15 de outubro de 2016

Sacramento






A moto desta vez vinha só com o vidro da carenagem e os retrovisores desmontados pelo que tratei eu de acabar de a desencaixotar e montar aquelas peças. Fui com um empregado da agencia comprar óleo e gasolina, que tinham sido retirados para o transporte e, pelas quatro da tarde estava a caminho de regresso ao Fisherman’s Wharf em San Francisco.
No dia seguinte ainda fiz uma visita guiada à imprescindível prisão de Alcatraz, situada numa ilha na baía e onde Al Capone e outros famosos criminosos estiveram presos. Fechou em 1963 porque chegaram à conclusão que saía demasiado cara manter. A curiosidade foi que, em 1969, pouco depois do movimento hippie a favor da paz no mundo e contra a Guerra no Vietnam fazer furor, um grupo de umas centenas de Índios resolveram ocupar Alcatraz como protesto por os terem corrido das suas terras. Ali estiveram durante quase um ano até os mandarem embora mas a ocupação chamou a atenção para a causa dos Índios e obrigou o governo Americano a devolver-lhes um local onde viverem, mantendo as suas tradições e costumes. Aqui, tal como na Australia, também houve uma época em que o governo decidiu retirar as crianças Índias às famílias, para as educarem como ocidentais.
Nesse mesmo dia parti a caminho de Sacramento, a pouco mais de cem quilómetros, para visitar um museu de carros antigos e uma exposição do que aqui chamam RV’s e que são as motorhome americanas “que me encantan” como diria se fosse espanhol.
Na saída de San Francisco atravessei a “Golden Gate Bridge” que é muito parecida com a nossa sobre o Tejo mas mais antiga e curta, com pilares mais elaborados e a vantagem de passeios pedestres e para bicicletas que proporcionam passeios com excelente vista.
Sacramento é uma pequena cidade limpa e bem organizada com um imponente edifício camarário, mais uma vez a replicar construções romanas de outros tempos, e uma parte da cidade antiga com casas baixas e bares, muitos deles em madeira, a fazer lembrar as dos filmes de cowboys.
O museu tinha pouco interesse mas as RV’s eram extraordinárias.
No dia seguinte deixei Sacramento a caminho da costa Sul pois a minha ideia é passar em Los Angeles, descer até San Diego e depois ir para o interior em direção a Las Vegas.
Apanhei a estrada principal para Sul mas, como queria seguir junto à costa, mal passei o que calculei ser a latitude de San Francisco procurei uma estrada que me levasse para ocidente. Tinha gasolina para uns 80 Km e, pelo mapa, pareceu-me que o trajeto através de uma cadeia montanhosa teria uns 50 Km. Meti por uma estreita estrada em direção à serra mas felizmente acabava numa cabine de guardas 10 Km depois. Disseram-me que a estrada não tinha fim e ia dar só a um clube de golf. O guarda disse-me que junto à estrada principal havia outra, paralela a esta, que atravessava a serra até à costa. Voltei para trás e desta vez fui à procura de gasolina antes de me aventurar pela estreita estrada deserta. Já reabastecido comecei então a subir a serra, de vegetação seca, mas passados 50 Km através desta estreita estrada muito sinuosa e deserta, constatei que a distancia era muito superior ao que tinha calculado. As montanhas seguiam-se umas às outras, a velocidade média era baixa e começou a anoitecer. Não passava um único carro por mim. Pelo meio vi vários veados a atravessarem a estrada, assustados com o barulho da moto. Por fim, no alto da serra, um observatório astrológico e, a uns cem metros, uma pequena casa com um painel à porta que dizia: “Observational Astronomy Workshop. Graduate Students Check-in”. Parei. A porta estava aberta e entrei. Chamei por alguém mas sem resposta abri outra porta de onde ouvia vozes de jovens. Estava um grupo de uns vinte a jantar em amena conversa. Um responsável que teria menos de 40 anos, veio ter comigo. Perguntei se não tinham um quarto que alugassem onde pudesse passar a noite. Disse-me que não, que aquilo estava reservado a cientistas. Estive quase para dizer que era um deles. Disse-me que já só estava a pouco mais de uma hora da costa de maneira que voltei à estrada e, três quartos de hora depois, cheguei a San José, mais a norte do que estava à espera. Encontrei um Motel e por ali fiquei.

13 de outubro de 2016

San Francisco 2




 
Na manhã em que aterrei apanhei uma destas “Shared Van”, uma carrinha com três bancos corridos que leva vários passageiros pela ronda dos hotéis da cidade. Esta tinha um ar podre assim como o condutor preto que, ao sentar-se ao volante, atirou o boné para o chão da frente, por cima de latas vazias de Coca Cola e papéis amarelados de velhos. Chegados à via rápida aquela caranguejola, puxada por um velho V8 a gasolina, ao ultrapassar os 80 Km/h começou a tremer de uma forma que parecia se ir desconjuntar. “Ando aqui desde as três da manhã”, contava-me o homem. A partir daí fui fazendo conversa, para ver se não adormecia. Nos bancos atrás do meu vinha um homem dos seus cinquenta anos e uma miúda nova, que não abriam a boca de assustados que estavam. Cada um de nós tinha destinos diferentes.
- Ai você é português? Não foi “da Gama” que descobriu os Estados Unidos?
Não. O que cá veio era italiano ao serviço dos espanhóis.
- Sim. Mas vocês venderam muitos escravos de África para cá.
- É provável.
Cheguei ao hostal por volta do meio dia. Deixei as malas e fui a pé até à animada rua do porto. Fiquei a almoçar num restaurante junto às docas e da parte da tarde dei mais uma volta por ali a ver as focas que vêm gritar por restos de peixe junto dos pescadores que o preparam ainda a bordo, no cais, ou músicos de diferentes níveis artísticos que instalam as suas aparelhagens sonoras e uma mesa com moedas espalhadas para os passeantes irem alimentando. Um velho vestido como um inglês de outros tempos e com um enorme bigode branco fazia magia numa pequena banca rodeada de curiosos.
Por entre os cafés e bares um ou outro museu à maneira americana ou seja, não de antiguidades mas de monstros em ferro ou réplicas de personagens famosas em cera. Na rua passam muitos descapotáveis e um grupo de motos, com miúdos a fazerem cavalinhos. Enfim, muito animado.
No dia seguinte, segunda feira, o agente de navegação mandou-me uma mensagem a dizer que os papéis estavam em ordem e a moto poderia ser levantada nos seus armazéns.
Como era a uns 50 Km da cidade decidi ir de transportes públicos. O primeiro foi um autocarro. Atrás de mim entrou uma menina com um cão para cegos e uma “T shirt” a indicar que trabalhava para uma firma que os treinava. A velha que se sentou em frente dela quis saber tudo sobre estes cães e estava visivelmente fascinada, ao ponto de às tantas perguntar à menina:
Nos outros países também há destes cães para cegos?
Isto é a realidade americana. O povo mais inculto, que por vezes inclui até deputados, pensa que o mundo são os Estados Unidos e depois há uma série de outros países que eles não percebem bem como sobrevivem.
No autocarro seguinte um velho meteu conversa comigo.
- Português? Ainda não consegui compreender porque Portugal e Espanha são dois países diferentes. Existe uma separação entre eles?
- Pela mesma razão que os estados Unidos e o Canadá também são dois países diferentes.
- Não, mas isso é diferente.
- É? Porquê?
- Pois. Talvez tenha razão.

12 de outubro de 2016

San Francisco - USA



Conhecia pouco dos Estados Unidos. Nova Iorque e Boston, de quando vim correr de monolugar à oval de New Hampshire.
Depois de passar o mês de Agosto a percorrer o Japão esta minha viagem à volta do mundo levou-me agora a San Francisco para onde a moto foi enviada, de barco, desde o porto de Kobe.
Parti de Lisboa num avião da Sata rumo a Ponta Delgada para no mesmo dia seguir para Boston, na costa Atlântica dos Estados Unidos.
Tinha reservado lugar num hostal destes onde se dorme em camaratas, para tentar cumprir o meu “budget” de viagem. Cheguei de táxi a um bairro bastante central mas … um pouco “underground” por volta das nove da noite e decidi ir logo dormir pois teria que acordar às cinco da manhã para apanhar o avião que me levaria a S. Francisco e, com a mudança de hora, para mim já era uma da manhã. Os recepcionistas eram um miúdo e uma miúda “African Americans”, como aqui lhes chamam. Ele com um barrete na cabeça a tapar a enorme cabeleira de rastas, ao estilo Bob Marley e óculos escuros, ela, gorducha, com aparência mais natural.  Pareciam tirados de um filme. Depois de pagar o rapaz indicou-me um quarto e numero de cama.
Na cama por cima da minha estava deitado um miúdo Americano de descendência oriental que meteu logo conversa. Era simpático mas eu queria era dormir rapidamente e não lhe dei grande troco. Pus-me a ler na cama quando entrou uma velha, dos seus oitenta anos, mal vestida e despenteada, que olhou para mim e disse: “oh, oh, that’s my bed”. Assustei-me com a ideia que a cena seguinte fosse ela a enfiar-se na minha cama. Rapidamente disse que devia ir à recepção perguntar o que se passava pois fora lá que me tinham dado aquele numero de cama para ocupar.
“Wow. This is weird” comentou o meu vizinho de cima quando conseguiu fechar a boca de espanto depois da velha sair, a resmungar, em direção à recepção.
Só voltou um quarto de hora depois quando já tinha apagado a luz e estava quase a dormir.  Felizmente trazia um set de lençóis, pediu desculpa pelo barulho e tratou de fazer a cama do outro lado do pequeno quarto.
“This is weird”, repetiu o meu vizinho.
Ainda não eram cinco da manhã quando tocou o meu despertador. Tomei um duche e apanhei um táxi de volta ao aeroporto. Desta vez apanhei um voo da low cost Virgin America. Os aviões são novos e cómodos mas as refeições são pagas à parte e até os auscultadores para permitir ter som nos filmes ou televisão são vendidos aos passageiros.
San Francisco é uma cidade mais pequena do que estava à espera. O hostal onde me instalei, “Fisherman’s Wharf” era simpático porque arejado, com uma grande sala de estar e junto ao porto onde a rua principal é das mais animadas da cidade com restaurantes e bares, músicos a tocarem nas ruas e museus com figuras de filmes extraterrestres ou artistas conhecidos em cera.
Sendo um país com pouco mais de 200 anos os Estados Unidos não têm monumentos com história e museus interessantes só certamente em Nova Iorque e provavelmente em Washington. Mas fabricam imponentes construções a imitar as romanas de há muitos séculos, como aliás o fizeram os romanos com o Vittorio Emanuele II, acabado de construir já pelo Mussolini. Aqui em San Francisco, quando de uma enorme exposição do início do séculos passado, principalmente focada em novas tecnologias, que festejava a abertura do Canal do Panamá, construíram uma enorme cúpula ao estilo romano e paredes do que poderia ser um antigo palácio em ruinas. Junto a um lago e um pequeno parque o atual monumento imita bem a realidade e tem um ar imponente e atrativo, destacando-se do resto das construções.

1 de setembro de 2016

Kobe


Quando, naquela noite, saí do Hotel para jantar a filha do dono, que falava inglês, ao ver-me na moto, disse-me que estavam à espera de um tufão para o dia seguinte.
- Para que altura do dia?
- Acho que é só a partir da tarde.
- Boa.
No dia seguinte saí mais cedo que o costume, não fosse o tufão antecipar-se.
Ás nove da manhã estava na estrada mas demorei quase duas horas a percorrer os primeiros 80 Km em estradas secundárias. Ao longe comecei a ver nuvens pretas como nunca tinha visto e os primeiros pingos do que se anunciava bateram-me na viseira.
Finalmente apanhava a autoestrada e, a menos de 160 Km/h, para não abusar da paciência da polícia, segui em direção ao Sul. Só parei quando me vi longe do tufão, que se aproximava e se abateu com força sobre a região de Tokyo. Tinha escapado por pouco. Se não me tivessem pedido para regressar ao sul um dia antes ...
Fiz perto de 600 Km em auto estradas naquele dia e, no fim, tiraram-me uma conta de perto de 100 euros em portagens. Bem mais que em gasolina.
Nas áreas de serviço em que parei voltei a encontrar alguns grupos de Harleys, que se arrastam a 90 Km/h pelas auto estradas, provavelmente para não ficarem com pés e mãos dormentes com as vibrações. Os proprietários de Harleys, em qualquer parte do mundo, fazem uma espécie de grupo à parte, e gostam de dar um ar de durões, mas aqui no Japão parece não bater a bota com a perdigota e, embora alguns disfarcem, outros não resistem em ser simpáticos, fazendo pequenos acenos com a cabeça, sem que os colegas vejam. Está-lhes no sangue.
Numa das paragens que fiz estava no parque de estacionamento um velho da minha idade, junto a um imponente Lexus branco, a fazer “swings” de golf no ar enquanto esperava pela mulher e filha. Achei graça, virei-me para ele e fiz também um “swing”. O homem riu-se e veio ter comigo.
-“What handicap are you”? disse-me ele com boa pronúncia.
-“14”
-“Ha, ha. I knew it by your swing. I’m 36”.
Já tinha estado em Portugal e o que mais o marcou foi o Cabo da Roca. Os japoneses ficam fascinados com a ideia de irem ao ponto mais Ocidental da Europa e visitam o local aos milhares. Se pusessem lá uma estátua do Budha então era o delírio.
Cheguei a Kobe por volta das cinco da tarde e, antes de ir para o Hotel, ainda passei no concessionário onde tinha combinado deixar a moto na manhã seguinte, para ser encaixotada, anunciar que já estava na cidade. Não valia a pena telefonar ou mandar um mail porque ali ninguém fala ou percebe uma palavra de Inglês.
Antes do jantar ainda dei uma volta a pé pelo centro e, como a loja da Levi’s estava em saldo, resolvi comprar uns Jeans. A menina, muito simpática e divertida, não tinha as calças com a altura certa de pernas para mim mas disse-me:
- Não há problema, faço-lhe a bainha em cinco minutos.
- Em cinco minutos? não é possível.
- Quer apostar? Conte.
- Levou as calças e três minutos depois trouxe-as com a bainha feita, com costura igual à de origem. Um bom exemplo dos japoneses a trabalharem.
Quem não está habituado a ouvir: “a costureira só cá vem na quarta. O melhor é passar a buscar para a semana”?
Gostei muito mais do Japão do que estava à espera. Não só pelas paisagens de cortar o fôlego como pelas cidades mas, principalmente, pelas pessoas.
A próxima etapa serão os Estados Unidos, em Outubro.

31 de agosto de 2016

Kuki


Quando acordei na manhã seguinte estava a chover forte. Hesitei em sair mas ao acalmar o tempo arranquei para ver umas cascatas perto da estalagem.
Voltou a chover com mais intensidade e, quando deixei as cascatas, já com as calças ensopadas, regressei à estalagem para trocá-las pelas impermeáveis do fato que não tenho usado aqui por as temperaturas andarem sempre à volta dos 35º.
Parti depois visitar o “Shrine” de Nikko, sem duvida o mais espetacular e interessante que encontrei no Japão, até por parecer mais original e conservado que outros. Os Shrine são locais de culto da religião Shinto, que acredita haver deuses tanto no céu como na terra enquanto os “Temple” pertencem à religião Budista, a seguida pela maioria dos japoneses.
Numa das salas, para onde tivemos que entrar descalços, os visitantes eram divididos em pequenos grupos e depois um monge mostrava o eco provocado por dois paus a baterem um contra o outro. Primeiro em várias partes da sala, em que não havia qualquer eco e depois ele chamava a atenção para quando batia os paus por baixo de um enorme dragão pintado no teto da sala. Aí o eco produzia uma vibração que podia parecer o rosnar de um animal. O grupo de japoneses disse “HOOOOOO”! em uníssono e a miúda que estava ao meu lado, emocionada, ficou com os olhos molhados e deixou cair uma lágrima pela cara, que limpou com a mão. Depois cada um deles, por recomendação do monge, juntou as mãos e pediu um desejo de frente para a estátua correspondente ao seu signo chinês.
- o senhor, que signo chinês é?
- Não faço ideia.
E rapidamente rapou de uma tabela com os anos.
- Em que ano nasceu?
- 1955
- Então é cabra. É aquela segunda estátua do lado de lá.
- Obrigado.
Tinha previsto, depois da visita a Nikko, seguir calmamente de volta a Kobe ao longo de três dias, para entregar a moto a fim de ser embarcada para os Estados Unidos. A entrega teve que ser adiantada 24 horas por motivos alfandegários e por isso tinha só aquela tarde e o dia seguinte para percorrer os  800 Km. Nessa tarde arranquei em direção a sul, ainda debaixo de chuva, com a ideia de fazer cerca de 200 Km até perto de Tóquio para no dia seguinte percorrer o trajeto que me faltava, maioritariamente em autoestrada, a única forma de lá chegar a tempo.
Passados pouco mais de 50 Km deixou de chover mas perdi-me na estrada e fui parar a uma que, estranhamente, não tinha transito. Pouco depois percebi porquê. Um sinal indicava que me deveria afastar daquela zona. Estava próximo da zona de proteção que decretaram como possível de ter sido afectada por radiações provenientes do desastre de Fukushima, quando, em 2011, um tremor de terra seguido de tsunami, destruiu a central nuclear local.
Dei meia volta e acabei por encontrar a estrada principal.
Normalmente não se vêm muitas motos a circular no Japão, o que é estranho para o principal país que as produz. Pequenas 125c.c, por exemplo, praticamente não existem quando na Indonésia, a fabrica da Honda local, produz e vende cinco milhões por ano do veiculo a motor mais vendido no mundo desde sempre.
As motos grandes que aqui vemos são quase todas ou antigas, vi uma boa dúzia de Kawasaki 900 da primeira geração, ou Harleys e algumas BMW. É a tal ideia de que a galinha do vizinho é melhor que a nossa quando, na realidade, eles produzem as melhores “galinhas” do mundo.
Mas vinha eu numa via rápida, das muito poucas que encontrei, embora com semáforos a cada 500 metros, quando parou ao meu lado uma Kawasaki Ninja 1200R. Fomos os dois “picados” entre os vários sinais seguintes mas constatei que, mesmo naquelas distancias curtas entre sinais, estávamos a ultrapassar os 200 Km/h quando me tinham dito que as motos vendidas no Japão tinham um limitador aos 180 Km/h.
Passado um pouco parámos os dois a beber um café e ele cotou-me que a sua moto tinha “full power”.
- Mas como é possível? Disseram-me que as motos aqui estavam limitadas a 120 cv. e 180 Km/h de velocidade máxima.
- Pois. Por isso importei-a da Malásia.
O Japonês, dos poucos que ouvi falarem inglês, tinha estudado no Texas. Indicou-me um caminho mais curto para evitar a entrada em Tokyo e seguimos cada um para seu lado.
Já de noite voltei a perder-me e, quando dei por mim, tinha feito 50 Km em sentido contrário.
Encontrei um pequeno hotel, já passava das oito, na cidade de Kuki, junto à linha de comboio. Preparava-me para tomar um duche quando senti novamente o chão a tremer. Será outro tremor de terra? Mas não. Cada vez que passava um comboio de alta velocidade o Hotel abanava todo. Foi uma espécie de embalo para adormecer.

30 de agosto de 2016

Nikko


No Segundo dia que passei em Tokyo já não chovia. Tinha decidido ir assistir a uma luta de Sumo e nesta altura do ano os lutadores profissionais só treinam entre as 7,30 e as 10,30 da manhã. Levantei-me cedo e saí do Hotel às oito mas decidi ir de metro, para mão me perder, até porque o local era muito perto de uma estação. O metro à hora de ponta em Tokyo não é o caos que fazem dele. Há obviamente muita gente a circular, até porque os japoneses usam muito os transportes públicos. Só que os metro têm mais carruagens que qualquer outro que vi até agora, a preencherem plataformas com mais de 200 metros de comprimento, de maneira que vão cheios mas ninguém se atropela.
As lutas de Sumo são um espetáculo fascinante. Cada luta dura poucos segundos, com os enormes e pesados lutadores a fazerem um show de preparação em que se põem de cócoras e depois arrancam um contra o outro com uma força brutal. Ganha quem atirar o outro ao chão ou o conseguir empurrar para fora do espaço estabelecido. Eles são grandes e gordos mas também fortes.
O que tem graça é ver os miúdos, futuros lutadores, a verem os profissionais porque a maioria, tal como 99% dos japoneses, não são nada gordos e, estando ali, a estudarem para serem profissionais de Sumo, sabem que têm que engordar, e muito. O Sumo tem também um pormenor que não se vê em qualquer outro desporto. O vencedor não mostra uma grande felicidade nem faz espalhafato nenhum quando ganha, para mostrar respeito pelo vencido. Além disso consideram que o importante aqui não é vencer mas o esforço que se faz para tentar vencer. Típico japonês.
Depois de assistir ao treino de Sumo fui ainda visitar um parque fantástico. O
“Shinjuku Gyoen National Garden” parece não ter sido construído como um jardim no meio da cidade, transmitindo antes a ideia que a maioria das árvores e plantas são uma floresta que já lá estava antes da cidade crescer e ali foi mantida. Árvores seculares, lagos e espaços com vários tipos de jardins, desde o inglês ao francês, passando obviamente pelo japonês, tornam aquele parque muito especial.
Deixei Tokyo por volta da uma da tarde e parti em direção a Nikko, cerca de 170 Km a Norte da capital.
A viagem decorreu sem sobressaltos mas quando ia a chegar a Nikko às tantas vi um polícia numa scooter à minha frente e reduzi drasticamente a velocidade, para não o ultrapassar, com medo de infringir os limites de velocidade que, em muitas vilas e cidades, estão marcados no chão com um 40. Mas o homem ia tão devagar que decidi passa-lo. Quando chagámos ao semáforo seguinte ele parou atrás de mim e, pelo retrovisor vi-o tirar uma caneta de uma bolsa e escrever a matricula da minha moto nas costas da mão. Deve ter gerado uma confusão naquela esquadra.
Fui parar a uma estalagem familiar, no meio da floresta. O dono, um enorme Nigeriano a falar um inglês perfeito, era casado com uma japonesa e tinham quatro filhos pequenos. A estalagem tinha ar de anos sessenta. Uma enorme sala, com um pé direito de sete ou oito metros, servia também de casa de jantar. Junto corria um riacho com forte e barulhenta corrente mas que mal se via por entre a densa vegetação. O homem propôs fazer jantar o que me evitou pegar na moto de noite para ir à pequena vila procurar um restaurante que provavelmente fecharia às oito e meia da noite. Fez uma fantástica galinha com um óptimo molho, acompanhada de batatas cozidas em vez de arroz, a meu pedido e de um casal de italianos que eram os dois outros únicos hóspedes, fartos que estávamos todos de comer arroz.
Depois do jantar os italianos foram-se deitar assim como a japonesa e as crianças e o Nigeriano trouxe uma garrafa de aguardente de batata e ficámos à conversa. Ele estava nacionalizado inglês, tinha sido Marine e combatido nas Faulkland, pouco, dizia ele. Depois voltou à Nigeria onde foi militar de alta patente. Contou as extraordinárias histórias de corrupção e roubo que se passam com os governos e militares africanos. Despediu-se da tropa a abriu um bar no Hawai, onde conheceu esta japonesa.
Estávamos nesta conversa pelas dez e meia da noite quando o chão começou a tremer forte e as janelas a abanarem como só me lembrava de ter assistido uma noite em Portugal, teria eu uns 13 anos.
- O que é isto?
- Um tremor de terra, disse ele calmamente.
Durou uns 30 segundos.
- Mas isto é usual?
- Muito não mas de vez em quando acontece.
- Felizmente não foi dos grandes, disse eu.
- Pode ter sido grande noutro local do país.
No dia seguinte vi que foi ali perto e que atingiu 5.3 na escala de Richter, sendo dos maiores do ano.  Durante a noite, felizmente, não houve réplicas.

28 de agosto de 2016

Tokyo


Tokyo é lindo. Não estava à espera. Nos filmes vemos uma confusão enorme de gente a atropelar-se, sem espaço para se mexerem. A realidade é completamente diferente. A cidade estende-se por muitos quilómetros quadrados e, no centro, tem avenidas largas e vários parques e jardins fabulosos a criarem enormes espaços verdes. Vê-se que é uma cidade relativamente recente e bem planeada.
Instalei-me no Hotel e saí pelas nove da noite para jantar. Mesmo nas cidades onde há muitos turistas, como Tókyo, e por isso restaurantes de todas as nacionalidades, tenho preferido ir aos restaurantes dos locais, normalmente só frequentados por japoneses, onde janto por dez ou onze euros. Fui ao primeiro que encontrei, perto do Hotel. Tinha um sistema que já tinha visto antes em Kyoto. O cliente começa por se dirigir a uma máquina onde escolhe o jantar e a bebida, através de fotografias e botões e paga. Dirige-se então à mesa ou balcão e entrega os talões a um dos empregados. Como nunca há gorjetas é um sistema prático. As refeições já estão meio cozinhadas e normalmente não demoram mais de cinco minutos a vir. Os japoneses não perdem tempo com nada. Aqui até tinham uma máquina para tirar a cerveja onde a menina punha a caneca e a máquina inclinava-a e servia na quantidade certa, endireitando antes de acabar para ficar com a espuma correta.
Quando se está acompanhado não são nada atrativos estes sistemas mas para quem está só é muito prático.
No dia seguinte fiquei de manhã a tratar de mails e escrever e saí do Hotel ao meio dia e meia de capacete na mão mas, quando cheguei cá fora o céu ameaçava chuva forte e voltei lá dentro deixar o capacete e pedir um guarda chuva. Quando voltei a sair chovia muito e tive que esperar um quarto de hora para ir até à estação de metro mais próxima, ainda debaixo de chuva mas mais fraca.
Em Tokyo tinha ideia de não visitar Templos e museus, que já tinha visto em cidades mais antigas e decidi antes ver coisas únicas daquela cidade.
Por sugestão da “Time” americana comecei por subir ao segundo andar do Starbucks café de Shibuya Crossing, que na pratica é um primeiro andar porque eles aqui não contam o R/C ou 0 a que chamam 1º. De aí temos vista para um dos cruzamentos mais movimentados de Tokyo, que quis filmar. A curiosidade é que neste cruzamento, às tantas, os sinais luminosos ficam encarnados para todas as cinco entradas de carros e os dos peões verdes pois para além das passadeiras que existem na entrada de cada uma das ruas há uma outra maior que atravessa todo o cruzamento em diagonal, razão pela qual os carros deixam de passar e um enxame de gente apressada invade a estrada. Espetacular visto de cima.
Ao meu lado no balcão do Starbucks, virado para a enorme janela, estava uma americana de Nova Iorque, de origem chinesa, dos seus quarenta e muitos, cinquenta anos, com uma Canon fantástica, que achou que eu tinha cara de milionário. Meteu conversa a propósito das fotografias e quis mostrar-me que estava a tentar focar chapéus de chuva encarnados.
-Olhe este que eu apanhei há bocado, não é espetacular?
-Usa uma Go pro? Que engraçado. Pensei em comprar uma.
Conversa puxa conversa e passado um bocado perguntou-me:
- Você é alemão ou suíço?
Quando lhe disse que era português a atitude dela mudou radicalmente. Consciencializou-se que eu era um pobre e quando a filha, uma miúda dos seus 25 anos, com ar vivo e esperto entretanto apareceu, despachou-me para ela, como quem se vê livre da raia miúda.
-Olhe, este senhor anda a dar a volta ao mundo de moto. Muito interessante. Tipo, fale lá com ele. Dei dois dedos de conversa à miúda e arranquei, à procura do bairro Ebisu, ali perto, que tinha lido ter bons restaurantes locais.
Quando cheguei a Tokyo pensei que as pessoas aqui não poderiam ter a mesma simpatia das da província porque é assim em todo o mundo. Estão mais stressadas, sei lá. Achei normal por isso quando, ao entrar na cidade, um dos chauffeurs de táxi a quem perguntei uma indicação, numa fila para os sinais luminosos, olhar para mim e fazer-me sinal que não, sem sequer abrir a janela. Também um miúdo nos seus vinte anos, naquela manhã ia pelo passeio a ouvir auscultadores abanou a cabeça e seguiu o seu caminho quando lhe fiz uma pergunta.
Mas depois, ao sair do Starbucks, perguntei a um trabalhador de fato de macaco e capacete plástico na cabeça onde era o bairro Ebisu e ele disse-me muito amavelmente, venha cá que lhe mostro e subiu uma enorme escadaria por onde eu teria que passar mas ele não, só para me explicar melhor o caminho que eu teria que tomar.
Depois, a seguir ao almoço um casal nos seus quarenta anos a quem perguntei como se ia para um parque que queria visitar disse-me: venha connosco que vamos nessa direção e acabaram por me oferecer um café pelo caminho.
Quando entrei no parque também dois miúdos que por ali passeavam, ela com 18 anos e ele com 20, quando lhes perguntei onde era uma parte do parque que gostava de ver, ele procurou no telemóvel e ela disse: “venha, nós vamos consigo”. Eram giros, os miúdos. Passeámos juntos durante cerca de duas horas e de cada vez que eu lhes dizia para não se prenderem comigo eles insistiam. “Não, não. Nós queremos ir consigo”. Falavam inglês e estavam a estudar alemão na universidade. Muito simpáticos. No final da tarde acompanharam-me até à estação de metro e despedimo-nos.
São atitudes que dificilmente vemos na capital de outro país e que evidenciam uma cultura e maneira de estar muito particular desta gente. Fascinante.