17 de novembro de 2016

Yellowstone - Wyoming


Deixei Anaconda pelas onze da manhã a caminho de Yellowstone, mais um dos National Parks que pretendia visitar.
Cheguei a West Yellowstone pelas três e meia da tarde, deixei a bagagem no Hotel e fui visitar o parque. O homem da recepção estranhou eu aparecer de moto nesta altura do ano mas com um ar de “há malucos para tudo” disse:
- Talvez se safe
A volta ao parque são nada menos que 200 Km.
É fantástico porque tem não só muita vegetação, rios e um enorme lago mas também animais selvagens que se passeiam pelo parque. Uns 30 Km depois de entrar estava uma manada de búfalos junto à estrada e parei para tirar fotografias, só mais tarde reparando num sinal a dizer “não se aproxime dos búfalos que podem atacar”.
Yellowstone está a cerca de 2400 metros de altitude e o trajeto de volta ao parque passava por uma zona de montanha mais alta onde a temperatura baixou para os 2º. Aí não só havia neve como placas de gelo em algumas zonas da estrada. Felizmente tinha deixado a mala e o saco no Hotel porque por quatro ou cinco vezes a moto andou de lado em cima do gelo mas, porque ia mais leve, consegui controlar o “slide” sem ir ao chão.
Pelo caminho fui parando diversas vezes, não só para tirar fotografias como para observar os geiseres que há um pouco por todo o parque, com água a ferver a sair da terra, por vezes a correr em pequenos riachos fumegantes que depois vão desaguar nas águas geladas dos rios de grandes caudais. Espetacular.
Entretanto, com isto tudo, começou a ficar noite o que não calhava nada, principalmente pelos animais à solta pelo parque.
Quando estava já noite cerrada, ainda a uns 40 Kms da saída do parque, deparei com três carros parados porque estava uma manada de búfalos a atravessar a estrada. Parei junto a eles até que o primeiro decidiu avançar, lentamente, por entre os búfalos, seguido dos outros dois. Eu de moto, não podia ficar ali parado à mercê dos animais mas também era complicado avançar pelo meio dos búfalos. Pus-me então do lado esquerdo do terceiro jipe que avançava devagar, entre ele e a berma alta, o carro a servir-me de escudo para os búfalos. Mas eis que, a bimba da mulher que ia ao volante, atrapalhou-se com a moto e parou. Os dois carros que iam à frente seguiram , os búfalos voltaram a ocupar a estrada toda e ali ficámos nós no meio, numa situação complicada.
- Avance à frente, dizia-me a “cabra”.
- Não. Quero ir ao seu lado.
- Mas eu não quero. E arrancou encostando-se à berma sem me deixar espaço. Sem poder ficar parado, rodeado de animais, tive que arrancar atrás dela e passar no meio dos búfalos, alguns quase a tocarem-me e o meu ritmo cardíaco a mudar no sentido contrário ao das focas quando mergulham, passando de setenta para cento e setenta pulsações por minuto. Será que não vai dar a algum para embirrar com o barulho da moto, pensava. Lá fui avançando, devagar e a tremer, até passar toda a manada e depois, já livre daqueles, ultrapassar a “vaca” e insultá-la, enquanto ela fechava o vidro do jipe. Passou-me o frio.
No dia seguinte, voltei a adormecer depois do despertador tocar e perdi o pequeno almoço. Fui mais tarde tomá-lo a um simpático café onde conheci um interessante casal de americanos, que meteram conversa por causa da moto. Ela tinha estado em Portugal nos anos 80 e a filha, que trabalhava no Luxemburgo, disse-lhe que tinha ficado encantada com Lisboa.
Segui depois viagem a caminho do que chamam “Craters of the Moon”. Na prática não tem nada a ver com a Lua e é uma enorme zona coberta de lava que, não tendo sido expelida por um vulcão, saiu de enormes rachas que abriram na terra. Formou uma paisagem de rochas pretas que nos anos sessenta os americanos acharam que seria o mais parecido que havia na terra com a paisagem lunar tendo ali levado os astronautas antes de pousarem na lua para treinos. De aí vem o nome daquele local inóspito, do género do que tinha visto há uns anos numa das ilhas Canárias.  


15 de novembro de 2016

Spokane





Pelas três e meia da tarde cheguei à pequena cidade de Spokane, onde me instalei. O Motel era de uma cadeia que aqui têm muitos chamada Super 6. Não são grande coisa mas são baratos para o país e servem para dormir. Só que este tinha um aspecto mais sujo, assim como os clientes e empregados. Fui lavar a roupa nas máquinas que costuma haver para clientes mas um esperto tinha posto detergente em pó dentro da máquina de secar. Tirei o que consegui mas quando retirei a roupa da secadora ainda vinha com detergente em pó.
Quando arranquei de manhã, antes de entrar na auto estrada, distraidamente, ultrapassei um camião que vinha extremamente devagar, pisando o traço continuo. Por azar vinha um carro da polícia em sentido contrário. Obviamente, ligou as luzes todas e deu meia volta para vir atrás de mim. Encostei à berma porque já sabia para quem ele vinha. Desta vez desmontei da moto antes de me pedirem pelo altifalante. O polícia, com chapéu à cowboy, saiu do carro
- Houve alguma razão para ter ultrapassado aquele camião com o traço continuo?
- Não. Tem toda a razão. Vinha distraído e como não vinha ninguém em sentido contrário ...
- Vinha eu. A sua carta de condução, por favor.
Este já não me reconheceu o nome e pediu-me também o livrete da moto.
Pediu para eu esperar e referiu que me faria voltar à estrada o mais rapidamente possível. Já achei simpático dizer isso.
Durante aqueles três ou quatro minutos em que ele esteve no carro a consultar o computador voltei a imaginar, tal como da ultima vez que tinha sido parado, quanto seria a multa que me iria passar. Se na Califórnia tinha visto sinais na estrada a anunciar que a multa por deitar um papel para o chão era de 1.000 dólares aqui, por passar um traço continuo seria certamente mais que isso.
E lá saiu o homem do carro, com o livrete e a carta na mão.
-Pode guardar os documentos, não o vou multar.
Não queria acreditar. E a seguir confirmou:
- “This one is on me”. Como quem diz: “este copo pago eu”. Sensacional
E continuou:
- Tome mais cuidado, por favor. Nós estamos sempre a dizer aos condutores dos carros para tomarem o máximo cuidado com as motos mas vocês também têm que tomar atenção ao que fazem.
Muito bom. Não pensei que pudesse vir a ter admiração pelos polícias americanos mas realmente, até ao momento, só tenho bem a dizer, nesta minha travessia do país.
Continuei em direção a Yellowstone mas saberia que não chegaria lá nesse dia, até porque tinha que estudar bem a situação para saber se o tempo não me poderia pregar uma rasteira. Estava um dia de sol lindo e na previsão para os próximos dias também mas nesta altura do ano Yellowstone já costuma estar coberto de neve e, se assim fosse, não poderia lá chegar, até porque os pneus já estão muito desgastados. Um mau presságio era que, desde o dia anterior, não tinha visto nenhuma moto na estrada que eles, quando toca a neve na estrada, recolhem o material. 
Numa área de descanso uns mapas recomendavam um desvio no meu trajeto por uma estrada secundaria com melhor vista. Segui o conselho e, pelas seis e meia da tarde, pois entretanto, com a mudança de Estado, o relógio tinha avançado uma hora, cheguei a Anaconda, uma espécie de vila de cowboys, com pequenas casas em madeira e Motéis familiares.
Procurei o mais bera. Na sala da recepção, cheia de tralha e muitos papéis espalhados em cima do balcão, sentados numa das três mesas redondas onde também serviam os pequenos almoços, estavam o casal de velhos proprietários e um rapaz de barbas ruivas dos seus trinta anos a comerem uns pedaços de galinha à mão. A velha, com uns óculos de fundo de garrafa, levantou-se a custo e foi tratar do meu check-in. No fim, com a mão a tremer, escreveu uns gatafunhos num “sticker” amarelo como password para o wi-fi. Pedi para me decifrar os hieróglifos e corrigi a escrita com a caneta que me passou.
-Posso ter um recibo?
- Ui. Isso é complicado. O computador está estragado. Só se passar à mão.
- De manhã arranjo-lhe um recibo, interferiu o marido.
Duas horas depois, quando regressei de jantar, estavam a jogar cartas na recepção com um casal amigo. O rapaz ruivo tinha o seu camião de distribuição parado à porta e, como cliente habitual, tinha direito a jantar com os velhos mas durante o jogo de cartas ficava numa mesa ao lado a desfolhar revistas antigas.

13 de novembro de 2016

Seattle






Em Seattle instalei-me num simpático Hostel, no centro da cidade, onde fiquei duas noites.
Durante o dia que ali estive fui, acompanhado de uma brasileira que conheci no Hostel, visitar primeiro o Mercado Local e depois o Museu do Ouro, que retrata a busca desenfreada de ouro que ocorreu no Alasca, no final do século XIX, quando um americano ali foi parar e descobriu, casualmente, ouro no rio Klondike.
Mais de 100.000 pessoas vieram, eufóricos, para a região enfrentando os rígidos invernos desta zona do globo à procura de ouro. Muitos morreram na pesquisa e poucos enriqueceram, mas acabaram por construir cidades que ainda perduram.
Almoçámos uma sopa de marisco fantástica, servida dentro de um pão grande, no famoso Pike Place Chowder e, da parte da tarde, visitámos o EMP museum com exposições dedicadas não só a vários trajes qua marcaram filmes como o “Harry Potter”, “O Feiticeiro de Oz” ou o “Easy Rider”, com a exposição da Harley utilizada por Peter Fonda, mas também aos heróis locais ligados à música.
Jimmy Hendrix e os Nirvana nasceram em Seattle e tanto ele como o grupo tinham salas que expunham fases da sua vida e obra.
A Carol, fascinada pelos Nirvana, tinha vindo a Seattle só para ver aquela exposição e foi difícil fazê-la abandonar o local.
Uma fantástica montagem do artista Trimpin, com nada menos que setecentas guitarras presas umas às outras, estava exposta em destaque no Hall central.
No dia seguinte, pelas 11 horas parti em direção a Oriente. O meu próximo destino é Eden, no Utah, onde vou visitar um amigo mas, tendo verificado o tempo para os próximos dias na zona, cheguei à conclusão que talvez pudesse passar por Yellowstone, sem apanhar neve no trajeto.
Quando estava a arrumar as coisas na moto à porta do Hostel veio um homem ter comigo a fazer perguntas sobre a moto e de onde eu tinha vindo. Só percebi que era uma “Testemunha de Jeová” quando voltou atrás ter com as mulheres que o acompanhavam e regressou com uma Bíblia em português para me entregar. Já vi que tenho uma enorme tendência, não sei porque razão, para atrair pessoas religiosas. Agradeci-lhe mas disse-lhe que não desperdiçasse um livro porque eu era ateu. Fez uma cara triste e explicou-me, ao contrário do Americano da Harley que tinha encontrado em Death Valley, que o inferno não existe. Achei muito mais simpática esta teoria. Despedi-me e arranquei.
Saí de Seattle debaixo de chuva miudinha mas consistente para, ao subir a primeira serra, passar a muito forte. A agravar a situação a temperatura, que estava em cerca de 14º na cidade, desceu para sete. O fato tem aguentado bem sem deixar passar água e mesmo do frio também protege mas mãos e pés ficam ensopados e regelados. A cola que pus nas solas das botas pelos vistos não surtiu grande efeito e com chuvadas fortes deixa passar água, o que não acontecia quando eram novas, há cinco anos atrás, no início da viagem. As luvas que uso agora são o terceiro par, foram compradas no Japão e são de verão pelo que não são impermeáveis. Assim, acabei por parar várias vezes em estacionamentos onde, nas casas de banho públicas, aquecia as mãos nos sopradores de secar as mãos.

11 de novembro de 2016

Seaside





Pelo meio destas paisagens fantásticas da costa do Oregon encontramos pequenas vilas com casas e pequeno comércio quase sempre em madeira, pintada de cores suaves, que formam conjuntos típicos e bem enquadrados na paisagem.
Ao fim do segundo dia a percorrer o Oregon cheguei à pequena vila de Cannon Beach a que se segue Seaside onde tinha reservado um Hotel essa manhã. Era, dos baratos, o que estava mais bem cotado no Booking e valeu a escolha. A miúda que me recebeu, mascarada de girafa por ser fim de semana de Halloween, prontificou-se logo a ajudar-me a carregar o saco para o quarto: “eu sou uma girafa mas sou forte”. Numa pequena sala junto à recepção tinham chocolates, bolachas e fruta que ela disse para tirar à vontade e anunciou que o pequeno almoço podia ser tomado até às onze da manhã o que me soou lindamente, após vários motéis por onde passei em que acabava às nove. Depois apanhei a cama mais cómoda que encontrei no ultimo mês. Nesse dia deitei-me à meia noite, adormeci logo, como é meu costume, e só acordei às dez da manhã.
Tinha começado a chover durante a noite e não parou mais. Deixei o Hotel ao meio dia e meia e, antes de partir de Seaside, ainda passei na praia a visitar um aquário local. Não tinha grande interesse para além de uns peixes estranhos e um grupo de focas que pareciam ter pouco espaço onde nadar. Fiquei a saber que as focas, antes de mergulharem, ao contrário do que fazem os humanos, expelem o ar dos pulmões, passando parte do oxigénio de que necessitam a ser fornecido pelo sangue e músculos, enquanto o ritmo cardíaco baixa das 100 pulsações por minuto que têm à superfície para 10.
Arranquei depois a caminho de Seattle, a trezentos e poucos quilómetros, onde ficaria essa noite. Escolhi uma estrada pelo meio do campo com as mesmas paisagens deslumbrantes que tinha visto nos dois dias anteriores, agora com menos costa mas mais lagos. Só que passei o dia sempre debaixo de chuva. Nas primeiras horas foi fraca e não representava um problema mas depois começou a aumentar de intensidade e, quando entrei na autoestrada, a 150 Km de Seattle tornou-se torrencial. Para agravar a situação estava muito transito, com camiões a levantarem uma nuvem enorme de água, agravada por nevoeiro. Mantive-me à velocidade do transito compacto, cerca de 120 Km/h, e só esperava não apanhar uma daquelas carcaças de pneu de camião que às vezes saltam para a via pois, quando a visse, não teria tempo para me desviar.
Passava do Estado de Oregon para o de Washington, que não tem nada a ver com a cidade do mesmo nome e capital do país, que fica do lado Oriental.
A certa altura o transito abrandou muito quase parando e, como em qualquer outro lado, comecei a passa-lo pela larga berma alcatroada. Até que comecei a ver, pelos retrovisores, umas luzes azuis e encarnadas que piscavam e passavam entre o transito ao som de uma alta sirene. Será que ele vem atrás de mim?
Passei para as faixas de rodagem e tentei portar-me com juízo, como se não fosse nada comigo. O carro à paisana mas forrado de pirilampos veio até trás de mim e ali ficou, a fazer barulho. Perdi as dúvidas e encostei na berma. Desliguei a moto mas fiquei sentado à espera que viessem ter comigo mas eles pararam atrás sem saírem do carro. Até que, por um altifalante me indicaram:
-“SAIA DA MOTO, SAIA DA MOTO”.
Desmontei e fiquei ao lado. O polícia que vinha ao volante saiu então do carro e veio ter comigo.
-Tem alguma arma consigo?
-Não
- Sabe que aqui em Washington não se pode andar na berma da estrada, nem andar a passar de uma faixa para a outra.
Só faltou dizer: Isto não é a balda da Clifórnia. Aqui cumprem-se as leis.
-A sua carta de condução, por favor.
Olhou para a minha carta e disse:
Você está a dar a volta ao mundo de moto?
Sim
Escreve para um blog?
Sim
Conheço o seu nome. Um amigo meu segue-o.
Achei que o homem estava a delirar mas dei o ar que achava a coisa mais normal do mundo.
Tem que tomar cuidado, disse-me, porque a ultima coisa que queremos é que tenha um acidente.
E pediu-me para esperar afastado da moto.
Ali fiquei uns cinco minutos à chuva a tentar imaginar quanto seria o valor da multa enquanto ele voltou para dentro do carro.
Quando saiu, estendeu-me a carta de condução e disse:
Eu não o vou multar mas por favor tome mais cuidado e... não ande nas bermas.
Tinham-me dito que eles aqui nunca perdoavam e, por isso, não queria acreditar no que ouvia. Agradeci, disse-lhe que Washington era lindo e voltei à estrada.

9 de novembro de 2016

North Bend - Oregon





Quando arranquei daquela bomba de gasolina no meio da serra em Redwoods parou de chover e pude finalmente apreciar a extraordinária paisagem que atravessava há horas.
Enormes árvores seculares, com muitas dezenas de metros de altura e largura de troncos que tornavam a moto pequena ladeavam a estrada de montanha numa floresta densa de uma beleza extraordinária. Parei aqui e ali para tirar uma ou outra fotografia.
Mal cheguei à costa procurei onde ficar na vila de Fortuna e instalei-me no Motel mais barato que encontrei, que aqui nunca são baratos. Meti-me debaixo de um duche para descongelar pés e mãos e dei depois um salto ao supermercado comprar qualquer coisa para jantar. Nesta ultima semana adoptei um novo sistema de alimentação que, normalmente, varia de país para país. Em alguns tomo um bom pequeno almoço com ovos e fruta e depois como qualquer coisa leve a meio do dia, uma banana uns frutos secos ou uma sandwich para depois jantar mais à séria num restaurante.
Aqui, como os pequenos almoços dos Moteis baratos são muito fracos, Corn Flakes, uma banana e pouco mais, acabo por almoçar num restaurante pela uma ou duas da tarde e depois jantar no quarto uma refeição de lata que aqueço no microondas. Mas pode variar.
Antes de sair de Fortuna marquei, pela internet, o hotel do dia seguinte, em North Bend, perto de Coos Bay.
Cerca da uma da tarde, junto ao placard que indicava a entrada na California para quem vinha do Norte, estava um tipo com uma BMW, carregadíssima de tralha, parado. Dei a volta e fui lá ter com ele. Era um italiano que tinha mandado a moto de barco de Italia para o Alaska e vinha a descer até à California para depois seguir para oriente até Chicago. O tipo era engraçado. Tinha a moto forrada de recordações, desde uma ferradura que um cowboy lhe deu presa a uma das proteções laterais a um pano com uns penduricalhos na frente da carenagem que tinha vindo de uma viagem ao Turquistão até uma bolsa lateral proveniente de outra ex república russa e onde ele levava peças de fruta que comia em andamento, havia de tudo um pouco. Para além disso tinha sacos e panelas atados na parte de cima da moto, por cima de um grande saco. Parecia uma verdadeira carroça de ciganos. O rapaz, dos seus trinta anos, tentava acampar sempre que podia e contou que já tinha sido corrido pela polícia a meio da noite quando dormia no seu saco cama em cima de um banco de um parque de estacionamento. É que aqui, por incrível que pareça, não se vêm parques de campismo em que se possam montar tendas. Só para os RV, como eles chamam às motorhome. O homem até já tinha estendido o saco cama e dormido numa casa de banho publica de um parque. Grande maluco. Estivemos uma meia hora à conversa e depois eu segui para Norte e ele para Sul.
Passava para o estado de Oregon. O italiano tinha-me dito que as paisagens eram tão espetaculares que ele começou por parar a cada dois minutos para tirar fotografias e depois decidiu não tirar mais nenhuma porque era impraticável.
Nesse dia rodei por mais umas três horas sem que a paisagem variasse muito do que tinha visto no Norte da California mas no dia seguinte fiquei de boca aberta com o que vi. Tinha ficado a dormir num pequeno Motel depois de uma longa ponte que atravessa o South Fork Coos River. Quando saí vi umas dunas do lado esquerdo mas naquela zona ainda estava a uns 4 ou 5 quilómetros da costa. Fui até lá e era uma cadeia de dunas que se estendiam da praia até ali, com vegetação pelo meio mas naquela parte, mais afastada, podia-se andar com os jipes e moto4 nas dunas. Era um dia de semana de manhã e por isso não estava ninguém a andar mas havia muitas marcas nas dunas e um tipo preparava-se para descarregar um buggy de um atrelado. Giro divertimento.
Continuei para Norte e a paisagem torna-se verdadeiramente deslumbrante. O que parecem pinheiros nórdicos descem pela encosta até ao mar enquanto por vezes temos zonas em que há mar de um lado e lagos rodeados de vegetação do outro. Parei aqui e ali para tirar fotografias ou filmar um casal que descarregava um fora de bordo num enorme lago. Tive a sorte de apanhar dois dias de sol o que, nesta zona e nesta altura do ano é raro. Para terem uma paisagem destas, com lagos fabulosos e tanta vegetação é evidente que chove muito e grande parte do ano.
Entretanto, pelo caminho, uma pequena mercearia com um sinal à porta que me chamou a atenção: “Groceries and Firearms”. A venda de armas aqui é uma banalidade.

6 de novembro de 2016

Redwoods


Quando deixei South Lake Tahoe percorri as margens do lago pelo lado Ocidental até ao Norte. A Estrada, estando elevada em relação ao lago em parte do trajeto, tem paisagens de cortar a respiração, com a floresta de Sequoias a descer da montanha até às margens do lago e, mais à frente, uma baía, Eagles Bay, com uma pequena ilha no meio. Soberbo.
A partir do Norte do Lake Tahoe segui para Ocidente. A minha ideia era voltar a apanhar a costa da Califórnia mas desta vez por cima de S. Francisco para subir até Seattle, no estado de Oregon, antes de atravessar o país para a costa Oriental.
Nesse dia fiquei na pequena vila de Colusa e no dia seguinte, em vez de continuar na mesma direção a caminho da costa decidi subir cento e tal quilómetros para Norte na Highway 5, sem grande graça, para então atravessar para Ocidente pelo meio de uma serra com uma floresta de árvores seculares, Redwoods.
Antes de entrar na serra, felizmente lembrei-me de atestar o depósito. Nessa altura começou a chover e não parou durante as quatro horas seguintes. Entrei na estrada da serra já debaixo de chuva intensa. A temperatura foi baixando até aos 8º. O fato é eficiente e protege-me do frio e da chuva mas as botas já estão em mau estado, e já fiz de sapateiro ao colar-lhes as solas por mais que uma vez. O resultado é que deixam passar água. Primeiro comecei a senti-la nos dedos dos pés para passada meia hora ter os pés totalmente ensopados. As luvas que utilizo agora, o terceiro jogo desde que parti de Portugal, também não são impermeáveis e, com as mãos também encharcadas, passado um tempo deixo de sentir o efeito dos punhos aquecidos. Enfim, estava muito desconfortável. Para agravar a situação apanhei uma zona de meia dúzia de quilómetros onde tinham passado a máquina para arrancar o alcatrão velho antes de colocar novo e essa parte ficou muito escorregadia. Passou uma, duas horas e não aparecia uma única casa ou abrigo onde pudesse parar um pouco a ver se a chuva passava. Pensei que haveria pelo menos uma ou outra bomba de gasolina no meio da serra mas, nada.
Às tantas vejo uma cabana, junto á estrada, com um letreiro luminoso dentro a dizer “open”. Sabia que não seria local onde pudesse ficar mas pelo menos para parar e beber qualquer coisa quente servia. Entrei no bar. Estavam dez homens lá dentro, nos seus trintas, todos de barbas. Uns a jogar snooker, outros ao balcão, junto com duas raparigas mal vestidas e com barretes de lã enfiados na cabeça. Outro grupo de três com mais uma rapariga, com o mesmo tipo de traje e aspecto, estavam à volta de uma pequena mesa com um grande jarro de cerveja já no fim. Todos eles pareciam lenhadores, incluindo as mulheres.
Calaram-se todos quando eu entrei. Os que jogavam pararam e ficou o grupo a olhar para mim como se de um extra terrestre se tratasse. Até que, o que parecia ser o chefe, abriu a boca: “Hello, how are you today?”. Todos relaxaram e voltaram às conversas, dando a sensação que acalmaram com o que podia ser uma ordem do género: ele é aceite aqui dentro.
Pousei o capacete e as luvas encharcadas em cima de um banco corrido e o blusão num dos dois bancos livres do balcão, sentando-me no outro. Do outro lado uma mulher grande e forte que fez um sorriso e perguntou o que eu queria.
- Um café, por favor?
Calaram-se todos outra vez e ficaram a olhar para mim como se tivesse encomendado uma chávena de ácido sulfúrico.
- Café?? Não sei se tenho. E a abrir a porta que dava para a cozinha gritou:
- Temos café? Ouviu-se uma voz de um homem lá de dentro:
- Acho que sim.
Um minuto depois pôs-me um balde de café à frente.
- Têm açúcar?
- Açucar? Como se eu estivesse a pedir outra coisa extraordinária. Trouxe-me um pacote que se parecia com os do leite com açúcar.
- Tem uma colher?
- Não.
- E um garfo, uma faca, qualquer coisa para mexer?
- Vou ver o que arranjo
Entrou na cozinha e voltou com um facalhão da cozinha na mão com uns quarenta centímetros de comprimento. Será que a grandalhona me iria estripar só por ter pedido um café?
- Esta serve? disse já com um sorriso.
- Sim.
Bebi o café tranquilamente no meio dos barbudos e daquelas raparigas encasacadas que partilhavam os jarros de cerveja e voltei para a chuva que não parava de cair.
Passou mais meia hora e comecei a ficar preocupado quando o indicador de gasolina desceu de um quarto de depósito. Passava um ou outro carro mas a pé não havia ninguém a quem perguntar quanto faltaria para acabar aquele inferno.
Finalmente uma bomba de gasolina. Fui pagar e perguntar onde estava. A uma hora da costa, responderam. Se não fosse aquela bomba não tinha gasolina para a percorrer.
Ao pôr gasolina uma miúda nova, gira mas borbulhenta, com um piercing na boca e roupas grossas que pareciam ter saído dos armários das que estavam no bar, tentava atestar o seu enorme Jipe Toyota sem conseguir. Pediu-me ajuda. Era simpática. Ficámos à conversa enquanto lhe atestava o Jipe.
- Realmente os estrangeiros dizem-me sempre que devia conhecer outros países porque eu só viajo nos Estados Unidos.
Depois de pagar veio despedir-se com um aperto de mão
- Tricia. Foi um prazer
- Francisco
- Tome cuidado. Eu nunca mais andei de moto desde que caí à pendura de um namorado.

4 de novembro de 2016

South Lake Tahoe


Para entrar no Yosemite National Park, segundo o hippie do Hostel de Bishop me tinha informado, virei para Ocidente na Estrada nacional 120.
Comecei por subir a serra, rumo às montanhas cobertas de neve. A temperatura foi descendo dos 18º que estavam cá em baixo e fui acompanhando a redução dos números no termómetro da “Cross Tourer”. Se baixasse para 1 ou 2º centigrados voltaria para trás pois a estrada estava húmida e a essas temperaturas do ar formar-se-iam placas de gelo que me atiravam ao chão sem saber como. Nos primeiros trinta quilómetros não vi qualquer outra moto em ambos os sentidos o que podia pronunciar mau tempo mas, felizmente, embora lá em cima houvesse neve nas bermas da estrada, a temperatura nunca baixou dos 6º. Assim, pude atravessar o parque, que é uma beleza. Sequoias com várias dezenas de metros ladeiam a estrada e cobrem algumas das montanhas desta Serra Nevada, como lhe chamam. Outras são enormes rochas nuas com água a cair  dessas elevações em pequenas cascatas que atravessam a estrada e vão alimentar riachos e lagos. Uma maravilha.
Parei aqui e ali para tirar uma ou outra fotografia embora a Go-pro, que levava no capacete a fotografar todo o trajeto, tivesse ficado sem bateria pouco depois de chegar ao cimo da serra. A travessia para o lado ocidental são cerca de 160 Km. O ponto mais alto da serra tem 4000 metros mas a estrada não creio que suba a mais de 2000.
Quando saí do parque parei num pequeno restaurante no meio da floresta para almoçar e depois apanhei uma estrada fantástica, ainda na serra, que segue para Norte com sequencias de curvas rápidas e longas em muito bom piso e sem controlo policial à vista que foi um gozo. Segue-se uma descida mais sinuosa e lenta mas também muito divertida até ao lago New Melones, perto da cidade de Sonora.
Continuei na estrada nacional 49 até apanhar a 50 que atravessa a Eldorado National Forest.
Tinha planeado neste dia fazer só cerca de 300Km até South Lake Tahoe, onde tinha marcado Hotel, mas com o trajeto que o hippie felizmente me indicou acabei por fazer mais de 500Km, muitos deles em estradas secundárias. A parte final, através da floresta em estrada de bom piso foi já de noite mas também me deu imenso gozo.
Este lago Tahoe fica no Norte da mesma Serra Nevada onde está o Yosemite Park, a 1900 metros de altitude e, por isso, a temperatura foi baixando à medida que me aproximava da cidade junto ao lago.
South Lake Tahoe, como se chama a cidade, tem a particularidade de tal como o próprio lago, ter uma parte que pertence ao estado de Nevada e a outra ao da California.
No Nevada, de que Las Vegas faz parte, o jogo é legal de maneira que, vindo do lado da cidade pertencente à California, com casas e Hoteis de apenas um ou dois pisos passamos, ao atravessar uma rua, para o lado de Nevada com vários prédios altos de Hoteis/Casinos, embora sem o espalhafato de Las Vegas.
Resolvi ficar por aqui mais um dia e, na manhã seguinte, fui dar um passeio até à parte Norte do lago. O trajeto é lindo, com enormes árvores a ladearem o lago que tem mais de 30 Km de comprimento e perto de 19 de largura. Algumas praias com areia, trilhos para se andar a pé ao longo das margens e, do lado Norte, uma vila, Incline Village, com casas fabulosas sobre o lago e outra, King’s Beach, muito gira, com pequeno comércio e restaurantes, onde almocei.
A característica mais extraordinária deste local é que tem duas estações turísticas durante o ano. No verão as pessoas vão para o lago tomar banho, andar de barco ou passear nas suas margens e montanhas que o rodeiam. No inverno vem a neve e os desportos de inverno, ao ponto de em King’s Beach, junto ao lago, haver lojas de aluguer de skis e snow boards. Único.