17 de março de 2017

Oaxaca


Quando cheguei à ultima portagem daquela original estrada de via única em cada sentido, vi, ao longe, uma multidão junto às cabines. Já perto percebi que era uma manifestação de Índios que tinha exigido a abertura das portagens, estando eles a cobrar “ajudas financeiras” numa caixa de lata a quem passava. Do outro lado das cabines estavam dois carros da polícia, simplesmente a observarem a operação.
Quando cheguei a Oaxaca, a casa de um amigo, perguntei o que era aquilo. Contaram-me que são algumas tribos que decidem facturar qualquer coisa com aquela técnica e o governo local autoriza a operação, praticada uma ou duas vezes por semana, desde que não abusem.
O governo tem cedido a algumas reclamações dos Índios para compensar os que mandam matar quando consideram que estão a ganhar poder fora do controlo deles.
Oaxaca era uma cidade calma até 2006. Na altura houve muitos americanos e canadianos, principalmente reformados, que aqui compraram casa para viverem com um bom clima e um custo de vida muito inferior ao dos seus países. Nesse ano, uma série de conflitos na cidade geraram uma guerra civil muito localizada, na disputa pelo poder local. O Governo central deixou a revolta decorrer durante seis meses, por o Governo local ser da oposição. Depois acabaram por mandar militares acabar com a confusão. Morreram cerca de cem pessoas e conta-me o meu amigo que na altura só podiam ir à cidade de bicicleta e recolhiam a casa às cinco da tarde, muitas das vezes passando a noite ao som de tiros. Os estrangeiros voltaram todos para os seus países e só passados dois ou três anos recomeçou, aos poucos, o movimento turístico. Mas ainda há muita tensão no ar. Uma tribo ocupa a fachada do Palácio Governamental, na praça central da cidade com uma venda dos seus produtos e cartazes a pedir justiça pela morte de dois activistas, há seis anos atrás.
Há três meses, o grupo que perdeu as eleições para a reitoria da Universidade de Direito, ocupou as instalações, partiram pedras da fachada do prédio histórico para atirarem aos contramanifestantes e acabaram por pegar fogo à Universidade, que não voltou a abrir.
Quando passeava pela praça principal da cidade num Domingo, com o meu amigo, um rapaz veio contra mim de propósito dando-me um encontrão e querendo arranjar conflito, perguntando se eu estava a provocar um Mexicano. Não lhe respondemos e continuámos o nosso caminho.
Conheci o António Braga aqui, apresentado por um amigo comum. O homem nasceu em Portugal mas veio para o Brasil em criança e mais tarde para o México onde acabou por se naturalizar. Tem oitenta anos e há muitos que viaja de moto pelo continente. Antes utilizou uma BMW e uma Harley na qual fez mais de 200.000Km mas ainda o ano passado, já octogenário, pegou na sua pequena moto de 200 c,c. e foi até ao Brasil, visitar a namorada. Extraordinário
Passamos por um poste onde está uma bicicleta pendurada, pintada de branco.
-O que representa aquilo?
-Foi um ciclista que foi assassinado ali. Aqui mata-se muito, diz-me. Principalmente políticos e juízes. São profissões de risco. Um vizinho do António, “dealer” milionário, fugiu há dois anos da prisão, fardado de polícia. Matou a tiro o juiz que o condenou e ficou tranquilamente pela cidade, só voltando a ser preso quando mudou o chefe da polícia. Certamente não lhe pagou o que ele queria, diz-me o António.
Em Oaxaca passeámos pelo centro da cidade e visitámos as ruinas do Monte Albán, com mais de dois mil e quinhentos anos. Á semelhança das de Tehuantepec percebe-se que as tribos que se instalaram neste território há milhares de anos atrás eram muito desenvolvidas para a época embora ainda não saibam explicar o significado ou utilidade de muitas das construções que foram encontrando nos últimos dois séculos.
Assistimos ainda a parte de um treino de Pelota Mixteca, um jogo tradicional que se pratica há muitas centenas de anos.



13 de março de 2017

Puebla


Em San Miguel de Allende deitei-me mais tarde que o costume, à uma da manhã. Acordei sobressaltado com o disparo de fogo de artifício. Olhei para o relógio e eram seis da manhã. Como foi só um foguete tentei voltar a dormir mas a cada cinco minutos disparavam outro. E assim continuou até cerca das oito. Pus a almofada por cima da cabeça e, habituado ao som dos disparos, lá consegui dormir mais um bocado, às prestações.  Quando finalmente me levantei soube o que se passava: Havia um festival Índio onde muitos dos elementos da tribo Otomi se vestiram com roupas tradicionais, algumas de guerreiros, e dançaram no Zócalo, como os Mexicanos chamam às praças principais das cidades, ao som de tambores. Esqueci o sono e fui ver o sensacional espectáculo, principalmente pelos trajes. No dia anterior já tinha dado uma volta pela cidade e naquela manhã, depois de fotografar e filmar as danças, acabei por dar mais um passeio antes de partir em direcção a Puebla.
Puebla já é uma cidade grande, com muito movimento e arredores pouco interessantes. Instalei-me num Hotel perto do centro e, durante a manhã, voltei a fazer turismo. Já tinha constatado que as Catedrais no Mexico são maiores e mais espampanantes que as existentes na Europa e depois de conversar com várias pessoas percebi a razão para tal. Quando os espanhóis conquistaram o país quiseram converter os Indios ao Cristianismo e, para tal, não só destruíram muitos dos seus locais de culto como construíram catedrais fabulosas muitas delas nesses mesmos locais e até utilizando parte das pedras desses templos. A técnica para os converter passou por fazerem obras fabulosas em dimensão e riqueza que impressionam qualquer um, mesmo nos dias de hoje. Daí estas catedrais extraordinárias, como a de Puebla que visitei nesse dia. Um Mexicano que conheci uns dias depois contou-me que muitos dos Índios, obrigados a adorar um cristo em que não acreditavam tinham crucifixos ocos onde colocavam artefactos e relíquias referentes aos seus deuses assim fingindo que rezavam a Santos católicos quando, na realidade, o faziam aos Deuses em quem tinham fé.
Visitei ainda um interessante museu que tinha não só pinturas de autores locais dos séculos XVII e XVIII como simples máquinas da segunda metade do século XIX e inícios do século XX.
Da parte da tarde parti para Oaxaca, primeiro através de uma auto estrada e depois, na maior parte do percurso, um tipo de estrada que não tinha visto em mais parte nenhuma do mundo. A estrada em si não tinha nada de extraordinário pois era com bom piso de faixa única em cada sentido, a maior parte através de uma serra. O que era extraordinário é que tinha portagens, como se fosse uma auto estrada.
Antes de entrar nesta estrada vi uma barraca feita muito rudimentarmente com panos brancos na borda da autoestrada e duas mulheres a cozinharem debaixo daquele toldo. Havia uma única mesa onde estavam três camionistas, com os respectivos camiões parados na beira da auto estrada. Resolvi parar para também almoçar e sentei-me à mesa com eles. Tinham ar de Indios, grandes. Os três tinham pulseiras em prata com um bom par de centímetros de largura e chapas com algum escrito mas o que estava sentado à minha frente exibia ainda um enorme crucifixo preso a uma grossa corrente de prata por fora da T shirt em que a cruz era em azul forte e a imagem num dourado brilhante. Era até assustador de tão original. Não deram grande conversa mas o almoço de carne picada com tomate, pimento recheado com queijo e arroz estava excelente e, acompanhado de uma Coca Cola, custou o equivalente a três euros, gorjeta incluída.





10 de março de 2017

San Miguel de Allende








Em Guadalajara visitei a Catedral que é imponente, como várias aqui no Mexico e o Palácio do Governo que exibia uma interessante exposição sobre a história daquela província de Jalisco além de dois fantásticos murais do artista local
Jose Clemente Orozco.
Da parte da tarde parti em direcção a San Miguel de Allende que me tinham recomendado visitar mas acabei por ficar a caminho, na cidade de Léon. A cidade é horrível e o primeiro Hotel em que parei também tinha as tabelas de aluguer de quartos por hora. No rés do chão um empregado lavava o chão de um bar, ainda fechado àquela hora, que prometia muitas luzes a animação. Disseram-me que podia ficar a noite toda por um preço simpático e pedi para ver o quarto. Lá fui escada acima acompanhado por uma empregada de limpeza, magrinha e baixinha, indiferente aos gemidos de prazer teatral que se ouviam saídos dos quartos ao longo do corredor. Como se aquilo fosse uma espécie de cassete a que ela se habituara. O quarto não tinha janelas e fugi para não ter uma depressão. Acabei por encontrar um Hotel no centro mais normal mas em que quase apanhei um torcicolo de altas que eram as almofadas enquanto o duche atirava água para o tecto e as paredes, com a pouca que me caía em cima a vir ora  gelada ora a ferver. Próximo do inferno.
No dia seguinte, a caminho de San Miguel de Allende, resolvi parar noutra cidade património mundial da Unesco. Guanajuato é uma cidade pobre, na montanha, que não parece ter tido grande desenvolvimento no ultimo século, sendo isso que a torna mais atractiva. Tem a particularidade da maioria das ruas abertas ao transito serem túneis cavados na rocha. Um labirinto em cima do qual a cidade dá a ideia de estar pousada. Alguns têm paragens de autocarro no meio com aberturas de uns cinquenta metros para o exterior de onde saem escadas para os peões subirem à superfície. Cá por cima são ruelas estreitas, muitas delas fechadas ao transito com pequenos jardins e um teatro “belle époque” absolutamente fabuloso. Estacionei a moto junto ao Palácio do Governador e almocei no terraço de um simpático restaurante do outro lado da rua com cadeirões em cabedal castanho e mesas com tampos de madeira grossa, servido por criados fardados, daqueles que parece fazerem parte da mobília. Fantástico
Da parte da tarde parti para San Miguel de Allende uma terra também encantadora mas mais turística, com lojas modernas de pintura e outro tipo de artes e antiguidades exploradas, muitas delas, por franceses ou canadianos. As ruas são em calçada polida irregular, pouco adaptadas à moto. Tinha parado na entrada da cidade junto ao primeiro Hotel que encontrei. Ao lado estacionou uma Ford Pick-up preta, dos anos 50, impecavelmente restaurada, com duas americanas loiras, de jeans usados e rasgados e chapéus de feltro. Tinham empenado uma jante num buraco da cidade e tentavam, na loja de pneus ao lado, que lhes dessem um jeito.
O Hotel era caro e resolvi ir até ao Centro à procura de alternativa. Já nas ruas estreitas de calçada parei junto a uma pequena esplanada, atrapalhando um pouco o transito e fui beber uma cerveja. A cidade é pequena e passados uns dez minutos as americanas vieram sentar-se na mesa ao lado.
- Gosto do seu caro
- A Ford? perguntou ela.
- Sim
- Tenho também uma branca, que está á venda.
- Não tenho onde a levar. Vieram dos Estados Unidos nela?
- Não. Eu vivo aqui.
Parti à procura de Hotel. Depois de passar por vários com ar de luxo rústico e caro parei à porta de um com uma porta estreita e as paredes interiores do corredor em rampa com feios azulejos. Toquei à campainha. Um homem magro de barbas com um ar simpático veio abrir-me a porta. Percebi que era o dono.
-Têm quartos disponíveis?
-Sim, com certeza
- Quando custa o single por uma noite?
- 780 Pesos
- Não, obrigado. Estou à procura de alguma coisa mais barata?
- Até quanto?
- Uns 600 Pesos
- Faço-lhe esse valor, respondeu de imediato. Tenho vários quartos livres.
Olhando para uma porta de garagem que havia ao lado perguntei
- E posso guardar a moto na garagem?
- Não. Não é minha.
- Então não dá. Não posso deixar a moto na rua.
- Não há problema. Entra pelo corredor e põe-na na entrada. Tenho uma rampa  para subir o passeio.
E lá entrei com a moto a trabalhar para dentro do Hotel, rampa a cima, depois de desmontar as malas para passar na estreita porta e corredor, com uns dez metros de comprimento, para um mini hall de entrada onde mal tinha espaço para desmontar da moto. Ali passou a noite e a manhã do dia seguinte.

5 de março de 2017

Costa Careyes


Saí de Tepalcatepec pelas onze da manhã. Não estava tanto calor como no dia anterior. O meu pequeno almoço foi uma banana que tinha comprado numa mercearia na noite anterior, do outro lado da rua da roulote onde jantei.
À saída da cidade estava mais um grupo de militares a mandar parar e revistar alguns dos carros e poucos quilómetros depois estavam a queimar um enorme monte de erva. Devia ser mistura, para se não estragar muito produto, pois cheirava mas não muito intensamente. Poucos quilómetros depois um homem que circulava numa “pick-up” fez-me sinal para eu parar mas disfarcei, ultrapassei-o e acelerei. Fiz mais duzentos quilómetros numa estrada de montanha praticamente deserta mas espectacular, com boas sequencias de curvas e contracurvas. Só parei para tirar umas fotografias junto a um camponês que sentava a filha pequena num burro pela primeira vez.
No dia seguinte contaram-me que a zona onde estive era região onde os traficantes se escondiam. Há pouco tempo chegaram a controlar a cidade e a polícia não entrava lá. Fazia todo o sentido. Uma Mexicana contou que ela e o marido tinham sido assaltados há cinco anos atrás, numa parte mais calma, junto à costa, por tipos armados que lhes deram cinco minutos para retirarem tudo o que tinham no carro, porque era uma pick-up americana quase nova que lhes dava jeito. Nunca mais a viram. O que vale é que uma moto não lhes serve para grande coisa. De qualquer forma na volta escolho outro trajecto.
Chegado à Costa do Pacífico parti para Norte, cerca de 100 Km até Costa Careyes onde passei quatro dias na fantástica casa da irmã de um amigo.
Esta zona da costa foi nos anos 60 comprada por um italofrancês que aqui fez um empreendimento que combina luxo com natureza, com praias desertas maravilhosas e uma fauna que inclui crocodilos nas lagoas, linces, veados e enormes aves que sobrevoam as rochas. Perto da costa passam baleias e golfinhos. Apanhei excelentes dias de praia onde também andei a cavalo e visitámos outras baías e enseadas de barco. Fantástico. Nos anos setenta o velho Agnelli da Fiat encantou-se com aquilo e pensou em ali construir diversos hotéis mas quando visitou o local a filha foi picada por um peixe aranha e desistiu da ideia. Ainda bem. A grande vantagem de Costa Careyes é não ter hotéis e assim estar reservada para quem tem ou aluga ali casa.
Quando arranquei não tinha percorrido mais de dez quilómetros quando, o que me pareceu um corvo, saiu da vegetação da borda da estrada e se estatelou contra a frente da mota, ficando estrangulado entre a carenagem e o para brisas. Parei para o retirar, já cadáver.
Desta vez escolhi uma estrada fora da zona dos gangs de droga para regressar e  também era excelente, através da serra. Fui até Guadalajara e aproveitei para visitar a parte antiga da cidade na manhã seguinte. Parei a moto junto à porta principal da catedral, em cima do largo passeio mas sem tapar a passagem a ninguém, à boa maneira antiga portuguesa. Aqui a policia não se tem queixado muito quando deixo a moto mal parada e desta vez acabaram por me deixar um papel delicioso, que eu pensava ser uma multa mas não passava de um aviso impresso para não deixar a moto ali por muito tempo ou seria multada. Simpático.  



2 de março de 2017

Tepalcatepec - Mexico


Decidi fazer este trajecto até à costa do Pacífico por estradas nacionais, evitando autoestradas, como geralmente tenho feito nesta viagem.
Saí assim de Morelia por uma fantástica estrada de montanha, debaixo de sol e uma temperatura de pouco mais de 20º. Da parte da manhã fiquei bem impressionado com a boa qualidade destas estradas secundárias mas da parte da tarde acabei por apanhar algumas esburacadas. Outro dos problemas são as lombas de velocidade que têm em quantidade na travessia das populações e que, muitas vezes, estão mal assinaladas ou simplesmente não estão. Na saída de uma vila, já fora da zona de habitações e quando rodava a cerca de 100 Km/h apanhei uma desta lombas. A moto saltou e, desprevenido, levei uma pancada nos braços através do volante que passou para o ombro esquerdo. Pensei que tinha ficado com uma lesão mas à noite já nada sentia. Entretanto, na entrada de uma vila, um letreiro onde se lia “Bem vindos a Uruapan, capital mundial do Abacate” chamou-me a atenção. Parei para tirar uma fotografia e junto estavam duas raparigas engraçadas a vender não abacates mas côcos. Pedi para lhes tirar uma fotografia e estávamos numa galhofa quando, de trás do camião, apareceu um rapaz ciumento que me perguntou, divertido, em inglês:
-O senhor quer comprar um côco?
-Não
-E as miúdas? Vendo-as barato.
À medida que a altura a que circulava baixava a temperatura ia aumentando. Passados uns 200 Km, quase todos de serra, parei numa vila junto a um minimercado para saber onde estava. De trás do balcão da loja virada para a rua saiu um rapaz, bem disposto, que não teria mais de 12 anos. Ele e uma irmã de uns 8 anos, giríssima, de olhos azuis claros, tomavam conta do negócio. Muito solicito, veio explicar-me no mapa onde estava e indicou-me o caminho que deveria seguir. Achei graça ao miúdo e como tinham duas ou três mesas com cadeiras no mercado para os clientes, resolvi descansar por ali um pouco e almoçar dois gelados. Reparei que a loja estava impecavelmente limpa e, enquanto ali estive verifiquei que o miúdo, nos intervalos de eficientemente atender clientes e de me perguntar de onde vinha, curioso e fascinado com a viagem, tratava de varrer a loja ou passar uma esfregona no chão ou um pano no balcão onde via a mais pequena nódoa. Impressionante.  
Continuei viagem a caminho do mar com a temperatura a aumentar ao longo do dia e agora já a ultrapassar os 30º. Cheguei à cidade de Nueva Italia de Ruiz e pensei em ficar por ali por não haver outra dessa dimensão nos 300 Km seguintes mas vi no mapa uma pequena cidade 70 Km à frente e decidi ir até lá. Na estreita estrada de campo vi primeiro uma estranha operação stop porque não era realizada por polícias mas por militares, fortemente armados, uns a mandarem parar os carros e outros, de metralhadora em riste, em cima das caixas de carga de camiões da tropa. Mandaram-me seguir mas uns 15 Km’s depois estava uma segunda, com o mesmo estilo e meios. O Embaixador português tinha-me recomendado que não entrasse no estado de Guerrero, mesmo que tivesse que fazer um desvio grande, por ser considerado perigoso, mas este era um estado vizinho, que não estava indiciado como tal. Segui viagem na pouco movimentada estrada. Na entrada de Tepalcatepec estava um terceiro grupo de militares. Parei para perguntar se havia um Hotel decente na cidade e referiram-me dois, do lado oposto. A pequena população era estranha porque tinha corrais de bois na rua principal e as oficinas ou comércio de pneus eram na maioria para tractores. O primeiro Hotel em que parei, dos dois que os militares me tinham indicado, era ao estilo dos do dia anterior, em que tinham uma tabela de ocupação de quarto que acabava à cinco da manhã. O segundo já era para clientes mais comuns. Estavam 36º e só quando parei constatei que estava ensopado em suor. O homem que me atendeu arrastava os pés, parecendo não ter forças para se deslocar. Perguntei-lhe o porquê do aparato militar e respondeu-me que era um controlo normal e que a cidade era calma. Pus-me debaixo de um duche frio e uma hora depois saí para jantar. Parei numa roulotte de beira de estrada, com três mesas no passeio de terra onde comi uma espécie de crepe de carne, excelente. O transito era como o de qualquer outra cidade de campo mexicana: carrinhas de caixa aberta podres e homens em motos de baixa cilindrada ou raparigas em scooters, por vezes com vários filhos ou amigas à pendura, todos sem capacete. Mas no meio daquele transito, destoaram um Corvette encarnado que passou acompanhado de uma enorme “pick-up” americana, nova. Estranha cidade.


26 de fevereiro de 2017

Cidade do Mexico


No meu terceiro dia na Cidade do México, que os Mexicanos chamam apenas México, como o país, fui visitar as ruinas da famosa cidade Teotihuacan considerada, em 1987, Património da Humanidade pela Unesco. Há mais de dois mil anos, existiu ali o que muitos classificam como a mais evoluída cidade do continente americano na época.
Tem duas enormes pirâmides a que mais recentemente chamaram do Sol e da Lua e que, à semelhança das Egípcias, podem ter sido túmulos de reis. Já no século passado foram descobertos túneis e muitos artefactos que assim o indicam.
As pirâmides são de facto imponentes e representam a principal atração turística da Cidade do México. Uma amiga, fascinada pela civilização Maya, tinha-me pedido se dava um beijo numa por ela. E lá me pus a jeito, no primeiro patamar da Pirâmide do Sol. Pedi a um rapaz que me tirasse a fotografia enquanto vários turistas olhavam espantados, certamente a pensar que significado teria aquela atitude. Não dei explicações a ninguém, deixando-os curiosos.
A cidade era enorme para a época pois calculam que há dois mil anos ali viveram entre quarenta a sessenta mil pessoas e quinhentos anos depois a população terá chegado a perto de duzentos mil. Devo ter percorrido uns bons oito quilómetros na caminhada até à Pirâmide da Lua e regresso, através de enormes praças.  Acabei por almoçar no Restaurante da entrada, pelas três e meia da tarde.
No caminho de regresso das Pirâmides enganei-me no trajecto e atravessei uma via rápida que passa junto a uma enorme favela. O curioso das favelas mexicanas é que eles pintam muitas das casas em cores vivas, do género “shocking pink” ou cor de laranja vivo, o que dá uma alegria à paisagem pouco condizente com a vida de quem lá habita.
No dia seguinte fui visitar o bairro Zócalo. É aqui que fica o Palácio Nacional, mandado construir pelo conquistador espanhol e Vice Rei Cortés, para sua segunda residência. Depois da independência chegou a ser residência do Presidente mas hoje é só utilizado em actos protocolares, para além de exibir um museu sobre a revolução que levou à independência do país. Na mesma praça existe a maior e mais impressionante catedral católica do continente americano. Fascinou-me o tamanho do órgão.
Na parte de trás ainda visitei um museu que foi montado a partir de peças com milhares de anos encontradas em escavações locais e que mostram principalmente os muitos sacrifícios humanos que se faziam na época, com ofertas de pessoas aos Deuses e auto flagelação. Enfim, um pesadelo.
Por fim ainda subi a uma das maiores torres da cidade para observar de cima uma capital que acaba por ter poucos prédios de grandes dimensões face à população que lá vive e trabalha.
Depois de cinco dias bem instalado na residência do Embaixador parti para a costa do Pacífico num trajecto de cerca de 900 Km que resolvi fazer calmamente, em três dias. Deixei a cidade por uma autoestrada virada a Sudoeste para uma centena de quilómetros depois decidir sair da via rápida e apanhar mais divertidas estradas de província. Tive a sorte de encontrar uma estrada bem asfaltada, com boas curvas de que já tinha saudades, depois da pasmaceira das auto estradas americanas através das enormes planícies da metade sul do país.
A paisagem aqui lembrava muito Portugal, primeiro tipicamente Alentejana, com pouca densidade de árvores, e depois através de uma serra que atravessava um pinhal. Parei para almoçar numa tasca de beira da estrada um atum com feijão e arroz muito picante, como é costume por estes lados e, pelas quatro e meia da tarde cheguei à pequena cidade de Morelia. No primeiro Hotel em que entrei tinham os preços marcados para duas e seis horas. Perguntei se podia passar a noite mas disseram-me que teria que sair antes do fim do turno, às cinco da manhã. Acabei por encontrar outro do género, em que se entra com o carro ou neste caso a moto, para uma garagem privada e o quarto fica por cima. Mas estes previam a hipótese de se ficar até de manhã, por pouco mais de vinte euros.



23 de fevereiro de 2017

Monterrey


Monterrey é uma cidade industrial sem graça nenhuma. Um entranhado de viadutos com muito movimento e construções feias. Acabei por lá ficar duas noites porque os filhos de uma amiga que lá vivem me convidaram para almoçar e o dono de um restaurante português para jantar. Durante o jantar, no Sabores de Portugal, veio um Mexicano cantar, amigo do dono, com timbre de cantor de ópera. Teve graça.
No dia seguinte parti a caminho da Cidade do Mexico. São cerca de 900 Km que fiz em dois dias. A estrada começa por subir uma montanha e depois é grande parte ao longo de um enorme planalto. Parei na cidade de Matehuala onde encontrei um simpático Hotel com bungalows no jardim e um bom restaurante, para variar das terríveis refeições nos Estados Unidos.
Até ali tinha apanhado pouco movimento mas a uns 400 Km da Cidade do México  uma primeira fila de camions bloqueava a auto estrada. Fui passando pela berma mas, passados uns três ou quatro quilómetros, ao ver que a fila era interminável, decidi ligar a Gopro para filmar. Fui pela berma, a uma média de uns 50 Km/h a passar centenas de camiões até à causa da fila que eram, simplesmente, obras de repavimentação a ocuparem uma das faixas. Verifiquei depois que o filme tinha 14 minutos, o que dá ideia da dimensão do engarrafamento, na grande maioria composto por camiões.
O Mexico é um país com bastante industria e um dos maiores produtores mundiais de petróleo, sendo o principal cliente deles os Estados Unidos. Daí este enorme movimento de camiões na principal estrada que liga a capital ao seu grande comprador.
Depois deste ainda apanhei mais dois engarrafamentos de camiões na auto estrada, um deles provocado por meia dúzia de camiões gigantescos que transportavam tubos descumunais para a refinaria estatal e que, pelas suas dimensões, bloqueavam um dos sentidos da auto estrada, tendo a policia que encaminhar todo o transito pelo outro.
A Cidade do México é muito mais evoluída do que estava à espera. Com os seus nove milhões de habitantes, sem contar com os arredores, tem um transito muito intenso mas o nível de vida é bastante elevado e, no centro, nas noites de fim de semana, excelentes restaurantes estão cheios de movimento enquanto nas ruas vemos Porsches e Bentley’s a circularem. Não representa o país profundo onde mais de 40% da população vive na pobreza. Entrei num stand da Tesla, onde tinham os últimos modelos em exposição e bem informadas vendedoras. Os espaços verdes existentes não estão muito bem arranjados mas têm muitos e interessantes Museus como o de Antropologia, que conta a história das várias civilizações que povoaram a região antes da chegada dos espanhóis, em 1519.
Fiquei bem instalado em casa do Embaixador Português, que tinha conhecido quando da minha passagem pela Índia, há uns anos atrás.
Depois das enormes filas de camiões ao longo do dia cheguei à Cidade do México já de noite. No dia seguinte fui tratar de substituir o amortecedor traseiro da Cross Tourer, que tinha sido para aqui enviado desde Portugal, pois os rolamentos de apoio do original não tinham resistido aos maus tratos nas estradas da Índia e Myanmar com a moto muito carregada. Não havia nenhuma oficina de motos por perto onde pudesse trabalhar de maneira que encontrei uma de bicicletas onde, ao longo de várias horas, pude fazer a complicada operação junto ao passeio, com o empréstimo de ferramenta do simpático homem da minúscula oficina que, estando situada num dos melhores bairros da cidade, tinha a todo o tempo senhoras bem arranjadas a chegarem nos seus SUV’s, por vezes com choferes, para trazerem ou recolherem bicicletas dos filhos.
No dia seguinte decidi visitar o famoso Museu de Antropologia. Era Domingo e uma das faixas da enorme Avenida Reforma é fechada ao transito para só permitir a circulação de bicicletas e patins, de maneira que só consegui estacionar a moto longe e acabei por levantar uma bicicleta de empréstimo da Câmara para me deslocar até ao museu. É interessantíssimo. Mostra-nos não só a história da evolução humana, desde há 3,5 milhões de anos, passando pela época em que a América foi descoberta por povos que atravessaram da Asia, pelo Norte da Rússia, para o Alasca através do que é hoje o estreito de Bering quando, na era glaciar, as reduzidas águas dos Oceanos o secavam. Finalmente, as tribos autóctones que se formaram e a chegada dos Espanhóis, por mar, em 1519.