9 de novembro de 2016

North Bend - Oregon





Quando arranquei daquela bomba de gasolina no meio da serra em Redwoods parou de chover e pude finalmente apreciar a extraordinária paisagem que atravessava há horas.
Enormes árvores seculares, com muitas dezenas de metros de altura e largura de troncos que tornavam a moto pequena ladeavam a estrada de montanha numa floresta densa de uma beleza extraordinária. Parei aqui e ali para tirar uma ou outra fotografia.
Mal cheguei à costa procurei onde ficar na vila de Fortuna e instalei-me no Motel mais barato que encontrei, que aqui nunca são baratos. Meti-me debaixo de um duche para descongelar pés e mãos e dei depois um salto ao supermercado comprar qualquer coisa para jantar. Nesta ultima semana adoptei um novo sistema de alimentação que, normalmente, varia de país para país. Em alguns tomo um bom pequeno almoço com ovos e fruta e depois como qualquer coisa leve a meio do dia, uma banana uns frutos secos ou uma sandwich para depois jantar mais à séria num restaurante.
Aqui, como os pequenos almoços dos Moteis baratos são muito fracos, Corn Flakes, uma banana e pouco mais, acabo por almoçar num restaurante pela uma ou duas da tarde e depois jantar no quarto uma refeição de lata que aqueço no microondas. Mas pode variar.
Antes de sair de Fortuna marquei, pela internet, o hotel do dia seguinte, em North Bend, perto de Coos Bay.
Cerca da uma da tarde, junto ao placard que indicava a entrada na California para quem vinha do Norte, estava um tipo com uma BMW, carregadíssima de tralha, parado. Dei a volta e fui lá ter com ele. Era um italiano que tinha mandado a moto de barco de Italia para o Alaska e vinha a descer até à California para depois seguir para oriente até Chicago. O tipo era engraçado. Tinha a moto forrada de recordações, desde uma ferradura que um cowboy lhe deu presa a uma das proteções laterais a um pano com uns penduricalhos na frente da carenagem que tinha vindo de uma viagem ao Turquistão até uma bolsa lateral proveniente de outra ex república russa e onde ele levava peças de fruta que comia em andamento, havia de tudo um pouco. Para além disso tinha sacos e panelas atados na parte de cima da moto, por cima de um grande saco. Parecia uma verdadeira carroça de ciganos. O rapaz, dos seus trinta anos, tentava acampar sempre que podia e contou que já tinha sido corrido pela polícia a meio da noite quando dormia no seu saco cama em cima de um banco de um parque de estacionamento. É que aqui, por incrível que pareça, não se vêm parques de campismo em que se possam montar tendas. Só para os RV, como eles chamam às motorhome. O homem até já tinha estendido o saco cama e dormido numa casa de banho publica de um parque. Grande maluco. Estivemos uma meia hora à conversa e depois eu segui para Norte e ele para Sul.
Passava para o estado de Oregon. O italiano tinha-me dito que as paisagens eram tão espetaculares que ele começou por parar a cada dois minutos para tirar fotografias e depois decidiu não tirar mais nenhuma porque era impraticável.
Nesse dia rodei por mais umas três horas sem que a paisagem variasse muito do que tinha visto no Norte da California mas no dia seguinte fiquei de boca aberta com o que vi. Tinha ficado a dormir num pequeno Motel depois de uma longa ponte que atravessa o South Fork Coos River. Quando saí vi umas dunas do lado esquerdo mas naquela zona ainda estava a uns 4 ou 5 quilómetros da costa. Fui até lá e era uma cadeia de dunas que se estendiam da praia até ali, com vegetação pelo meio mas naquela parte, mais afastada, podia-se andar com os jipes e moto4 nas dunas. Era um dia de semana de manhã e por isso não estava ninguém a andar mas havia muitas marcas nas dunas e um tipo preparava-se para descarregar um buggy de um atrelado. Giro divertimento.
Continuei para Norte e a paisagem torna-se verdadeiramente deslumbrante. O que parecem pinheiros nórdicos descem pela encosta até ao mar enquanto por vezes temos zonas em que há mar de um lado e lagos rodeados de vegetação do outro. Parei aqui e ali para tirar fotografias ou filmar um casal que descarregava um fora de bordo num enorme lago. Tive a sorte de apanhar dois dias de sol o que, nesta zona e nesta altura do ano é raro. Para terem uma paisagem destas, com lagos fabulosos e tanta vegetação é evidente que chove muito e grande parte do ano.
Entretanto, pelo caminho, uma pequena mercearia com um sinal à porta que me chamou a atenção: “Groceries and Firearms”. A venda de armas aqui é uma banalidade.

6 de novembro de 2016

Redwoods


Quando deixei South Lake Tahoe percorri as margens do lago pelo lado Ocidental até ao Norte. A Estrada, estando elevada em relação ao lago em parte do trajeto, tem paisagens de cortar a respiração, com a floresta de Sequoias a descer da montanha até às margens do lago e, mais à frente, uma baía, Eagles Bay, com uma pequena ilha no meio. Soberbo.
A partir do Norte do Lake Tahoe segui para Ocidente. A minha ideia era voltar a apanhar a costa da Califórnia mas desta vez por cima de S. Francisco para subir até Seattle, no estado de Oregon, antes de atravessar o país para a costa Oriental.
Nesse dia fiquei na pequena vila de Colusa e no dia seguinte, em vez de continuar na mesma direção a caminho da costa decidi subir cento e tal quilómetros para Norte na Highway 5, sem grande graça, para então atravessar para Ocidente pelo meio de uma serra com uma floresta de árvores seculares, Redwoods.
Antes de entrar na serra, felizmente lembrei-me de atestar o depósito. Nessa altura começou a chover e não parou durante as quatro horas seguintes. Entrei na estrada da serra já debaixo de chuva intensa. A temperatura foi baixando até aos 8º. O fato é eficiente e protege-me do frio e da chuva mas as botas já estão em mau estado, e já fiz de sapateiro ao colar-lhes as solas por mais que uma vez. O resultado é que deixam passar água. Primeiro comecei a senti-la nos dedos dos pés para passada meia hora ter os pés totalmente ensopados. As luvas que utilizo agora, o terceiro jogo desde que parti de Portugal, também não são impermeáveis e, com as mãos também encharcadas, passado um tempo deixo de sentir o efeito dos punhos aquecidos. Enfim, estava muito desconfortável. Para agravar a situação apanhei uma zona de meia dúzia de quilómetros onde tinham passado a máquina para arrancar o alcatrão velho antes de colocar novo e essa parte ficou muito escorregadia. Passou uma, duas horas e não aparecia uma única casa ou abrigo onde pudesse parar um pouco a ver se a chuva passava. Pensei que haveria pelo menos uma ou outra bomba de gasolina no meio da serra mas, nada.
Às tantas vejo uma cabana, junto á estrada, com um letreiro luminoso dentro a dizer “open”. Sabia que não seria local onde pudesse ficar mas pelo menos para parar e beber qualquer coisa quente servia. Entrei no bar. Estavam dez homens lá dentro, nos seus trintas, todos de barbas. Uns a jogar snooker, outros ao balcão, junto com duas raparigas mal vestidas e com barretes de lã enfiados na cabeça. Outro grupo de três com mais uma rapariga, com o mesmo tipo de traje e aspecto, estavam à volta de uma pequena mesa com um grande jarro de cerveja já no fim. Todos eles pareciam lenhadores, incluindo as mulheres.
Calaram-se todos quando eu entrei. Os que jogavam pararam e ficou o grupo a olhar para mim como se de um extra terrestre se tratasse. Até que, o que parecia ser o chefe, abriu a boca: “Hello, how are you today?”. Todos relaxaram e voltaram às conversas, dando a sensação que acalmaram com o que podia ser uma ordem do género: ele é aceite aqui dentro.
Pousei o capacete e as luvas encharcadas em cima de um banco corrido e o blusão num dos dois bancos livres do balcão, sentando-me no outro. Do outro lado uma mulher grande e forte que fez um sorriso e perguntou o que eu queria.
- Um café, por favor?
Calaram-se todos outra vez e ficaram a olhar para mim como se tivesse encomendado uma chávena de ácido sulfúrico.
- Café?? Não sei se tenho. E a abrir a porta que dava para a cozinha gritou:
- Temos café? Ouviu-se uma voz de um homem lá de dentro:
- Acho que sim.
Um minuto depois pôs-me um balde de café à frente.
- Têm açúcar?
- Açucar? Como se eu estivesse a pedir outra coisa extraordinária. Trouxe-me um pacote que se parecia com os do leite com açúcar.
- Tem uma colher?
- Não.
- E um garfo, uma faca, qualquer coisa para mexer?
- Vou ver o que arranjo
Entrou na cozinha e voltou com um facalhão da cozinha na mão com uns quarenta centímetros de comprimento. Será que a grandalhona me iria estripar só por ter pedido um café?
- Esta serve? disse já com um sorriso.
- Sim.
Bebi o café tranquilamente no meio dos barbudos e daquelas raparigas encasacadas que partilhavam os jarros de cerveja e voltei para a chuva que não parava de cair.
Passou mais meia hora e comecei a ficar preocupado quando o indicador de gasolina desceu de um quarto de depósito. Passava um ou outro carro mas a pé não havia ninguém a quem perguntar quanto faltaria para acabar aquele inferno.
Finalmente uma bomba de gasolina. Fui pagar e perguntar onde estava. A uma hora da costa, responderam. Se não fosse aquela bomba não tinha gasolina para a percorrer.
Ao pôr gasolina uma miúda nova, gira mas borbulhenta, com um piercing na boca e roupas grossas que pareciam ter saído dos armários das que estavam no bar, tentava atestar o seu enorme Jipe Toyota sem conseguir. Pediu-me ajuda. Era simpática. Ficámos à conversa enquanto lhe atestava o Jipe.
- Realmente os estrangeiros dizem-me sempre que devia conhecer outros países porque eu só viajo nos Estados Unidos.
Depois de pagar veio despedir-se com um aperto de mão
- Tricia. Foi um prazer
- Francisco
- Tome cuidado. Eu nunca mais andei de moto desde que caí à pendura de um namorado.

4 de novembro de 2016

South Lake Tahoe


Para entrar no Yosemite National Park, segundo o hippie do Hostel de Bishop me tinha informado, virei para Ocidente na Estrada nacional 120.
Comecei por subir a serra, rumo às montanhas cobertas de neve. A temperatura foi descendo dos 18º que estavam cá em baixo e fui acompanhando a redução dos números no termómetro da “Cross Tourer”. Se baixasse para 1 ou 2º centigrados voltaria para trás pois a estrada estava húmida e a essas temperaturas do ar formar-se-iam placas de gelo que me atiravam ao chão sem saber como. Nos primeiros trinta quilómetros não vi qualquer outra moto em ambos os sentidos o que podia pronunciar mau tempo mas, felizmente, embora lá em cima houvesse neve nas bermas da estrada, a temperatura nunca baixou dos 6º. Assim, pude atravessar o parque, que é uma beleza. Sequoias com várias dezenas de metros ladeiam a estrada e cobrem algumas das montanhas desta Serra Nevada, como lhe chamam. Outras são enormes rochas nuas com água a cair  dessas elevações em pequenas cascatas que atravessam a estrada e vão alimentar riachos e lagos. Uma maravilha.
Parei aqui e ali para tirar uma ou outra fotografia embora a Go-pro, que levava no capacete a fotografar todo o trajeto, tivesse ficado sem bateria pouco depois de chegar ao cimo da serra. A travessia para o lado ocidental são cerca de 160 Km. O ponto mais alto da serra tem 4000 metros mas a estrada não creio que suba a mais de 2000.
Quando saí do parque parei num pequeno restaurante no meio da floresta para almoçar e depois apanhei uma estrada fantástica, ainda na serra, que segue para Norte com sequencias de curvas rápidas e longas em muito bom piso e sem controlo policial à vista que foi um gozo. Segue-se uma descida mais sinuosa e lenta mas também muito divertida até ao lago New Melones, perto da cidade de Sonora.
Continuei na estrada nacional 49 até apanhar a 50 que atravessa a Eldorado National Forest.
Tinha planeado neste dia fazer só cerca de 300Km até South Lake Tahoe, onde tinha marcado Hotel, mas com o trajeto que o hippie felizmente me indicou acabei por fazer mais de 500Km, muitos deles em estradas secundárias. A parte final, através da floresta em estrada de bom piso foi já de noite mas também me deu imenso gozo.
Este lago Tahoe fica no Norte da mesma Serra Nevada onde está o Yosemite Park, a 1900 metros de altitude e, por isso, a temperatura foi baixando à medida que me aproximava da cidade junto ao lago.
South Lake Tahoe, como se chama a cidade, tem a particularidade de tal como o próprio lago, ter uma parte que pertence ao estado de Nevada e a outra ao da California.
No Nevada, de que Las Vegas faz parte, o jogo é legal de maneira que, vindo do lado da cidade pertencente à California, com casas e Hoteis de apenas um ou dois pisos passamos, ao atravessar uma rua, para o lado de Nevada com vários prédios altos de Hoteis/Casinos, embora sem o espalhafato de Las Vegas.
Resolvi ficar por aqui mais um dia e, na manhã seguinte, fui dar um passeio até à parte Norte do lago. O trajeto é lindo, com enormes árvores a ladearem o lago que tem mais de 30 Km de comprimento e perto de 19 de largura. Algumas praias com areia, trilhos para se andar a pé ao longo das margens e, do lado Norte, uma vila, Incline Village, com casas fabulosas sobre o lago e outra, King’s Beach, muito gira, com pequeno comércio e restaurantes, onde almocei.
A característica mais extraordinária deste local é que tem duas estações turísticas durante o ano. No verão as pessoas vão para o lago tomar banho, andar de barco ou passear nas suas margens e montanhas que o rodeiam. No inverno vem a neve e os desportos de inverno, ao ponto de em King’s Beach, junto ao lago, haver lojas de aluguer de skis e snow boards. Único.


1 de novembro de 2016

Death Valley




Quando acordei o dia estava cinzento mas vim cá fora e a temperatura já superava os 25º de maneira que ainda não foi hoje que vesti as calças do fato, viajando de Jeans, como tenho feito quando está muito calor desde que umas tonturas na Índia, quando as temperaturas superavam os 42º, quase me fizeram desmaiar.
Death Valley é um enorme vale no meio do deserto sem sinais de vida pois não tem água e as temperaturas ali no verão são praticamente insuportáveis. Do alto de um dos pontos de observação vemos o que parece um lago salgado no centro de uma zona rochosa multicolor. Fantástico. Aquele vale estende-se para Norte e, há muitos séculos atrás já ali houve água em abundância.
Percorri cerca de 200 Km naquele vale deserto. Este é um ponto turístico conhecido e, sendo domingo tinha bastante gente a visitar e vários grupos de motos, normalmente entre duas a cinco, na maioria Harleys não só de americanos de Las Vegas ou outras cidades dos Estados vizinhos mas também de turistas que as alugam para passear pela zona.
Encontrei um americano e um Sueco que viajavam juntos e já tinham estado em Portugal, numa reunião de um clube internacional de motociclistas católicos.
Disse-lhes que era ateu e o americano, que tanto ele como a sua Harley de garfo estendido pareciam retirados diretamente do filme Easy Rider, não queria acreditar.
- Não pode. Tem que se converter. E deu-me um pequeno catálogo que me levaria a Deus. Por fim disse-me: não se esqueça que se morrer agora vai parar ao inferno. Será que se Deus existisse seria tão radical para com um pobre pecador como eu?
Continuei através do vale e, no meio de uma grande recta, quatro chacais com ar esfomeado atravessavam a estrada. Parei para tirar umas fotografias e, ao longe, comecei a ver uma espécie de nuvem branca rasteira sobre o vale. O vento estava a soprar cada vez mais forte. Quando cheguei aquela zona a nuvem branca era uma tempestade de areia muito fina que entrava pelos cantos do capacete e ia-me para os olhos e nariz. Não via mais de dez metros à frente da moto. Felizmente só durou uns cinco quilómetros, até começar a subir as montanhas do outro lado do vale. Aí o céu ficou mais escuro e começou a chover mas nunca muito forte. Cá no alto entrei num planalto e começaram a aparecer uma ou outra pequena vila e bombas de gasolina. Tinha percorrido mais de 300 Km na zona do Death Valley. Acabei por encontrar um Hostel California na vila de Bishop, com uma cama a 25 dólares.
Tinha graça porque a maioria dos clientes não eram miúdos, como habitualmente, mas hippies nos seus quarentas, cinquentas. Tinham dois jipes americanos dos anos sessenta e setenta parados à porta, amolgados e mal tratados, com o porta bagagens, já sem tapete há muito anos, cheio de tralha. Fumavam charros nuns sofás velhos que formavam uma sala no jardim e à noite tocavam viola na sala. Um deles, nas duas horas antes de partir, perdeu o telemóvel quatro vezes. Mas conhecia bem a zona e deu-me preciosas indicações sobre o trajeto que devia seguir nesse dia a caminho de Lake Tahoe. Quando lhe elogiei o jipe disse:
-Yeah, but this fucking shit does only ten miles to the gallon”. Curtido.
Parti para Norte e poucos quilómetros depois comecei a ver montanhas a Ocidente com neve nos topos. Passados uns 100 Km cheguei à entrada do parque Yosemin, que queria visitar. Parei na bomba de gasolina para atestar e o homem disse-me que tinha ideia que a estrada estava fechada por causa da neve.
- Pelo menos ontem à noite estava.
Mas um rapaz que estava a abastecer ouviu a conversa, consultou a internet, e veio-me informar que já tinham aberto a estrada. De qualquer forma esperava-me frio e tratei de enfiar as calças do fato com o forro suplementar e os dois forros interiores do blusão. De facto os fatos de moto dos dias de hoje, como este da Spidi, são fantásticos a nível de proteção contra frio, chuva e estoiros.

30 de outubro de 2016

Grand Canyon


Deixei Las Vegas a caminho do Grand Canyon, visita obrigatória a cerca de 400 Km da capital do jogo. Decidi ir pela estrada principal que segue pelo Sul e voltar pelo Norte. A estrada através do deserto é linda com planícies gigantescas e enormes escarpas ao fundo com cores alaranjadas. Tinha reservado Hotel em Flagstaff, a Sul do Grand Canyon.
No dia, seguinte antes de visitar aquele impressionante vale, fui até Sedona, um menos espetacular a 50 Km de Flagstaff mas que tem a vantagem de ter uma estrada a passar no fundo do vale e é diferente porque tem vegetação. Aqui estamos na parte do Arizona que é junto a território Índio e alguns deles vêm vender o seu artesanato num dos pontos de vista no alto do vale. À conversa com um deles quis confirmar.
-You’re Indian aren’t you?
- I’m Navajo. We are not Indians. Indians are the people from India. We’re Native Americans.
E ele tem razão. Não faz muito sentido chamá-los Indios que foi o que Colombo lhes chamou quando chegou ao território e pensou que tinha chegado à India.
Almocei num simpático restaurante com vista espetacular sobre aquelas escarpas que nos lembram os filmes de cowboys dos anos sessenta e setenta.
Quando estava à mesa um homem veio apresentar-se:
- Olá. Eu sou o dono daquela Ducati.
Ficámos à conversa. Ele tinha uma coleção de Ducatis de entre as quais a original de TT que se classificou em segundo lugar no Dakar de 92, que acabou em Kape Town.
Participei nesse Dakar, contei-lhe. Com um carro de fabrico português.
-Really???
Da parte da tarde fui até ao Grand Canyon. Era mais longe to que estava à espera e cheguei já perto das cinco da tarde. Aliás aqui nos Estados Unidos tudo é mais longe do que estamos à espera. Olhamos para o mapa e vemos as distancias em milhas e tudo parece perto mas quando nos pomos à estrada nunca mais chegamos aos destinos.
Fiquei verdadeiramente impressionado com o Grand Canyon. Aquele vale, de dimensões gigantescas, foi cavado na rocha pelo leito de um rio durante séculos, abrindo uma enorme racha no planalto. A vista cá de cima é absolutamente deslumbrante.
Nesse dia acabei por ficar a dormir num Hotel lá junto porque era tarde para seguir viagem. De manhã voltei aos mesmos pontos de vista porque queria vê-los com outra luz e depois segui pela estrada 64, que dá a volta ao Grand Canyon pelo Norte, voltando depois ao deserto profundo do Arizona. Rodei até ao fim da tarde e, quando dei por mim, tinha percorrido 600 Km, primeiro através do deserto, depois por uma parte montanhosa com árvores e os últimos 50 Km numa via rápida que me levou a Cedar City, no Utah.
No dia seguinte de manhã voltei a arrancar cerca das 11 horas, sempre com bom tempo nesta parte do país, felizmente. As temperaturas têm andado entre os 20 e os 30º e só nas partes mais altas apanhei por vezes 14 ou 15º. Estou nos Estados Unidos já há vinte dias e ainda não apanhei um dia de chuva. Mas agora estou a caminho do Norte e certamente será diferente.
Tinha rodado cerca de duas horas na movimentada via rápida que desce para Las Vegas quando entrei numa bomba de gasolina e conheci dois franceses muito simpáticos que estavam a atravessar os Estados Unidos de bicicleta, a partir de Nova Iorque, já há dois meses. Ficámos mais de uma hora à conversa, trocámos contactos, tirámos umas fotografias e continuei viagem para sul.
Uns 50 Km depois passei junto ao Speedway de Las Vegas e não resisti parar. Não havia corridas no fim de semana mas estavam várias dezenas de camiões estacionados no padock e fui até lá tirar umas fotografias e perguntar porque estavam ali. Eram transportes de equipas de Dragsters e tinham vindo de uma corrida no Texas. Estavam ali para a corrida que haveria no fim de semana seguinte. “Por enquanto só cá estamos cerca de metade” disse-me um dos condutores dos camiões.
Passei depois junto a Las Vegas e desviei para NW a caminho do Death Valley. Passados uns 20 ou 30 Km entrei numa zona de deserto mais isolado. Tinha passado por um placard que anunciava que não haveria gasolina durante duas horas e meia mas não liguei muito ao assunto até porque ainda tinha bastante. Só que aquele deserto começou a ficar verdadeiramente isolado, com muito poucos carros a circularem em qualquer dos sentidos. Andei quase 200 Km e a única construção que vi foi uma prisão com um placard junto à estrada que anunciava ser proibido pedir boleia naquela zona. Será que a ideia era não darem boleia a algum preso que se evadisse?
Quando nessa manhã tinha procurado um Hotel na zona através da internet não tinha encontrado nada mas achei que certamente, no local, iria encontrar algum sítio onde ficar. Pelas cinco da tarde comecei a ficar um pouco preocupado, até porque tinha pouca água comigo e nada que comer. Pensei que, em ultimo caso, teria que parar antes de anoitecer para poder montar a tenda na borda da estrada. Entretanto a estrada deixava a grande planície e entrava por uma zona de serra deserta mas sempre sem se ver vivalma, qualquer construção e só um ou outro carro a passarem de longe em longe.
Eram seis e meia da tarde quando, já com 430 Km feitos nesse dia vi o que pareceu ser uma bomba de gasolina ao longe. Era mesmo. Foi como se tivesse encontrado um oásis a meio de uma travessia do Sahara. Havia também um pequeno mercado onde me pude abastecer de água e comer um gelado. Pertencia a uma família de Indianos que para ali se tinham mudado há duas semanas. Felizmente.
O Indiano era simpático e tratou de ligar para um Hotel 30 Km à frente, o único na zona, que felizmente tinha vagas. Depois, quis ir ver a moto. Contei-lhe que tinha estado na Índia e que de cada vez que estacionava juntava-se uma multidão à volta da moto. E que por todo o lado a pergunta que me faziam era não a potencia ou cilindrada da moto mas quanto custava.
-Ai, sim? E quanto custa?
Vivia há 25 anos nos Estados Unidos mas ainda era sangue Indiano que lhe corria nas veias.



27 de outubro de 2016

Las Vegas


Quando o concerto do Neil Young estava perto do fim e eu ainda noutro planeta com aquilo tudo, um casal de namorados veio para o pé de mim. Ela era gira, nos seus 37, 38 anos, cabelo curto e feições quase perfeitas. Pôs-se a dançar ao meu lado e, às tantas, perguntou-me o nome e começou a bater o rabo contra o meu ao som da música. Olhei para o namorado a ver se não estava a levar a mal mas parecia não o afectar. Até que a rapariga se agarrou a mim e assim ficou um momento. Depois, com a cara encostada à minha, disse-me ao ouvido:
- Não o posso largar porque você está a passar-me muita energia positiva.
- E o seu namorado não se importa que eu lhe passe toda essa energia positiva?
- Não.
E afastando um pouco a cara e virando-a na direção da minha disse:
- Olhe para a lua. Não está linda? Parece que tem anéis à volta.
- Está
E beijamo-nos.
O namorado achou naturalíssimo. Sim, com aquela lua percebe-se.
Passámos a dançar agarrados um ao outro.
Quando o Neil Young acabou o espetáculo perguntou-me se não queria ir beber um copo com eles mas achei melhor recusar.
Arranquei de Índio no dia seguinte, a caminho de Las Vegas.
A maior parte do trajeto é através de um espetacular deserto, num planalto de terra com montanhas ao longe. A estrada tem pouco movimento e por vezes passa junto a uma linha férrea onde comboios com quilómetros de comprimento, por vezes com uma locomotiva em cada ponta, transportam centenas de contentores.
Percorri pouco mais de 400 Km até Las Vegas. Cheguei ainda de dia, deixei a moto no Hotel e fui até ao centro observar aquele folclore e deixar uns tostões numa qualquer roleta.
Ainda a caminho do Hotel passei pela agora famosa Trump Tower e não resisti parar, para tirar uma fotografia.
A cidade tem uma vida noturna que não para e os Hoteis/Casinos parecem fazer concursos para ver qual é mais extravagante. O Bellagio tem um enorme lago em frente onde centenas de repuxos de água parecem dançar ao ritmo da música que passa nos altifalantes. O Mirage, para contrabalançar, inventou um vulcão que entra em “erupção” a cada duas horas, expelindo fumo e enormes labaredas, para delírio do povo. O Venetian tenta replicar Veneza, com Gôndolas a passearem em canais criados para o efeito e uma arquitetura que imita velhos palácios venezianos e que deve ter custado uma fortuna incalculável. No interior, uma sala com pinturas tenta imitar a capela Cestina, para delírio dos turistas chineses para quem as cópias são sempre melhores que os originais, por serem novas e estarem em melhor estado. Ruas interiores replicam as de Veneza com o teto  pintado como um céu.
O Caesars Palace, por sua vez, imita Roma e à entrada tem uma estátua de Julio Cezar enquanto uma charrete ao estilo das de corrida que víamos no Ben-Hur, colocada no Hall de entrada, serve para os passeantes tirarem fotografias.
Só me lembrava do meu pai, que odiava este género de coisas e quando as via dizia ironicamente: “Ai, que interessante”.
Mas eu acho mesmo interessante. E o que tem graça é que toda a gente pode andar a passear pelas recepções e átrios dos melhores hotéis, acabando por ser uma espécie de feira gigante onde, nos túneis envidraçados que ligam os hotéis ao outro lado das ruas, até mendigos se instalam a pedir esmola com frases em cartões a contarem as suas tristes histórias. Um deles, sem rodeios, justificava a esmola com um “sai caro estar agarrado ao crack”.
Nesta rua principal ou “strip” como lhe chamam, multidões movimentam-se de hotel em hotel a ver a paisagem, ou as montras de lojas como as de Louis Vuitton, Armani ou Tiffany’s ou a jogar nas centenas de máquinas, roletas e mesas de bacará disponíveis. Não param de um lado para o outro. Temos a sensação de estar numa feira de aldeia gigantesca em que o local tenta reproduzir o melhor nível europeu, mas mais extravagante e caro, e os visitantes são do tipo “profissional de feira de aldeia”, que vai a todas.



25 de outubro de 2016

Indio - California


Já esperava um concerto fora do vulgar mas este superou em muito todas as expectativas que pudesse ter. Ainda por cima, para ajudar à festa, estava uma temperatura noturna ideal, dos seus 24, 25º, noites de lua cheia e montaram uma aparelhagem de som fenomenal.
Quando entrei no recinto, na sexta feira pelas quatro e meia da tarde, a gorducha que me controlou a pulseira virou-se para mim e disse:
“Wow. First row. You must be bloody rich, sucker” e levantou a mão para bater contra a minha a rir-se.
“Enjoy the concert”
Começou com o Bob Dylan. “That guy is a character”. O tipo é extraordinário. Maior que os Americanos todos juntos. E tem consciência disso. Apresentou-se com um blazer manhoso que nem Zara, mas engomado, e umas calças também pretas e de ar bera que lhe caíam pelas pernas abaixo e tinham a extravagancia de serem à boca de sino e terem umas flores bordadas de lado. O homem arrancou a cantar e tocar piano em pé com aquela voz única e um ar de “eu já não tenho paciência para isto” mas nitidamente a gostar de estar perante 80.000 pessoas.
Continuou, trocando por diversas vezes o piano por uma viola ou a sua famosa gaita mas não deu confiança a ninguém e, ao longo do concerto ou mesmo no fim, não disse um obrigado ou teve qualquer conversa com o publico, ao contrario de todos os outros artistas. Ficamos com a sensação que ele acha graça ir ali tocar mas não dá confiança aquela multidão de analfabetos que estão longe de perceber a sua poesia, como foi considerada e muito bem, pelos júris do Nobel. Aliás a grande maioria dos Americanos não deu grande importância a este prémio Nobel pela simples razão que não fazem ideia do que seja.
Quando chegou a hora de se ir embora juntou os músicos que tocaram com ele e a sua forma de agradecer foi ficar em pé, por uns segundos, a olhar para o publico, sem dizer uma palavra. Extraordinário. Adorei.
Vi os Rolling Stones pela primeira vez, em Londres, há mais de trinta anos, quando se dizia: Vamos vê-los porque estão velhos, já têm mais de 40 anos, e este deve ser o ultimo concerto que dão. Ninguém acreditaria que trinta anos mais tarde, mesmo com a ajuda de umas vozes jovens, conseguiriam dar um espetáculo fantástico como o que deram, com o Mick Jaeger a continuar a saltar e dançar pelo palco fora, embora a ter que beber água o tempo todo e descansar de vez em quando, enquanto um surpreendente Keith Richards que já pouco mais faz que barulho com a sua guitarra, cantou duas músicas com uma voz muito melhor do que alguma vez se esperaria de um homem que parece estar com os pés para a cova há vinte anos. Fantásticos. Grande show.
O Roger Daltrey, dos Who, estava há menos de uma semana entubado no hospital, como contou o Pete Townshend, mas apresentou-se em palco com uma energia para dar e vender e a atirar o microfone ao ar, vezes sem conta, ao bom estilo do nosso Marco Paulo. Giríssimo. O Pete Townshend continua a ser um dos melhores guitarristas da atualidade. Sensacionais.
O Paul Mc Cartney também montou um espetáculo fenomenal, felizmente muito agarrado aos velhos temas dos Beatles.
Estes dois foram quem mais encheu as medidas aos americanos, que dançaram e cantaram as velhas músicas dos Who e Beatles apaixonadamente.
Mas o melhor do fim de semana foram os dois de que ainda não falei.
Os Plink Floyd dos dias de hoje conseguem superar os originais a tocarem as mesmas fabulosas músicas. O Roger Waters monta um espetáculo de som e imagem único, junta duas vozes de coro femininas do outro mundo e músicos ao melhor nível, enquanto ele mantém a mesma voz inconfundível. Tudo isto com uma aparelhagem de som quarenta anos à frente. Duvido que o David Gilmore se consiga sequer aproximar do nível a que assistimos no fim de semana. Foi uma coisa de outro planeta.  Absolutamente extraordinário.
Finalmente Neil Young. Era, talvez, o único ídolo que tinha na música da minha juventude. Nunca tinha assistido a um concerto dele. Quando começou a cantar e tocar não queria acreditar. O homem canta e toca como o fazia há quarenta anos. Absolutamente único.
Quando ele começou a cantar lágrimas de emoção começaram a cair-me pela cara e não pararam durante mais de metade do concerto. Nem sabia que tinha tantas lágrimas. E não tinha fumado nada, a não ser como fumador passivo. Tocou as três primeiras músicas sozinho e, depois, foi acompanhado por outros três guitarristas dois dos quais, ainda miúdos, estavam entre os quatro melhores do fim de semana, grupo onde estava incluído ele próprio, evidentemente. Foram duas horas extraordinárias que vão ficar na minha memória para sempre.