Voltei para trás à procura do Hotel. Era um dos tais moteis alugados à hora,
com um mural manhoso em que se podia ver um casal em pose romântica. A imagem
contrastava com o recepcionista, que saiu da pequena cabine à entrada, de
metralhadora a tiracolo. Pediu-me 30 dólares pela estadia mas quando me queixei
do preço ligou para o patrão que apareceu a dizer que eram 20. Por ali fiquei,
já a noite caída e sem alternativa. Pedi que mandassem vir qualquer coisa para
jantar da vila. Escolhi frango da lista que estava exposta numa das paredes do
quarto, a fazer de quadro. Passadas duas horas em que me entretive a colocar a
escrita em dia, pois nem Internet tinham, o patrão bateu-me à janela a anunciar
que não tinham frango e pedi então uma espécie de panquecas com queijo no meio que chegaram dez minutos depois.
Quando parti fiz 200 Km até à fronteira. El Salvador é um país pobre, com
menos de 300 Km de comprimentos, mas uma população que ultrapassa os seis
milhões, sujeito a várias catástrofes
naturais por estar numa zona sísmica, com vinte vulcões, dois deles com alguma
actividade, como pude observar ao longe. Para além disso têm tido ora períodos de
grave seca ora de enormes cheias.
Percorri o resto o país pela estrada que segue perto da costa. Já perto da
fronteira parei para assistir um pouco a uma cerimónia religiosa que se
realizava num descampado junto à estrada e que tinha a curiosidade de ser acompanhada
não só por um conjunto de viola e bateria como por três ou quatro cozinheiras
que preparavam umas panquecas para distribuir pelos crentes. Ofereceram-me até
um sumo.
Quando cheguei à fronteira já me esperava um tal Sr. Lino, há dois dias,
pois tinha sido enviado pelo homem que me tinha ajudado a tratar dos papéis na
entrada.
- Sr. Francisco, o Português?
- Sim.
- Eu sou o Lino. O José disse que o senhor se ia lembrar do meu nome porque
tem um amigo com o mesmo nome.
Este era menos eficiente que o colega, para além de aldrabão, de maneira
que ficou triste quando só lhe paguei dez dólares.
Foi bom nesse dia ter vestido as calças do fato e as botas porque muitas
vezes, quando está calor, viajo de jeans e sapatos de ténis. Quando arranquei junto
à fronteira, um Pit Bull trincou-me uma
perna e veio a arrastar, puxado pela moto, sem largar. Furou-me as calças do fato com os dentes
mas não ultrapassou as botas. Se venho de jeans estava tramado.
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