9 de abril de 2017

Guatemala City 2


Quando regressei do lago Atitlán à cidade de Guatemala fui direito ao concessionário Honda onde tinha marcado uma reparação da suspensão para o dia seguinte. Fiquei impressionado com a dimensão e o movimento. O departamento automóvel estava repleto de carros novos à espera de serem entregues e, na parte das motos, só do modelo Africa Twin tinham doze em stock. O director da concessão contou-me no dia seguinte que na semana em que começaram a comercializar o modelo venderam 20. Tenho impressão que em Portugal não há tanto movimento no país inteiro. E isto é supostamente um país pobre, com poucos mais habitantes que nós, quinze milhões.
Combinei estar lá no dia seguinte às oito da manhã e indicaram-me um Hotel relativamente barato por perto.
Ajudei o excelente mecânico a fazer a reparação e aproveitei para mudar pastilhas de travão e o óleo do diferencial que pensava nunca ter sido mudado mas que, pelo seu estado, constatei que o teriam feito quando passei na fábrica, no Japão.
Deixei as instalações já perto das seis da tarde e decidi sair da cidade para no dia seguinte de manhã não ter que fazer a muito movimentada estrada que sai para Sudeste a caminho de El Salvador. O mecânico que trabalhou na minha moto tinha-me dito que havia uma cidade a pouco mais de meia hora de caminho onde encontraria hotéis. Só que, quando achei que já tinha passado a referida cidade, perguntei por hotéis e começaram a indicar-me estradas secundarias. Ficou noite e acabei por me perder. Estes arredores de Guatemala são sinistros e os únicos hotéis que encontrava eram Moteis de estrada destes com quartos alugados à hora, que não queriam perder tempo e dinheiro com um cliente que vinha para passar a noite toda. Para manter a discrição dos clientes existe um telefone na parede da entrada que toca quando nos aproximamos e, ao atendermos, falamos com a recepcionista. Num disseram-me para voltar às dez da noite que me alugariam o quarto até às oito da manhã enquanto uma simpática mulher me informou pelo telefone que não estava autorizada a alugar quartos a pessoas só.
- Não quer então passar lá a noite comigo? Ainda nos rimos ao telefone.
Fui andando às voltas nesta zona horrível onde cada bomba de gasolina tinha um guarda de metralhadora, com um aspecto pior que qualquer possível assaltante. Passaram duas horas totalmente perdido, com cada pessoa a indicar-me um caminho diferente. Pelo meio apanhei engarrafamentos com as camionetas de transporte de passageiros Guatemaltenhas, que são dos anos sessenta e provocam uma poluição impressionante. Ás tantas entrei numa vila de ruas empedradas em tão mau estado quanto as casas. Tudo podre e com um aspecto assustador. Pelas nove da noite fiquei com fome e decidi parar num restaurante de frangos para jantar. Não tinha mau aspecto e as empregadas eram simpáticas mas, pela primeira vez nesta minha viagem, apanhei uma intoxicação com esse jantar.
Depois do jantar consegui encontrar o caminho de volta a Guatemala. Não estava longe. Andei uma hora à procura de um Hotel com um preço decente e todos eles me diziam: “se quer barato tem que ir para a Zona 1 mas recomendamos vivamente que não vá para lá de noite”. Acabei por me instalar no mesmo da noite anterior, junto ao concessionário Honda, de onde tinha saído cinco horas antes.
Dormi mal com a intoxicação e no dia seguinte acabei por sair a caminho da fronteira com San Salvador, a uns 180 Km de ali, só pelo meio dia, já em muito melhor estado. Parei já perto da fronteira para beber uma Coca Cola. A fila de camiões para passar a fronteira tinha nada menos que sete quilómetros. Quando estava a percorre-la um homem numa destas monocilindricas de 100 c.c. fez-me sinal para parar. Tinha um boné enfiado na cabeça virado para trás e, por cima, um capacete de plástico a que lhe tinha cortado a parte traseira para não interferir com a pala do boné. Ofereceu-se para me tratar da papelada para passar ambas as fronteiras, de saída de Guatemala e entrada em El Salvador, por 20  dólares. Aceitei a proposta e lá o segui a meia dúzia de quilómetros através dos camions estacionados, que por vezes ali passam três dias.


7 de abril de 2017

Guatemala City


Cheguei à cidade de Guatemala pelas cinco da tarde e, sem saber onde ficar, decidi ir até ao centro. Eles têm a cidade dividida em Zonas e esta é a Zona1.
Achei estranho ao chegar por ser uma zona de ruas estreitas com péssimo aspecto mas pensei que seria toda a cidade assim e tratei de procurar um Hotel. Numa bomba de gasolina indicaram-me um com tão mau aspecto como a Zona mas que tinha a vantagem de uma garagem onde guardar a moto. No dia seguinte soube que me tinha instalado na Zona mais perigosa da cidade, onde muita gente nem se desloca, principalmente à noite.
Estranhei ao perguntar à menina da recepção onde havia um restaurante onde pudesse jantar e ela responder:
- Se esta zona é perigosa? Sim, é. Há que tomar cuidado.
- Mas não foi isso que eu perguntei.
- Sim, sim. Estou só a chamar a atenção. O único restaurante que está aberto a esta hora fica nesta rua a dois quarteirões, numa esquina do outro lado da rua.
- Obrigado. E lá segui a caminho do restaurante.
Pela primeira vez nesta viagem de volta ao mundo senti verdadeira insegurança. As ruas eram escuras, numa zona muito degradada e sem iluminação alguma. Viam-se vultos a sair de algumas portas, alguns em grupos de dois ou três  e a caminharem pelos estreitos passeios. Eu fui até ao restaurante de passeio em passeio, a atravessar a rua cada vez que vislumbrava um destes pequenos grupos que se cruzaria comigo. Á porta do pequeno restaurante de frango assado estava um guarda de espingarda mas recolhido dentro do restaurante, não fosse ser atingido por uma bala perdida. Os clientes, estranhamente, eram absolutamente normais e pareciam não fazer parte do cenário. Depois do meu frango lá voltei para o Hotel, onde a porta de grades era aberta e fechada de cada vez que um cliente saía ou entrava, saltitando novamente de passeio em passeio por entre a escuridão. A rapariga pareceu feliz por me ver de volta.
Na manhã seguinte encontrei-me com um adjunto do Cônsul Português para o pequeno almoço. Ele tinha-me recomendado um Hotel numa zona sossegada mas como era bastante mais caro nem sequer o procurei. Sendo um Guatemaltenho, queria, essencialmente, saber a opinião dele sobre o trajecto que tinha planeado fazer nas travessia dos outros países da América Central.
Segui visitar a cidade de Antigua, velha capital, a cerca de 30 Km da actual para depois seguir até ao lago Atitlán que me tinham recomendado visitar, por ser rodeado de vulcões.
Antigua, fundada pelos espanhóis em 1543, é uma cidade linda, com as ruas todas em calçada e boas casas e monumentos erguidos pelo invasor. Fica num vale para onde se desce por uma inclinada via rápida.
Parti depois para o Atitlán, um enorme lago que, por o tempo estar enublado não me permitiu que distinguisse bem os vulcões junto à margem oposta. Já perto passei pelo que inicialmente pensei ser uma manifestação de Índios mas que ao ultrapassar verifiquei tratar-se de um enterro, certamente de alguém importante no Clã, pelo volume da assistência.
Almocei junto ao lago com um simpático casal de americanos que me chamou para a sua mesa quando me viram de capacete na mão. Eles tinham vindo até ali numa BMW e pensavam regressar brevemente aos Estados Unidos.
A caminho de Antigua tinha parado num concessionário Honda da cidade de Guatemala para saber se teriam a ferramenta que preciso para reparar as suspensões da moto, sem grande esperança de as encontrar. Eles não as tinham mas confirmaram-me que havia outro na cidade que tinha certamente, prontificando-se a ligar para lá a confirmar. Havendo a possibilidade de fazer a reparação dois dias depois, ficou marcada a operação tendo eu regressado à capital no dia seguinte a ficar junto ao lago.



5 de abril de 2017

Guatemala


Só passei uma noite no Belize pois a principal atracção do país são as ilhas e não quis viajar sozinho para uma delas. Assim, deixei Belize City pelo meio dia e, uma hora e meia depois, estava na fronteira com a Guatemala. Na fronteira do Belize tive que pagar mais 20 dólares para sair do país mas foi um processo relativamente simples. Só se complicou na entrada da Guatemala. Primeiro pediram-me para pagar dois dólares para darem um spray de desinfecção na moto.
- Mas vão lavar-me a moto?
- Não. Só passar o spray de desinfecção.
- Isso não faz muito sentido. E é mesmo necessário?
- Sim. Imprescindível. Não queremos que tragam veículos infectados para o país.
Passei então à parte burocrática já na companhia de um miúdo destes que se oferecem para nos guiar nos trâmites.
- São necessárias fotocópias do Passaporte, carta de condução e livrete da moto.
- E onde posso tirar isso?
- Na vila.
- Já dentro o país, portanto.
E lá fui eu com o miúdo a pé, passando no caminho por uma caixa multibanco para levantar dinheiro local.
Quando regressei com as cópias, incluindo a da carta de autorização do ACP, o homem disse que não poderia aceitar esta última porque não sabia quem a tinha assinado.
- Oiça, eu dei a volta ao mundo sempre com estas cartas e agora na Guatemala é o único país onde não são aceites?
- Exacto. Terá que voltar para trás com a moto.
O problema acabou por se resolver, como de costume, quando pedi para falar com o chefe, que são sempre mais sensatos e por isso passam a chefes, mas perdi uma hora e meia com o processo. Por fim, quando estava pronto para sair, lembrei-lhes.
- Mas não chegaram a fazer a desinfecção da moto.
- Ah. Não é preciso. Siga lá viagem. Percebi que as cobram mas nunca as fazem.
Convidei o miúdo que me tinha ajudado para almoçar uns tacos e segui a caminho de Tikal, mais um local com ruinas Mayas descobertas nos séculos XIX e XX mas que têm mais de dois mil anos. Acabei por ficar a 30 Km, num simpático Hotel junto ao Lago Petén Itza.
No dia seguinte visitei as ruinas e depois rodei uns 80 Km à volta do lago para ir almoçar à pequena ilha de Flores, que é ligada ao continente por uma ponte.
Parti a seguir ao almoço em direcção à capital. A estrada, uma das principais do país, tem troços com bom piso e outros esburacados. À medida que nos vamos aproximando de Guatemala o transito de camiões aumenta bastante mas sabia que não chegaria lá nesse dia. Pelas cinco da tarde, ao passar por uma pequena cidade, procurei onde ficar. Acabei por me instalar no único Hotel que havia por ali. O quarto tinha um ar desolador, com a tinta a cair das paredes e algumas pretas de sujas mas os lençóis pareciam lavados. Não havia água quente e mesmo a fria, para ser ligada, obrigava a que se tocasse uma estridente campainha junto à recepção, quando aparecia uma menina a correr e ligava a bomba que fornecia água aos quartos. Queixei-me do preço de 150 Keksales que era superior em 50% ao do simpático Hotel do lago onde tinha ficado na noite anterior. Ela disse que não havia nada a fazer, que era mesmo assim, mas passados cinco minutos veio entregar-me metade da verba dizendo que eu só pagaria 75, o equivalente a 11 euros, por estar sozinho.
Como tinha almoçado bem e tarde na ilha fui a um mercado local e comprei uma cerveja para aquele fim de tarde e uns pacotes de bolachas e dois iogurtes que foram o meu jantar e pequeno almoço do dia seguinte.


1 de abril de 2017

Belize


Quando cheguei à fronteira com o Belize pensava que o país também tinha sido uma colónia espanhola como todos os outros por aqui, e portanto, quando o primeiro homem que encontrei na fronteira me perguntou se falava inglês disse-lhe que sim mas preferia falar em espanhol. Só quando fui ter com os segundos guardas percebi que pertenciam a uma ex-colónia inglesa. Até 1973 o país chamava-se British Honduras e só declarou independência em 1981. Pertencente à Commonwealth, a rainha de Inglaterra é a chefe de estado. As notas de banco são impressas com a sua cara.
Ao entrar no México por aquela terra sinistra no Norte do país, dominada pelos gangs das drogas, o guarda da fronteira, não sei se pensando que eu era Mexicano ou pertencente a algum dos grupos que lhe pagava o ordenado, mandou-me seguir sem sequer olhar para o meu Passaporte, quanto mais carimbá-lo. Em conversas que tive no país várias pessoas acharam a situação muito estranha pois eles normalmente não só carimbam o Passaporte, com um visto de estadia no país, como exigem que se deixe um depósito na fronteira de 450 Dólares pela entrada da moto, que só é devolvido à saída. Assim, calculava que iria ter problemas ao sair, quando vissem que não tinha carimbo de entrada. E assim foi. O primeiro guarda disse-me que não me podia deixar passar e que a única solução que conhecia na lei mexicana para o meu caso era a prisão. Pedi então para falar com o chefe. O guarda que me levou ao chefe preparou-me pelo caminho: “Se eu lhe conseguir resolver a situação vai ter que me dar um abono”.
O chefe tinha um ar bonacheirão, bem disposto e despachado e, pela cara com que me disse que só havia duas soluções que seriam a prisão ou uma multa de largos milhares de dólares, percebi que já estava a pensar numa terceira.
- “É que sem o carimbo de saída de aqui não o deixam entrar no Belize”, dizia-me.
Acabou por dizer ao guarda que me acompanhou para me colocarem um carimbo em como se eu fosse um Mexicano a emigrar, que me custaria 25 Dólares. Fiz cara de achar caríssimo e quando o guarda me levou de volta e pediu a comissão dele respondi-lhe:
- “Nem pensar. Então já viu que vou ter que pagar 25 dólares por uma situação pela qual não fui culpado”.
Na fronteira do Belize o problema foi o oposto. Quando mostrei à menina um papel impresso com o selo branco do ACP, dirigido às autoridades alfandegárias do Belize com a autorização da Honda Portugal para eu utilizar a moto, estranhou e não me queria passar o papel de entrada.
- Mas qual é o problema?
- O problema é que eu acho estranho o senhor ter isto tão organizado, com um papel dirigido a cada país por onde passa.
Mas com mais dois dedos de conversa lá passou o papel de importação temporária da moto e carimbou o Passaporte.
Aqui sente-se a influência inglesa pois foi dos poucos países que me exigiram que fizesse um seguro local para a moto.
- “E como é a estrada que vai para Belize City”?, perguntei ao homem dos seguros.
- “É alcatroada"
- “Ah, sim senhor”
É a principal estrada do país e só tem uma faixa para cada lado, sem bermas pavimentadas, mas pelo menos estava remendada nos pontos mais fracos. Cerca de cento e cinquenta quilómetros depois estava em Belize City. A cidade é relativamente pequena, assim como o país que não tem mais de 300 Km de comprimento por 110 de largura e pouco mais de 350.000 habitantes. Tem das maiores taxas de criminalidade do mundo mas mesmo assim inferior à dos vizinhos Guatemala, El Salvador e Honduras.
Belize City não é a capital mas a maior economicamente e tem quatro vezes mais habitantes que Belmopan. Tem poucos prédios, com os únicos que existem a não terem mais de dois ou três andares. A maioria das ruas, que não têm os nomes gravados, é ladeada de velhas casas em madeira, quase todas herdadas dos ingleses. Fiquei em casa do Cônsul Português, um homem de negócios local, com uma boa casa com piscina e ancoradouro para o barco, fora do centro.   

30 de março de 2017

Bacalar


Depois daquele almoço surreal deixei a estrada principal cinco quilómetros à frente da aldeia onde parara e fui em direcção a Mahahual, uma pequena estância na Costa Caribenha onde quase diariamente atracam barcos de cruzeiro que ali despejam um ou dois milhares de turistas que enchem restaurantes, esplanadas sobre a praia e mesas de massagem, onde raparigas de batas brancas esfregam homens gordos em fato de banho. Tem tudo um ar bastante bera, embora se andarmos um pouco na costa, através de uma estrada de areia, encontramos alguns bares e estalagens com melhor aspecto. Instalei-me no Hotel com o nome da cidade, um três estrelas a cair para uma, mas acabei por jantar excepcionalmente bem no restaurante de um Hostel.
No dia seguinte parti já tarde para Bacalar e, como era o primeiro dia de fim de semana, resolvi marcar estadia. Reservei, sem perceber, uma tenda de campismo, num parque em cima da lagoa. Quando cheguei perto do local, sem haver nomes de ruas ou sinais que se vissem, perguntei onde era aquela “Estrada da Reforma Agrária”. Mandaram-me no sentido contrário da lagoa e eu respondei que não deveria ser mas o homem, persuasivo, respondeu: “Por ali há outra lagoa”. E lá fui eu 25 Km paisagem dentro até uma pequena aldeia onde encontrei um homem de bicicleta que pedi para parar. Vinha de óculos escuros com um ar moderno mas tudo o resto não batia certo com aquele acessório. As calças tinham uma corda de sisal a fazer de cinto e a camisa, já sem metade do forro do colarinho, tinha vários remendos que pareciam ter sido cozidos por ele mesmo. Quando lhe perguntei pelo parque de campismo começou a desbobinar um monte de palavras sem nexo e, por mais que eu dissesse está bem, já percebi, ele não parava de falar e eu não o queria deixar a falar sozinho. Duas miúdas e um rapaz que passavam a pé foram a minha salvação. Mostrei-lhes o papel com a morada. Eles não conheciam a zona e mostraram o papel ao homem que respondeu ser escusado por não saber ler. Agradeci e segui até uma barraca mais à frente onde me informaram do erro que tinha sido levado a cometer, e lá voltei os 25 Km para tras.
Cheguei ao parque ao anoitecer. Tinha uma
situação fabulosa, em cima da lagoa mas tudo o resto era péssimo. As cadeiras à volta das mesas eram em plástico podre e pelos cantos viam-se barcos a motor abandonados e rodas de carroça partidas a fazerem de obras de arte. Um homem a querer dar um ar eficiente veio anunciar-se como proprietário e explicar que ainda não havia água quente nem internet e que estavam em obras mas que dentro de um mês aquele parque estaria um brinco. Difícil de acreditar. A mulher preparou-me um frango com ovos que era tão duro que, mesmo cheio de fome, demorou-me meia hora a engolir, ajudado por um par de cervejas. O único consolo foi terem dois quadrados de chocolate. Anunciou que iria acender uma fogueira para festejar o fim da lua cheia. E por ali fiquei hora e meia à volta do lume, primeiro na companhia de quatro miúdos ingleses sem graça nenhuma, que acabaram a tomar banho na lagoa, e depois de um casal de franceses mais interessante que viviam no México há dez anos, sem vontade de voltarem para a Europa.

Deixei o parque pelas dez e meia da manhã, depois de um pequeno almoço de mais ovos mexidos “overcooked” e passei no outro parque que o casal tinha na cidade para consultar a Internet. Aí encontrei um casal de ingleses que tinha enviado a sua BMW de Inglaterra para Nova Iorque e estavam a passear pelo México há quatro meses. Ele fez-me muitas perguntas sobre a Ásia pois têm ideias de lá ir brevemente.
Parti depois em direcção à fronteira com o Belize. Tinha combinado ficar nessa noite em casa do Cônsul português no Belize, um belizenho.





26 de março de 2017

Mahahual


De Playa del Carmen parti para Sul, em direcção ao Belize. Tinham-me recomendado visitar Tulum, uns 60 Km a Sul e quando ali estava decidi ir até Sian Ka’an, um parque natural, classificado pela Unesco como reserva da Biosfera. É uma zona com grandes lagoas e muita vegetação, maioritariamente de palmeiras, e uma fauna fantástica que inclui crocodilos, que vi na lagoa quando parei em cima de uma ponte, tartarugas, lagartos, a atravessarem constantemente a estrada, uns enormes pelicanos escuros, que parecem voar em câmara lenta e até Panteras e Leopardos além de Javalis e muitas outras espécies. A reserva tem uma estreita estrada de terra que segue por entre a floresta, com mar de um lado e lagoa do outro, até uma pequena aldeia que se chama Punta Allen. São cerca de 50 Km, grande parte em mau estado. Decidi ir lá almoçar mas, na ida, fui depressa de mais pela esburacada estrada e, já no regresso, os parafusos que seguram a parte de trás do quadro desapareceram, o banco e toda a traseira da mota descaiu, e tive que reduzir drasticamente o ritmo até chegar ao alcatrão.
Nesta faixa em alcatrão os hotéis são todos de quatro e cinco estrelas com preços a rondarem os 250 dólares por noite de maneira que segui a sugestão de uma menina Colombiana que vendia gelados num bar e montei a tenda num camping que havia na praia. Ela estava lá a ficar com duas filhas pequenas. Instalei-me mesmo junto à praia, fui até ao espaço que tinham com uma mesa corrida e ligações electricas para escrever e, pelas oito e meia da noite jantei dois Tacos e uma cerveja no restaurante da praia. Perguntei a um homem que estava ao balcão com ar de gerente qual era a “password” da internet e ele, sem tirar os olhos do computador disse: “fucking tacos”. Achei que estava com um problema na cozinha e repeti a pergunta mas ele voltou a dizer, desta vez já a olhar para mim: “fucking tacos”. Era mesmo essa a Password.
A seguir ao jantar fui ter com a minha amiga Colombiana à loja de gelados. Ficámos à conversa entre dois gelados e, pelas onze da noite, dei-lhe boleia na moto para o parque de campismo. Convidou-me para tomar o pequeno almoço do dia seguinte, com ela e as filhas. Estava uma maravilha, com ovos, panquecas e fruta.
Desmontei a barraca e, pelas onze da manhã arranquei para Tulum à procura de uma oficina onde reparar a moto. Lá encontrei um concessionário da Yamaha, à falta de Honda naquela cidade, que me deixou fazer o trabalho à porta da oficina, com o empréstimo de uma ou outra ferramenta.
Arranquei depois em direcção a Mahahual através de longas rectas traçadas no meio de uma floresta cerrada, no extremo ocidental do Sian Ka’an. Pelas duas e meia da tarde, cansado por dormir na tenda, parei junto a um mini mercado rudimentar com a ideia de beber um sumo e descansar. Sentei-me num dos bancos corridos à porta. No do outro lado estava uma mulher de ar atarracado e rabo grande, dos seus quarenta e muitos anos e a sua mãe, já bem dentro dos setenta. Ás voltas em pé um sueco, dos seus trinta e poucos anos, esperava um autocarro. A mulher, curiosa, começou a fazer-me um inquérito sobre de onde eu vinha e para onde ía e, de repente, perguntou a rir: “quer casar comigo?” ao que eu respondi com a mesma rapidez: “quero”. Estávamos ali na galhofa quando a vizinha da barraca do lado veio perguntar se ela queria um “picadilho” para almoçar que ela tinha acabado de fazer. A mulher agradeceu e disse que não mas eu virei-me para a minha noiva de ocasião e disse:
-“olhe que eu até comia o “picadilho”.
Então ela, já com o ar de “quem manda lá em casa sou eu” disse:
- “Não, vamos antes almoçar à vizinha do outro lado que cozinha maravilhosamente e vende para fora”. E com isto levantou-se e entrou na barraca do outro lado que tinha, num pequeno espaço, um balcão e uma única mesa com duas cadeiras. Eu fiquei à conversa com o Sueco, que tinha fugido à neve de Estocolmo por duas semanas. Às tantas a mulher sai de dentro da barraca da vizinha e à porta pergunta-me: quer frango ou porco?
- “Frango”, respondi. E ela voltou para dentro. Passados uns cinco minutos voltou a sair e com o ar autoritário a que já me estava a habituar disse:
- “Ó homem, venha lá almoçar”. E lá fui eu, sem levantar a garimpa. O frango cozido com batatas e legumes, com um toque de piri-piri caseiro, estava uma maravilha. O sueco, meio aparvalhado mas divertido com a situação, veio sentar-se num banco do outro lado do mini restaurante. No fim a vizinha só cobrou o meu almoço, que custou o equivalente a dois euros e meio. Despedi-me de minha noiva e arranquei para Mahahual.


23 de março de 2017

Mérida


Deixei Huatulco no dia seguinte ao passeio de barco, a caminho de Mérida, que me tinham recomendado visitar. Uns 50 Km depois de arrancar entrei num vale onde se situa a vila La Ventosa. Como o nome indica o local é assolado por um vento constante de enorme intensidade. Aqui está instalado um grande parque de eólicas, com muitas centenas de ventoinhas que percorrem a paisagem de uns 20 Km de um e outro lado da estrada.
Não há pior coisa que vento forte para andar de moto. Muito pior que calor, frio ou chuva. Em linha recta a moto parecia um barco, inclinada e a abanar com as refregas. Tinha que fazer força no volante para a aguentar na estrada e no pescoço para segurar a cabeça direita. Terrível. Felizmente foi por pouco tempo. Depois entrei numa enorme serra que me levou dia e meio a atravessar e que, naquela zona, separa o Pacífico do Atlântico. Antes passei visitar o famoso canhão do Sumidero um canhão aberto na montanha pelo rio Grijalva ao longo de 35 milhões de anos, aproximadamente o mesmo tempo que levou o rio Colorado a cavar o Grand Canyon. Aqui, no Sumidero, as escarpas em alguns lugares têm mais de um quilómetro de altura. Impressionante.
A meio da serra encontrei um pequeno Hotel na vila de Boshil. A estadia custou-me o equivalente a 12,5 euros e era melhor e mais limpo do que muitos onde tenho ficado, só penalizado por um duche terrível mais uma vez a atirar água para todo o lado menos para onde devia. Ando com azar aos duches.
No dia seguinte segui serra fora através de uma paisagem de floresta exuberante numa estrada sensacional de curvas e contracurvas continuas, ao longo de mais de duzentos quilómetros. Parei já na parte plana para almoçar e, mais tarde num bar junto ao mar para beber uma cerveja. Pelo caminho encontrei um grupo de uns sete ou oito Mexicanos que viajavam em BMW’s 800. Trocámos dois dedos de conversa e arranquei antes deles. Nessa noite fiquei em Ciudad del Carmen. Quando estava a descarregar as malas à porta do Hotel chegou o grupo de mexicanos nas BMW que, por coincidência, ficaram no mesmo Hotel. Ainda os voltei a encontrar, na noite do dia seguinte, a passear pelas ruas de Mérida.
O centro de Mérida é bonito, com casas coloniais e praças com muita vegetação. Bares e restaurantes são animados por muitos turistas, a maioria vindo da estância de Cancun, a cerca de 300 Km, para aqui passar um dia ou dois. Tive azar no Hotel onde fui parar. Estava ao lado de uma “boite” cujo disc jockey parecia estar dentro do meu quarto, até às três da manhã. Quando no dia seguinte me queixei na recepção pediram-me para escrever uma nota para juntarem às muitas que já tinham de protestos. Mas o pior da noite foi ter sido atacado por umas aranhas minúsculas que me trincaram um lado da cara, a cabeça, braços e costas, deixando-me num estado lastimoso. Um creme que encontrei numa farmácia suaviza um bocado a situação mas continua dramática.
Deixei Mérida pelas três da tarde e fui ficar uns 100 Km depois, junto às sensacionais ruinas Mayas de ChienchinTze, que visitei na manhã seguinte. Esta zona é a mais turística do México, com cerca de 15 milhões de turistas a aterrarem em Cancun todos os anos. Deixei as ruinas já tarde e pensei em ficar ainda antes de Cancun mas passei apenas por pequenas aldeias que não tinham hotéis. Numa delas, já de noite, indicaram-me uma quinta onde cheguei através de uma estrada de terra. Toquei ao portão e acabou por aparecer um homem com uma criança ao colo a dizer que só estavam preparados para receberem grupos grandes com marcações. Continuei estrada fora até que alguém a quem perguntei por um Hotel sugeriu que cortasse por uma estrada secundaria a caminho de Puerto Morelos, por ser mais perto que Cancun. Entrei nesta estreita estrada deserta de longas rectas e, pelas oito da noite cheguei à pequena vila, muito mais tranquila e atractiva que a capital do turismo. Deixei a tralha num simpático Hotel onde um Mexicano me viu chegar na moto e me convidou para beber uma cerveja no bar sem paredes que dava para a rua. Acabei por ir jantar a um restaurante na rua do lado onde uma mexicana dançava Sevilhanas ao som de uma guitarra e de um desapropriado trompete, tocado por uma mulher. Animado.
No dia seguinte tinha combinado encontrar-me em Playa del Carmen com uma amiga alemã, que conheci há quatro anos no Laos e mais tarde visitei em Stutgaart. Cheguei antes dela, pelas quatro da tarde, mas já jantámos juntos.
Da parte da manhã tinha andado um pouco para trás para visitar Cancún, por curiosidade. É muito melhor do que estava à espera. A cidade é feia mas os bons Hotéis estão junto a uma fantástica praia de vários quilómetros com um mar azul turquesa.