14 de fevereiro de 2017

Lafayette




Estava um dia de sol lindo quando deixei New Orleans, a contrastar com a tempestade de dois dias antes. Ainda quis passar na zona mais afectada pelo Tornado para tirar umas fotografias mas a policia tinha o local bloqueado.
Segui para Ocidente e ainda não eram quatro da tarde quando decidi parar, numa pequena cidade chamada Lafayette. Vi um Motel Super 8, uma cadeia de fraca qualidade mas que tem dos melhores preços e instalei-me ali. Infelizmente. A recepção estava em obras e o corredor um pandemónio mas a situação podia ser pior até que,… piorou. A internet não funcionava e, quando saí para jantar e perguntei à menina da recepção onde podia ir, respondeu-me, com má cara, que não sabia e para eu olhar para um mapa que estava em cima do balcão onde só vi indicados os Mc Donald’s locais.
Estes Estados do Sul são os que resistiram mais à abolição da escravatura e no fundo, ainda hoje, os brancos misturam-se pouco ou nada com os pretos, que sentem esse trauma mais que no resto do país. O racismo normalmente resulta no mesmo sentimento em sentido contrário e os americanos, mesmo sem o admitirem, são acentuadamente racistas, principalmente nos Estados do interior, mais isolados do mundo exterior. Assim, existe também um racismo acentuado dos pretos para com os brancos. Talvez por isso alguns parecem estar mal com a vida e isso ressente-se na maneira como tratam as outras pessoas.
Nós não percebemos bem esta situação porque somos o menos racista dos povos e o único colonizador europeu que se misturou e integrou nas sociedades colonizadas, do Brasil ao Oriente, passando por África e Índia. Ainda hoje os portugueses que vão viver para África se casam com as locais sem qualquer problema e semeámos uma cultura que permitiu situações como a de haver na Malásia uma colónia portuguesa com centenas de anos que continuam a transmitir a língua de pais para filhos enquanto Holandeses, que lá estiveram depois de nós e por mais tempo, não deixaram mais que edificações. Também por isso temos relações sentimentais com as ex-colónias que mais nenhum país tem, ao ponto de quando ganhamos um Campeonato Europeu de futebol os habitantes de Timor ou Moçambique festejarem o feito como também deles. 
Isto mostra uma civilização e cultura, neste aspecto antropológico, mais avançadas que a de qualquer outro país europeu.
Mas voltando a Lafayette, acabei a jantar, num quase tão horrível como Mc Donald’s, Wendy’s um hamburger que, ao comê-lo, me fez sentir a reduzir o meu tempo de vida por largos meses, ou mesmo anos. Sempre fui contra este tipo de hamburgers e quando os meus filhos, em miúdos, insistiam para irmos a um Mc Donald’s e eu acabava por ceder, comia uma salada ou uma sopa enquanto eles se envenenavam.
Quando regressei ao Hotel, pelas dez da noite, decidi ir até à bomba de gasolina do outro lado da rua, a pé, comprar um chocolate, onde estavam meia dúzia de clientes e a empregada, todos pretos. Quando paguei, escolhi as moedas até preencherem a quantia certa e fui pondo em cima do balcão. Ao arrasta-las para o pé da mulher  ela pediu, sem sequer olhar para mim, para que eu lhas desse na mão. Ao início nem percebi o que me pedia mas o cliente que estava atrás de mim esclareceu.
-Sim, com certeza. E apanhei as moedas, passando-as para a mão dela. Esta gente tem mesmo um problema.
No dia seguinte a água quente deixou de correr a meio do meu duche. Saí da casa de banho para ligar para a recepção coberto de sabão mas o telefone não funcionava e acabei o banho com água fria. Desci depois para tomar o pequeno almoço mas tinha acabado às ... 9 horas. Não me exaltei com a menina da recepção mas disse-lhe que iria escrever para a sede da Super 8, para o Booking, “you name it”.
Esta, que não sendo mais simpática era profissional, pediu desculpa e disse que me iria creditar no cartão metade da estadia.
O dia tinha começado mal mas não se endireitou logo. Quando saí do Hotel e entrei na autoestrada, enganei-me e segui em sentido contrário. Lembro-me de pensar, ao passar umas pontes sobre pântanos idênticas às que tinha atravessado no dia anterior, que este estado de Louisiana era um pântano pegado. Só passados 60 Km, ao ver a indicação de uma cidade por onde tinha passado antes constatei  que as pontes eram as mesmas que tinha atravessado 24 horas antes.
Dei meia volta, pus gasolina e segui viagem. Talvez esta volta me tenha ajudado pois quando arranquei de manhã não tinha muita gasolina e tinha decidido seguir até Houston por uma estrada secundaria que acabei por apanhar uns 20 Km depois de Lafayette. Só não fazia ideia que o trajecto era tão isolado que, durante cerca de 200 Km, só passaram por mim meia dúzia de carros, vi umas dezenas de casas quase abandonadas e comércio ou bombas de gasolina nem pensar. Mas a estrada era boa e gostei de rodar isolado por um par de horas.
Até que cheguei a Cameron. Aqui havia finalmente gasolina, quando o depósito já estava outra vez vazio. Para além disso vendiam pisas na própria bomba, que me souberam a lagosta, seguida de um gelado.
Depois de Cameron não havia ponte para atravessar o rio e tive que entrar com a moto para um pequeno Ferry que fazia a travessia de uns cem metros cobrando apenas um dólar por veículo, fosse ele de duas, quatro ou mais rodas.
Do outro lado passei a rodar junto à costa numa zona onde as casas estão todas construídas sobre altas estacas, dando a entender que o mar tem o hábito de invadir as terras. Mas estava tudo com um ar bastante desolador. Pelas quatro da tarde entrei no Texas e pouco depois cheguei a Port Arthur onde estão instaladas enormes e velhas refinarias que, ao deitarem uma fumarada poluente tornam o ar quase irrespirável. Texas é onde está a maioria dos poços de petróleo americanos e em vários locais do estado acabei por ver outras refinarias, a maioria com muito melhor aspecto que esta.
Cheguei a Houston pelas cinco e meia da tarde. Tinha percorrido 600 Km, o que é  mais que o costume.

11 de fevereiro de 2017

New Orleans





Estava na sala do Hostel quando o meu telemóvel começou a apitar estridentemente e ininterruptamente. Nunca antes tinha emitido aquele som. Tirei-o do bolso e olhei para o écran. Uma mensagem avisava: “Tornado. Procure um abrigo”. Instintivamente olhei pela janela. Chovia torrencialmente e um dos enormes chapéus de sol do terraço, com a mesa de ferro agarrada, levantou voo mas nada mais que isso. Liguei a televisão. Um homem analisava o avanço do tornado. Estava a passar na parte oriental de New Orleans, a meia dúzia de quilómetros do Hostel onde estava instalado desde o dia anterior. Tinha aqui chegado debaixo de um sol lindo e uma temperatura de mais de 20º.
Nas noticias da noite a televisão mostrou as muitas dezenas de casas destruídas pelo furacão que atravessara a região. Houve um morto e dezenas de feridos.
Nesta região não são muito comuns mas, em 2005, tiveram o Katrina, que provocou enorme destruição e quase dois mil mortos.
Cheguei a Atlanta, nos Estados Unidos, há quatro dias, depois de ter passado o Natal em Portugal. As temperaturas estavam próximas de zero graus e decidi arrancar logo rumo ao Sul, à procura do bom tempo a caminho do Mexico.
Parei no primeiro dia em Auburn, uma cidade de província já no Alabama. Quando acordei, na manhã seguinte, chovia e não tive outro remédio senão arrancar assim. O termómetro da moto marcava 9º o que era bem melhor do que se fazia sentir mais para Norte. Em Boston e Washington, onde tinha feito escala nos voos desde Portugal, as temperaturas estavam negativas.
Pela uma da tarde, uns 200 Km para Sul, o céu abriu e ficou um dia lindo à medida que os números no termómetro subiam até aos 20.
Cheguei a Pensacola Beach, já na Florida, pelas quatro da tarde. Fui até à fantástica praia de areia branca muito fina e sentei-me encostado a um banco de areia a descansar ao sol, mesmo com o fato e as botas calçadas. Fiquei uns 15 minutos a ver o mar antes de ir procurar um Hotel onde ficar essa noite. Era dia de “Super Bowl” e o país estagna para assistir ao maior evento desportivo do ano deste lado do globo. Nesta “superfinal” de futebol americano enfrentavam-se os Falcons e os Patriots. Fui até um bar local ver parte do jogo mais para apreciar a festa que o jogo em si, pois não conheço sequer as regras. É como os portugueses a verem a final de um europeu de futebol. Só que aqui ninguém se queixa dos árbitros. Parece que nunca falham ou pelo menos não dão importância aos seus possíveis erros. O intervalo tem sempre um espectacular show de música. Desta vez a artista foi Lady Gaga que montou um numero de circo e dança sensacional, que se sobrepunha em muito à música em si.
No dia seguinte parti para New Orleans primeiro junto à costa e uns 100 Km à frente a apanhar a autoestrada, único trajeto com enormes pontes a atravessarem os grandes estuários desta zona pantanosa do Louisiana, incluindo o do Mississipi.
New Oleans á a capital do Jazz e “respira-se” música por toda a cidade mas, principalmente, no famoso “French quarter”.
A capital do Louisiana foi fundada pelos franceses em 1718 e o seu nome deve-se ao Duque de Orleans que governou a cidade ao serviço de Luis XV. Em 1763 foi cedida aos Espanhóis, mas Napoleão voltou a ocupá-la por pouco tempo, antes de a incluir na venda de Louisiana aos americanos, em 1803.
Foi aqui que nasceu o Jazz, em finais do século XIX e inícios do século XX. Nunca fui apreciador desse tipo de música.... até agora.
Assistir aos concertos de Jazz improvisados que se desenrolam nas esquinas da Frenchmen St. ao inicio da noite é uma experiencia única. Mendigos dançam na rua e de vez em quando passam pequenos grupos de maltrapilhos, já nos seus 60 anos, a fumarem charros. Depois, porta sim, porta não, há bares com música ao vivo com graus de qualidade que variam entre o medíocre e o sensacional. Alguns dos melhores artistas de Jazz do mundo actuam ali ... quando lhes apetece. Por vezes junta-se um trompetista a um concerto que já está a decorrer numa improvisação continua e animada que deixa os espectadores mais desprevenidos maravilhados e os “habitués” com o ar de quem está a assistir à maior banalidade do mundo. O jazz flui nas veias desta gente e toda aquela parte da cidade acaba por ser um enorme palco onde se misturam velhos hippies com miúdos tatuados, pedintes de chapéu virado no chão ou artistas que pintam cenas de rua. Durante o dia grupos de turistas acompanham mulheres com ar de anfetaminadas que, com muitos gestos e em voz alta, contam a história e histórias do bairro. Uma animação contínua. Passei a gostar de Jazz.

23 de janeiro de 2017

Atlanta


Nesta minha volta ao mundo tenho evitado circular em auto estradas e até chegar aos Estados Unidos, exceptuando um dia no Japão em que fui obrigado a percorrer muitos quilómetros, praticamente não as utilizei.
A razão principal é que pelas estradas de província se vê e conhecem melhor países e populações.
Nos Estados Unidos foi diferente e acabei por circular bastante em auto estradas. Aqui o motivo foi porque em muitos locais não existem outras ligações entre cidades ou as que existem são também através de longas rectas sem graça e com o inconveniente de muitos sinais luminosos pelo caminho.
As auto estradas americanas não são as de seis e oito faixas que vemos nos filmes. Essas só existem junto às grandes cidades. As auto que percorrem o país de lés a lés são piores que as europeias. Têm só duas faixas para cada lado, piso apenas razoável e não têm “rails”, que sairia uma fortuna coloca-los em tantos quilómetros de auto estradas. Por isso as faixas de cada sentido estão sempre afastadas umas das outras um mínimo de uns dez metros, a maior parte das vezes com uma pequena vala entre elas. Não existem áreas de serviço mas apenas áreas de descanso que têm pouco mais que uns bancos e casas de banho e são maioritariamente utilizadas por camiões. A grande vantagem é que não há portagens  e como têm indicações nas saídas em que existem restaurantes e bombas de gasolina perto, é fácil sair e voltar a entrar na auto estrada para reabastecer ou almoçar. O país de meio para baixo é quase todo uma enorme planície de maneira que a maioria destas autoestradas não têm subidas nem descidas e são principalmente formadas por enormes rectas.
O limite de velocidade costuma ser entre 65 e 70 milhas por hora (+/- 105 e 110 Km/h) e por vezes até 80 mas na prática, se rodarmos a não mais de 130 Km/h não temos problemas com a polícia.
Os camiões quase sempre podem circular à mesma velocidade que os carros e tenho-os visto regularmente a 130 Km/h e alguns a 140 ou mesmo a 150 Km/h. Por rodarem a estas velocidades, embora haja muitos controlos de peso, os seus pneus resistem mal e vemos muitas carcaças de pesados nas bermas da estrada e algumas mesmo na via pelo que, de moto, tenho que tomar muita atenção a esses perigosos restos de borracha, principalmente se a visibilidade é curta como nas alturas em que chove muito.
Nunca percebi o conceito das Harley Davidson. Até agora. Constatei finalmente que as motos são feitas para andar nestas estradas só de rectas, sem capacete, a passear. Não precisam de curvar bem nem de andar depressa, basta que o motor tenha um bom binário e o pneu de trás seja largo, para arrancarem bem nos muitos sinais luminosos que existem espalhados por este país. As motos foram feitas para os Estados Unidos, onde não há problema por serem barulhentas ou poluírem mais do que deviam. Não fazem sentido é em nenhum outro país do mundo.
De Tampa fui até Atlanta, mais a Norte, visitar um velho amigo, por autoestrada. Quando iniciei esta etapa da viagem nos Estados Unidos a ideia era ir até ao Mexico onde deixaria a moto antes do Natal. Como me atrasei decidi deixá-la por aqui, em Atlanta e parto para o Mexico quando regressar, em Fevereiro.
Quando seguia pela auto estrada, na manhã do segundo dia em que fui de Tampa para Atlanta, comecei a sentir a moto muito instável, mesmo em recta. De início pensei que seria a suspensão traseira que ainda não tive oportunidade de reparar mas foi piorando muito e resolvi parar numa estação de serviço. O pneu traseiro, com um prego no piso, tinha perdido muita pressão. Tenho comigo um kit de reparação mas, por não ter prática em utilizá-lo, embora fosse domingo, preferi procurar uma oficina de reparação de pneus. Enchi-o, percorri mais cerca de 50 Km e cheguei a uma cidade um pouco maior. Este estado da Giorgia é essencialmente um estado de raça negra, descendentes de escravos africanos. Quando cheguei a esta pequena cidade fui antes por gasolina para aproveitar e perguntar onde havia uma oficina de reparação de pneus. Desde o atendedor da caixa ao ajudante passando por todos os clientes parecia estar em Africa. Encontrei a oficina que me indicaram onde um simpático preto de uns 140 Kg não tinha mãos a medir. Por ser domingo era o único que estava a trabalhar e a cada minuto chegavam mais carros conduzidos por outros pretos a pedir para trocarem pneus ou repararem furos. O homem, simpaticamente, disse-me que não reparava pneus de motos e que experimentasse outra oficina mas, quando ia a arrancar disse-me:
- “Espere. Eu reparo-lhe o pneu mas terá que me pagar 20 dólares pelo trabalho”. Concordei de imediato ao que ele respondeu:
- “Sorry, but money talks”. Nem considerei caro e ele acabou por me colocar um taco no pneu depois de retirar as rodas a dois dos carros que esperavam, para que os clientes não fugissem. Não vi um único branco naquela cidade.
Regresso em início de Fevereiro para seguir para a América Central e do Sul.

14 de dezembro de 2016

Key West


No dia em que parti para as ilhas tinha acordado às oito e meia da manhã com o barulho de grupos de Harleys a passarem à porta do Motel a caminho de Key West. Não deve haver despertar mais agradável.
Quando estava a passar de uma ilha para outra por pontes e istmos artificiais parei num restaurante que me indicaram onde a esplanada dava para uma mini marina, reservada aos clientes do restaurante. À porta estavam uma meia dúzia de Harleys com um lugar vago no meio onde parei a Cross Tourer. Quando ia a entrar vinham eles a sair. Perguntaram de onde vinha e ficámos um pouco à conversa. Só quando iam a arrancar um deles, que tinha parado a moto do outro lado da entrada, como que afastada do grupo, confessou de certa maneira envergonhado:
- “A minha também é uma Honda”. Embora, à vista, pudesse perfeitamente ser uma Harley, tão bem as copiam.
- “Pois. Vê lá se isso agora pega”, diz-lhe o que tinha ar de chefe do grupo, com ar de desprezo.
- “Porquê? Não pegou”? Perguntei eu.
- “Esta manhã não. Tivemos que a andar a empurrar porque não tinha bateria”.
- “Deixe o tempo passar que verá qual é mais resistente”, disse para o homem da Honda. “Fez uma grande compra. É muito melhor que estas coisas”. E lá seguiu ele radiante da vida e os outros a encolherem os ombros como quem diz. “Pois, está bem”.
Acabei por ficar duas noites em Key West. Durante o dia dei uma volta pela vila e ao fim da tarde fui à pequena praça onde atracam os paquetes de cruzeiro e em que, durante esta época alta, todos os dias alguém monta um qualquer espetáculo, depois de todos observarem o pôr do sol virados a Sul. Desta vez era um cómico francês que trazia uns bancos altos, do tipo dos utilizados pelos domadores de feras no circo, de onde ele fazia saltar os seus gatos, quando eles decidiam obedecer ás suas ordens e o homem ficava radiante, pedindo aplausos.
Tinha acabado de ver o espetáculo quando uma mulher veio ter comigo:
- Você não é de Cascais? Eu conheço-o. Vivia há muitos anos em Miami e vinha acompanhada de uma sobrinha que tinha estado comigo, há poucos meses, em casa de amigos comuns.
No dia seguinte voltei a cruzar as Key Islands para Norte a caminho da costa Ocidental da Floria, que dá para o golfo do Mexico. Nesse dia visitei o Everglades National Park que é uma espécie de pântano gigante, com mais de 6000 Km2 onde habitam 50.000 crocodilos e muitas outras espécies de répteis para além de mamíferos, aves e insectos. Os turistas passeiam nas estreitas estradas do parque num pequeno comboio, ou de bicicleta, junto aos crocodilos que nadam nos canais junto à estrada ou descansam nas suas margens sem parecerem sentir qualquer apetite por carne humana. O único acidente grave que aqui houve, contou-nos o guia, foi quando há duas décadas um miúdo de dez anos se despistou e caiu com a bicicleta em cima de um crocodilo que estava num dos canais e não se fez rogado à oferta de alimento extra.
E lá íamos parando a cada cem metros para tirar fotografias a mais um crocodilo na beira da estrada ou a nadar num dos canais adjacentes.
- “Aquele é fêmea”, diz um dos turistas.
- “How can you tell”?, responde o guia com ar intrigado
- “She has a big mouth”, responde o turista divertido.
Dos Everglades segui para Tampa, já na costa, onde fiquei três dias em casa de uma amiga. A cidade não tem a animação e o espalhafato de Miami enquanto as casas da costa não são tão espetaculares mas Tampa tem o encanto de uma baía e uma península com pontes longas de dez quilómetros que a ligam ao continente e, do outro lado, no do Golfo do Mexico, estreitas ilhas formam a zona de praias que se desenvolveu, em algumas delas, mais que o desejável.




11 de dezembro de 2016

Miami





À medida que nos aproximamos de Miami as casas junto à praia vão melhorando e os passeios e entradas de condomínios têm relva até à estrada, bem cortada, flores e árvores tropicais. São centenas de casas independentes com jardins do lado da estrada e praia do outro. Em partes do percurso estas casas estão em penínsulas e do lado oposto da estrada é também mar, com um cais para cada casa e imponentes barcos atracados. Nesta costa da Florida há muitas centenas destas casas que valem certamente bem mais de um milhão de dólares, o que faz dos seus proprietários milionários e que nos lembra que este é o país com mais milionários no mundo, com uma grande diferença para os restantes. Mais de 40% dos milionários mundiais são americanos. E a maioria deles não fez fortuna a exportar mas a vender os seus produtos internamente, pois deve ser o país no mundo não só com o maior numero de pessoas da classe média como aquele em que a classe média tem maior poder de compra. Qualquer coisa que se venda há sempre uma quantidade enorme de clientes com possibilidades e vontade de a comprar.
Por isso não é de estranhar quando um tipo que montou uma cadeia de venda de pneus tem uma fortuna avaliada em vários milhares de milhões de dólares, tal como outro que fundou a cadeia de Moteis de baixo valor “Super 8”.
E como aqui não é vergonha ser-se rico, muito destes milionários passeiam os seus Rolls, Bentley e Aston Martin pelas ruas de Miami.
Aqui na Florida a temperatura tem estado sempre a cima dos 22º e voltei a ver motos na estrada, quase todas Harleys, obviamente. Em muitos dos Estados americanos não é obrigatório o uso do capacete e a maioria destes condutores das Harleys são cinquentões que circulam, invariavelmente, sem capacete. Não resisti a sacar da Go Pro que tinha no bolso para filmar um mesmo típico, com botas de cowboy nas peseiras da frente, quase junto ao guiador, no qual tinha montado a armação de uma rena. Para além disso tinha uma aparelhagem que se fazia ouvir à distancia, mesmo se um pouco ofuscada pelo barulho do motor que parecia não ter silenciadores. Extraordinário.
Pelo caminho parei junto a uma praia onde almocei num balcão virado para o mar, com um esquilo a fazer-me companhia durante uns cinco minutos, para trás e para a frente do corrimão, sempre com um olho na minha “Ceasars Salad”. Aqui já há clima e vegetação tropicais, com pequenos animais a circularem nos locais com mais árvores.
Quando nos aproximamos de Miami Beach o cenário muda radicalmente e passamos a ver prédios altos dos dois lados da estrada e muito movimento. A rua junto à praia parece Albufeira em Agosto com os restaurantes e esplanadas cheios e meninas a chamarem os clientes na rua. Um inferno. Na estrada que dá para o canal, do lado oriental há prédios altos sobre a praia e do outro lado vários cais para iates espampanantes. A diferença é abismal para a outra parte mais “civilizada”, a Norte de Fort Lauderdale. Aqui é o novo-riquismo que impera.
Na cidade de Miami, do outro lado do canal continuam os arranha céus mas “sente-se” menos dinheiro nas ruas.
Fugi para Sul e entrei pelo mar dentro para visitar as Key Islands. É essa a sensação que temos quando, depois de passarmos uma parte do extremo sul da Florida, em que a vegetação é luxuriante e voltam as casas baixas e independentes, começamos a atravessar pontes que nos levam de pequena em pequena ilha durante mais de 200 Km até Key West, a maior e mais “dentro” do Oceano. É o extremo Sul dos Estados Unidos. Estamos a menos de cem milhas de Havana, ou seja, mais perto que de Miami, no Sul do Continente.
Vinha distraidamente a atravessar uma destas ilhas a pouco mais de 100 Km/h, onde o limite de velocidade eram 45 milhas (72 Km/h), quando ultrapassei, pela direita, uma pick-up que circulava do lado esquerdo da estrada, sem reparar que era um carro da polícia. O homem acelerou, pôs-se ao meu lado e levantou a mão e abanou a cabeça com ar zangado como quem diz: “Então”??
Ups, já dei barraca. Fiz um gesto a pedir desculpa e deixei-me ficar para trás, com  ar de menino bem comportado, a 80 Km/h.
Key West é uma ilha muito gira com pequenas casas antigas em madeira muito bem tratadas  e excelentes hotéis no mesmo estilo. Ainda entrei num Hyatt que tinha um ar chique mas simples para perguntar o preço de um quarto mas fugi quando a preta gorducha, muito bem arranjada e pintada, me disse que o mais barato eram 520 dólares.
Acabei por encontrar uma cama, num Hostel, a 44.

8 de dezembro de 2016

Myrtle Beach







Quando saí de Washington estavam 10º de temperatura, o que já não considero frio. À medida que fui andando para Sul naquele dia a temperatura foi aumentando a um ritmo de 1º por cada 100 Km. Pelas cinco da tarde, quando parei em Warsaw estavam 16º e quando acordei no dia seguinte, tinha subido para 22.
Passei em Myrtle Beach que pensei ser atrativa mas não é mais que uma espécie de Quarteira à Americana, com prédios em cima da praia.
Aliás tanto a costa da Carolina do Norte como da Carolina do Sul não têm grandes atrativos nem sequer estradas junto ao mar. Já na Georgia, mais a Sul, as ilhas St. Simons e Jekyll são fantásticas. Muito bem arranjadas com casas típicas americanas, em madeira pintada, junto ao mar e em condomínios bem tratados, com bons campos de Golf.
Quando deixei as ilhas através de uma ponte de ligação ao continente ao meu lado vinha um carro fantástico. Tinha a cabine de uma VW pão de forma dos anos 60 mas muito rebaixada. Para a frente saía uma parte do chassis tubular que segurava a suspensão VW transformada. Atrás da cabine cortada estava montado um motor V8, em posição central, a debitar 400cv., transmitidos às largas rodas traseiras através de uma caixa automática. Estava extraordinário. Fiz sinal ao homem e quando parou nos sinais luminosos tirei umas fotografias. Indaguei que motor tinha aquele engenho e, depois de uma pequena troca de palavras, ele perguntou se eu não queria ir até à garagem dele ali perto.
A garagem do Ben tinha vários projetos, cada um mais louco que aquele, uns acabados e outros em fase de iniciação. Entre os primeiros estava uma pão de forma dos anos 60 com motor eléctrico e uma moto/bicicleta eléctrica, com um quadro e rodas de uma moto de grande cilindrada, uns pedais de bicicleta que davam uma ajuda ao motor eléctrico alimentado por uma torre de baterias de Lithium. O Ben contou-me que deixava os condutores de boca aberta quando passava por eles na auto estrada naquele engenho, a dar aos pedais, a 140 Km/h.
O Ben é uma espécie de Professor Pardal dos tempos modernos, com uma imaginação fértil e a sorte de viver num país onde qualquer um pode construir um carro ou moto, pedir uma matricula e circular legalmente com ele.
Quando entrei na Florida apanhei finalmente uma estrada junto ao mar mas, quando parei para tirar umas fotografias sem sair de cima da moto uma das luvas caiu ao chão e em vez de colocar a moto no descanso para a apanhar decidi esticar-me. Desequilibrei-me e deixei a moto cair. Resultado: A maneta da embraiagem e a peseira do lado esquerdo partidas. Um homem que vinha de bicicleta parou logo para me ajudar a levantar a moto e tive que arrancar a carregar na embraiagem com dois dedos no que restava da manete e circular com o pé esquerdo pousado em cima do motor. Assim fui até à próxima cidade, Jacksonville, onde procurei o concessionário da Honda. Não tinham peseiras para a minha moto mas o simpático empregado acabou por desmontar uma, usada, que estava agarrada a parte de uma velha Gold Wing e ofereceu-ma.
Entretanto eram seis da tarde e o sol tinha-se posto de maneira que fui à procura de um Motel na cidade e deixei a montagem da peseira e da manete suplente, que trazia comigo, para a manhã seguinte. A peseira, para que fixasse, tive que a montar ao contrário e entalar por baixo um calço de alumínio feito com uma parte partida da antiga. Ficou impecável, até ter uma nova.
Nesse dia continuei a caminho de Miami mas sempre que possível escolhendo a estrada A1A que segue junto à costa. Passei em Daytona Beach, que num enorme sinal à entrada da praia anuncia “Daytona Beach. A praia mais famosa do mundo”. Comprei um bilhete para poder andar com a moto na praia embora não tenha muita graça porque o limite de velocidade, que eles insistem para se cumprir, são 10 milhas/hora (16 Km/h). Fui um pouco mais depressa mas mesmo a 40 Km/h a Cross Tourer, com o peso que carrega, tinha tendência para se enterrar de maneira que, antes que espetasse a cara na areia e partisse outra manete, percorri só a primeira parte da praia.

5 de dezembro de 2016

Washington D.C.


Fiquei três noites em Washington. Visitei o Memorial dedicado ao Presidente Lincoln, a quem os americanos dão grande importância não só por ter sido quem governou durante a guerra civil, mas principalmente por ser o grande responsável pelo fim da escravatura, e os dois “memorials” dedicados aos combatentes das guerras da Coreia e Vietnam. O primeiro com estátuas de soldados implantadas num campo de erva, reproduzindo um campo de batalha,  muito bem feito, e o segundo um enorme muro em mármore preto, com uns bons cem metros de comprimento e cerca de dois de altura, onde estão gravados os nomes de todos os perto de sessenta mil americanos que morreram na guerra do Vietname. Impressionante. Ainda hoje, mais de 40 anos passados sobre o fim da guerra, familiares continuam a ir lá colocar fotografias, flores e bandeiras americanas junto de alguns dos nomes.
No dia anterior tinha passado um par de horas no excelente art museum com obras dos principais pintores europeus dos séculos XV a XX e de um ou outro americano do final do século XIX e inícios do século XX.
Quando passeava pela cidade, acompanhado de uma das minhas cunhadas que ali vive, passei por um grupo de polícias que guardavam um dos acessos à Casa Branca com as suas Harleys. Pedi para tirar uma fotografia e um deles achou graça e convidou-me a fazer pose frente às motos com ele. Sugeri tirar outra a fingir que me prendia e ele, divertido, mandou-me deitar no capot do carro da polícia para fazer o “teatro”. Só nos Estados Unidos a policia alinhava numa brincadeira destas. Fantástico.
Da parte da tarde visitámos o museu do ar, onde têm expostos não só vários aviões da primeira e segunda guerras mundiais como cápsulas das missões Apollo e outras partes dos gigantescos foguetões que levaram uma dúzia de homens à lua entre 1969 e 1972, passando ainda por outras curiosidades como o  original “Spirit of Saint Louis”, o primeiro avião a atravessar o Atlântico sem escalas. O jovem Charles Lindbergh levou mais de 33 horas, em 1927, para ir de Nova Iorque a Paris, onde aterrou em frente de uma população delirante.
Durante a visita conhecemos um aviador reformado americano que nos explicou pormenores fascinantes sobre o funcionamento dos foguetões que foram à lua e as várias partes dos mesmos que iam ficando pelo caminho. Não tinha ideia que na primeira viagem, em 1969, Michael Collins tinha ficado numa parte da nave em órbita e só Neil Armstrong e Buzz Aldrin aluaram, descendo do módulo e caminhando na superfície da lua de onde recolheram materiais para posterior análise. Antes de partirem deixaram o material de que não precisavam em solo lunar, incluindo as suas mochilas, para tornar a nave, já em tamanho muito reduzido, mais leve. Para descolar da lua no regresso, como é evidente, é preciso muito menos potencia dos motores e quantidade de  combustível do que quando estão sujeitos à força da gravidade na terra.
Se no início da missão o enorme foguetão lançado de Cape Canaveral tinha 111 metros de comprimento, no fim, a única parte que regressava à terra era o pequeno módulo que caia de para quedas no Pacifico com os três astronautas dentro, que não tinha mais de quatro ou cinco metros de diâmetro e uns três de altura. Impressionante.
Ao todo houve seis missões que levaram homens à lua, entre 1969 e o inicio dos anos 70. As duas ultimas transportaram os buggies lunares que permitiram aos astronautas deslocarem-se já umas centenas de metros no solo lunar e que lá ficaram, abandonados.
O Tenente Don Baier era muito simpático e contou-nos que, quando pilotava sobre o Atlântico, há largas dezenas de anos, e perguntava aos controladores aéreos portugueses, na base dos Açores, se não estava demasiado vento para poder aterrar estes indagavam primeiro: traz correio? Se ele dizia que sim, por mais vento que estivesse, diziam sempre que a velocidade máxima das rajadas era de 35 nós, o limite em que estavam autorizados a aterrar. Numa altura em que havia poucos meios de comunicação, os controladores esperavam ansiosamente por notícias dos familiares que estavam emigrados nos Estados Unidos.