns 30 Km sem ver um carro, cheguei ao alto de uma montanha e parei fascinado com a vista cá para baixo. Via-se densa vegetação por ali abaixo até uma aldeia, junto ao mar e, mais ao longe, pequenas ilhas cujo contorno tinha uma ligeira neblina que fazia com que parecessem estar a flutuar. Uma imagem extraordinária que não vou esquecer e que para mim, que sou ateu, me levou a desconfiar que Deus talvez exista.
Desci cá a baixo.
Parei numa loja da aldeia para comprar uma banana e água e, sendo quatro e meia da tarde pensei em procurar um Hotel. Quando saía da loja vi um homem ocidental, alto e forte, de barba por fazer e cabelo loiro apanhado num pequeno rabo de cavalo, dos seus quarenta e poucos anos.
-Do you speak english?
-Of course I speak english.
-O que é que faz num sítio destes?
-Isso pergunto eu? respondeu ele.
Era um Servio que ali tinha vindo parar com uma japonesa que conhecera no Sri Lanka. Vieram para aquela aldeia na ilha de Shikoku porque o governo japonês está a dar incentivos para que as pessoas regressem a estas aldeias perdidas na província. Era uma aldeia de pescadores que envelheceram e a nova geração partiu para as grandes cidades. O mesmo problema que temos em Portugal com o interior. A estes meus amigos o governo ofereceu um ordenado à japonesa para trabalhar na junta de freguesia local, além de apartamento por três anos e... um carro. Estão ali há dois anos e meio e o Servio, enquanto não arrancam com o negocio de Catering que estão a montar, chateia-se que nem um peru e afoga as mágoas numa espécie de aguardente que transporta num frasco e vai bebendo ao longo do dia. Disse-me que eu fui o único estrangeiro que por ali apareceu nos últimos dois anos.
Quando lhe perguntei por um Hotel convidou-me logo para ficar em casa deles e lá o acompanhei. Recomendou-me que levasse uma cerveja da loja que não tinha em casa e, sendo um artista, pintor, interessante e culto, passamos o resto da tarde à conversa, eu a beber a minha cerveja, que mais tarde voltei à loja reforçar a dose, e ele na sua aguardente. A mulher só voltou do trabalho às dez da noite quando o homem já estava “para lá de Bagdad”, como diz o meu filho. Muito simpática foi logo aspirar o meu quarto e fazer-me a cama de lavado e ficamos à conversa quando o Alex caiu a dormir.
No dia seguinte fez-nos um bom pequeno almoço, com ovos e torradas, e partimos os três visitar o local onde, dois anos antes, se tinham casado, no alto da montanha com vista deslumbrante sobre o mar, semelhante aquele onde tinha estado no dia anterior. Passámos depois a visitar um amigo deles que tem uma exploração de laranjas na serra. Ali plantam as laranjeiras em declives muito acentuados e para recolherem as laranjas têm, cada um dos agricultores, uma linha férrea em miniatura com uma pequena locomotiva, de cerca de um metro de comprimento e duas carruagens que descem e sobem o íngreme terreno.
Fomos depois almoçar os quatro ao que me pareceu o único restaurante da aldeia, junto à praia, para depois me despedir deste simpático casal e do agricultor japonês, que já falava um pouco de inglês, ensinado pelo artista sérvio.

17 de agosto de 2016

Saiki - Kyushu



Depois de um dia de passeio fantástico através das montanhas, com estradas fabulosas, com pouco transito e sem um policia à vista, o que me levou a escandalizar mais uns japoneses, destabilizados nos seus passeios pela passagem de uma moto ao dobro da velocidade deles, parei num café para perguntar se sabiam de um Hotel. Ainda estavam fechados mas, vendo um estrangeiro, duas meninas vieram abrir-me a porta numa excitação. Não falavam uma palavra de inglês mas por gestos, estou perito em mímica, lá disse que procurava um Hotel. Foram logo buscar mapas e números de telefone enquanto chamavam a cozinheira que, sendo filipina, arranhava umas coisas de inglês. Estivemos ali na risada e entretanto foram falando para vários hotéis da zona até encontrarem um, a cerca de 30 Km.
Entretanto, fora do restaurante, a fazerem-me muitos gestos à janela, estava um grupo de meninas dos seus 14 anos fardadas da escola, também excitadíssimas por verem um estrangeiro. Disse-lhes adeus e quando saí vieram rodear a moto a pedir-me “sign, sign”. Não queriam propriamente um autógrafo mas simplesmente a assinatura de um ocidental em caracteres que não os seus. Disse-lhes que sim e foram a correr buscar papéis e canetas. Quando lhes disse que me chamava Francisco uma delas respondeu logo: “Ha, ha. Francisco Xavier”.
Aprenderam no colégio que S. Francisco Xavier foi quem trouxe o catolicismo para o Japão. Mesmo que não tenha tido muito sucesso 1% dos japoneses são católicos, o que dá qualquer coisa como um milhão e duzentos mil.
Cheguei ao Hotel pelas seis da tarde e mais uma vez as meninas da recepção faziam muitas vénias mas não falavam uma palavra de Inglês.
Andava há dias com um problema por não conseguir encontrar uma ficha que me permitisse carregar o computador. As tomadas japonesas têm dois rasgos ao alto e se nos hotéis da ilha principal tinham sempre esses adaptadores nesta ilha, por não terem turistas estrangeiros, nenhum tinha. Estava a explicar o problema à gerente, uma rapariga dos seus 35 anos, quando ela disse: “Venha no meu carro que eu levo-o a uma loja que conheço”. Lá fui com a rapariga, a dez à hora, sem muita esperança de encontrar o adaptador. Até nas passagem de nível abertas eles param para ver se vem algum comboio.
Chegámos à loja e havia mesmo a peça. Fiquei tão contente que lhe dei um beijo na cara. Ela, habituada desde sempre a falar a estranhos através de vénias, ficou atrapalhada mas gostou do afecto porque antes de entrarmos no carro levantou a mão para eu bater contra a dela e, no dia seguinte, quando estava a tomar o pequeno almoço, veio bater a uma janela que havia entre a recepção e o restaurante para me dizer adeus, com um ar maroto.
Naquele hotel o terrível jantar estava incluído na estadia e estava eu já no quarto quando ouvi bater à porta muito suavemente. Pensei que não era nada e continuei no computador mas passado meio minuto novamente um bater muito leve. Fui abrir a porta e estava uma das meninas da recepção a tentar explicar entre muitos sorrisos que se tinha esquecido de me pedir o ticket do jantar. Ah, claro. Lá lhe dei o ticket e fiquei, de porta aberta, à espera que ela acabasse as infindáveis vénias e, sem querer ser desagradável, ia fazendo também umas poucas.  Extraordinário.

16 de agosto de 2016

Taketa - Kyushu




Quando deixei a fabrica da Honda comecei por subir ao monte Aso, por trás da fábrica, por recomendação de um dos japoneses. Lá no alto atravessei um enxame de gafanhotos que batiam com força contra a carenagem e o capacete, felizmente fechado.
Mas a vista lá de cima compensou. Fabulosa, com um raio de 180º sobre um imenso vale que parece ter resultado da erosão sobre uma ou várias crateras de vulcão. Fiquei um bom quarto de hora parado, no alto, a respirar aquela vista.
Arranquei depois rumo a oriente, atravessando esta ilha Kyushu para a costa oposta. A princípio, ainda perto da fabrica, apanhei algumas estradas cortadas e outras em reparação, por terem caído com o tremor de terra, mas uns quilómetros à frente já estava a percorrer fantásticas estradas de montanha com pouco transito e sem policia. Um gozo.
Pelas cinco da tarde pensei em encontrar um hotel onde ficar mas não via nenhum. Até que apanhei um posto de informações. A senhora gorda, com a cara tapada por uma destas mascaras de papel, como se vê aqui bastante, indicou-me um hotel demasiado caro para o meu orçamento pois os na casa dos 50 euros estavam esgotados. Pedi-lhe que procurasse mais barato e o disponível era uma pequena pensão.
-Boa! Quanto custa?
-15 euros pelo quarto mais cinco pela cama.
-Mas alugam o quarto sem cama?
-(a rir-se)Não sei. É o que vem aqui.
-Tudo bem. Então reserve um quarto e uma cama. Tudo à grande.
Quando lá cheguei uma simpática senhora que não falava uma palavra de inglês, como todas as outras por aqui, esperava-me cá fora não fosse eu não ver a pensão na estrada. Indicou-me o quarto, do tipo japonês, ou seja, vazio.
Tinha uma espécie de edredon no chão que fazia de colchão, com lençóis lavados. Pedi mais dois para colocar debaixo daquele e instalei-me. Quando perguntei onde podia jantar, tudo por gestos, estou perito em mímica, a senhora fez uma careta e ligou para o único restaurante da aldeia. Estava fechado por ser segunda.
Pensou um pouco e decidiu ligar a um vizinho para que me desse de jantar. Deve se hábito porque o vizinho prontificou-se logo a cozinhar-me jantar. Ainda pelo telefone perguntou-me o que queria e como “curry” foi a única palavra que percebi foi o que escolhi. Combinei estar em casa do vizinho às oito.
Lá estava ele ao fogão a acabar de cozer o arroz e um lugar posto para mim na mesa. Arranjou-me uma cerveja que aqui já aprendi chamam “Biko”. Tinha acrescentado uns panados de porco à ementa com medo que eu não me alimentasse só com o Curry e no fim cobrou-me 9 euros pela refeição. Fantástico.
Dormi bem mas no dia anterior tinha dado um jeito nas costas e naquela manhã, talvez pela estrutura da “cama”, estava pior. Vi-me aflito para me levantar mas tomei uma aspirina, o único remédio que viaja comigo para além de betadine para as feridas, mordidas de insecto, etc., e lá consegui pôr-me de pé. Fui a uma mercearia comprar um iogurte e pão para o pequeno almoço e parti, pelas dez da manhã, visitar, de barco a remos, umas cascatas sobre um pequeno rio.
Estive por lá cerca de hora e meia e segui viagem por estas estradas de montanha fantásticas da ilha de Kyushu.  

14 de agosto de 2016

Kumamoto - Japão




Já fora da autoestrada encontrei o que eles chamam um “Business Hotel” que são uma espécie de Ibis lá da zona. Há várias cadeias mas têm todos uma coisa em comum. As casas de banho foram certamente encomendadas ao mesmo fornecedor e parecem as dos barcos. Uma espécie de cubos pré fabricados que aplicam num canto do quarto, aliás ao estilo dos Ibis. Mas são funcionais.
Nestes hoteis, o preço por noite ronda os 55 euros mas algumas vezes inclui jantar. Só que a cozinha japonesa de restaurante de meia tijela é mesmo fraca. A sopa é de legumes, sempre igual e má e os restantes pratos à base de arroz temperado com algum molho feito com peixe ou fritos de alguma espécie e legumes estranhos. O que vale é que sou de pouco alimento e por isso durante o dia normalmente compro uma sandwich, um sumo e uma banana no caminho e só à noite levo com a refeição de Hotel.
Quando cheguei as meninas da recepção anunciaram-me que nessa noite havia um festival ali perto dedicado ao Obon que é um período no ano, de três ou quarto dias, em que os japoneses se reúnem em família, normalmente nas suas terras de nascença, para lembrarem os familiares mortos. Embora sejam supostamente budistas a maioria dos japoneses liga pouco à religião mas seguem estes costumes.
Fui assistir a esse festival onde aconteceu um fenómeno estranho. Em Agosto aqui está sempre muito calor e o céu por vezes esta um pouco nublado mas  chove pouco. Pois a meio do festival, pelas oito da noite, o céu abriu-se e começou a chover, e forte. Parecia que os Deuses estavam a abençoar a cerimónia. Consistia em danças que parecia misturarem-se com artes marciais iluminada por centenas de tochas carregadas por miúdos. Fantástico.
Gosto de assistir a este género de cerimónias locais, fora dos circuitos turísticos. Nesta ilha ainda não encontrei nenhum estrangeiro e é talvez por isso que me tratam tão bem.
No dia seguinte arranquei pelas oito e meia da manhã, depois de um pequeno almoço de sopa de legumes e arroz pois nestes hotéis de província muitas vezes não há pão, que os japoneses não o comem.
Parti por estreitas estradas de montanha, aqui já com pouco transito, até à fabrica da Honda, perto de Kumamoto. 
Ao meu encontro vieram o engenheiro chefe do projeto “Cross Tourer” e de outros modelos, outro engenheiro de pesquisa, o chefe de comunicação da fabrica e um ajudante da parte técnica que, já de capacete enfiado, pediu para levar a minha moto. Os outros fomos beber um café e conversar sobre a minha viagem e a fabrica com os problemas que teve com o tremor de terra que praticamente destruiu o seu interior. Tinham retomado a produção há três ou quatro semanas mas ainda em pequena escala, fabricando cerca de 300 motos por dia em vez das habituais 700. A semana passada tinham estado a produzir a nova Africa Twin que tem sido um sucesso mundial, com milhares de clientes à espera da sua, depois da produção ter parado quase três meses.
Normalmente não poderia ver a linha de produção nas condições em que estava a funcionar mas, perante a minha insistência, lá deixaram. A linha reduzida obriga a que mais peças sejam montadas por cada trabalhador e a montarem as 750 bicilíndricas naquele dia estavam desde uma miúda gira de 18 anos que achou muito divertida a minha visita, até um rapaz dos seus sessenta, todos em perfeita sintonia.
Num local à parte apenas dois funcionários montavam uma das duzentas e poucas RC, réplicas da moto de GP (garantiram-me que o quadro, braço oscilante, etc. são os mesmos, assim como grande parte das peças do motor, suspensão, travões, etc.). 180.000 euros de moto de estrada. A mais próxima de uma MotoGP que alguma vez foi fabricada, garantem.
Ao fim da manhã reunimo-nos para uma fotografia de grupo com o pessoal de desenvolvimento de produto, que adoraram a minha visita, e a minha moto onde, para minha surpresa, tinham montado pneus novos, que os que lá estavam já tinham muito pouco piso, proteções de punhos novas, que estavam partidas e um novo vidro de carenagem, a voltar a ser transparente. Fantástico.