9 de setembro de 2013

Nepal


Aldeia

Dia difícil mas extraordinário.
Ontem à noite comi qualquer coisa que me fez mal. Tenho a impressão que foi quando furei a regra que tinha imposto a mim próprio de só comer produtos cozinhados ou fruta descascada por mim ao pedir um sumo natural de “sweet lemon” para acompanhar o jantar.
 Tinha posto o despertador para as 8 porque previa 400 Km difíceis, incluindo uma passagem de fronteira, até Katmandu. Custou-me a levantar e só consegui sair às onze e meia, quando me comecei a sentir melhor.

Ontem tinha sido complicado ligar a internet. Quando requeri a ajuda de alguém à recepção do hotel mandaram-me primeiro um miúdo que mudou a configuração do modem no meu computador sem conseguir resolver o problema e mais tarde um “expert” que, segundo eles só atendia casos extremos depois do miúdo não se safar, que resolveu o assunto em dois minutos. Só que fiquei sem acesso aos meus mails e ao site do meu banco.
Estranhei mais quando de manhã, ao ligar o computador, me apareceu uma mensagem a dizer  que o Id do meu computador estava a ser partilhado com outro. Para além disso não conseguia aceder à internet. Fiquei preocupado e chamei rapidamente o miúdo para mudar a Id do meu computador, o que ele fez rapidamente. Entrei nas minhas contas bancárias e ainda não tinha sido assaltado.
A cidade em que fiquei, no norte da Índia, Gorakhpur, é grande mas compacta com muito movimento mas ruas estreitas, muitas delas em terra. Saí pelo meio dos “rickshaws” e bicicletas, aqui em maior quantidade que nas cidades mais civilizadas, a caminho da fronteira com o Nepal, a cerca de 100 Km. Tinha esperança de encontrar uma via, das que eles chamam auto estradas, em tão bom estado como a que me tinha levado até ali, de modo a conseguir percorrer os 400 Km que me levariam a Katmandu, mas infelizmente a realidade que me esperava era bem diferente. A estrada era não só muito esburacada  como atravessava aldeias quase intrasitáveis no meio de muito pó e movimento.
A “Cross Tourer” levou uma grande sova e, com as vibrações, começaram mesmo a  saltar alguns dos parafusos que seguram os plásticos laterais.
A fronteira da Índia com o Nepal parece um filme. Comecei por passar por uma fila interminável de muitas dezenas de  camiões para, cerca de um quilómetro à frente, um tipo com ar ocidental me chamar quando atravessava a aldeia para indicar o escritório onde me deveria dirigir e carimbar o passaporte. Se não fosse a placa à porta não acreditava que se tratava de um local oficial. Estavam perto de 40º e todos suávamos. O mesmo homem propôs-se ir comprar-me uma água “dê-me 20 rupias”. Voltou com uma garrafa de água morna e a seguir sugeriu que deveria trocar dólares numa loja em frente que no Nepal levariam mais caro. Desconfiei mas aceitei trocar 100 dólares contra vontade do amigo dele que insistia que eu trocasse 300, que 100 “não me chegariam para nada”. Fiquei-me pelos cem e obviamente confirmei depois no Nepal ter sido aldrabado.
Depois de carimbar o passaporte passei para um escritório do outro lado da rua, 50 metros à frente, onde guardas adormecidos acabaram por carimbar o Carnet da moto, depois de sacarem uma caixa com carimbos e um livro de registo de cima de um monte de sacos que não sei o que conteriam.
Passei então para a fronteira do Nepal. Os guardas que estavam do lado esquerdo da estrada indicaram-me uma pequena casa do outro lado da rua. À porta um homem dormia deitado num banco mas o letreiro fixo na parede indicava que estava no sítio certo. Trataram-me do visto na hora. Um painel na parede escrito à mão indicava os preços. Fiquei-me pelos 25 dólares do visto de quinze dias. Preparava-me para seguir viagem quando uns guardas, sentados numa banca à beira da estrada, me mandaram parar. Pediram-me o passaporte e o Carnet da moto. Um homem com ar entendido olhou para o Carnet e mandou-me ir ter com um colega dentro dum escritório adjunto com grades nas janelas. Este fez um ar de não saber o que aquilo era e chamou o primeiro que entrou no escritório, recolheu um enorme livro  de cima de uma estante, bateu com ele contra uma mesa para sacudir o pó e abriu-o com cuidado para as páginas soltas não caírem. Pediu-me que preenchesse a primeira linha livre com nome, numero de passaporte e matricula da moto, carimbou o Carnet com um carimbo que me pareceu ser tirado à sorte de um “tupperwear” cheio deles, chamou um tipo dos seus trinta anos com ar de chefe e camisa às flores para olhar para a moto e, depois de dez minutos de observação, mandou-me seguir viagem.
O Nepal é muito diferente da Índia. Tanto a nível de paisagem como de população. Quando tive que fazer umas fotocópias para o visto o miúdo que me atendeu tinha um ar oriental e perguntei-lhe de onde era. -“Do Nepal”, respondeu-me. E os teus pais, de onde são?  -“Do Nepal”. Só quando entrei no país constatei que muitos deles são de raça oriental e a mistura com a raça indiana originou raparigas lindíssimas. Por estar perto dos himalaias e já ser um país tropical tem muita vegetação com florestas muito densas. Mal entrei na parte mais montanhosa a paisagem tornou-se totalmente verde.
Vinha numa grande recta, cerca de 100 Km depois da fronteira, ainda com a ideia de chegar a Katmandu ao final da tarde, quando a câmara GO Pro, que tinha fixa na parte da frente da moto voou, por o suporte se ter partido, depois do esforço por que passou nas esburacadas estradas do norte da Índia. Parei a moto e fui à procura da câmara. Durante uma hora desbaratei a densa vegetação junto à estrada, de início acompanhado por dois camionistas que vinham de mudar uma roda e a quem pedi ajuda mas …. nada. O fim de  tarde chegava e, sem querer viajar de noite, decidi abandonar as buscas e tentar encontrar onde dormir ali por perto para as retomar no dia seguinte. Parei numa aldeia perdida no meio da floresta onde só as crianças com menos de doze anos falam bem inglês e alguns dos jovens nos seus 20 arranham alguma coisa.   
Ao procurar onde ficar, de um lado e outro da aldeia, atirado pelos moradores como bola de ping pong indicando onde pensavam que alguém alugava um quarto, acabei por ficar numa casa onde o rapaz me sugeriu que visse o quarto antes de tomar uma decisão. Entretanto, no vai e vem de um lado para o outro da rua, tinha deixado cair a moto ao dar a volta numa estrada de terra solta com um degrau. Um rapaz veio logo ajudar-me e em menos de um minuto a “Cross Tourer” estava novamente a mover-se pelos seus meios.
O quarto tinha três camas montadas em U com umas colchas por cima e almofadas sebentas que de tão duras pareciam feitas de madeira. No meio do U não haviam mais de dois metros quadrados livres. Uma grande janela com um rendilhado em madeira, virada para a estrada, não fechava. “Não têm luz?” “Não. Só a partir das nove da noite”. No Nepal não produzem eletricidade suficiente para alimentar todo o país de maneira que é racionada, ao longo do dia, entre as cidades e vilas. Quando perguntei se havia maneira de tomar um duche indicaram-me um cubículo em cimento que, de tão sujo, não se distinguiam as paredes do chão, da torneira e do duche. Disse que achava tudo óptimo e o rapaz pediu-me o equivalente e quatro euros pela estadia.
Quando tomava duche, montado nos meus imprescindíveis chinelos, deixou de correr e acabei por tirar o sabão que ainda tinha no corpo com a ajuda de uma torneira que estava à altura dos joelhos.
Na esplanada deste Hotel, onde eu era o único hospede, alguns amigos do dono conversavam de volta da única mesa, em plástico encarnado queimado pelo sol. Enquanto bebia uma cerveja  naquele local de reunião perguntei ao jovem proprietário do Hotel onde poderia guardar a moto durante a noite e ao sugerir-me que entrasse com ela por um corredor estreito um dos amigos, chefe da polícia local, ofereceu-se que a deixasse frente à esquadra. Aceitei a proposta e fui com a moto, por uma estrada de terra, até um descampado protegido por uma cancela fabricada com um rolo de arame farpado. Do outro lado uma guarita em tijolo solto, sacos de areia e telhado de zinco, parecia ter sido feita à pressa para defesa de um ataque surpresa. Uma cabana com telhado em colmo, à porta da qual estacionei a moto, era a dita esquadra. O chefe ordenou a um homem de fato camuflado e metralhadora em punho que ficasse junto a moto. E ali ficou ele ... a noite toda.
Votei para o Hotel onde o dono me preparou um jantar. Uma sopa a que chamam Dal e não sei do que é feita, espinafres cozidos, um bloco de arroz seco em forma de pudim, pão do tipo “zapati” três mini bananas e uns quartos de maçã. A mulher, uma miúda linda de 25 anos que parecia ter 18 e a quem antes perguntara se era irmã do filho, limitava-se a tratar de si, talvez por amanhã ser, aqui no Nepal, o festival da mulher em que todas elas se arranjam com vestidos lindos. Depois do jantar os amigos do dono propuseram-me ir dançar a uma das festas de rua da aldeia que já festejava o dia da mulher. Lá parti com eles através de uma rua de terra escura até um largo com uns bancos corridos e uma aparelhagem de som alimentada não sei como. Dançámos alegremente, só os homens, sob o aplauso das raparigas e pelas onze da noite voltei para o Hotel. A temperatura não baixava dos 30º. Estendi-me numa das camas vestido, com a almofada forrada por uma das minhas “T shirt”. Cinco minutos depois estava a dormir.

6 de setembro de 2013

Lucknow


O dia de ontem foi difícil. Saí de Agra às dez e meia da manhã a caminho de Lucknow que fica a cerca de 320 Km. Estavam perto de 40º e voltei a enfiar o fato completo e botas. Pensei que demoraria quatro a cinco horas a percorrer o trajeto mas a estrada era má, nalgumas zonas muito esburacada e o transito infernal na maior parte do caminho de maneira que demorei seis horas e meia para percorrer os pouco mais de 300 Km. Pelo caminho a dose habitual de animais na estrada desde cabras a vacas passando por um macaco que atravessou a autoestrada e até uma espécie de abutre que, no meio da via, se entretinha com os restos de uma ovelha atropelada.
O transito caótico obriga-me a uma atenção redobrada constante. Desta vez até um carro da polícia, a cerca de 120 Km/h, apanhei em sentido contrario na auto estrada para além de uma camioneta que me surgiu de frente, na sua faixa da esquerda, à saída de uma curva quando eu ultrapassava outra. Dessa vez assustei-me. Tive que travar forte e encostar à esquerda.
A maioria dos carros que circulam aqui levam os retrovisores fechados, para poderem passar mais facilmente por entre os outros na terceira faixa que eles inventam quando o transito está entupido e há só duas. Não é que fizesse alguma diferença estarem na posição correta porque nunca olham para eles. A teoria é ir circulando pelos espaços livres de estrada, ultrapassando pela direita ou esquerda, conforme dê mais jeito e sem verificar se vem alguém atrás porque já se sabe que vem sempre. Só não há muitos mais acidentes porque têm uma grande vantagem na maneira de guiarem: não se vê ninguém a fazer movimentos bruscos. Os carros, motos e outros triciclos ou carroças que tal vão-se encaixando uns nos outros, como um puzzle, lentamente, de maneira que cada um vai percebendo para onde vai o outro. Não há regras de transito a não ser a que diz ser suposto circular pela esquerda mas mesmo essa não é seguida à letra por nenhum dos condutores. A polícia não manda parar ninguém por mais infracções que cometa pois eles próprios não sabem o que é ou não uma infracção e como na prática não há regras também não há infracções. Eles estão na estrada apenas para ajudar a escoar o transito quando o engarrafamento é mais complicado. No meio de toda a confusão que isto provoca ainda não vi um condutor zangado a insultar outro ou em stress. Tocam todos muito a buzina mas isso é por outras razões. A buzina tornou-se uma questão cultural e eles usam-na da mesma forma que nós colocamos uma música no face book para os amigos ouvirem. Os camiões têm escrito na traseira “please horn” e os colegas cumprem, como quem dá música. Até os pequenos toques são ignorados pelos envolvidos com um simples olhar de indiferença.
Entretanto na parte da auto estrada que estava em pior estado acabei por cair num buraco dos grandes, com a suspensão a bater no fundo e um dos retrovisores a desapertar-se mas felizmente pneu e jante aguentaram bem a pancada.
Nestes trajetos pela província profunda, onde não existem sítios onde se possa comer qualquer coisa minimamente decente, costumo parar numa banca de fruta mais isolada e almoçar duas bananas e outras tantas maçãs. A fotografia é de uma dessas paragens em que chego sem ninguém por perto e passados cinco minutos tenho uma multidão a admirar a moto. Por vezes mal me consigo mexer.
Chegado a Lucknow tive que ficar no Hotel menos mau que encontrei, para contrastar com o fabuloso de Agra. Aqui só o recepcionista falava inglês e tive que mandar mudar os lençóis da cama que tinham manchas de sangue enquanto o duche foi tomado de chinelos nos pés. Curiosamente o jantar, que é invariavelmente galinha cozinhada de uma ou outra forma, estava óptimo.

O dia de hoje foi muito mais tranquilo. A temperatura pelas onze horas estava nos 40º e decidi arrancar em jeans e sapatos. Felizmente.
A estrada para Gorakhpur, onde estou agora, estava em bom estado na maior parte do trajeto, para os níveis indianos e, embora tenha arrancado tarde, percorri a mesma distancia de ontem em quatro horas.
Para cima de Agra deixam de se ver turistas e mesmo os hotéis são só ocupados por Indianos. Por outro lado, à medida que vou para Norte e me aproximo do Nepal, onde espero entrar amanhã, há menos transito nas estradas que ligam as cidades e também por isso estas resistiram melhor às chuvas das monções, que recentemente acabaram.

5 de setembro de 2013

Agra




Esta manhã um problema estúpido fez com que ficasse por Agra mas por outro lado ainda bem porque tive um dia muito divertido.
Tinha ideia de ver o Taj Mahal de manhã e arrancar a seguir para outra cidade, só que quando fui para pôr a moto a trabalhar alguém, durante a noite, a tinha engatado em 1ª e como a deixo sempre em ponto morto não me ocorreu que isso pudesse ter acontecido. Como resultado disso o motor de arranque não funcionava e pensei tratar-se de um problema elétrico. Comecei por desmontar fusíveis, depois a tampa esquerda traseira par ver os relés, de seguida o interruptor do motor de arranque e só quando, quase uma hora depois, fui mudar a moto de posição para desmontar o motor de arranque, vi que estava engatada. Que grande tótó.
Decidi então ficar mais um dia em Agra e visitar o Taj Mahal com calma.
Tive a sorte de apanhar um guia divertidíssimo que não só era muito bem disposto como conhecia metade da população, metia conversa com a outra metade e tirava fotografias artísticas com o meu iphone, segundo os ângulos que ele achava mais espetaculares. Enfim, um personagem. Dentro do Taj Mahal punha-se a cantar em tom de opera, nas divisões que o Shah tinha reservado à música, para eu poder apreciar as qualidades acústicas do local. Estava a divertir-me tanto com ele que o convidei para almoçar e passámos o resto da tarde a beber cervejas em bares de terceira categoria. Pelo meio insistiu para que fosse conhecer o cunhado e a rapariga com quem ia casar e respectivas amigas. De vez em quando a mulher, já conhecendo a peça, telefonava-lhe a perguntar quando voltava para casa e o Gulshan passava-me o telefone para ela se certificar que ele estava comigo e não com uma galdéria qualquer. Rimos a tarde toda.
O Taj Mahal é de facto espetacular, pelo seu mármore que deixa entrar a luz do sol dando-lhe um brilho especial e pela obra em si para a qual foram necessários 22.000 homens a trabalharem durante 20 anos, para além de 1000 elefantes, utilizados para trazerem materiais preciosos dos quatro cantos da Ásia.
O Túmulo foi mandado construir pelo Shah Jahan em memoria da sua terceira mulher, Mumtaj Mahal que morreu quando dava à luz o 14º filho.
O Shah está sepultado ao seu lado.

4 de setembro de 2013

Delhi 4



Ontem, depois de montar as velas que chegaram de Portugal e o filtro de ar novo a moto lá acabou por pegar. Logo que ficou pronta fui a um concessionário Honda local mudar óleo e filtro, atestei o depósito e acertei a pressão dos pneus deixando-a “ready to go”.
Já estava há seis dias em Delhi e só não fiquei desesperado porque fui muito bem recebido em casa dos embaixadores. Fizeram-me sentir como se estivesse em casa e são sem duvida os melhores representantes que poderíamos ter na Índia. No Sábado até acabei por ir com eles a um almoço informal, na piscina da casa do Embaixador de Moçambique, onde estavam também os Embaixadores do México e Peru e o português João Cravinho que é Embaixador da União Europeia na Índia.
Arranquei hoje de Delhi, pelas dez da manhã, com uma temperatura de mais de trinta graus. Por questões de segurança vesti o fato, embora sem forro, e calcei as botas. A temperatura foi aumentando ao longo do dia e quando, por volta do meio dia, estava perdido numa aldeia, debaixo de um calor arrasador, à espera que uma cancela de passagem de nível abrisse, com comboios de mercadorias infindáveis a atravessarem vindos de um e outro lado, pela primeira vez nesta viagem senti-me mal fisicamente. O termómetro da moto marcava 44º, a humidade devia estar próxima dos 100% e eu, ensopado em suor, sentia os pés chapinharem dentro das botas. Com a moto no descanso e dezenas de populares de volta dela a fazerem-me perguntas em Indu para as quais obviamente não tinha resposta, encostei-me a um carro com o que penso ter sido uma baixa tensão e pensei que ia desmaiar. Imaginei-me a acordar passadas um par de horas sem botas e não mais que o volante da moto pousado ao meu lado.
Tirei o blusão, bebi mais água e depois de molhar a cara e a cabeça comecei a sentir-me melhor. Os comboios lá acabaram de passar e voltei à estrada na procura difícil do trajeto para Agra. As indicações são poucas e fora das cidades praticamente ninguém fala Inglês. Um polícia que me queria dizer para voltar na segunda à esquerda e a quem eu, sem perceber o que ele dizia, lhe perguntava:
 “So, I have to turn the next on the left”? respondeu-me: “No, on the next, next”.
Passados uns quilómetros a “navegar” por estradas sujas e confusas no meio de “rickshaws” a pedal e motorizados, vacas ao abandono no meio da estrada, camiões que custa acreditar possam rodar pelos seus meios, miúdos nas bermas descalços e sujos, tudo com muito lixo à mistura, encontrei um sinal que dizia “Golf Course”. Foi como uma miragem de água no deserto. Era uma da tarde e pensei que seria o sítio ideal para almoçar. Passados meia dúzia de quilómetros comecei a passar por uma série de condomínios bem tratados, com guardas à porta e cancelas e por fim cheguei a este Hotel fabuloso com um campo de 18 buracos projetado por Gregg Normann. É isto que é extraordinário neste país, os contrastes constantes que se cruzam à nossa frente. Um guarda abriu-me a primeira cancela e à porta do Hotel estavam dois imponentes porteiros, fardados e de turbante. A partir dali o meu dia dava uma volta de 180º. Parecia um filme. O gerente do Hotel veio receber-me à porta. Excelente profissional, perguntou como tinha ido ali parar e depois de lhe contar a minha história e que nesse dia estava a caminho de Agra disse que o grupo a que pertencia era proprietário do melhor Hotel de Agra. “Se quiser que lhe marque um quarto?” Fez-me um preço especial e aceitei.
“Voçês são uma cadeia de Hoteis?”
“Não. Temos alguns mas essencialmente somos uma firma de construção. Nós edificámos todos estes condomínios aqui à volta”
Quando lhe perguntei se depois do almoço me indicava o caminho para Agra respondeu:
“Nós fizemos uma auto estrada para Agra, com cerca de 200Km. Um dos nossos motoristas guia-o até à entrada dessa auto estrada”
“Ah. É uma que passa junto ao circuito de Fórmula 1 ?”
“Sim. Nós construímos o circuito”
As firmas neste país quando são grandes, são mesmo grandes.
Depois de um óptimo almoço acompanhado por três sumos de laranja e um litro de água com gás italiana, o tal motorista levou-me à autoestrada construída por eles. Nunca tinha visto uma assim na Índia. Parecia que estava num país europeu. Impecavelmente alcatroada e, surpreendentemente, talvez por a portagem ser mais cara que o habitual aqui, meia dúzia de carros a circularem. Pouco mais de uma hora depois estava em Agra e voltava à confusão habitual a caminho do segundo oásis do dia, onde me instalei. Amanhã vou visitar o Taj Mahal.