3 de dezembro de 2016

Chicago


Na noite em que cheguei a Chicago fui jantar a um “Portillos” que havia perto do Hotel. São restaurantes italianos baratos que penso só existirem aqui mas com enorme sucesso. Utilizam o sistema Americano de se fazer o pedido ao balcão e pagar para depois chamarem pelo numero da encomenda e entregarem o jantar num tabuleiro que levamos para a mesa. As bebidas são compradas diretamente no bar. Este Portillos, tal como os outros, tem enorme sucesso e está sempre com muito movimento. Pedi uma “Peasant’s pasta” que estava optima.
No dia seguinte dei uma volta pela cidade e fui visitar o sensacional Art  Institute of Chicago, que rivaliza com os bons museus de arte europeus.
No terceiro andar, reservado à arte moderna, uma completa coleção que inclui quadros de Miro, Chagall, Picasso, Dali, Braque, Matisse e ... um do nosso Amadeu Souza Cardoso. No andar de baixo, da arte Contemporânea, o destaque vai para Andy Warhol mas expõe obras de muitos outros autores famosos, algumas, como de costume, a fazerem-nos duvidar da qualidade do artista quando o leva a produzir, por exemplo, um quadro totalmente branco com uma moldura amarela seguida de outra castanha. Ou, simplesmente, um monte de rebuçados, embrulhados no seu papel, a um canto da sala. Apetece tirar um e comer mas provavelmente iria preso por danificar uma obra de arte. Modernices que me recuso a entender.
Acabei por estar só um dia em Chicago, que me soube a pouco, mas o tempo iria piorar e tive medo que começasse a nevar o que me poderia prender por ali.
Arranquei na tarde em que visitei o museu e andei  pouco mais de cem quilómetros.
No dia seguinte estava a chover forte e não ameaçava parar. Ainda pensei em ficar pelo Motel mas não tive paciência. Passei o dia debaixo de chuva e com 5 a 6º de temperatura. Pelas cinco da tarde encontrei um Motel em Fort Wayne, Indiana, perto de Decatur, onde queria visitar a fábrica da Monaco, as melhores motorhomes americanas.  Não me lembrei que era dia de “Thanksgiving” que é esta desculpa americana para reunirem a família um mês antes do Natal. Estavam fechados até à segunda feira seguinte. Continuei em direção a Washington e qual não foi o meu espanto quando, sem prever, estava a passar à porta da fábrica americana da Honda, onde fazem o novo NSX. Também estava obviamente fechada mas o segurança deixou-me entrar, para tirar umas fotografias no Hall onde estava não só um dos novos NSX, como outro despido de carroçaria e um dos antigos, idêntico ao que Senna costumava usar em Portugal.
Esta zona de Illinois é onde estão sediadas muitas das industrias americanas, como a General Motors e constatei que foram buscar alguns dos nomes das suas marcas a cidades locais como Pontiac, Plymouth, etc.
Segui depois em direção a Washington DC. Esta zona dos Estados Unidos tem vegetação e campos cultivados com pequenas vilas típicas pelo meio, onde as casas são quase todas em madeira pintada com um pouco de terreno relvado à volta. Exatamente como vemos nos filmes.
Os dias continuam frios mas pelo menos não chove. Numa mercearia de bomba de gasolina comprei umas luvas em tecido grosso por dois dólares que passei a colocar por cima das que tinha e me protegem bem do frio.
Washington D.C., a capital, não pertence a nenhum dos estados americanos. É uma cidade encaixada entre Maryland e Virginia com um estatuto próprio e onde está a Casa Branca, o Capitol, onde se reúne o Congresso, o Pentágono, etc. É também aqui a sede da Smithsonian, uma espécie de Gulbenkian americana, proprietária dos principais museus da cidade, dos melhores dos Estados Unidos.



1 de dezembro de 2016

St. Louis






Em St. Louis fui ainda visitar um pequeno museu de motos, junto ao stand do concessionário local da Triumph e Ducati, e o Art Museum, no Forest Park, o segundo maior parque de cidade nos Estados Unidos, a seguir ao Central Park.
O Art Museum é alimentado financeiramente por doadores que preenchem um quadro à entrada que refere os nomes de quem deu entre 100.000 e 250.000 dólares ou quem contribuiu, entre privados e firmas locais, de 250 a 500.000 ou entre 500.000 e um milhão de dólares. Uma solução tipicamente americana que não “encaixaria” em qualquer outro país no mundo.
Estas fenomenais ofertas permitem que o museu tenha obras não só de grandes artistas americanos como quadros de Picasso, Van Gogh, Monet, etc.
Por fim visitei o sensacional City Museum. O fundador, que morreu ao capotar um Caterpilar quando trabalhava numa das suas obras, projetou uma estrutura que parece saída de um filme do Harry Potter, com um autocarro de escola que dá a ideia de estar em equilíbrio no topo do prédio de sete andares, velhos aviões pendurados por ferros junto a torres de castelos em pedra ou guaritas de palácios metálicas, tudo ligado por estreitos túneis construídos em grossos arames que as crianças se entretêm a percorrer ou enormes escorregas em chapa que descem no interior ou exterior de uns andares para os outros, bares extravagantes, estátuas de dragões e animais imaginários, tudo com uma criatividade original e genial. Fui lá num domingo à tarde e o museu estava cheio de famílias com muitas crianças a divertirem-se de uma forma que faziam lembrar crianças das gerações em que nos pendurávamos nas árvores e descíamos as ruas de carrinhos de rolamentos. Numa altura em que os miúdos se habituaram a ficar fechados em casa agarrados aos computadores, é refrescante verificar que ainda é possível entretê-los com outras coisas.
Em St. Louis fui ainda com os Gunther, familia em casa de quem fiquei, assistir a um concerto de um fantástico guitarrista russo no Sherton, uma “velha” sala de espetáculos relativamente pequena e intimista.
Depois de quatro dias bem passados em St. Louis fiz-me à estrada a caminho de Chicago. O tempo arrefeceu bastante e parece que o inverno veio para ficar. Na estrada estão entre 5 e 6º e não se vê mais nenhuma moto a circular. Quando paro nas bombas de gasolina ou pequenos restaurantes de “fast food” para almoçar as pessoas olham para mim como se de um extra terrestre se tratasse e perguntam-me se o blusão tem aquecimento eléctrico ou se a moto tem pneus de neve. Como só saí perto do meio dia não cheguei a Chicago e fiquei num Motel de beira de estrada para atingir a cidade na tarde do dia seguinte. Pelo caminho, sempre que pude, fiz desvios pela “Historic 66” que acabava, ou começava, precisamente em Chicago. A cidade, junto ao enorme lago Michigan, ganhou grande projeção quando St. Louis recusou a passagem da linha férrea, no início do século XX, por temerem trouxesse gente má à cidade, e esta fez o seu trajeto para a costa ocidental através de Chicago.
Cheguei a meio da tarde. A menina da recepção disse-me que, para estacionar a moto, só na garagem do Hotel ao lado.
- Quanto custa?
- Uns 40 dólares.
- O quê??? Nem pensar. E na rua?
- Terá que colocar moedas a cada duas horas até à meia noite e a partir das sete da manhã.
- Também não me parece. Vou deixá-la em cima do passeio.
- Em cima do passeio??? É proibido. Acho que a vão rebocar.
- Com o cadeado na roda é complicado. E lá estacionei a moto no passeio, com um ar bem arrumado e imenso espaço para os peões.
O porteiro preto, rapaz dos seus trinta anos, achou graça e quando me trazia as malas para o quarto disse a rir-se:
- I like you, man. You’re cool.   

29 de novembro de 2016

Oklahoma


Saí de Cuba ainda em direção ao Sul pois tinha ideia de apanhar a famosa “Route 66” em Albuquerque para nela percorrer o caminho até St. Louis, cerca de 1700 Km.
A estrada mais famosa dos Estados Unidos, construída em 1926, ia de Chicago a Los Angeles e, durante décadas, foi a estrada preferida para ligar o Oriente à costa Ocidental do país. Começou por ser em terra mas em 1938 tornou-se a primeira, nos Estados Unidos, a ser totalmente alcatroada.
Hoje em dia cheguei à conclusão que está longe de existir como era. Na parte que percorri entre Albuquerque e Oklahoma há apenas pequenos troços, outra parte tendo sido “engolida” pela autoestrada que construíram no mesmo trajeto. Quando circulamos nessa autoestrada nos locais das vilas há sinais a indicar “Historic Route 66”. Para os americanos, tudo o que tem mais de cinquenta anos é histórico. Nestes locais a estrada que passa dentro das vilas ainda é a original “Route 66” para pouco depois voltar a desembocar na auto estrada. Nestas pequenas partes em que existe, nos cerca de 900 Km que separam Albuquerque de Oklahoma, a estrada tem muitas bombas de gasolina e velhos cafés abandonados, com carros velhos e podres encostados à porta. A velha estrada perdeu os clientes para a autoestrada e o comércio faliu. Parece um filme de holocausto onde as pessoas tiveram que abandonar o local rapidamente depois de uma catástrofe e tudo ficou como estava, os elementos da natureza tratando de desfazer o que ainda estava de pé.
Insólito, no meio de todo este abandono, é terem montado nos terrenos de uma velha estação de serviço, uma moderna estação de carregamento de carros eléctricos das que a Tesla tem implantado um pouco por todo o país, para que os seus clientes possam viajar através dos Estados Unidos tendo sempre onde carregar as baterias.
A partir de Oklahoma a situação muda. A velha “66” ainda lá está, a paisagem é menos desértica que no Estado do México, e as vilas e cidades estão mais arranjadas, até com um ou outro museu dedicado à famosa estrada.
Fui visitar o museu em Elk City e nesse dia acabei por ficar em Tulsa.
No dia seguinte deixei o Hotel mais cedo que o costume pois tinha um longo caminho a percorrer até St. Louis, onde iria ficar em casa de amigos. Voltei a abandonar a autoestrada sempre que indicavam desvios através da “Historic Route 66”. As pequenas vilas por onde passamos têm sinais em hotéis, velhas bombas de gasolina ou cafés a recordar a ligação à velha via. O numero 66 ficou na memória de todos os automobilistas.
Uma história curiosa é a de um velho homem do petróleo texano, um tal Mr. Philips, que procurava um nome para as bombas de gasolina que iria lançar no mercado. Quando passava na “66” e achou que o seu “chauffeur” ia depressa de mais perguntou-lhe a que velocidade circulavam.
-“A 66”, respondeu o homem. Vamos a 66 milhas na Route 66.
Ao que o patrão respondeu:
- Boa Ideia. Vou chamar-lhe 66, Philips 66. E assim ficou.
Fiquei em St. Louis durante quatro dias. Recebi lá as peças da suspensão que tinha que mudar na moto mas depois de ter desmontado parte das ligações ao amortecedor cheguei à conclusão que faltava o rolamento do olhal do amortecedor de maneira que voltei a montar tudo com as velhas peças, adiando a reparação para outra cidade.
Em St. Louis fui visitar um fantástico museu automóvel em que a maioria dos carros estava também à venda. Um réplica com peças verdadeiras de um protótipo Ferrari de 1959, que o dono me contou ter sido construído com peças roubadas pelos empregados da fábrica, saltava à vista, assim como outra excelente réplica de um Jaguar “C”, também dos anos 50.
Nesse dia ainda visitei o “History Museum” que gostei imenso. Nunca tinha visto um intitulado museu de História onde as peças mais antigas tinham pouco mais de cem anos.
Numa das salas mostravam o que foi a fantástica exposição internacional organizada em St. Louis em 1904 e que revolucionou a cidade e lhe deu enorme projeção. Na altura St. Louis foi mesmo o maior polo financeiro nos Estados Unidos, a seguir a New York.  A cidade é banhada pelos rios Missouri e Mississippi, o que ajudava nos transportes da época, fazendo florescer a sua economia.
Outra sala tinha em exposição brinquedos dos anos 50, 60 e 70 enquanto uma terceira tinha mais um museu dedicado à “Route 66”. Duas velhotas olhavam para uma pintura de um “drive In” com umas duas dezenas de carros dos anos 50 e 60. Uma lista com os modelos convidava os visitantes a acertarem nas marcas e modelos dos carros. Uma das velhas começou a identificar os carros e não falhou um.
- Você percebe mesmo de carros, disse-lhe.
- Sim. Tinha três irmãos mais velhos.



26 de novembro de 2016

Four Corners


Deixei Monument Valley pelas onze da manhã em direção a Oriente, através de longas rectas traçadas no deserto. Fiz um pequeno desvio para passar em “Four Corners”, o único ponto nos Estados Unidos onde quatro Estados se encontram, os de Utah, Colorado, Arizona e New México. Isto é território Índio, que apanha grande parte do Arizona e regiões dos outros três estados. Nos séculos XIX e XX houve vários acordos feitos entre o governo dos Estados Unidos e diversas tribos de Índios para definirem qual o território que eles poderiam ocupar mas tem havido sempre contestações por parte dos Índios. O que aconteceu na prática foi que os Estados Unidos deixaram para os Índios, na sua grande maioria, terreno de deserto, estéril e seco, onde nem erva daninha cresce. Nalguns locais foi descoberto gás natural, os Índios montaram algumas industrias e uns poucos fizeram fortuna mas a maioria da população dos Native Americans, como eles gostam de ser chamados, vive com muito pouco. Eles são totalmente diferentes dos Americanos, não só na cultura como na maneira de pensar e agir. São muito espirituais e dão imensa importância à terra em si, onde os seus antepassados viveram e os descendentes hão de viver. Nunca aceitaram a ideia de lhes terem ocupado as terras que consideravam suas não como propriedade física mas como local onde viveriam ao ritmo a que estavam habituados, de há muitas centenas de anos a esta parte. Não dão grande importância aos bens materiais mas, como qualquer mortal, gostam de ter o  mínimo para viver. Por tudo isso sentimos uma certa infelicidade na expressão da maioria. São pessoas frias e à primeira vista parecem antipáticos mas quando falamos um pouco com eles percebemos que são boa gente. O Índio que me atendeu no parque de campismo era tão frio e antipático que me fez lembrar os franceses que, com um pouco de conversa mudam de atitude.
Os americanos, de um modo geral, são o oposto. Simpáticos no primeiro contacto dizem-nos logo: Olá, como está você hoje? De onde vem? Para onde vai? Mas no fundo sabemos que obviamente se estão nas tintas para como nos sentimos naquele dia ou de onde e para onde vamos. Claro que é simpático da parte deles mas as frases saem-lhes da boca para fora automaticamente, sem qualquer sentimento. A partir de ali a conversa raramente se aprofunda, porque os atrapalha, sem saberem como reagir.
As tribos, principalmente os Navajo e os Apache, os mais numerosos, sem poderem cultivar as terras que lhes calharam, dedicam-se a negócios pouco lucrativos de produção de colares e artefactos que vendem aos turistas, enquanto o seu governo recebe os impostos sobre a gasolina que se vende no território para além de explorarem os poucos locais turísticos existentes na região, cujo maior será Monument Valley, mas sem jeito nem convicção.
Quando deixei “Four Corners” parei na primeira cidade que encontrei, para almoçar qualquer coisa. Era Shiprock, uma pequena cidade dos Navajo, com menos de 9000 habitantes. Fui a uma Pizzaria comprar uma dose com quatro fatias mas só tive fome para duas. Quando saí com a caixa na mão tentei procurar um Índio a quem a dar mas não foi evidente. Eles são incapazes de pedir mas acabei por a oferecer a um que veio fazer conversa por causa da moto e ficou radiante, dando-me um forte abraço. Quando parti um outro viu a cena e veio-me perguntar se não tinha sobrado pizza. Arrependi-me de não ter ido comprar outra para este ultimo mas só pensei nisso quando já tinha arrancado.
Passados uns quilómetros a caminho do Sul passamos por uma placa que indica território Apache.
Nesse dia fui ficar a Cuba, a umas 70 milhas de Albuquerque. A senhora do Motel era Espanhola mas de início até pensei que fosse cubana e perguntei-lhe se a terra se chamava Cuba por ter muitos cubanos.
- Não, aqui não vivem cubanos, mesmo se muitos vêm da Florida para aqui se casarem por causa do nome da terra. Penso que se chama assim porque em tempos idos era um local com muita água e portanto designaram-no como um depósito de água, “una Cuba de água”.


23 de novembro de 2016

Monument Valley


Quando deixei Salt Lake City, onde montei o novo jogo de pneus na moto, fiz cerca de 200 Km em direção ao Sul e fui ficar na pequena cidade de Price onde tinha combinado jantar com a Filipa, uma rapariga de Braga que o Ross tinha conhecido em Portugal e que ajudou a que fosse admitida na Universidade de Price para estudar Engenharia Espacial, um sonho de criança. A Filipa, de 19 anos, é a única europeia a estudar naquela universidade e estou certo que se vai formar com óptimas notas. Quando a fui buscar para jantar e lhe propus chamar-mos um táxi porque estava frio disse logo que não, que gostava imenso de andar de moto. Muito simpática a desembaraçada, como boa nortenha que é.
No dia seguinte, antes de deixar Price, fui a uma bomba de gasolina para levantar dinheiro numa máquina ATM. Ao meu lado, no seu Chevrolet preto, parou o Sheriff local, um rapaz alto, com menos de 40 anos, cuja farda eram uns Jeans, uma “T” shirt do Trump e um boné da sua equipa favorita de Baseball. Entrou atrás de mim na bomba e ficou, nitidamente, a ouvir a minha conversa com a menina da bomba a perguntar onde haveria outra ATM, com o ar de: “o que é que este forasteiro anda a fazer na minha terra?”. Pensei em pedir-lhe para tirar uma fotografia com aquele traje junto ao carro de Sheriff mas tive medo que levasse a mal e desisti da ideia.
Continuei rumo ao Sul, a caminho dos National Parks “Canyonlands” e “The Arches”. O primeiro é um parque com um enorme vale ao estilo do Grand Canyon e quase tão monumental quanto aquele. O segundo, a meia dúzia de quilómetros tem, tal como o nome indica, uns arcos em rocha que formam uma espécie de pontes naturais. Sensacional.
Nesse dia saí do parque já de noite e instalei-me num Hotel da cidade de Moab para no dia seguinte continuar para sul, agora a caminho de Monument Valley. Cheguei lá pelas duas da tarde e como o único hotel no local era caro e estava bom tempo optei por acampar no parque. Aqui já é Arizona e terra sobre o domínio dos Indios que não só cobram a entrada no parque como estão na recepção do Hotel ou parque de campismo, bombas de gasolina das redondezas, etc. Têm até a sua própria polícia e a dos estados vizinhos não se mete na vida deles.
A paisagem em Monument Valley parece de estátuas que se elevam no meio do deserto. Enormes rochas encarniçadas que atraíam John Ford a ali filmar os seus westerns com John Wayne e outros atores da época.
Depois de montar a tenda fui percorrer a estrada de terra que dá uma volta pelo parque mas, com a suspensão traseira em mau estado, tive que rodar devagar. Quando, três dias antes estava a substituir os pneus, o mecânico veio chamar-me para ver a suspensão traseira da moto. O rolamento do apoio inferior do amortecedor traseiro já não estava lá, certamente devido ao tratamento que a moto levou, com muito peso em cima, nas esburacadas estradas da Índia e Birmânia. Não há nada que aguente. Assim o amortecedor andava apoiado no parafuso, evidentemente com uma enorme folga. Vinha há tempos a sentir a moto com um comportamento em curva deficiente mas sempre pensei que seria por desgaste do amortecedor. O parafuso terá agora que aguentar mais cinco dias, altura em que chego a St. Louis e para onde, desde Portugal, me mandaram as peças de substituição.
Jantei no restaurante do Hotel e fiquei na sala de entrada ao computador até cerca das dez da noite, altura em que fui para a tenda montada num parque de campismo original, numa inclinação em terra com pouca vegetação a dar para as elevações principais de Monument Valley.
Enganei-me a entrar dentro do saco cama ficando na posição para verão, com menos proteção. De noite a temperatura desceu para uns sete ou oito graus e passei um frio de rachar, mesmo depois de estender o blusão por cima de mim a fazer de cobertor extra. Só quando o sol nasceu a temperatura subiu um pouco e, depois de constatar que estava na posição errada do saco cama, consegui dormir um pouco melhor. Quando finalmente acordei já eram nove da manhã.    







20 de novembro de 2016

Eden - Utah


The Craters of the Moon fica num deserto ao sul do Estado de Idaho. Há uma pequena vila a cerca de 30Km, Arco, onde fiquei essa noite.
Os pneus que me tinham montado na fabrica da Honda no Japão já estão nas ultimas. Duraram menos que o costume, talvez por as estradas americanas serem mais abrasivas que o normal, para ganharem aderência nos períodos de chuva ou neve. Como o local é isolado atestei o depósito antes de sair Arco e até Eden, o meu próximo destino, perto de Salt Lake City, tentei não ultrapassar os 120 Km/h com medo que o pneu traseiro, já com arames à vista, pudesse estoirar. As cidades e vilas por onde tinha passado desde que deixei Seattle eram demasiado pequenas para que algum concessionário tivesse em stock pneus para a Cross Tourer.
Os primeiros cem quilómetros foram através de uma estrada de faixa única em cada sentido que cruza o deserto. Passei junto a uma central nuclear e, pouco depois, afastada da estrada dois ou três quilómetros, vejo Atomic City, uma pequena cidade que foi a primeira no mundo a ser totalmente alimentada a energia nuclear.
Em Eden ía ficar em casa de um homem que me foi apresentado por uma amiga comum que vive em Cape Town, na Africa do Sul e, por telefone, pedi ao Ross para me tentar encontrar um jogo de pneus na região de Salt Lake City. Acabou por me informar que só havia um jogo num concessionário BMW e outro num da Honda, de entre os perto de dez da região. A razão talvez seja o facto de nos Estados Unidos não venderem estas motos pois quase todas as Honda de grande cilindrada são Gold Wing ou réplicas das Harley.
O Ross, que só conheci quando cheguei a casa dele mas que já me tinha dito que poderia lá ficar o tempo que quisesse, é uma pessoa encantadora. Médico reformado tem cinco filhos de três casamentos e vive nesta casa fantástica sobre um lago no Norte do Utah. Aqui a maioria da população são Mormon e feverosos apoiantes do Trump, como ele, que chegou ao ponto de contribuir financeiramente para a campanha. O Ross é um tipo grande, bonacheirão, simpático, divertido e inteligente. Uma pessoa que veio de baixo e subiu a pulso, abrindo um consultório de sucesso depois de se formar. Os bisavós, contava-me, chegaram a esta terra, de carroça, no final do século XIX quando não havia aqui absolutamente nada. Tive conversas interessantíssimas com ele e ajudou a mudar a opinião generalizada que tinha do povo americano.
Quando entrei nos Estados Unidos e aqui critiquei os americanos pelas conversas que tive e ouvi nos autocarros, uma das minhas irmãs, que cá viveu muitos anos, discordou da minha opinião e pediu que fizesse uma reavaliação depois de atravessar o país. Ainda vou a meio mas confesso que, depois dos muitos contactos que tive com pessoas de diversos meios sociais, incluindo os polícias que me pararam na estrada, a minha opinião mudou.
Cheguei a casa do Ross no Sábado à tarde e os concessionários fecham, normalmente, à segunda de maneira que nesses dias, para além de me mostrar a região, apresentou-me a família que vive por perto e aproveitei para mudar o filtro de ar à moto, que não fazia desde a Indonésia, e substituir as pastilhas de travão da frente, que estavam no fim. Quando acabei de mudar o filtro, operação trabalhosa na Cross Tourer pois obriga a desmontar  as carenagens e levantar o depósito de combustível, pus a moto a trabalhar mas só uns segundos, para não deixar poluição na garagem. Quando, na terça feira de manhã, me preparava para arrancar quis pôr a moto a funcionar mas ela não pegou. Voltei a desmontar tudo e verificar as fichas eléctricas que pude mas o problema não se resolveu. O que se passou foi porque, por a região de Eden estar a cerca de 1600 metros de altitude e o filtro velho estar muito sujo, a electrónica da moto tinha regulado o sistema para pouca pressão de gasolina pois o motor também recebia pouco ar. Ao desligar a moto poucos segundos depois de ela ter pegado não dei tempo ao sistema de se autorregular e assim, quando a quis voltar a pegar, respirando bem através de um filtro novo, não tinha pressão de gasolina suficiente para pegar. Tentei fazer um “reset” ao sistema a partir de uma gravação que o Ross encontrou na internet mas sem sucesso.
Assim, na quarta feira de manhã carregamos a moto num atrelado e levámo-la ao concessionário local. Quando lá chegámos disseram-me que tinham uma lista de espera na oficina de dois meses mas, depois de explicar que estava em viagem, prontificaram-se a receber logo a moto. O computador deles não tinha o “software” para esta moto, por não ser aqui vendida, nem o próprio importador, que eles entretanto contactaram mas, depois da minha explicação sobre o que se tinha passado, acabaram por conseguir pôr a moto a trabalhar e, para meu espanto, não me cobraram nada pela intervenção. Sensacional.
De ali parti para o concessionário que tinha o jogo de pneus reservado para mim, o quinto jogo que monto desde que comecei a viagem.



17 de novembro de 2016

Yellowstone - Wyoming


Deixei Anaconda pelas onze da manhã a caminho de Yellowstone, mais um dos National Parks que pretendia visitar.
Cheguei a West Yellowstone pelas três e meia da tarde, deixei a bagagem no Hotel e fui visitar o parque. O homem da recepção estranhou eu aparecer de moto nesta altura do ano mas com um ar de “há malucos para tudo” disse:
- Talvez se safe
A volta ao parque são nada menos que 200 Km.
É fantástico porque tem não só muita vegetação, rios e um enorme lago mas também animais selvagens que se passeiam pelo parque. Uns 30 Km depois de entrar estava uma manada de búfalos junto à estrada e parei para tirar fotografias, só mais tarde reparando num sinal a dizer “não se aproxime dos búfalos que podem atacar”.
Yellowstone está a cerca de 2400 metros de altitude e o trajeto de volta ao parque passava por uma zona de montanha mais alta onde a temperatura baixou para os 2º. Aí não só havia neve como placas de gelo em algumas zonas da estrada. Felizmente tinha deixado a mala e o saco no Hotel porque por quatro ou cinco vezes a moto andou de lado em cima do gelo mas, porque ia mais leve, consegui controlar o “slide” sem ir ao chão.
Pelo caminho fui parando diversas vezes, não só para tirar fotografias como para observar os geiseres que há um pouco por todo o parque, com água a ferver a sair da terra, por vezes a correr em pequenos riachos fumegantes que depois vão desaguar nas águas geladas dos rios de grandes caudais. Espetacular.
Entretanto, com isto tudo, começou a ficar noite o que não calhava nada, principalmente pelos animais à solta pelo parque.
Quando estava já noite cerrada, ainda a uns 40 Kms da saída do parque, deparei com três carros parados porque estava uma manada de búfalos a atravessar a estrada. Parei junto a eles até que o primeiro decidiu avançar, lentamente, por entre os búfalos, seguido dos outros dois. Eu de moto, não podia ficar ali parado à mercê dos animais mas também era complicado avançar pelo meio dos búfalos. Pus-me então do lado esquerdo do terceiro jipe que avançava devagar, entre ele e a berma alta, o carro a servir-me de escudo para os búfalos. Mas eis que, a bimba da mulher que ia ao volante, atrapalhou-se com a moto e parou. Os dois carros que iam à frente seguiram , os búfalos voltaram a ocupar a estrada toda e ali ficámos nós no meio, numa situação complicada.
- Avance à frente, dizia-me a “cabra”.
- Não. Quero ir ao seu lado.
- Mas eu não quero. E arrancou encostando-se à berma sem me deixar espaço. Sem poder ficar parado, rodeado de animais, tive que arrancar atrás dela e passar no meio dos búfalos, alguns quase a tocarem-me e o meu ritmo cardíaco a mudar no sentido contrário ao das focas quando mergulham, passando de setenta para cento e setenta pulsações por minuto. Será que não vai dar a algum para embirrar com o barulho da moto, pensava. Lá fui avançando, devagar e a tremer, até passar toda a manada e depois, já livre daqueles, ultrapassar a “vaca” e insultá-la, enquanto ela fechava o vidro do jipe. Passou-me o frio.
No dia seguinte, voltei a adormecer depois do despertador tocar e perdi o pequeno almoço. Fui mais tarde tomá-lo a um simpático café onde conheci um interessante casal de americanos, que meteram conversa por causa da moto. Ela tinha estado em Portugal nos anos 80 e a filha, que trabalhava no Luxemburgo, disse-lhe que tinha ficado encantada com Lisboa.
Segui depois viagem a caminho do que chamam “Craters of the Moon”. Na prática não tem nada a ver com a Lua e é uma enorme zona coberta de lava que, não tendo sido expelida por um vulcão, saiu de enormes rachas que abriram na terra. Formou uma paisagem de rochas pretas que nos anos sessenta os americanos acharam que seria o mais parecido que havia na terra com a paisagem lunar tendo ali levado os astronautas antes de pousarem na lua para treinos. De aí vem o nome daquele local inóspito, do género do que tinha visto há uns anos numa das ilhas Canárias.