27 de dezembro de 2012


Mumbai – 3


Esta miúda de oito anos chama-se Kali e foi quem me alegrou o Natal, ao vê-la pela manhã. Vive com a mãe e os irmãos no passeio, junto ao Hotel onde tenho ficado os últimos dias. Quando vou jantar os mais novos já estão a dormir, os três alinhados num cobertor estendido no chão.
Aqui a Kali estava numa das suas tarefas diárias, a dar banho a um dos irmãos. Na outra fotografia mostra-me um desenho que exprime o seu habitual estado de espírito.
É fantástico como esta miúda, que vive na rua, emana uma alegria contagiante. Nunca a vi sem ser a rir e bem disposta, seja quando brinca com outros miúdos na rua ou quando me levou até à porta de um Hotel depois de me ter visto procurar um bar na rua que tinha música e estava fechado. “Aqui há boa música que eu oiço, vinda do terraço do ultimo andar”.
Às vezes vamos comer um gelado ao fim do dia que ela adora mas muitas das vezes leva-o, sem lhe tocar, para o dar à mãe.
Mesmo quando faz um ar amuado por eu não lhe comprar as flores que a mãe andou durante o dia a arranjar em ramos lindos, mantem uma alegria na cara que não se vê na maioria das crianças que têm o que pensamos serem todas as razões para se sentirem felizes.
A Kali é o exemplo vivo de que não é o dinheiro que traz felicidade. É o amor que recebemos e transmitimos a quem nos rodeia. 

Criquet de pobres e de ricos

Elephanta Island Caves

24 de dezembro de 2012


Mumbai – 2

Desde que aqui cheguei a temperatura ronda os 28º, 30º, noite e dia. Um amigo meu diria que é clima de pobre. Eu sinto-me como peixe na água. E como Mumbai ainda fica a Norte do Equador isto é o inverno deles, mas é a altura ideal para se andar por aqui. Têm depois o verão entre Março e Maio em que dizem se torna insuportável, com o calor e a humidade a deixarem-nos a roupa colada ao corpo e de Junho a Setembro é a época das monções, em que não para de chover.

Ontem, visitei uma das muitas galerias de arte existentes nesta zona de Mumbai e o Museu “Chhatrapati Shivaji Maharaj Vastu Sangrahalaya”. Não, não decorei este nome. Os ingleses, que o construiram chamavam-lhe simplesmente “Prince of Wales Museum of Western India”. Ali está exposta arte Indiana através dos séculos, muitas das peças oferecidas por Jamsetji Tata, um industrial indiano de sucesso dos inícios do século XX que morreu com 47 anos. Ratan Tata, o descendente que agora controla as dezenas de empresas do grupo, é um dos homens mais ricos do mundo. O grupo Tata é um potentado na industria do aço, construção de automóveis e camiões, Telecomunicações e, entre muitas outras coisas, proprietário da Tetley tea e da Jaguar e Land Rover.

Da parte da tarde apanhei um barco no “Gate of India”, um imponente arco junto ao cais, que os inglese construíram para receberem o rei “George V”, o único monarca Inglês que visitou a India. Uma hora depois estava na Elephanta Island cujo nome se deve aos portugueses, quando aqui andaram nos séculos XVI e XVII.
Tiveram uma cena que podia ter sido hoje. Deram o nome à ilha quando por lá  encontraram uma enorme estátua de um elefante, que se calcula fosse contemporânea das que estão nas famosas caves da ilha, de entre os séculos VI a VIII d.c. e que representam maioritariamente a deusa Hindu Shiva.
Os portugueses decidiram trazer a estátua do elefante para Portugal só que, quando estavam a carregá-la para a Nau, as correntes eram fracas e a estátua foi parar ao fundo do mar. Está-se mesmo a ver a cena:
- “Ó Zé, faz mais força desse lado. Dá-me uma chicotadas nesses escravos que não estão a fazer força nenhuma. Puxem mais, vai. Ai, Ai, Ai, Fo....” Pumba. Estátua no fundo do mar.
- “Pôrra, pá, eu não te disse que essa correntes estavam podres? Enforca-me aí meia dúzia de gajos para eu arranjar uma desculpa para dar ao D. Manuel”.
E por lá ficou a estátua até que os ingleses a “pescaram” e colocaram, aqui em Mumbai, no “Victoria and Albert Museu”.
Ao fim do dia ainda passei na “National Gallery of Modern Art” onde está patente uma exposição com as obras do pintor e escultor indiano Ramkinkar Baij.
Como curiosidade refira-se que nesta “National Gallery” deixam miúdos, de várias idades, ficarem a pintar no chão junto às peças do mestre, o que não só dá um ambiente muito giro e animado à exposição como certamente ajuda os futuros artistas a ganharem inspiração naquele espaço onde se respira arte.

23 de dezembro de 2012


Mumbai


Desde o dia em que cheguei à India e depois daquela má experiencia que tive com o taxista que me trouxe do aeroporto, passei a circular de “rickshaw”, estes triciclos em que o condutor vai à frente e os passageiros num pequeno banco corrido na parte de trás. Antes estes veículos eram movidos a pedais e força humana mas agora têm o requinte de um motor Vespa 125 e caixa de 4 velocidades no punho, à antiga. A maioria dos motores ainda são a 2 tempos e os pilotos destas máquinas infernais guiam-nas descalços, com o pé direito sempre em cima do pedal de travão e o punho do mesmo lado na posição “full throttle”. Quando aquilo embala atinge aí uns 60 Km/h que à primeira vista parece pouco mas, com as razias que fazem a passeios, carros e camionetas nós, passageiros, vamos sempre com o coração na boca. Tenho a sensação que arrisco aqui mais a vida que em toda a viagem de moto desde Portugal.
Estou há quatro dias em Mumbai e tenho mudado de Hotel todos os dias. Não só por serem maus de mais mas também para ir conhecendo diferentes partes da cidade. Ontem fui parar a um local agradável, em cima de um monte com vista para um lago mas não tinha espaço para dar a volta dentro da casa de banho e também não me atrevi a ligar o esquentador eléctrico, com um aspecto decrépito, com medo de ficar electrocutado. Para fechar a porta do quarto uma tranca tipo porta de castelo e um comum cadeado. Só visto.
Hoje apanhei outro “rickshaw” e desci para sul rumo a uma parte mais civilizada da cidade. Nesta península perto de Colaba o transito é vedado a estas infernais viaturas, já se vêm bons blocos de apartamentos, Hoteis de luxo, stands de Rolls e Porsche e não há lixo espalhado pelas ruas. Parece que entramos noutra cidade. Não deixa, no entanto, de haver miséria nas ruas. Junto ao Hotel, no passeio, vive uma família, com uma mãe e quatro filhos. Sempre que passo a senhora manda um filho diferente pedir-me dinheiro. Vou dando gorjetas mas como não se dá dois passos sem nos pedirem alguma coisa deixo pouco a cada um. Hoje levei os vizinhos do passeio a comer um gelado aqui ao lado e adoraram.
De manhã um outro miúdo andou comigo durante horas. Não teria mais de seis ou sete anos. De vez em quando, sem qualquer razão aparente, fazia uma roda completa no passeio, tipo artista de circo. Os pais põem-nos a fazer estas habilidades para cativar as pessoas e para eles aquilo passou a ser quase uma necessidade. Já não andam na rua sem fazerem qualquer malabarismo. Mais tarde vi uma miúda de quatro anos a equilibrar-se numa corda estendida a dois metros de altura, com a irmã mais velha a marcar o ritmo com um tambor.
É nesta zona da cidade que estão museus e galerias de arte e onde se joga Criquet de calças e camisa branca e golf no único campo existente na cidade. O Criquet é o principal desporto na India. Está para eles como o futebol para os portugueses. À noite havia um jogo importante num Estádio aqui perto e era a loucura nas ruas, antes de entrarem para o recinto, com vendedores de buzinas e bandeiras a fazerem enorme estardalhaço.
Aproveitei o dia para fazer visitas turísticas e passear um pouco a pé pela Marine Drive, a marginal cá do sítio. 

22 de dezembro de 2012


Dubai

O voo de Bandar Abbas para o Dubai dura pouco mais de 20 minutos.
Fiquei no Dubai 24 horas. Tinha cá estado há cinco ou seis anos e está bastante melhor. Na altura já existiam a maioria destes prédios lindos que construíram no centro, projetados por alguns dos melhores arquitetos mundiais, mas ainda estava tudo em obras, havia muito pouca sinalização e as infraestruturas rodoviárias eram um caos onde nos perdíamos facilmente.
Agora está tudo com um ar mais acabado e organizado. Já existem placas de sinalização, canteiros bem tratados junto a algumas das vias principais e, como muitas das obras pararam com a crise, está tudo mais assente. Aquele projeto megalómano das ilhas em forma de Palmeira ficou a meio. Penso que uma está quase acabada mas a segunda, como pude verificar do avião quando chegava, não passa de um aterro que fizeram mar dentro, ainda insignificante.
O Dubai continua a cheirar a dinheiro. No aeroporto o prémio para um qualquer sorteio não é um Fiat ou Toyota mas um Mc Laren que lá está em exposição enquanto pelas ruas vêm-se stands da Ferrari, Aston Martin e muitos carros grandes e gastadores a circularem. Os próprios táxis têm motores a gasolina e caixa automática.
Aqui não há Hoteis a vinte euros e, para encontrar um a 50, fui parar a uma zona da cidade mais frequentada por asiáticos e paquistaneses.
Logo que saí à rua uma miúda filipina veio-me oferecer os seus préstimos sexuais pelo dinheiro que eu quisesse dar. À noite, na “boite” do Hotel, que era pouco maior que o quarto, um grupo de umas dez miúdas Paquistanesas, giríssimas, dançavam num palco rodeado de mesas com homens de meia idade a assistirem. Uma das danças obrigava-as a rodarem as cabeças tão depressa que temi se soltassem dos corpos. Aqui, no entanto, não se podem despir pois como país árabe que são os Emiratos, seria um crime punível no mínimo com umas valentes chicotadas nas raparigas e dono do estabelecimento.
No dia seguinte fui até à praia onde tomei maravilhosos banhos naquela água transparente e quente.  Parti ao fim da tarde para Mumbai (Bombaim) onde cheguei já de noite.
Sabia que o Hotel que tinha marcado era perto do Aeroporto. Quando me propus apanhar um táxi um homem que se fez passar por taxista dirigiu-me para o táxi e sentou-se ao lado do condutor. Perguntei porque vinham os dois e ele disse que ia também, que o táxi era dele. Não tínhamos andado mais de 500 metros quando me informou que o preço a pagar eram 1500 rupias ou seja, trinta dólares. Disse-lhe que parasse o táxi que eu saía ali mesmo e ele respondeu que não, que isso dava muito mau aspecto e perguntou-me quanto estaria disposto a pagar. Falei-lhe em cinco dólares e atirou-se ao ar. Que no mínimo levava dez dólares. O Hotel não era a mais de três ou quatro quilómetros. À chegada, saí do táxi e fui perguntar qual era o preço normal para o trajeto desde o aeroporto. “200 rupias”, respondeu o recepcionista. Tirei 300 do bolso e paguei ao homem. Ele não me largou e veio o recepcionista e um cliente da espelunca, acabado de sair do banho enrolado uma toalha, discutirem com este acompanhante de taxista ao qual se juntou o condutor. O tom subiu a um nível em que estava mesmo à espera de pancada mas depois de muitos insultos e provocações lá arrancou taxista e acompanhante para tentarem enganar mais um.
O bairro em que fiquei era do género “abaixo de cão”, como eu gosto. Muito movimentado e sujo, com uma vida e cores extraordinárias. Os carros, motos e “rickshaw”, agora com motor de vespa em vez de pedais, atropelam-se uns aos outros no meio de um transito caótico e selvagem. O lixo, em vez de ser posto em caixotes é despejado nos intervalos do passeio central num monte imundo que a camioneta do lixo carrega, de manhã, à pazada. É evidente que muito fica espalhado pela rua e passeios, se é que podemos chamar isso a caminhos de terra esburacados. No meio da confusão crianças divertem-se a brincar, adolescentes vendem frutas estranhas em bancas improvisadas e muita gente circula por entre a confusão de carros e camiões estacionados nas bermas e transito que se atropela em todos os sentidos.
Hoje mudei de Hotel, para ir conhecendo partes diferentes da cidade mas o cenário manteve-se quase idêntico. Amanhã volto a mudar, dessa vez para uma zona um pouco melhor.

20 de dezembro de 2012

20 Dezembro - Portugal

Estou a ler um livro muito bom: A Cidade da Alegria de Dominique Lapierre. Passa-se em Calcutá nos anos 60 e faz-nos lembrar o quão relativa é a falta de dinheiro que aí sentimos, em Portugal.

A maioria da população vivia mal antes do 25 de Abril. Depois, em cerca de quinze anos, muita gente passou para a classe media, e começaram a comer bem, os filhos a estudarem até à universidade, a segurança social e os hospitais públicos a funcionarem, enfim todos passaram a viver melhor. Com o dinheiro fácil, que os bancos faziam chegar às nossas mãos através de empréstimos que faziam no exterior, esta nova classe média comprou carros e casas, enfim, construiu um nível de vida superior às suas possibilidades reais. Isto passou-se não só em Portugal mas também noutros países que entraram para a Comunidade Europeia e a quem criaram a ilusão que as suas populações podiam viver com o nível de vida dos países industrializados, sem terem uma base económica, de criação de riqueza, que o pudesse fazer crer.

Tenho constatado isso nesta viagem que estou a fazer à volta do mundo tendo atravessado alguns destes países que entraram para a Comunidade Europeia e outros que não.
O que se passa nos países que não entraram na Comunidade Europeia, como a Croácia o Monte Negro ou a Turquia, é que as pessoas, por nunca terem vivido acima das suas possibilidades, não sofreram o choque que nós agora estamos a sentir. O nível de vida dessas populações foi crescendo mas de uma forma gradual e realista e não à conta de dinheiro emprestado. E estão mais felizes. Na própria Albânia encontrei pessoas alegres, simpáticas, bem com a vida, mesmo a viverem com pouco dinheiro.
Quando chegou a hora de voltar à realidade, de vivermos com o dinheiro que realmente temos, o sacrifício é grande tanto para portugueses como para gregos ou espanhóis. E o que é interessante verificar é que não custa mais a um português ver o seu ordenado baixar de 750 para 500 euros que a um grego sofrer uma redução de 1300 para 1000 ou um espanhol de 1800 para 1400. Todos acham que estão na miséria quando miséria verdadeira é o que se passa na India onde ainda hoje, como no tempo da Cidade da Alegria, famílias inteiras têm que procurar cascas de fruta nos caixotes do lixo para as cozinharem por não terem dinheiro para comprar meio quilo de arroz, ou na Africa sub sahariana onde vi crianças a quem, mais que alimentos, faltava água potável para beberem.

Claro que se compreende a dificuldade de quem comprou casa e carro com dinheiro emprestado e, de um dia para o outro, perde casa e carro e tem que passar a viver de uma forma a que já não está, ou mesmo nunca esteve, habituado, mas é sempre preferível comer uma bolonhesa num quarto alugado que passar fome numa barraca. No entanto, estes últimos, por nunca terem passado por uma fase boa na vida, conseguem muitas vezes ser mais felizes que os primeiros.
No fundo temos que nos habituar a viver com menos dinheiro e pensarmos que a vida poderia ser muito pior, se temos tido o azar de nascer noutro país. Há que adaptar a vida a uma nova realidade.

Quando parei em Évora, no início desta viagem, uma rapariga casada e com dois filhos contava-me que, hoje em dia, cozinhava tudo na Bimby, desde bolachas a iogurtes ou até Ketchup e que, com isso, poupava 150 euros por mês em supermercado. Claro que a maioria da população não tem dinheiro para comprar uma Bimby, nem a prestações, e muitos nem para gastarem por mês no supermercado o que aquela rapariga poupa, mas eu lembro-me, muito antes de haver Bimbys, que as pessoas faziam as bolachas e os iogurtes em casa, e eram muito melhores que os do supermercado.