7 de maio de 2017

Colón 5


O mecânico lá veio por volta das quatro da tarde e, antes de anoitecer, tinha o barco a funcionar. O Arturo anunciou que tinha aproveitado o atraso para aceitar mais uma carga para as ilhas, esta de açúcar, de maneira que sairíamos só na manhã seguinte, por volta das onze, meio dia. Perguntei se eles não saberiam de um Hotel por perto onde pudéssemos ficar, em vez de passarmos mais uma noite no barco, sem acesso a duches, ou sequer casa de banho.
Indicaram-nos um, de meia estrela, perto e o Arturo deixou-nos lá, antes de partir, com a recomendação para que não saíssemos do Hotel à noite, que estava colocado no coração da bandidagem. Aliás a porta do Hotel era em grade de ferro, só aberta depois do recepcionista se certificar que eram clientes quem pretendia entrar. Uma raparia que apareceu às dez da noite para comprar uma coca cola ficou do lado de fora da porta enquanto o recepcionista a foi buscar.
Na manhã seguinte estávamos no porto pelas oito da manhã, prontos para carregar as motos, como nos tinham pedido mas, pouco depois anunciaram-nos que afinal só partiríamos às onze da noite, para chegarmos de dia à primeira ilha  onde iriamos.
Entretanto o “velho” capitão tanto aparecia a dizer que vinha comandar o barco como anunciava que já não vinha. O problema parecia estar no facto de querermos sair a um Sábado quando, sendo o seu dia religioso, dizia não poder trabalhar, como adventista que era. Pôs-se então a hipótese de o barco só zarpar à meia noite, resolvendo o problema mas, se o homem já tinha dito não se recordar do caminho mesmo de dia, o que seria à noite? Por fim, o Arturo acabou por arranjar um substituto num Índio das ilhas e acabámos por só partir às duas da manhã.
A tripulação acabou assim por ficar composta por:
- O Arturo, Salvadorenho, dono do barco, que contou já ter estado envolvido no negócio de transporte em camiões mas agora estava dedicado aquele barco.
- O comandante, um Índio, nascido numa das ilhas de Carti, onde haveríamos de atracar.
- Um preto, dos seus trinta anos, originário de Isla Grande, uma pequena ilha perto de Puerto Lindo que me contou ter saído há poucos meses da prisão, onde tinha passado sete anos por homicídio à facada e que para além de marinheiro fazia de cozinheiro.
- Um primo dele, com cinquenta e muitos anos, simpático e brincalhão
- Um miúdo, neto do comandante que acabou por não embarcar, de Colón, que teria uns 15 anos
- Um mecânico, sexagenário, discreto e simpático, que já tinha trabalhado na Alemanha, Holanda  e Nova Zelândia e falava inglês.
- O traficante de tabaco, Colombiano, de Cartagena.
- O Ryan, um Canadiano que conheci em Portobelo também à procura de transporte para a sua moto, e eu.
Ainda bem que o velho comandante não embarcou porque o mar estava feio. Talvez devido à ventania que soprara nesse dia, mal deixámos o Canal enfrentámos um mar muito revolto, com ondas de três ou quatro metros. O Nautilus abanava e só se conseguia andar de um lado para o outro do barco com muita dificuldade. Sem camas onde dormirmos, pois só havia duas para a tripulação se revezar, eu e o Ryan, assim como o traficante de tabaco, deitámo-nos com os colchões de campismo, por cima das caixas do tabaco, com uma altura para o tecto da zona de carga a uns 50 cm. Eu fiquei com os pés à altura de uma janela que, no Nautilus, não têm vidros nem portadas. O meu medo era se enquanto dormisse, uma onda maior me fizesse escorregar janela fora. Fiz a primeira parte da viagem na cabine do comandante, sem conseguir dormir, devido ao abanar do barco e ao barulho ensurdecedor do velho motor diesel mas, passadas umas horas, o cansaço levou-me até ao meu “camarote” e acabei por adormecer. A hora de chegada à primeira ilha de San Blas estava prevista para as dez da manhã mas, com aquele mar a dificultar o avanço, acabámos por só chegar às três da tarde. As ilhas San Blas são fabulosas porque são ilhas Caribenhas que não estão exploradas turisticamente penso que por pressão os Índios que querem que se mantenham nesta forma selvagem. Os únicos que lá chegam são pequenos iates à vela. Como o arquipélago é composto por 370 ilhas, muitas delas são desertas. Parámos primeiro numa onde somos obrigados a registar a nossa chegada ao arquipélago e depois avançámos mais umas duas horas para atracarmos numa de três ilhas que fazem parte da pequena cidade de Carti ,no continente. Estas são povoadas por indígenas com as mulheres a manterem os seus trajes tradicionais seculares.
No cais, a família do capitão Índio, mulher e duas filhas de uns quatro e cinco anos, esperavam-no numa pequena canoa cavada de um tronco de árvore, onde partiu a remar, passar a noite a casa, numa ilha vizinha.
Entretanto o Arturo, talvez para os negócios dos transportes duvidosos lhe correrem bem, de cada vez que estamos a chegar a uma ilha, vai para a proa do barco, benze-se e reza um minuto ou dois.
Passámos ali a noite, a bordo. No dia seguinte acordámos debaixo de um sol radioso e mar calmo, fazendo uma viagem linda através das ilhas.
Na primeira ilha onde parámos nesse dia descarregámos apenas uns painéis de contraplacado de uns três metros por dois, um frigorifico, uma arca congeladora e um pequeno forno eléctrico. Uma mulher esperava no porto pela mercadoria, com dois carregadores. Fiquei com a ideia que aquilo que trazíamos era tudo o que tinha para montar um restaurante. Olhou para os painéis com um ar triste. Parecia não serem nada do que estava à espera, duvidando que aquele material fizesse boas paredes para o seu novo estabelecimento.


4 de maio de 2017

Colón 4


Fomos ver como estava a avançar a reparação mecânica do barco. A caixa de velocidades estava fora do sítio, desarmada e o homem estava em vias de também retirar o enorme volante do motor V12 Diesel, pois tinha chegado à conclusão  que o problema eram umas passagens de óleo entupidas no volante. Parecia estar ali um trabalho ainda para várias horas. Às tantas ele largou o volante do motor e voltou a montar a caixa para, já noite dentro, chegar à conclusão que teria que substituir o volante do motor. Saiu pelas nove da noite e não regressou, para desespero do Arturo.
Entretanto, um homem que por ali estava apresentou-se como o dono da carga de tabaco e que ele próprio também iria viajar connosco.
- É Colômbiano?
- Sim.
- E o tabaco vai para lá?
- Não. Vou carregá-lo em lanchas na fronteira para depois o levar para a costa da Colômbia onde me esperam camiões para transportarem a carga para o Equador.
“Isso não faz sentido nenhum”, disse-me o Canadiano quando lhe contei a história. “Se ele vai para o Equador sairia certamente muito mais barato colocar a carga num contentor e enviá-la por cargueiro através do canal para a costa do Pacífico”.
Enquanto estávamos por ali, durante a tarde e início da noite, íamos de vez em quando a um bar da esquina, que tinha a música a uma altura ensurdecedora, comprar cervejas.
Numa das vezes que lá fui pus-me a dançar com a animada dona, uma mulher de uns 130 Kg , cabelo pintado de loiro, que achou muito divertido. Noutra dessas idas ao bar, o homem do tabaco ofereceu-me uma cerveja. Ele próprio já tinha bebido umas poucas e contou-me a verdadeira história do transporte. Era contrabandista e por isso levava o tabaco para a Colômbia naquele barco.
- Depois tenho três lanchas rápidas que o levam através da fronteira. Se quiser posso levar as motos.
- E os guardas não o chateiam?
- Não. Eu pago-lhes. Hoje em dia já não me deixam é trazer Coca, que era muito mais rentável.
- Mesmo assim acho que é preferível levarmos as motos numa outra lancha.
Com as motos no interior do porto, o portão fechado a cadeado pelo homem da alfandega e sem Hoteis por perto (não vi um único em Colón), tivemos que dormir no barco, em cima de uns colchões sebentos colocados sobre uns beliches. Dormi vestido, com o blusão a fazer de almofada. Surpreendentemente até dormi bastante bem e, na manhã seguinte, só acordei às oito da manhã. Perguntei pelo mecânico mas informaram-me que teria outros trabalhos e só regressava da parte da tarde. Era sexta feira santa e tudo parecia estar fechado excepto uma ou outra lojas chinesas de maneira que tomámos um pequeno almoço de bolachas e iogurte que tínhamos comprado no dia anterior. Apanhámos um táxi até um Sopping Center fora da cidade mas só o supermercado estava aberto de maneira que acabámos a ver a internet à porta da Pizza Hut onde tinha estado uns dias antes. Voltámos pelas onze da manhã ao nosso porto e por ali ficámos, a ler e escrever.
Pelas duas e meia da tarde saímos a pé à procura de um sítio para comer alguma coisa. Dois polícias, que tentavam resolver um desentendimento local, quando nos viram disseram-nos que era muito perigoso andarmos ali sozinhos e chamaram dois colegas em bicicleta que nos acompanharam até um Kentucky Fried Chicken que havia por perto e estava aberto.
Antes de lá sair coloquei a maior parte do dinheiro nas cuecas e voltámos a pé para o porto, sem problemas.
O mecânico que seguiu connosco no barco contou-me mais tarde que, naquele dia, tinham morto dois miúdos naquela rua, por desentendimentos sobre controlo de zonas da cidade, principalmente no comércio de droga.
- Já não nos impressiona. É um problema quase diário, disse.



3 de maio de 2017

Colón 3


Ontem voltei à “selva” de Colón ver se percebia como estava a situação do barco. O guarda já me deixa passar o portão e ir até ao barco, que continua atracado no mesmo sítio, começando a parecer fazer parte do porto. O velho comandante convidou-me a subir a bordo para me dar mais explicações sobre a demora em partirmos. O seu posto de pilotagem/camarote não terá mais de dois metros quadrados com uma cama sebenta na parte de trás e um leme em ferro com o aspecto de já ter atravessado muitos oceanos enquanto a porta em madeira está a desfazer-se de podre. Estavam a carregar enormes caixas com Tabaco e disse-me que ainda esperavam outra carga para aquele dia ou a manhã seguinte, antes de podermos partir.
- Então partimos depois de amanhã?
- Sim. Em princípio.
Pediu-me se pagava já a viagem mas disse-lhe que só quando visse a moto ser carregada.
Quando chegava de volta ao Hostel parou ao meu lado um miúdo Canadiano que viajava numa velha Suzuki 350. Procurava também transporte para a Colômbia e sugeri que se juntasse a nós no barco, que um dia partiria. Ele achou boa ideia porque a alternativa que tinha era um veleiro que sairia dentro de dez dias e bastante mais caro.
Os dias vão passando sem que a situação se resolva. Quando acordo costumo dar um mergulho aqui ao lado do Hostel, nas águas mornas deste lado do Atlântico, antes de tomar um duche frio. As manas Venezuelanas só chegam às dez e meia para me tratarem do pequeno almoço de ovos estrelados ou panqueca com banana. Depois, dou um passeio de moto pelas redondezas. Um dia aluguei um pequeno barco a motor para me levar a umas praias desertas do outro lado da baía.
Vou falando ao telefone com o dono do barco. O problema agora, quando tudo parecia pronto para partirmos, foi a transmissão, que cedeu. O Arturo explicou-me que tinha mandado colocar uma caixa de velocidades reconstruída mas, quando a foram experimentar, o barco só andava para trás. O mecânico talvez resolvesse o problema durante esse dia.
Sem conseguir voltar a falar com ele no dia seguinte colocámos as bagagens nas motos, eu e o pacato Canadiano, e decidimos voltar a Colón para tentar apanhar aquele barco ou outro que pudesse estar no Porto.
Chegámos pelas onze e meia da manhã. O velho capitão tinha saído mas disseram-nos que voltaria dentro em pouco. Chegou pouco depois com o Arturo, dono do barco. Disseram-nos que o mecânico estava a trabalhar no barco e que tudo deveria estar pronto para sairmos essa noite, ou na madrugada do dia seguinte.
Entretanto, na alfandega do porto tinha mudado o responsável e este disse-nos que não nos poderia carimbar o passaporte e tratar dos papéis das motos ali. Teríamos que ir até aos escritórios centrais da alfandega na cidade, mas que, por ser quinta feira da semana santa, fechavam ao meio dia e só reabririam na segunda feira seguinte. O Arturo propôs levar-nos lá de carro. Pelo caminho ligou a este tipo da alfandega do porto a pedir-lhe que esperasse pelo nosso regresso pois ele também queria fechar a alfandega e o portão de entrada no porto, para sair de fim de semana, com as motos ainda do lado de fora.
Já apanhámos a responsável da alfandega central a almoçar numa roulotte, fora do local de trabalho, e disse ser impossível lá voltar para tratar dos nossos papéis. Só segunda feira, informou.
Decidimos então que partiríamos sem tratarmos dos papéis, com a ideia de carimbarmos os passaportes no porto junto à fronteira com a Colômbia, onde o barco atracaria. O homem da alfandega do porto cobrou-nos 30 dólares por o termos feito esperar mas deixou-nos passar as motos para dentro do porto antes de o fechar a cadeado e partir até segunda feira. Já não tínhamos alternativa senão esperar por ali que conseguissem reparar o barco.


2 de maio de 2017

Portobelo


O comandante acabou por chegar mais cedo do que estava previsto. Não era o homem com quem tinha estado no dia anterior. Este tinha os seus oitenta anos, ar de velho lobo do mar e insistiu em falar inglês comigo, embora o seu inglês fosse terrível. Era simpático e acabei por ter que voltar a negociar o preço do transporte que ficou, desta vez, em 240 dólares com a alimentação. Num intervalo da nossa conversa falou com o capitão de outro barco e ouvi-o dizer que já não se lembrava do percurso para a Colômbia, como se estivessem a falar de um percurso por estrada. Adicionado ao facto de o homem ter vindo de rezar durante três horas achei que me estava a colocar numa situação verdadeiramente desconfortável. Será que estes homens, em pleno século XXI, ainda navegam à vista nestas carcaças flutuantes?
Finalmente disse-me que ainda teríamos que falar com o dono do barco quando eu não fazia ideia que existia um “dono do barco”. Lá fomos ter com ele, que falava em voz baixa, com um outro elemento da tripulação. Era um rapaz novo, dos seus trinta e poucos anos, todo vestido de branco, incluindo o boné. Tinha uma barba com o corte ajustado a três ou quatro dias e um ar de “dealer” indisfarçável. O que vale é que o transporte que eu precisava era no sentido contrario ao movimento da droga.
O rapaz achou divertida a ideia de transportar a moto e nem quis saber o preço negociado entre mim e o capitão, como sendo um pormenor sem importância, uma atitude que não parecia coincidir com a qualidade do barco, a cair de podre.
Despedi-me do velho comandante com Alzheimer, que insistia em falar inglês comigo, não sei se para impressionar o pessoal, e parti de regresso ao meu Hostel de Portobelo onde as irmãs Venezuelanas me receberam de volta de braços abertos. Uma delas ficara muito impressionada por me ouvir falar francês com o patrão Vietnamita e inglês com outros clientes de maneira que agora me pede que a acompanhe junto dos clientes estrangeiros que vêm almoçar, para que traduza o menu. Já faço parte da mobília.
Dois dias antes tinha lá aterrado um casal de miúdos americanos, nos seus trintas, muito simpáticos, que vinham cada um na sua moto e tinham saído dos Estados Unidos há seis meses numa viagem que incluiu um estoiro do rapaz no México, quando bateu de frente contra um carro à saída de uma curva, deslocando um ombro, o que os obrigou a pararem um mês. Tinha estado um par de horas à conversa com eles e acabámos por jantar juntos. Tinham marcado um barco à vela com antecedência para transportarem as suas motos para a Colômbia, mas, mesmo sendo pequenas,  custou-lhes mais de mil dólares a cada um. Gostei imenso dos miúdos.
A pequena vila e baía de Portobelo foi muito importante no tempo dos colonizadores espanhóis, que aqui guardavam o ouro que recolhiam nas minas da América do Sul antes de o enviarem para Espanha. Por isso tinha um forte de cada lado da vila, de que hoje restam ruinas. Eram constantemente atacados, não só por piratas como pelos ingleses. O famoso Francis Drake, navegador, pirata e amante da rainha, acabou por morrer nesta baía e o seu corpo atirado ao mar, anos mais tarde dando nome à pequena ilha em frente do Hostel.
Há uns dias conheci aqui um português muito interessante. O Rui veio para Portobelo há uns anos montar uma pequena ONG que é, principalmente, uma escola de música gratuita para miúdos locais a que ele chamou “La Escuelita del Ritmo”. Tem tido imenso sucesso. Começou por ser contratado por uma família rica espanhola, que aqui tem casa, para montar este projecto e mais tarde conseguiu apoios governamentais americanos. Uma das suas alunas já ganhou uma bolsa nos Estados Unidos e outros estão a caminho. Junto à escola o Rui montou uma galeria de arte local de excepcional qualidade e está a construir um mini Hotel nesta zona que pela sua beleza natural vai certamente tornar-se um importante centro turístico na região. Um destes dias apareceu por aqui para beber uma cerveja comigo e convidou-me depois para um churrasco em casa de um amigo americano que tem uma casa no meio da selva.  O rapaz dos seus trinta anos, muito magro, ruivo, de enormes barbas, organiza passeios através da floresta para turistas em que vai falando não só sobre as muitas plantas que conhece como sobre os animais que encontram. Por vezes fazem passeios nocturnos, que incluem acampamentos onde dormem em redes estendidas entre duas árvores e protegidas por uma rede mosquiteira. Mostrou-me fotografias fabulosas de plantas e animais que incluíam muitos tipos de cobras, macacos, pássaros, etc. Contou-me que provavelmente mais de metade dos animais da selva se encontram nas árvores.





1 de maio de 2017

Colón 2


No dia seguinte voltei a Colón para tentar encontrar outra solução de transporte que não a da mulher da agencia de navegação, que consistia em mandar a moto num contentor e eu partir de avião até Cartagena, na Colômbia.
A cidade de Colón parece que acabou de estar envolvida numa guerra. As casas estão todas com aspecto que vão cair no dia seguinte, milhares de fios eléctricos  pendurados entre as fachadas e alguns postes e lixo nas ruas por todos os lados. A população passeia de um lado para o outro no meio deste estado de sítio. Dizem ser a cidade mais perigosa do Panamá e não me admira. O ambiente é quase assustador.
Desta vez fui até uma pequena doca no centro da cidade onde atracam pequenos barcos dos seus vinte a trinta metros que parecem, todos eles, deverem muitos anos ao ferro velho. Ali só têm espaço para quatro ou cinco destes barcos de cada vez. Já lá tinha passado antes mas o guarda, que arrasta o enorme portão de cada vez que chega um camião ou carrinha para descarregar ou carregar um barco, tinha-me despachado, dizendo que não haveria barcos a saírem para a Colômbia nos próximos dias. Desta vez, vendo a minha insistência, lá me deixou falar com um ou outro dos comandantes. É uma gente estranha porque nunca percebemos se estamos a falar com a pessoa certa.
- Então é você o comandante daquele barco?
- Sim, sou eu.
- Leva-me esta moto até à Colômbia.
- Sim, sem problema.
Combinamos o preço e, depois, percebo que não é ele o comandante e vai mais tarde negociar o preço com a pessoa certa par tentar retirar uma comissão.
Um homem com umas calças beijes engomadas e melhor aspecto que os outros acordou um preço comigo, intitulando-se dono do barco que partiria dentro de dois dias.
- Tudo bem. Por 250 dólares, incluindo a alimentação, levamo-lo a si e à moto até Puerto Baldia, na fronteira com a Colômbia e onde já facilmente encontra uma lancha para o transportar até ao outro lado. Vamos lá falar com o Comandante. Espere aqui.
- Mas eu pensei que você era o comandante.
- Não, mas não há problema.
- E lá foi falar com o possível comandante dizendo-lhe que eu pagaria 200 dólares pelo transporte.
- Ficou acordado trazer a moto dois dias depois, numa sexta feira, para a carregarmos e partirmos na madrugada do dia seguinte.
Quando lá cheguei, na manhã de sexta feira, o primeiro homem disse-me que estavam atrasados 24 horas, para voltar no dia seguinte. E quando eu me ía embora, assim do nada, virou-se para mim e disse, nas barbas do director da alfandega:
- Dê-me aí dez dólares.
- Não. Só pago seja o que for quando carregarmos a moto.
- Decidi então voltar à cidade do Panamá, onde só tinha estado pouco tempo. Cheguei de dia, ainda a tempo de tirar umas fotografias, depois de me instalar no Hotel onde tinha estado uns dias antes e fui jantar cedo, a um restaurante da moda local, com uma decoração moderna mas refeições pouco mais que razoáveis e caras.
Na manhã seguinte voltei a percorrer os cerca de 70 Km que separam a capital de Colón e regressei ao pequeno porto para me encontrar com o suposto capitão do barco em que deveria embarcar, antes do meio dia, como me tinham pedido.
Quando lá cheguei o guarda que passa o dia a correr o portão por onde deve passar metade da droga que entra na América Central a caminho dos Estados Unidos disse-me para esperar numa cadeira podre e suja que tinha à porta, a condizer com tudo o resto, que o capitão tinha saído e já voltava. Passada uma hora, quando dois miúdos iam a sair informou-me: este é neto do capitão. E perguntou ao miúdo onde andava o avô.
- O meu avô foi para a igreja rezar e só regressa dentro de três horas.
A ideia de um capitão que vai para uma igreja rezar três horas, antes de partir para uma viagem no seu barco a cair de podre, assustou-me.
Voltei a sentar-me e fiquei por ali à conversa com um rapaz e o homem do portão, que de vez em quando revistava de forma superficial mochilas com roupa velha antes de saírem o portão mas mandava passar sem pestanejar camiões e carrinhas de carga. Nada parecia fazer sentido.

29 de abril de 2017

Colón


A directora comercial da companhia de navegação, uma preta gorducha com ar despachado, prontificou-se logo a encontrar uma solução para o meu problema de transporte. Era uma vendedora nata e passado um quarto de hora já estava a perguntar-me se não queria comprar uns óculos de moto que um amigo tinha mandado vir num contentor da China a um dólar cada, e mostrou-me logo meia dúzia de exemplares que tinha num saco neste pequeno escritório interior, com luz artificial e ar condicionado no máximo. Depois perguntou se não precisava de uma top case para a moto a 20 dólares e levou-me ao armazém para as mostrar. Entretanto eram cinco da tarde e perguntou-me onde iria ficar essa noite. Quando lhe disse que procuraria um hotel ligou para a irmã que disse me poderia alugar um quarto. E lá decidiu fechar o escritório, que eram horas, mandando os quatro outros elementos para casa e partimos, eu a segui-la na moto, ver o quarto da irmã. Antes de entrar no carro, olhou para a minha cabeça e, com um ar sério disse:
- Eu também tenho um cabeleireiro. Não quer cortar o cabelo?. Só visto.
A irmã não tinha a pedalada dela e o quarto para alugar estava sujo e ela achava que valia o preço de um hotel, de maneira que agradeci e arranquei, ao final da tarde, para Portobelo, uma pequena vila numa velha baía de piratas de onde saem alguns dos iates que vão para a Colômbia. Muitos fazem disso negócio, levando turistas a passear através das ilhas paradisíacas de San Blas e alguns, muito provavelmente, trazendo de volta um ou outro “carregamento” que ajude às despesas.
Quando estava a uns 4 Km da vila, já de noite, parei num primeiro Hostel mas achei caro para o aspecto e segui viagem até que um miúdo numa bicicleta me mandou parar e perguntou se estava à procura de transporte para a Colômbia. Um amigo dele teria uma lancha. Sabia também de um Hostel bom e barato.
Lá fiquei no “El Castillo” e, como era o único cliente, preferi uma das três camas de casal da camarata a 12 euros que o quarto individual por vinte.
O Hostel era gerido por um francês de origem Vietnamita, dos seus sessenta anos, que tinha aqui chegado no seu barco à vela há quatro anos, vindo de Marselha e por cá ficou, encantado com o local. Passeava o seu cão, que tinha perdido uma pata num atropelamento aqui à porta, ao fim a tarde, os dois numa prancha de surf, pela baía. Duas simpáticas irmãs venezuelanas tratavam das limpezas e cozinha, ajudadas por uma local. A casa era construída em cima de estacas sobre o mar e todas as noites adormecia com o som do mar a bater nas rochas debaixo do quarto. Um enorme salão/bar/restaurante era aberto para o Oceano, sem janelas. As dos quartos tinham cortinas ou persianas mas não vidros. Aqui chove mas nunca faz frio. Tudo tinha um ar muito rústico e até de certa forma perigoso, com a instalação eléctrica num estado lastimoso. Mas, tudo isso fazia parte da “patine” do local.
No dia seguinte fui até à vila saber se havia previsão de barcos a saírem para a Colômbia e completei o inquérito com uma ida até Puertolindo, a baía e porto seguintes, uns 20 Km à frente. Aí aluguei mesmo um pequeno barco a motor e fui com o dono e um ajudante dar uma volta pelos iates ancorados na baía, para saber se algum pensava partir brevemente, com espaço para transportar a “Cross Tourer”. Infelizmente, os que estavam para sair não tinham onde a colocar.
Outra solução foi apresentada por uma das venezuelanas que tinha um amigo com uma pequena lancha com dois motores que fazia o trajecto regularmente e até já tinha transportado uma ou outra moto. Contactei-o e disse que poderia fazer o transporte dentro de dois dias mas várias pessoas aconselharam-me a não seguir essa hipótese pois a lancha, com dois motores a dois tempos de 40 cv., era pequena de mais para enfrentar as ondas do mar das Caraibas, que chegam a atingir cinco metros, com uma moto de 300 Kg às costas. Mas esse assunto ficou resolvido quando o rapaz me propôs uma verba de 900 euros para o transporte, muito próxima da que pedem os donos dos barcos à vela. Estava apostado em encontrar uma solução mais económica.  



28 de abril de 2017

Panamá


A cerca de 50 Km de Panamá City deparámos com uma fila de carros paticamente parada, provocada por um desastre, que durou até perto da capital. Seguindo um dos meus companheiros de viagem neste pequeno trajecto, visto que o segundo tinha ficado numa cidade antes, fizemos mais de quarenta quilómetros por entre os carros e a berma, o que obviamente nos fez perder cerca de uma hora.
Chegámos à cidade já de noite e o meu amigo levou-me até à porta do tal Hostel que eu procurava, onde me tinham indicado que teriam o contacto de donos de pequenos iates à vela que poderiam transportar-me, a mim e à moto, até à costa da Colômbia.
O problema é que, segundo dizem por pressão dos americanos, para atrapalharem o comércio de droga vinda da América do Sul e controlarem o fluxo de emigrantes ilegais que aqui chegam, muitos deles vindos de África, não existe estrada entre o Panamá e a Colômbia. Assim terei que encontrar um barco que possa fazer este trajecto, através do mar das Caraíbas.
O Hostel, que tinha um letreiro à porta onde se lia: “boats for Colômbia”  estava cheio e quando saí à rua para me preparar para ir para um outro lado da cidade onde me tinham dito que encontraria onde ficar, um tipo branco, alto e magro, com quarenta e tal anos, a cara a pingar de suor, veio falar comigo num inglês perfeito. Todo “speedado” perguntou se eu estava à procura de hotel, que ele iria a correr a dois ou três que havia ali perto ver se tinham lugar.
Estranhei e perguntei:
- Mas, porque faz isso? Quanto pretende ganhar?
- Nada. Se quiser depois dar-me um dólar ou dois aceito.
- Você é americano?
- Não. Sou de cá.
- Porque fala tão bem inglês?
- Fui para os Estados Unidos em miúdo e só regressei há pouco tempo. E partiu a correr.
- Espere cinco minutos, disse-me já depois de arrancar.
Enquanto esperava, um preto, mais novo, simpático, veio pedir-me para sentar uma criança na moto para uma fotografia. Estava com a mãe da miúda e mais duas amigas e um amigo a fazerem sala à porta de um prédio e, conversa puxa conversa, perguntaram se não queria uma cerveja que traziam numa geleira. E ali fiquei a beber uma cerveja com eles enquanto o outro, que vim a saber ser amigo deles e morar no mesmo prédio, não regressava. Quando o homem chegou da sua correria, sempre a suar, sem ter encontrado um quarto para mim, juntou-se ao grupo.
- Eu já não toco em alcool nem em tabaco há dois anos.
- Boa, disse-lhe eu.
- Não dispenso é a Coca. Isso é que é inevitável.
- Bem me parecia, respondi-lhe. Isso dá-lhe cabo da saúde.
- Não. Morre mais gente por causa do alcool e do tabaco do que pela Coca.
- Isso é porque a Coca é um vício mais caro.
- Não, aqui não é. Mais barato que o alcool. 5 euros dão-me para o dia inteiro.
Passada uma meia hora arranquei à procura de Hotel, quando já eram nove da noite. Acabei por encontrar um não longe de ali.
No dia seguinte deixei a cidade a pelas onze da manhã a caminho de Colón, o porto que fica a 70 Km da cidade, na outra ponta do canal e de onde partem os barcos de carga, outra das hipóteses para o transporte da moto. A cidade portuária é um caos e, no meio, tem uma zona franca de vários quarteirões, com portões e guardas armados. Quando procurava onde me dirigir para encontrar transporte, perdido na confusão, um rapaz à porta de um dos prédios onde fui parar, que aí tratava de papelada de navegação,  disse-me que sabia de uma senhora que trabalhava numa companhia de navegação que me poderia ajudar. Estava numa pequena moto e segui-o até aos escritórios da companhia que se situava dentro da zona franca. No primeiro portão não me deixaram entrar e tivemos que dar a vota à mini cidade formada por lojas e companhias diversas, para chegar ao portão principal onde, a pedido do rapaz, um chefe gordo com ar de poder lá me deu autorização para entrar com a moto, não sem antes dizer a um subalterno que me inspecionasse a bagagem, o que se resumiu à abertura de duas das malas sem sequer as retirar do sítio. Um proforma.