9 de maio de 2019

Costa do Marfim



Fui direito a Abidjan, a cerca de 180 Km. Entramos na cidade pela costa. Do lado direito barracas, enquanto o lado esquerdo, a dar para o mar, dá ideia de ser uma zona onde projectam construir bons prédios pois são uns 300 metros até à praia já limpos de lixo. A cidade é moderna, com avenidas largas. 
Fiquei num turismo de habitação de onde já não saí essa tarde. Tomei um duche, almocei e fiquei a por a escrita em dia. 
De manhã fui à Embaixada da Guiné Conakri tratar do visto, o que me havia levado à cidade.
O responsável pelos vistos era simpático e brincalhão.
- Precisava do visto ainda para hoje, se possível, pois queria partir amanhã.
- Normalmente só dentro de quatro dias
- Veja lá se consegue fazer-mo hoje?
- Vou tentar, mas não prometo nada.
- Quanto custa, que tenho que levantar dinheiro?
Com cara séria respondeu:
- 549.000 Francos CFA (cerca de 800 Euros)
- Quanto? Está a brincar.
- Não. São 549.000. Vá lá tratar das fotografias e fotocópias.
- Diga lá quanto é. Tenho que levantar dinheiro.
- 50.000
Do outro lado da rua dois homens pedem para me sentar numa cadeira de plástico de costas para o muro. Um deles estica um pano branco por trás enquanto o outro tira a fotografia com uma máquina digital de fraca qualidade. Rio-me com a situação.
- Não pode estar a rir na fotografia.
Imprimem-nas logo ali, no passeio, com uma mini impressora. Só mesmo em Africa.
As fotocópias de Passaporte, Carnet e Boletim de Vacinas foram tiradas numa lavandaria, um pouco à frente.
Fui levantar dinheiro a um Multibanco na outra esquina e dez minutos depois estava de volta à Embaixada, uma casa que já foi boa mas muito degradada, com um resto de água suja no fundo da piscina.
- Passe por cá às duas e meia da tarde. Olhe que fechamos à três
Estava outro homem a pedir urgência no visto.
- Não. Só terça feira
- Mas este senhor…
- Este senhor tem duas mulheres à espera dele na Guiné. Se não parte amanhã elas vão-se embora.
Voltei ao Hotel e fiquei por lá a descansar e escrever.
Arranquei para o Norte por volta das onze. A saída de Abidjan para o Norte é um inferno de transito onde mesmo as motos têm dificuldade em conseguir passar entre carros e camiões, com vendedores ambulantes à mistura, que correm atrás dos carros fazendo as transacções em andamento. Um sistema que já vira noutros países africanos. Custa a crer que não sejam atropelados vários por dia.
Numa das paragens, junto a um camião ao qual mudavam as pastilhas de travão, ajudando a empatar o transito, juntaram-se meia dúzia de populares a fazerem perguntas sobre a moto e, quando os filmava, constatei que um tinha uma camisola da selecção portuguesa de maneira que não pude deixar de fazer uma “selfie” com o homem.
Quando passa a barafunda apanhamos uma óptima autoestrada, muito ao estilo das americanas, com duas faixas para cada lado e sem “rails” de protecção mas um separador central largo com uma vala no meio, para recolher águas da chuva e acidentados.
Passados 30 Km, porém, acaba a autoestrada e passamos para uma estrada típica africana das que são supostamente asfaltadas mas que têm tantos buracos abertos no pavimento que quase seria preferível não serem. Ao passar em Yamoussoukro chamou-me a atenção uma imponente catedral, que ao longe me parecia uma mesquita. Dei lá um salto mas estava fechada para visitas.

Cheguei à vila de Bouafle pelas quatro e meia da tarde e não vi um Hotel minimamente decente de maneira que decidi ir até Seguela na esperança de lá chegar ainda de dia. Asneira. A ultima meia hora já a tive que fazer de noite o que, nestas estradas, é perigoso e chato. Acabei por cair em três grandes buracos que podiam ter feito danos em pneus, jantes ou suspensão. Felizmente não houve drama pois se tenho possibilidades de reparar um furo causado por um prego, um rasgão num pneu obrigar-me -ia a ter que desmontar a roda e esperar em alguma cidade que me enviassem um pneu de Portugal. Nesta parte de Africa seria totalmente impossível encontrar um.

7 de maio de 2019

Ghana


Não tinha visto de entrada na Costa do Marfim mas pensei que, tal como nos últimos três países que havia atravessado, o poderia obter na fronteira.
Assim, depois de percorridos os cerca de 200 Km que me separavam da fronteira, carimbei a saída do Ghana no dia em que o visto de três dias que me haviam concedido acabava. Quando cheguei ao posto da Costa do Marfim disseram-me que não, que não poderia tratar ali do visto e teria, ou que regressar à embaixada em Accra, de onde havia saído dois dias antes, ou tratar do visto pela internet.
Convenci os guardas do lado do Ghana a deixarem-me entrar no país sem carimbar o passaporte só para ir à vila junto à fronteira tratar do visto e fui até um agente de companhia de telemóveis aceder à internet.
Procurei o site para o visto no google e fui enganado por uma companhia que não vi tinha sede em Gibraltar e se fazia passar por um departamento estatal do Ghana. Paguei 139 Euros com o cartão de crédito e imprimi o recibo.
Ao voltar à alfândega da Costa do Marfim disseram-me que o papel não era válido e havia sido enganado, até porque o visto custava 73 Euros e não 139.
Desta vez um guarda acompanhou-me aos guardas do lado do Ghana. Sentia-me um clandestino e trataram-me quase como tal. O meu visto para o Ghana havia caducado e, por isso, para regressar ao país, diziam-me que teria que tirar outro, com um custo de 150 Dólares.
Fui pedindo para falar com o chefe de cada chefe até que o mais graduado sugeriu que um guarda me levasse a um Hotel, onde eu ficaria para tratar do visto pela internet, conservando eles o meu passaporte na fronteira. Assim foi. Segui a pequena moto de um dos guardas até um primeiro Hotel, que não tinha Internet. À saída tive que colocar a moto do guarda a trabalhar porque ele não o conseguia fazer. No segundo Hotel disseram que tinham internet e por lá fiquei, quase como preso pois não tinha o Passaporte comigo.
O patrão era um idiota que foi na altura comprar tempo de internet e passados pouco mais de dez minutos de eu a utilizar disse que a iria cortar porque estava a consumir muito. Ainda consegui enviar o pedido correcto e receber o comprovativo de pagamento antes da besta desligar o sistema. Eram nove da noite e não havia comido nada desde o pequeno almoço, o que alimentava o meu sentimento de dar um murro no homem, só contrariado devido ao tamanho do animal.
Lá consegui que a parva da menina da recepção me fosse fazer um espaguete que até tive medo pudesse estar envenenado, tal era o ambiente na altura.
Na manhã seguinte pedi, infrutiferamente, que me voltassem a ligar a internet para imprimir o documento. 
Felizmente encontrei na vila um agente Vodafone onde os miúdos eram muito simpáticos e resolveram a situação. 
Finalmente conseguia entrar na Costa do Marfim, depois do guarda do Ghana insistir para que lhe desse uma gorjeta, em frente de todos os outros sem qualquer pudor. Quando eu, já pelos cabelos, lhe propus o equivalente a dois euros para uma Cerveja, apontou para os seus galões no ombro e disse:
- Não está a ver bem. Já viu a minha graduação? Acha que podia aceitar isso? Vá, dê-me lá uma coisa de jeito. Não dei.

6 de maio de 2019

Togo




Decidi ficar mais um dia em Porto Novo.
Visitei a cidade, famosa pelo seu festival de Vudu, que atrai milhares de visitantes no mês de Janeiro de cada ano e, a conselho do director do Hotel, visitei as diversas praças que foram restauradas com a ajuda de vários artistas onde estão expostas obras executadas com materiais que resistem à chuva, a forma que encontraram para as mostrarem ao ar livre, à falta de um local fechado. Muito interessante.
Antes de partir para o Togo visitei a fortaleza de S. João Baptista de Ajudá. Construída pelos portugueses, em 1680, no Reinado de D. Pedro II, foi posteriormente abandonada e reedificada em 1721, já no reinado do D. João V, com financiamento através de imposto sobre os escravos vendidos no Brasil. Na cidade já existiam fortalezas de Holandeses, Franceses e Ingleses, para protecção ao comércio de escravos. 
Nada melhor que dar à fortaleza o nome de um santo para suavizar a brutalidade da sua utilidade.
Quando foi decretada a abolição da escravatura os restantes países que tinham fortalezas na região destruíram-nas antes de abandonarem o território mas os portugueses, como Miguel Sousa Tavares conta no seu “Equador”, embora tivessem tomado a inciativa de abolição da escravatura no continente, deixaram de a praticar no Brasil mas continuaram com o seu comércio nas roças de  S. Tomé e Principe, mantendo assim aquela que se tornou na mais pequena colónia existente no mundo, resumindo-se à implantação do muro exterior da fortaleza.
São João Baptista de Ajudá ficou assim como território Nacional mesmo depois de abandonada definitivamente a escravatura e só a perdemos quando, já nos anos sessenta do século XX, depois do Benin se tornar independente e pedir que a abandonássemos, Salazar mandou aos poucos que lá viviam que pegassem fogo às instalações antes de fecharem a porta.
Um quarto de século mais tarde o governo local decidiu recuperar as instalações como museu e a Fundação Gulbenkian ofereceu-se para custear as obras. Agora precisavam de lá voltar pois a edificação encontra-se muito degradada, por não ter sido mantida, e importantes documentos, aguarelas, mapas da época, etc., estão em risco eminente de se tornarem irrecuperáveis.
De ali segui para o Togo, igualmente pobre e também calmo. Fui até Lomé, a capital, dei uma volta pela cidade, bastante moderna para o nível africano, e procurei um Hotel através do GPS. Não era grande coisa mas tinha um bom Wi-fi. Saí a pé para jantar numa tasca perto uma sopa de carne e um ovo cozido. Muito picante mas optima.
Na manhã seguinte parti para o Ghana, uma ex colónia Inglesa e onde, portanto, falam inglês, ao contrário dos países vizinhos onde se fala francês, mesmo se a maioria destas populações fala o seu dialecto no dia a dia e não a língua dos colonizadores.
Fiquei a primeira noite em Accra, a capital e, a caminho do Ocidente, marquei, para o segundo dia, um Hotel junto a um parque natural que queria visitar.
Ao jantar no Hans Cottage Botel, conheci um simpático alemão que viajava com a filha pelo Ghana, onde havia estudado em miúdo, em duas pequenas motos que ali adquirira para os quinze dias que passavam no país, uma forma de viajarem bem mais divertida que o aluguer de um carro.   
O Kakum National Park tem a particularidade de umas pontes em rede e madeira, penduradas em árvores até 40 metros de altura, que permitem aos visitantes apreciarem a floresta de outro angulo, o de um pássaro ou macaco. Um sistema interessante que foi montado há uns vinte anos por dois Canadianos com o apoio do Governo Americano e que os locais dizem ser muito bem mantido e seguro. 
- Estejam à vontade que isto está feito para aguentar com o peso de dois elefantes.
Não longe visitei o que foi a primeira e maior fortaleza construída pelos portugueses naquela costa, a de Lamina. 
Antes de negociarem escravos os portugueses  faziam ali trocas comerciais de vários produtos com os nativos e, por haver ouro na região, ter-lhe-ão dado este nome que, estranhamente, é Espanhol. Mantivemos o forte durante cerca de 150 anos, até ser conquistado pelos Holandeses que, mais tarde, o venderam aos ingleses, já sempre para ser utilizado como comércio da escravatura. 
O guia, africano, repetia os maus tratos e barbaridades a que os escravos eram sujeitos na altura, olhando para mim, o único branco no grupo, como se eu fosse responsável por tamanha crueldade. Fui olhando para o lado, disfarçando e tirando fotografias.
Percorria a estrada principal do país, junto à costa, quando, pelas três da tarde, vi um sinal a indicar um resort junto à praia. Achei que era bom local para ficar e fui até lá.
Almocei no restaurante junto à praia e aluguei um bungalow.

Depois do almoço dei um mergulho mas a orla de praia estava cheia de sacos de plástico que também boiavam na água do mar. Tomei um duche e voltei para a esplanada beber uma cerveja e enviar uns mails quando, pelas cinco da tarde, vi entrar uma rapariga alemã que encontrava pela terceira vez naquele dia, depois de a ter visto, ao longe, no passeio em altura da floresta e na fortaleza de Lamina. Meti conversa, jantámos juntos e ficámos até o bar fechar, às onze da noite.

5 de maio de 2019

Benin



Com todos os obstáculos que encontro e a estrada a variar entre autoestrada de piso razoável mas com todas aquelas armadilhas e estrada muito esburacada, a acrescentar a uma atenção a todos os carros porque passo, verificando se os passageiros podem ter um ar suspeito, cheguei às quatro da tarde cansado, quando o pior estava para vir.
Um monovolume, com quatro homens dentro, ficou cerca de um minuto a circular ao meu lado, o passageiro ao lado do condutor a olhar-me fixamente enquanto falava ao telefone. Achei a situação estranha e, ao passarmos junto a uma bomba de gasolina, travei forte e entrei para a bomba, sem tempo deles reagirem. Fiquei ali parado uma meia hora mas, quando arranquei, passados uns quilómetros, vinham eles a circular devagar na faixa da direita. Acelerei e fugi. Uns quilómetros à frente um engarrafamento permitiu que me perdessem de vista definitivamente.
Fui seguindo o GPS que tenho fixo da moto mas, de vez em quando, confirmo o trajecto pelo Maps-me no telemóvel, em que confio mais.
Acontece que desta vez o Maps-me, escolhendo o trajecto mais curto em vez do menos demorado, “enviou-me” através da cidade de Lagos. É um caos completo. As ruas têm enormes buracos por todo o lado e, com a quantidade de transito que a cidade tem, parece não ser possível pará-lo para as reparar. Circulam não só carros e pequenas motos em quantidade como Tuc Tucs e camiões de todos os tamanhos, com cargas pesadíssimas, que ajudam a degradar mais as ruas, com enormes crateras, que causam engarrafamentos sucessivos nos locais em que os condutores as evitam, formando-se uma fila única. Por vezes nem as motos conseguem passar pelos carros e camiões parados. A temperatura, como habitualmente ao longo de todo o meu trajecto africano, tem rondado os 35º de maneira que a situação me deixou muito cansado e me fez perder duas horas.
Sempre havia considerado o transito na India o mais perigoso do mundo, por ser caótico, sem regras. Agora mudei de opinião. Aqui não é tão desorganizado mas quase e tem a agravante de circularem bastante mais depressa que na India e serem muito mais agressivos. Por vezes penso mesmo que me estão a tentar atirar ao chão. Por esse motivo vi aqui mais desastres que no país asiático. Um deles foi uma carrinha de nove lugares que acabara de capotar  numa via rápida de Lagos e logo vinham bandos de populares correr para roubarem o que pudessem, a feridos e ilesos, distraídos com a confusão que se gerou.

Cheguei à fronteira com o Benin ao fim da tarde deste terceiro dia. Foi um alívio deixar a Nigéria, o único país no mundo em que não me senti confortável. Espero nunca ter que lá voltar.
Com 180 milhões de habitantes, é o país mais populoso de Africa. A população continua a aumentar a um ritmo elevado e as autoridades não têm meios para controlar a criminalidade, que se propaga assustadoramente. Ficamos com a ideia que o país é um barril de pólvora pronto a explodir. 
Depois da burocracia da saída da Nigéria, com vários tipos a verem o meu passaporte e repetirem as mesmas perguntas, na entrada do Benim estava um único homem, numa pequena barraca de madeira. Sabia o que era o Carnet, olhou para o visto que eu havia imprimido numa folha de papel depois de o pedir “on line” e logo colocou o carimbo no Passaporte. Confirmou comigo onde colocar o carimbo no Carnet e, em dois minutos, a parte burocrática estava despachada. 
Só que o homem, dos seus 30 anos, atlético, era falador. Começou por falar sobre a maneira como os brancos continuam a tratar os africanos como se fossem atrasados mentais e contou-me que tinha curso universitário e era mestre numa arte marcial de que não me lembro o nome. A conversa vinha a propósito de um francês, num curso militar, que o teria desconsiderado devido à sua cor de pele. Expliquei-lhe que a maioria dos franceses, ao contrário dos portugueses, são racistas e idiotas e que, mesmo no tempo do colonialismo nós tínhamos uma relação com os africanos única, que se mantem até aos dias de hoje, em Africa, no Brasil ou em Timor. O homem simpatizou comigo e, não tendo mais clientes a atravessarem a fronteira aquela hora, ficámos à conversa uns bons vinte minutos. O problema era que ficava de noite e eu evito o mais possível circular sem luz de dia, por ser tão mais perigoso. Lá lhe disse que tinha que seguir viagem e, quando me preparava para arrancar, ele deixou a barraca onde estava sentado e veio ter comigo oferecendo-me uma fisga, daquelas que fazíamos em miúdos, como recordação. Simpático.
Entrei no Benin ao lusco fusco e rapidamente anoiteceu. Felizmente tinha marcado Hotel naquela manhã. A estrada de entrada no país é muito esburacada. Percorri os 30 Km que me separavam da cidade seguindo pequenas motos que pareciam conhecer o piso e evitavam os buracos maiores.
O Hotel era num bairro pobre de ruas de terra com buracos e poças mas interessantíssimo pois pertencia a um artista plástico e funcionava também como galeria de arte, com a exposição de obras de pintura e escultura de artistas de Porto Novo. 
Que contraste com a Nigeria. Como podem países vizinhos serem tão diferentes.

O nome de Porto Novo foi dado à capital do Benin pelo navegador português que, quando ali chegou, a achou parecida com o nosso Porto. Não consegui encontrar qualquer semelhança.

4 de maio de 2019

Nigeria 2



Na manhã seguinte segui o conselho do Alexandre e rodei uns 100 Km para Norte, atravessando o parque natural. A estrada varia entre alcatrão razoável, outro muito esburacado e algumas partes em terra, também em mau estado. O ambiente geral é melhor e numa das vilas parei junto a uma pequena oficina de motos para pedir uma chave de bocas emprestada que me permitisse apertar o suporte do GPS, que sofre muito nos maus caminhos por onde me leva.
Pela hora do almoço parei noutra vila quando vi uma família à porta de uma mercearia com um ar simpático. Almocei um pacote de amendoins e uma Coca Cola e fiquei um pouco à conversa.
Do outro lado da rua havia uma discussão entre dois “portageiros” das vilas, o que por aqui é comum.
À entrada e saída das vilas e cidades eles têm grupos de populares que simplesmente pedem portagens a carros e camiões. Estão munidos de grandes paus com que ameaçam os veículos que dão sinais de não abrandarem e batem-lhes se não param. De vez em quando zangam-se uns com os outros e, por vezes, há vários grupos distintos, à entrada das cidades maiores. Aí há condutores que fazem sinal que vão parar no seguinte e assim passam de grupo em grupo sem pararem. Alguns camiões também preferem levar umas pauladas na carroceria e ouvirem os gritos dos “portageiros” que pagarem portagem. Felizmente as motos, por normalmente pertencerem à faixa da população mais pobre, estão isentas.
Nas paragens para reabastecer também fico a descansar um pouco e acabo à conversa, normalmente com jovens curiosos. Com um deles fiz até amizade no Facebook.
Cheguei a Benin City, uma das maior cidades nigerianas, estafado. Tinha marcado o Hotel pela internet essa manhã para não ter que andar à procura pela cidade, aumentando o risco de assalto.
Os Hoteis aqui, mesmo os de classe média alta onde fiquei, funcionam muito mal. No de Calabar a internet só funcionava no corredor do andar onde estava de maneira que trazia uma cadeira do quarto para o corredor para estar “on line”. Ao jantar pedi um esparguete Carbonara mas, sem me avisarem, trouxeram um Bolonhesa.
- Mas eu pedi Carbonara, não foi Bolonhesa.
- Não havia.
Quando me deitei senti que a capa do edredom não era lavada e, por isso, no Hotel de Benin City fiz uma inspecção aos lençóis logo que lá cheguei e pedi que os mudassem por terem nódoas, embora estivessem muito bem esticados, como se estivessem lavados.
De Benin City a estrada até à fronteira com o Benin é em grande parte uma autoestrada mas muito “sui generis”. Os populares partem o passeio central em cimento em cada local onde há uma feira, para que os clientes que vêm na faixa contrária possam atravessar a auto estrada.
Para além disso apanhei vários carros em sentido contrário. Um deles deu a volta uns 150 metros à minha frente porque ter-se-á enganado no local onde pretendia sair. Eu ía a 130 Km/h. Travei e fiquei a vê-lo hesitar se havia de se encostar à direita, como se viesse numa estrada de via única ou à esquerda, junto à berma. Por fim decidiu-se pela esquerda e lá o deixei do meu lado direito.
A polícia, para fazer abrandar os carros de forma a mandarem parar os que pretendem controlar, montam obstáculos de troncos de arvores amontoados, de um e outro lado da via, formando uma “chicane”, sem qualquer outro sinal de aviso. Quem for distraído esbarra contra os paus, o que não os parece incomodar minimamente. 
Grupos de vendedores ambulantes também por vezes montam estes obstáculos ou até com bidões, para que os carros abrandem e lhes possam vender os seus produtos, normalmente bebidas e alimentos mas também caixas de fósforos e tudo o mais que se possa imaginar.
Quando há um desastre na autoestrada e os veículos ficam em estado de não poderem ser recuperados, são abandonados no local em que se encontram, formando assim outra forma de obstáculos na via. Ninguém os retira, os donos por não se justificar o gasto, a polícia certamente por não conseguir forma de o cobrar. Aliás não vi um único reboque na Nigéria pois os carros ou são reparados no local, como acontece a maior parte das vezes, ou puxados por outros carros.
O mais insólito foi ver um Mercedes que tinha batido por trás num camião que estaria parado na auto estrada. O carro viria a alta velocidade e entrou por baixo do camião ficando o tejadilho ao nível do capot até mais de metade e pegando fogo, ardendo por completo. Condutor e possíveis passageiros morreram no acto, sem qualquer hipótese de sobrevivência. Os seus restos mortais continuavam dentro do veículo pois não tinha sido feito nada para o retirar da posição em que estava, provavelmente há meses. Não tinham tentado sequer abrir as portas, que aliás seria impossível sem retirar o carro debaixo do camião. Os familiares terão pensado que seria um custo financeiro sem qualquer retorno e a policia terá concluído que, estando os corpos queimados, não havia perigo de transmissão de doenças, etc.

Um pouco mais à frente um homem nu, certamente vindo da floresta adjacente, caminhava tranquilamente pela berma da autoestrada com ar de “zombie”. Provavelmente teria comido alguma erva alucinógena estragada.

2 de maio de 2019

Nigeria 1

Chegámos a bom porto. 
Do lado de terra vários homens discutiam entre si, oferecendo-se para tratarem do desembarque da moto que, sem rampa de acesso, teria que ser descarregada através de tábuas colocadas para o efeito. Um processo que me faz sempre aflição, com medo que chegue o dia em que a moto cai ao mar.
Primeiro disseram aos passageiros que esperassem dentro do barco para depois nos dizerem que nos dirigíssemos aos escritórios do porto. A desorganização é total mas, caricato, a tripulação comunicou-nos que teríamos que colocar um colete de salvação para passar a rampa de saída, com protecções laterais, provavelmente a única peça naquele barco que oferecia total segurança. 
“Ordens da capitania, para vossa segurança”.
Nos quinze dias anteriores ao embarque para a Nigéria o embaixador português no país tinha-me enviado nada menos que seis emails a tentar persuadir-me a não o atravessar.
Não venha. É loucura total. Perigosíssimo. Raptam pessoas todos os dias. Principalmente estrangeiros. Nós só vamos para o aeroporto com escolta policial. O ultimo português raptado foi morto. Os grupos de raptores já distribuem entre eles uma tabela com os valores de resgate a pedir por cada estrangeiro, conforme a nacionalidade.
E mandou-me um mapa com manchas de várias cores que preenchiam todo o país diferenciando as zonas por maiores probabilidades de rapto, criminalidade, terrorismo, venha o diabo e escolha. 
Pensei que um português velho e gasto não devia estar muito bem cotado naquela tabela dos raptores. 
Outra questão que colocava a mim mesmo era que, sem dinheiro pessoal para pagar qualquer tipo de resgate decente, seria que o Costa estaria disposto, nestes tempos em que está difícil cumprir a meta do défice e em que a Segurança Social pode ter os dias contados, a gastar um tostão que fosse para salvar um tipo que está perto da idade da reforma e que, daqui para a frente, só dará despesa ao Estado?

Quando o embaixador concluiu que os seus esforços eram em vão e eu iria mesmo atravessar o país ligou-me, no dia anterior ao da partida.
- Já vi que não o consegui convencer. Pelo menos siga o meu conselho. O seu único trunfo é o factor surpresa. Por isso não pare em lado nenhum, seja porque razão for, nem que tenha que fazer chichi nas calças em andamento.
A entrada no país começou mal. Nos escritórios da alfandega passei por uns dez funcionários entre verificação de passaporte, carimbo, leitura de impressões digitais, verificação do boletim de vacinas, etc. etc. Até uma simpática senhora me apontou um termómetro à testa, para ver se entrava no território com febre. Foi a única que não me pediu uma gorjeta. Recusei a todos, obviamente. 
No meio da confusão o homem que se encarregou do desembarque da moto dizia-me que me levaria a sair por uma porta secundária do porto em que não teria que passar por todo aquele processo.
- Não. Quero fazer tudo segundo a lei, não vá o diabo tecê-las.  
Enquanto uns viam o passaporte outros insistiam em que queriam verificar a bagagem e um homem de óculos, com ar mais calmo, acompanhado de uma mulher, dizia-me que, no final daquele processo, ainda teria que passar pelo escritório deles, por causa da moto.
Ali revistavam-me a bagagem ao pormenor, como nunca ninguém me revistara antes em país nenhum. Pediram-me até para abrir e despejar o saco do “necessaire”
- Não toque, que eu tiro tudo cá para fora. Sim, são preservativos. Quer que os abra?
Por fim, livre daquela gente, segui o homem dos óculos até ao seu escritório. Levou-me ao chefe para lhe mostrar o Carnet. Foi o único homem civilizado que encontrei no país.
Quando a mulher me pediu o Passaporte pela terceira vez virou-se para os dois e disse:
- Porque estão a chatear o homem? Não percebem que é um turista que vem aqui gastar dinheiro e que devemos trata-lo o melhor possível? Carimbem o Carnet rapidamente e deixem-no ir à sua vida. 
Perguntei-lhe se sabia de algum Hotel por perto
- Não tem Hotel marcado? É muito perigoso andar aí pelas ruas à procura de Hotel. Aqui raptam muita gente. Quando estiver pronto diga que eu vou à sua frente até um Hotel decente. Não pode ir para um barato.
A mulher ainda pediu que voltasse a entrar no escritório dela e do homem dos óculos para me pedir dinheiro.
- Não tem nada para nos dar? Não me diga que não nos vai dar nada?
- Não, não tenho.
Segui o carro do chefe até um Hotel perto.
- Só saia do Hotel quando partir, de manhã. Você é um alvo fácil.
Mas tive que sair, para atestar o depósito e levantar dinheiro local numa caixa multibanco. Os locais olham para mim na bomba de gasolina de ar sério e posso ler-lhes os pensamentos: “como é que vou sacar dinheiro a este gajo”?
Ao regressar ao Hotel decidi trocar mensagens com o meu amigo Alexandre Correia, que tem andado muito por Africa.
- Tu estás no que é considerado o lugar mais perigoso do mundo. Foge já para Norte. Há uma estrada, através de um parque natural, em que fazes mais cem quilómetros que o normal a caminho do Ocidente. Tens que ir por aí. Não continues, de forma alguma, junto ao delta do Niger.

30 de abril de 2019

Golfo da Guiné

Um dos tripulantes informou-me que o cais de onde saímos ainda tinha sido construído pelos alemães, há mais de cem anos atrás e, desde então, não tinha sofrido qualquer melhoramento ou reparação. A base da estrutura ainda estava lá para durar mas viam-se carris de vagões inutilizados à décadas e várias carcaças de barcos encalhados que ninguém pensou em remover.
O delta do Wouri é lindo, com vegetação cerrada até à água.
Mal saímos do porto alguns dos tripulantes começaram a deitar lixo, garrafas de plástico vazias e trapos com óleo, provenientes da viagem de ida, pela margem fora, deixando um rasto de sujidade atrás do barco. Fui tentado a dizer alguma coisa mas seria certamente infrutífero o meu comentário.
Olhei para a dúzia de passageiros que estavam na sala  de 200 lugares sentados onde iriamos passar as próximas horas, a única divisão com ar condicionado. Tinham-me dito que o que os piratas procuravam eram passageiros que lhes pudessem render bom dinheiro de resgate e pensei que, se fosse pirata e tivesse que escolher entre aquele grupo de Camaronenses e Nigerianos de fracos recursos financeiros e um europeu, branco como a cal, não só pela origem da sua pele como pela situação em que se encontrava, não hesitaria. 
Fui até ao convés, apreciar a magnifica vista enquanto não anoitecia e fiquei como que a meditar, sentado num dos bancos, em calma profunda.
Quando voltei para dentro, ao anoitecer, a menina do bar perguntou se não queria jantar. O prato único era galinha frita com um legume que eles cortam em lascas e fritam como batatas. Tinha um aspecto terrível.
- Mais tarde, respondi.
Quando me decidi pelo jantar pedi que me aquecesse a refeição num microondas que a tinha visto utilizar.
- Não funciona. E para o provar fez uma tentativa.
- Tem cerveja?
- Não. Só garrafa de sumo. 
Comi a galinha fria e dois ou três pedaços daquele legume frito, acompanhados da espécie de sumo e distrai-me a escrever. 
Pelas nove e meia da noite, já com todos os passageiros a dormir, tirei o fio da televisão que emitia mais ruído que vozes da ficha, descalcei as botas e adormeci numa fila de bancos, com a mala onde transporto o computador e documentos a fazer de almofada e uma das luzes do tecto a piscar com um mau contacto a dar à sala quase escura um certo ar de bar de alterne de província.
O barco era um velho ferry norueguês, dos seus 40 metros, provavelmente adquirido a caminho da sucata, em que a rampa de acesso e muitas outras coisas já não funcionavam nem nunca voltariam a funcionar. Mas, espreitando para a cabine de comando quando estava no convés, vi que tinham GPS e ouvi um rádio, o que me deixou mais descansado.
Acordei às três da manhã com o barulho do ferro a descer.
Faltavam quatro horas para o amanhecer. Quem chegaria primeiro ali, a marinha ou os piratas.
Mesmo com esse pensamento em mente consegui voltar a adormecer.
Com o raiar do dia saí ao convés. Havíamos ancorado junto a uma plataforma de petróleo na esperança que, tendo eles segurança própria, nos pudessem socorrer no caso dos piratas chegarem antes da polícia. 
A nossa tripulação revezava-se, com um par de velhos binóculos, na observação de cada canoa de pesca a motor que se aproximava mais, todas elas potenciais barcos piratas.
- Já sabem a que horas vem a marinha?
- Disseram-nos que às oito e meia. Devem estar a acompanhar outro barco para o porto. Normalmente não se atrasam muito.  
Passava pouco das oito e meia quando o capitão recebeu uma comunicação via rádio. Vinha um petroleiro a chegar que passaria junto a nós. Deveríamos segui-lo, o mais próximo possível, até à entrada do porto, que um dos semi-rígidos da marinha nos acompanharia aos dois.
Lá seguimos atrás do petroleiro, a todo o gás para o conseguirmos acompanhar. Ainda tínhamos cerca de quatro horas de viagem pela frente.
Só que, pouco mais de meia hora depois o petroleiro começou a abrandar e…. parou.
- O que se passa? Perguntei a um dos marinheiros
- Parece que está com um problema de motor.
- E agora ?
Todos faziam a mesma pergunta. O semi-rígido da marinha seguia conosco ou ficava a acompanhar o petroleiro até ser socorrido?
A resposta veio via rádio.
Seguíamos viagem. O Semi-rigido acompanhava-nos duas ou três milhas e voltava para junto do petroleiro. Um outro iria ao nosso encontro um pouco à frente.

Stress.