21 de agosto de 2016

Nara - Honshu - Japan


Na tarde em que me despedi dos meus amigos ainda fiz uns 200 Km. Cheguei à conclusão que tanto as estradas como a paisagem nestas ilhas são mais interessantes para o interior de serra que na costa pois a construção japonesa não faz jus aos antigos pagodes e é muito feia, de um modo geral. O interior das ilhas tem muito pouca construção e muita vegetação com grandes declives resultando em paisagens fantásticas.
Pelas quatro e meia da tarde comecei a procurar um Hotel mas, ainda por causa do Obon, em que os japoneses tiram uns dias de férias, estavam todos cheios. Num dos vários em que parei ainda veio a menina a correr cá fora quando eu estava a arrancar dizer que tinha acabado de falar uma pessoa a cancelar mas era caro para o meu orçamento e segui viagem. Era quase noite quando finalmente encontrei um quarto. Entretanto tinha ficado sem dinheiro porque naquela ilha os cartões estrangeiros não funcionam nas máquinas multibanco, onde me abasteço em todos os países. Felizmente nos hotéis e bombas de gasolina deixavam-me pagar com cartão de crédito e, como levo comigo uns dólares de reserva, no dia seguinte, ao terceiro banco lá consegui trocar 100.
Continuei perto da costa oriental sem mapa e portanto evitando afastar-me muito. Pelas quatro da tarde fui a um hotel perguntar se tinham vagas mas como estava cheio optei por acampar num parque de campismo junto à praia, só o segundo que vejo no Japão.
Encontrei um americano que tinha estado três anos a dar aulas de inglês na ilha e partira, estrada fora, numa viagem de bicicleta até Tokyo. Foi bom poder mais uma vez falar com alguém pois para além do Servio e da mulher passei a semana toda só a comunicar por gestos ou, em muitos casos, eu a falar inglês e eles, sem perceberem patavina, a responderem em japonês, como se eu percebesse perfeitamente.
Choveu a noite toda, felizmente já depois de ter montado a tenda. Mesmo assim dormi bastante bem e só acordei perto das oito. Tomei um grande banho de mar e depois um duche nos balneários da praia que funcionava com moedas de 100 yenes. Quando pus a primeira não reparei que não tinha mais de maneira que me vi naquela situação tipo Mr Bean em que tive que voltar a vestir o fato de banho com o corpo coberto de sabão e a cabeça de shampoo, para ir à loja local trocar dinheiro.
Nesse dia deixei a ilha de Shikoku e voltei à confusão de Honshu, a maior e onde estão as principais cidades japonesas. Fui direito a Nara, a mais antiga capital, antes de Kyoto e Tokyo, que um japonês me tinha recomendado visitar. Chegado lá fui direito ao parque da cidade que tem a curiosidade de ter centenas de pequenos veados à solta, que se passeiam tranquilamente pelo parque, por vezes vindo para as estradas, alimentados por bolachas dadas pelos turistas. Criam um ambiente giro. No dia seguinte voltei lá para visitar o templo Todai Ji onde está uma das maiores estátuas de Buda e certamente a mais valiosa. Tem quinze metros de altura e para a construir foram utilizadas 437 toneladas de bronze e 130 de ouro. Fantástico.
Fui ainda visitar o Kofuku Temple que, com cinco andares, foi transferido de Kyoto em 710 d.c. para residência da família Fugiwara, a mais influente da época.
Da parte da tarde, antes de partir para Kyoto  passei a ver o mais antigo templo Japonês, o Horyu-Ji, fundado no ano de 607.

19 de agosto de 2016

Shikoku Island






Já estava perto da costa oriental da ilha e tinha decidido atravessar para Shikoku, com um certo medo porque achei que não podia gostar tanto do resto do Japão como daquela ilha de Kyushu.
Arranquei a caminho do ferry passava pouco das dez e ao meio dia e meia estava no porto de Usuki. Sabia que só havia dois ou três ferries por dia mas sem ver as horas pensei em ir até ao porto e esperar pelo próximo, mesmo que isso significasse ter que lá ficar para o dia seguinte.
Estava um barco atracado e a carregar. Comprei o bilhete e fiquei no hall de entrada à procura de qualquer coisa para comer na viagem de três horas e meia.
Estava por ali distraído quando um homem de capacete plástico na cabeça vem ter comigo a mostrar uma mensagem escrita no telemóvel pelo tradutor automático.
“they’re waiting for you to go on board”.
O barco estava à minha espera para partir. Assim, dez minutos depois de ter chegado ao porto estávamos a “largar ferro”.
O mar ali é muito calmo e a viagem é linda, através de várias das muitas pequena ilhas que compõem o Japão. Viajei quase sempre cá fora e só lá fui dentro para almoçar uma sopa de massa com supostamente marisco que comprei numa máquina automática. Horrível.
A sala dormitório era composta por quatro grandes espaços alcatifados onde os viajantes se deitavam. Lembrei-me logo dos quartos de pensão ao estilo japonês, que consiste em dormir no chão.
Cheguei a Shikoku sem conseguir arranjar um mapa da ilha e por isso quando saí do barco decidi manter-me mais ou menos junto à costa, com uma ou outra saída para o interior e estradas fantásticas de montanha, nesta ilha mais estreitas e sinuosas e portanto menos divertidas mas muitas delas praticamente desertas.
Numa dessas, depois de circular uns 30 Km sem ver um carro, cheguei ao alto de uma montanha e parei fascinado com a vista cá para baixo. Via-se densa vegetação por ali abaixo até uma aldeia, junto ao mar e, mais ao longe, pequenas ilhas cujo contorno tinha uma ligeira neblina que fazia com que parecessem estar a flutuar. Uma imagem extraordinária que não vou esquecer e que para mim, que sou ateu, me levou a desconfiar que Deus talvez exista.
Desci cá a baixo.
Parei numa loja da aldeia para comprar uma banana e água e, sendo quatro e meia da tarde pensei em procurar um Hotel. Quando saía da loja vi um homem ocidental, alto e forte, de barba por fazer e cabelo loiro apanhado num pequeno rabo de cavalo, dos seus quarenta e poucos anos.
-Do you speak english?
-Of course I speak english.
-O que é que faz num sítio destes?
-Isso pergunto eu? respondeu ele.
Era um Servio que ali tinha vindo parar com uma japonesa que conhecera no Sri Lanka. Vieram para aquela aldeia na ilha de Shikoku porque o governo japonês está a dar incentivos para que as pessoas regressem a estas aldeias perdidas na província. Era uma aldeia de pescadores que envelheceram e a nova geração partiu para as grandes cidades. O mesmo problema que temos em Portugal com o interior. A estes meus amigos o governo ofereceu um ordenado à japonesa para trabalhar na junta de freguesia local, além de apartamento por três anos e... um carro. Estão ali há dois anos e meio e o Servio, enquanto não arrancam com o negocio de Catering que estão a montar, chateia-se que nem um peru e afoga as mágoas numa espécie de aguardente que transporta num frasco e vai bebendo ao longo do dia. Disse-me que eu fui o único estrangeiro que por ali apareceu nos últimos dois anos.
Quando lhe perguntei por um Hotel convidou-me logo para ficar em casa deles e lá o acompanhei. Recomendou-me que levasse uma cerveja da loja que não tinha em casa e, sendo um artista, pintor, interessante e culto, passamos o resto da tarde à conversa, eu a beber a minha cerveja, que mais tarde voltei à loja reforçar a dose, e ele na sua aguardente. A mulher só voltou do trabalho às dez da noite quando o homem já estava “para lá de Bagdad”, como diz o meu filho. Muito simpática foi logo aspirar o meu quarto e fazer-me a cama de lavado e ficamos à conversa quando o Alex caiu a dormir.
No dia seguinte fez-nos um bom pequeno almoço, com ovos e torradas, e partimos os três visitar o local onde, dois anos antes, se tinham casado, no alto da montanha com vista deslumbrante sobre o mar, semelhante aquele onde tinha estado no dia anterior. Passámos depois a visitar um amigo deles que tem uma exploração de laranjas na serra. Ali plantam as laranjeiras em declives muito acentuados e para recolherem as laranjas têm, cada um dos agricultores, uma linha férrea em miniatura com uma pequena locomotiva, de cerca de um metro de comprimento e duas carruagens que descem e sobem o íngreme terreno.
Fomos depois almoçar os quatro ao que me pareceu o único restaurante da aldeia, junto à praia, para depois me despedir deste simpático casal e do agricultor japonês, que já falava um pouco de inglês, ensinado pelo artista sérvio.

17 de agosto de 2016

Saiki - Kyushu



Depois de um dia de passeio fantástico através das montanhas, com estradas fabulosas, com pouco transito e sem um policia à vista, o que me levou a escandalizar mais uns japoneses, destabilizados nos seus passeios pela passagem de uma moto ao dobro da velocidade deles, parei num café para perguntar se sabiam de um Hotel. Ainda estavam fechados mas, vendo um estrangeiro, duas meninas vieram abrir-me a porta numa excitação. Não falavam uma palavra de inglês mas por gestos, estou perito em mímica, lá disse que procurava um Hotel. Foram logo buscar mapas e números de telefone enquanto chamavam a cozinheira que, sendo filipina, arranhava umas coisas de inglês. Estivemos ali na risada e entretanto foram falando para vários hotéis da zona até encontrarem um, a cerca de 30 Km.
Entretanto, fora do restaurante, a fazerem-me muitos gestos à janela, estava um grupo de meninas dos seus 14 anos fardadas da escola, também excitadíssimas por verem um estrangeiro. Disse-lhes adeus e quando saí vieram rodear a moto a pedir-me “sign, sign”. Não queriam propriamente um autógrafo mas simplesmente a assinatura de um ocidental em caracteres que não os seus. Disse-lhes que sim e foram a correr buscar papéis e canetas. Quando lhes disse que me chamava Francisco uma delas respondeu logo: “Ha, ha. Francisco Xavier”.
Aprenderam no colégio que S. Francisco Xavier foi quem trouxe o catolicismo para o Japão. Mesmo que não tenha tido muito sucesso 1% dos japoneses são católicos, o que dá qualquer coisa como um milhão e duzentos mil.
Cheguei ao Hotel pelas seis da tarde e mais uma vez as meninas da recepção faziam muitas vénias mas não falavam uma palavra de Inglês.
Andava há dias com um problema por não conseguir encontrar uma ficha que me permitisse carregar o computador. As tomadas japonesas têm dois rasgos ao alto e se nos hotéis da ilha principal tinham sempre esses adaptadores nesta ilha, por não terem turistas estrangeiros, nenhum tinha. Estava a explicar o problema à gerente, uma rapariga dos seus 35 anos, quando ela disse: “Venha no meu carro que eu levo-o a uma loja que conheço”. Lá fui com a rapariga, a dez à hora, sem muita esperança de encontrar o adaptador. Até nas passagem de nível abertas eles param para ver se vem algum comboio.
Chegámos à loja e havia mesmo a peça. Fiquei tão contente que lhe dei um beijo na cara. Ela, habituada desde sempre a falar a estranhos através de vénias, ficou atrapalhada mas gostou do afecto porque antes de entrarmos no carro levantou a mão para eu bater contra a dela e, no dia seguinte, quando estava a tomar o pequeno almoço, veio bater a uma janela que havia entre a recepção e o restaurante para me dizer adeus, com um ar maroto.
Naquele hotel o terrível jantar estava incluído na estadia e estava eu já no quarto quando ouvi bater à porta muito suavemente. Pensei que não era nada e continuei no computador mas passado meio minuto novamente um bater muito leve. Fui abrir a porta e estava uma das meninas da recepção a tentar explicar entre muitos sorrisos que se tinha esquecido de me pedir o ticket do jantar. Ah, claro. Lá lhe dei o ticket e fiquei, de porta aberta, à espera que ela acabasse as infindáveis vénias e, sem querer ser desagradável, ia fazendo também umas poucas.  Extraordinário.

16 de agosto de 2016

Taketa - Kyushu




Quando deixei a fabrica da Honda comecei por subir ao monte Aso, por trás da fábrica, por recomendação de um dos japoneses. Lá no alto atravessei um enxame de gafanhotos que batiam com força contra a carenagem e o capacete, felizmente fechado.
Mas a vista lá de cima compensou. Fabulosa, com um raio de 180º sobre um imenso vale que parece ter resultado da erosão sobre uma ou várias crateras de vulcão. Fiquei um bom quarto de hora parado, no alto, a respirar aquela vista.
Arranquei depois rumo a oriente, atravessando esta ilha Kyushu para a costa oposta. A princípio, ainda perto da fabrica, apanhei algumas estradas cortadas e outras em reparação, por terem caído com o tremor de terra, mas uns quilómetros à frente já estava a percorrer fantásticas estradas de montanha com pouco transito e sem policia. Um gozo.
Pelas cinco da tarde pensei em encontrar um hotel onde ficar mas não via nenhum. Até que apanhei um posto de informações. A senhora gorda, com a cara tapada por uma destas mascaras de papel, como se vê aqui bastante, indicou-me um hotel demasiado caro para o meu orçamento pois os na casa dos 50 euros estavam esgotados. Pedi-lhe que procurasse mais barato e o disponível era uma pequena pensão.
-Boa! Quanto custa?
-15 euros pelo quarto mais cinco pela cama.
-Mas alugam o quarto sem cama?
-(a rir-se)Não sei. É o que vem aqui.
-Tudo bem. Então reserve um quarto e uma cama. Tudo à grande.
Quando lá cheguei uma simpática senhora que não falava uma palavra de inglês, como todas as outras por aqui, esperava-me cá fora não fosse eu não ver a pensão na estrada. Indicou-me o quarto, do tipo japonês, ou seja, vazio.
Tinha uma espécie de edredon no chão que fazia de colchão, com lençóis lavados. Pedi mais dois para colocar debaixo daquele e instalei-me. Quando perguntei onde podia jantar, tudo por gestos, estou perito em mímica, a senhora fez uma careta e ligou para o único restaurante da aldeia. Estava fechado por ser segunda.
Pensou um pouco e decidiu ligar a um vizinho para que me desse de jantar. Deve se hábito porque o vizinho prontificou-se logo a cozinhar-me jantar. Ainda pelo telefone perguntou-me o que queria e como “curry” foi a única palavra que percebi foi o que escolhi. Combinei estar em casa do vizinho às oito.
Lá estava ele ao fogão a acabar de cozer o arroz e um lugar posto para mim na mesa. Arranjou-me uma cerveja que aqui já aprendi chamam “Biko”. Tinha acrescentado uns panados de porco à ementa com medo que eu não me alimentasse só com o Curry e no fim cobrou-me 9 euros pela refeição. Fantástico.
Dormi bem mas no dia anterior tinha dado um jeito nas costas e naquela manhã, talvez pela estrutura da “cama”, estava pior. Vi-me aflito para me levantar mas tomei uma aspirina, o único remédio que viaja comigo para além de betadine para as feridas, mordidas de insecto, etc., e lá consegui pôr-me de pé. Fui a uma mercearia comprar um iogurte e pão para o pequeno almoço e parti, pelas dez da manhã, visitar, de barco a remos, umas cascatas sobre um pequeno rio.
Estive por lá cerca de hora e meia e segui viagem por estas estradas de montanha fantásticas da ilha de Kyushu.  

14 de agosto de 2016

Kumamoto - Japão




Já fora da autoestrada encontrei o que eles chamam um “Business Hotel” que são uma espécie de Ibis lá da zona. Há várias cadeias mas têm todos uma coisa em comum. As casas de banho foram certamente encomendadas ao mesmo fornecedor e parecem as dos barcos. Uma espécie de cubos pré fabricados que aplicam num canto do quarto, aliás ao estilo dos Ibis. Mas são funcionais.
Nestes hoteis, o preço por noite ronda os 55 euros mas algumas vezes inclui jantar. Só que a cozinha japonesa de restaurante de meia tijela é mesmo fraca. A sopa é de legumes, sempre igual e má e os restantes pratos à base de arroz temperado com algum molho feito com peixe ou fritos de alguma espécie e legumes estranhos. O que vale é que sou de pouco alimento e por isso durante o dia normalmente compro uma sandwich, um sumo e uma banana no caminho e só à noite levo com a refeição de Hotel.
Quando cheguei as meninas da recepção anunciaram-me que nessa noite havia um festival ali perto dedicado ao Obon que é um período no ano, de três ou quarto dias, em que os japoneses se reúnem em família, normalmente nas suas terras de nascença, para lembrarem os familiares mortos. Embora sejam supostamente budistas a maioria dos japoneses liga pouco à religião mas seguem estes costumes.
Fui assistir a esse festival onde aconteceu um fenómeno estranho. Em Agosto aqui está sempre muito calor e o céu por vezes esta um pouco nublado mas  chove pouco. Pois a meio do festival, pelas oito da noite, o céu abriu-se e começou a chover, e forte. Parecia que os Deuses estavam a abençoar a cerimónia. Consistia em danças que parecia misturarem-se com artes marciais iluminada por centenas de tochas carregadas por miúdos. Fantástico.
Gosto de assistir a este género de cerimónias locais, fora dos circuitos turísticos. Nesta ilha ainda não encontrei nenhum estrangeiro e é talvez por isso que me tratam tão bem.
No dia seguinte arranquei pelas oito e meia da manhã, depois de um pequeno almoço de sopa de legumes e arroz pois nestes hotéis de província muitas vezes não há pão, que os japoneses não o comem.
Parti por estreitas estradas de montanha, aqui já com pouco transito, até à fabrica da Honda, perto de Kumamoto. 
Ao meu encontro vieram o engenheiro chefe do projeto “Cross Tourer” e de outros modelos, outro engenheiro de pesquisa, o chefe de comunicação da fabrica e um ajudante da parte técnica que, já de capacete enfiado, pediu para levar a minha moto. Os outros fomos beber um café e conversar sobre a minha viagem e a fabrica com os problemas que teve com o tremor de terra que praticamente destruiu o seu interior. Tinham retomado a produção há três ou quatro semanas mas ainda em pequena escala, fabricando cerca de 300 motos por dia em vez das habituais 700. A semana passada tinham estado a produzir a nova Africa Twin que tem sido um sucesso mundial, com milhares de clientes à espera da sua, depois da produção ter parado quase três meses.
Normalmente não poderia ver a linha de produção nas condições em que estava a funcionar mas, perante a minha insistência, lá deixaram. A linha reduzida obriga a que mais peças sejam montadas por cada trabalhador e a montarem as 750 bicilíndricas naquele dia estavam desde uma miúda gira de 18 anos que achou muito divertida a minha visita, até um rapaz dos seus sessenta, todos em perfeita sintonia.
Num local à parte apenas dois funcionários montavam uma das duzentas e poucas RC, réplicas da moto de GP (garantiram-me que o quadro, braço oscilante, etc. são os mesmos, assim como grande parte das peças do motor, suspensão, travões, etc.). 180.000 euros de moto de estrada. A mais próxima de uma MotoGP que alguma vez foi fabricada, garantem.
Ao fim da manhã reunimo-nos para uma fotografia de grupo com o pessoal de desenvolvimento de produto, que adoraram a minha visita, e a minha moto onde, para minha surpresa, tinham montado pneus novos, que os que lá estavam já tinham muito pouco piso, proteções de punhos novas, que estavam partidas e um novo vidro de carenagem, a voltar a ser transparente. Fantástico.  

13 de agosto de 2016

Okayama - Japão





O Japão é composto por 6.852 ilhas mas quatro delas ocupam 97% do território. A maior, Honshu, é onde está Tokio e Kobe, o porto onde a moto foi parar, vinda da Austrália.
A fabrica da Honda em Kumamoto na ilha de Kyushu é onde produzem as motos de grande cilindrada.
Na altura em que iniciei esta viagem, há quarto anos, o engenheiro chefe do projeto “Cross Tourer” tinha-me convidado a visitar a fábrica quando por aqui passasse e, como eles fecham para férias no dia 11, combinei lá ir direto, mal chegasse.
Arranquei, no segundo dia pelas nove da manhã em direção a Kyushu sempre debaixo de um calor abrasador e por estradas com uma única faixa para cada lado.
Os arredores das cidades mais movimentadas são cinzentos e tristes. As construções são feias e desordenadas e o aspeto desolador.
De repente, no meio daquele cinzento, vejo uma oficina de minis dos antigos que parecia tirada de uma fotografia inglesa. Parei curioso. O dono, um japonês dos seus 50 anos que não falava uma palavra de inglês, veio cá fora receber-me e mandou-me entrar para um escritório/stand onde um Frogeye fazia companhia a uma carrinha Mini e um Cooper. À volta armários com peças Mini em exposição e nas prateleiras uma completa coleção de livros sobre Mini em ... inglês. Não tive lata para lhe perguntar se já tinha aberto algum.
Quando lhe disse que era português apontou para um Moke que tinha na garagem e arranhou: “made in Portugal”.
Disse-lhe que as rodas não eram de origem, que os portugueses vinham com jante doze e não dez e ele confirmou a troca e olhou-me com ar de respeito, a achar que estava perante um entendido na matéria.
Ofereceu-me uma pequena placa metálica da sua atrativa oficina e, vinte minutos depois, voltei a arrancar em direção a sul.
Perdi o meu GPS antes de partir para a Austrália e, não o tendo ainda substituído, tenho-me guiado por mapas, à antiga. O problema aqui foi ainda não ter encontrado um mapa com os nomes em Inglês de maneira que é difícil guiar-me por eles. O que me vale é as estradas estarem numeradas.
Assim fui seguindo o trajeto que me levava para sul e, à medida que o transito e as construções diminuíam, o verde da paisagem sobressaía.
Quando atravessei a ponte para Kyushu pareceu-me ter entrado noutro japão. Um país com uma paisagem deslumbrante, sem muita concentração de gente nem construções nestes locais mais afastados das grandes cidades. Enfim, finalmente o país que tinha imaginado.
A ilha de Kyushu é muito montanhosa, como a maioria do Japão.
Sendo um país vulcânico com importantes rachas teutónicas estão sujeitos a tremores de terra de grandes dimensões a uma cadência de um a cada cerca de cinco anos. No de Kobe, em 1995, morreram 6.000 pessoas.
Este ano o centro do tremor de terra foi precisamente na cidade de Kumamoto. As paredes exteriores da fabrica não caíram mas o interior ficou destruído e a produção parou por dois meses até conseguirem pôr parte da linha a funcionar.
Os homens da Honda tinham-me recomendado que fosse pela autoestrada pois muitas das estradas da montanha ainda não estavam transitáveis.
Nas autoestradas circula-se bem mas o sistema de portagens não está previsto para as motos, por serem escassas, no país que as produz em maior quantidade.
Assim, quando chego à portagem de saída vem sempre um homem ou uma mulher fardados, com um capacete de plástico na cabeça e um bastão luminoso numa mão a abanar muito. Correm em pequenos saltinhos, como vemos os japoneses nos filmes e parecem saídos de uma comédia. Pedem para estacionar no parque e perguntam-me pelo “ticket” de entrada, sempre muito sorridentes e a falarem muito. Depois seguem para o escritório com o dinheiro ou cartão de crédito, sempre aos saltinhos, não sem antes fazerem dez vénias. Regressam dois minutos depois a entregarem-me o recibo e despedirem-se com outras dez vénias, um habito por estas terras muito engraçado e simpático.
No Japão são todos extremamente simpáticos, pelo menos com os turistas e, cada vez que peço uma informação a alguém, desdobram-se em amabilidades e vénias e, mesmo sem falarem uma palavra de inglês, pois quase ninguém fala senão japonês, vão imprimir mapas ou procurar locais através da internet dos telemóveis mas ajudam sempre, seja o empregado da bomba de combustível, o simples transeunte ou a recepcionista de loja ou Hotel.
Saí da autoestrada uns 40 Km antes de Kumamoto para procurar por ali um Hotel e no dia seguinte seguir por estradas secundárias até à fabrica.     

12 de agosto de 2016

Japão - Osaka




Nunca tinha vindo ao Japão mas os japoneses que conheci abriram-me a curiosidade. Eram pessoas calmas, simpáticas, civilizadas, preocupadas com o bem comum. E depois assisti aquela cena que deixou os brasileiros incrédulos, quando, no Mundial de Futebol os adeptos japoneses ficavam a limpar as bancadas depois da sua equipa ter jogado. Extraordinário.
Aterrei ontem em Osaka.
A primeira coisa que constatamos é que realmente a altura media dos japoneses é inferior à europeia. E vimos isso logo quando pegamos num dos carrinhos das malas no aeroporto que têm a pega uns bons dez centímetros mais baixa que os europeus.
O país é relativamente pequeno, cerca de quatro vezes e meia o tamanho de Portugal.
Mas tem uma população doze vezes superior.
É pouco espaço para tanta gente mas organizam-se. Saem e entram nos metros e comboios ordenadamente e quando não estão a brincar com os telemóveis e falam uns com os outros é baixinho, quase em mímica. Com a chegada dos híbridos em força também o transito está mais silencioso e, nos sinais luminosos, vêm-se por vezes blocos de carros a arrancarem ao suave zumbido dos motores eléctricos.
Para despachar esta multidão de um lado para o outro até os comboios regionais atravessam os arredores das cidades, por entre prédios e casas, a velocidades que rondam os 200 Km/h.
Tinham-me avisado que a vida por estes lados era cara e reservei quarto num hostal só para o primeiro dia, como costumo fazer quando chego de avião a algum país.
Quarto tipo japonês, avisaram no mail. Não fazia ideia o que quereria dizer mas achei que “em Roma, sê romano”.
Era um pequeno quarto sem um único móvel ou quadro na parede, uma janela, um candeeiro no teto e um colchão no chão. Lençóis lavados e engomados. Aliás tudo tinha um ar limpíssimo e o wifi funcionava, assim como o imprescindível ar condicionado que normalmente desligo mas aqui em Agosto, com as temperaturas a ultrapassarem os 35º dia e noite, mantive a funcionar.
 Na manhã seguinte tinha encontro marcado no porto de Kobe, a cerca de 30 Km, para desalfandegamento da moto. Felizmente, na terra deles, foi a Honda a tratar do assunto, com a antecedência e eficiência japonesas, e não passei mais de meia hora na fronteira. Instalei-me num Hotel em Kobe, este já ocidentalizado e, com  a tarde livre, fui visitar o museu da cidade.
O museu de Kobe tinha uma interessante exposição temporária. Tratava-se de pinturas com atores de teatro da primeira metade do século dezanove. Na altura em que ainda não havia fotografia e muito menos cinema os ídolos da população eram atores de teatro famosos. Alguns artistas pintavam cenas dos mais conhecidos atores, não só em palco mas também na sua vida do dia a dia como a ida a um restaurante ou cenas de camarins. Esses retratos eram depois disputados pelos “fans” dos atores. Japoneses em ordeiras filas observavam cada uma das imagens reproduzindo a devoção que os seus antepassados terão tido por aqueles artistas de palco.
Menos de 48 horas depois de aterrar estava montado na minha “Cross Tourer” para mais uma etapa desta volta ao mundo, depois de dois mecânicos do concessionário local terem libertado a moto da palete metálica a que estava presa e de lhe terem montado roda, guiador e vidro de carenagem e colocado óleo no motor e gasolina no depósito, que o transporte por barco obriga a que venha sem líquidos inflamáveis.
O primeiro dia em que circulei no Japão foi uma desilusão. Um céu cinzento da cor de casas e prédios tristes e feios e um transito inacreditável de lento.
O mecânico da Honda tinha-me dito que demoraria três horas para percorrer os pouco mais de 50 Km até à cidade seguinte se não apanhasse a autoestrada mas como nesta viagem decidi evitar o mais possível autoestradas, enfrentei aquele inferno. Não demorei três mas duas horas a percorrer os cinquenta e poucos quilómetros. As estradas secundárias aqui têm só uma faixa para cada lado com um traço contínuo permanente e semáforos a cada 300 metros. A maioria dos carros que por aqui circulam nestas estradas secundárias, são pequenos monovolumes de quatro portas mas pouco maiores que um smart que andam, ordenadamente, sem nunca ultrapassarem os 50 Km/h. Parece uma espécie de comboio a andar em câmara lenta, com as carruagens separadas uns dez metros umas das outras. Lá os vou ultrapassando e nunca pisei tanto traço continuo na minha vida mas com as paragens contínuas nos semáforos acabo por me arrastar penosamente.
Temi que aquele fosse o meu destino durante as três semanas que passaria no Japão.