29 de dezembro de 2015

Bonny Hills



Saí de Evans Head pelas dez da manhã e fui descendo a costa, deixando a estrada principal aqui e ali para visitar uma ou outra praia que me parecia mais atrativa. São às centenas, fantásticas, ao longo desta costa Oriental da Australia, com ondas excelentes para os surfistas e milhares de casas com vistas fabulosas. Aqui, tal como em Africa, há espaço para não haver prédios.
Acabei o dia no melhor parque de campismo onde fiquei até agora. Muito arranjado e impecavelmente limpo tinha uma ótima relva, onde me instalei sobre uma ravina que dava para o mar. Fabuloso. A cozinha e sala de jantar eram ao lado com uma frente toda em vidro e um terraço a dar para o mar.
Podia ter ficado por ali mais um dia ou dois mas tinha que partir.
Arranquei direito a Sydney onde iria apenas jantar com amigos e passar a noite, pois já tinha visitado a cidade durante os dez dias que lá fiquei o mês passado.
Na estrada vi um sinal que indicava “National Motorcycle Museum”. Não podia deixar de o visitar. Ao meu lado no parque de estacionamento estava uma Triumph e o dono tinha deixado os dois excelentes blusões de cabedal pousados sobre a moto enquanto visitava o museu. Uma situação impensável na maioria dos países do mundo. De facto, na Australia não parece haver roubos e não só toda a gente deixa as coisas à vista sem problemas como a maioria das casas não tem sequer vedações ou muros à volta. O Hotel onde estava em Darwin ficava com as portas abertas à noite e passados dois dias de andar com a moto deixei de a trancar enquanto nos parques de campismo deixo muitas vezes capacete e blusão pousados em cima da moto.
O museu era fantástico e, embora a maioria das motos não estivesse restaurada, tinham centenas de motos do século passado, muito acentuadas nos anos 50, 60 e 70’s.
Depois de visitar o museu parei num pub para almoçar. Por sorte, era dia de jazz e atuava uma excelente cantora, acompanhada de um baixo, piano e bateria, que levaram os velhos a dançarem animadamente, tarde fora. Muito giro.


28 de dezembro de 2015

Evans Head



Os Australianos que vivem fora das cidades, aliás como na maioria dos países, são muito simpáticos.
Estava ainda a instalar a tenda neste parque de campismo com uma situação fantástica sobre um rio quando veio uma vizinha fazer conversa. Lá partiu e passado pouco tempo apareceu outra:
-       “You must be very tired. Will you join us for tea?”
-       “Yes, sure”
Já eram seis e meia da tarde e achei estranho estar a convidar-me para tomar chá mas, conforme combinado, fui ter à roulotte da senhora quando acabei de montar a tenda. Só quando lá cheguei me lembrei que estes velhos chamam “tea” ao jantar. Lá estava ela a cozinhar uns legumes e bacon fantásticos e fiquei com aquele casal muito simpático a jantar debaixo do toldo que tinham montado junto ao rio. Muito bom.
Pelas nove da noite despedi-me e fui até à cozinha do acampamento, que nestes sítios funciona também como sala de reunião, com o computador debaixo de braço. Apareceu um gordo, divertido, com ar mais latino que australiano a perguntar de onde eu tinha surgido. Ficámos à conversa e pouco depois juntou-se a nós a mulher e outro casal amigo. Faziam parte de um grupo maior de amigos, mais de 40 casais, que todos os meses se juntavam, entre 20 a 30, para acamparem com as suas roulottes em diferentes parques do país.
Quando eles partiram para as suas casas ambulantes,  pelas dez da noite, pude finalmente abrir o computador. Estava a ajudar a minha filha num trabalho para a Universidade quando se abateu sobre o acampamento uma tempestade, como ainda não tinha apanhado na Australia, com chuva e ventos fortes.
Corri para a tenda debaixo de chuva porque tinha deixado a porta aberta. Entrei apressadamente, atirei o blusão encharcado que trazia sobre a cabeça para um canto e caiu em cima da almofada. Fechei a tenda com a chuva e vento a aumentarem de intensidade e voltei a ligar o computador para continuar com o trabalho. Pouco tempo depois acabou-se-me o crédito de internet. Li um pouco e adormeci pelas onze da noite, embalado pelo som do vento e chuva a baterem na tenda. Acordei às duas da manhã com a lateral da tenda a bater-me contra a cara. O vento tinha aumentado de intensidade e comecei a imaginar-me a levantar voo com a tenda. De vez em quando espreitava cá fora para ver se o rio, a não mais de meio metro abaixo do relvado, não teria aumentado de caudal a um ponto de entrar pelo parque dentro. Comecei a ter que segurar com as mãos a lateral da tenda com medo do seu colapso eminente. Assim fiquei até à seis da manhã, quando parou de chover mesmo com o vento a continuar a bater forte. Saí cá fora, coloquei a moto numa posição para proteger um pouco a tenda do vento e, estafado, fui tomar um duche quente. Voltei para a tenda e consegui dormir mais duas horas. Quando acordei a tempestade tinha passado.
As minhas vizinhas vieram perguntar-me como tinha passado a noite.
- “How terrible. I thought about you during the night”

27 de dezembro de 2015

Surfers Paradise



A Australia, sendo um dos países mais ricos do mundo, não tem praticamente autoestradas. São quase tudo estradas nacionais, bem alcatroadas, mas só com uma faixa em cada sentido. A exceção é a entrada e saída das grandes cidades onde há autoestradas com umas dezenas de quilómetros ou, mais provavelmente, uma via rápida com duas faixas em cada sentido e separador central mas que, por vezes, atravessa vilas e tem vários locais para se fazer inversão de marcha. No fundo percebe-se a solução adoptada porque não lhes faz muita falta autoestradas por haver relativamente pouco transito, quando comparado com a Europa ou Ásia. A única vez que apanhei um engarrafamento foi numa destas autoestradas, à entrada de Brisbane. Tinha havido um desastre e formou-se uma fila de uns bons 15 Km, parada. Comecei a passar pela berma alcatroada e via várias motos na fila atrás de carros até que um deles veio atrás de mim e, às tantas, já éramos quatro. No fim fizeram-me sinal a aprovar a solução “portuguesa”.
Como eles normalmente não têm filas ficam sossegados atrás dos carros.
Decidi não parar em Brisbane porque já lá tinha estado dois dias quando fui às Ilhas Fiji e desci mais um pouco até Surfers Paradise.
O casal meu amigo das “Chopper” tinha-me dito que o melhor era nem parar naquela zona que era “horrível, só prédios”.
Quando lá cheguei percebi a ideia deles mas ainda bem que lá fiquei. O local é mágico. Realmente tem prédios porque tem mais gente e movimento que as outras regiões de praia mas a natureza é fantástica, com praias fabulosas, ondas ideais para surf e muitas árvores nas ruas, muitas delas do tipo dos pinheiros escandinavos, canteiros bem arranjados e tudo com bom aspecto e limpo.
Instalei-me num Parque de Campismo a condizer, onde me cobraram o equivalente a 35 euros para poder montar a “barraca”.
Acordei, às seis e meia da manhã, debaixo de chuva de maneira que fiquei a ler na tenda por mais uma hora. Ás sete  e meia fui ao escritório cravar mais um pin de internet e instalei-me na “camp kitchen”. Tomei o pequeno almoço, um duche e saí por volta das dez, a minha hora habitual.
Fui percorrendo a costa, calmamente, a tirar fotografias aqui e ali. O tempo estava cinzento mas surfistas não faltavam pelas praias, com os mais batidos a instalarem-se junto a zonas com rochas, onde as ondas eram melhores.
Encontrei uma miúda gira na rua, acabada de sair de dentro de água com ar triste porque tinha acabado de partir a parte de trás da prancha contra uma rocha. Pedi-lhe para tirar uma fotografia junto à moto. Era francesa mas falava português porque tinha estado a viver em Portugal com os pais durante três anos, pois o pai é oficial da Nato. Tinha comprado uma carrinha velha e estava há três meses a passear pela Australia.
-       “Agora vou ter que trabalhar porque estou a ficar sem dinheiro”.
Fui andando costa abaixo até parar numa pequena vila, Evans Head, com um parque de Campismo fantástico, junto a um rio. Instalei-me por lá, com vista sobre o rio.

26 de dezembro de 2015

Hervey Bay



Quando cheguei a Hervey Bay fui direito ao porto onde tinha acabado há pouco uma corrida de barcos “offshore”
Estavam a carregar os barcos nos sofisticados atrelados e fiquei a admirar aquelas peças de arte.
Depois rodei junto à costa para escolher o parque de campismo, de entre a meia dúzia que havia num espaço de uns 10 Km.
Fui parar ao lado de um casal de velhos que ali tinha ido passar o fim de semana, cada um na sua moto. A dela uma Honda 750 e a dele uma Yamaha, destas a imitarem as Harley. Ele, barrigudo, em tronco nu e com um enorme bigode, tal como a moto, também parecia uma réplica de um condutor de Harley. Os dois muito simpáticos.
No acampamento reservei um passeio a Fraser Island que se vê do continente e é a maior ilha em areia do mundo, com 120 Km de comprimento.
Passaram buscar-me às sete e um quarto da manhã já num autocarro 4x4, de suspensão levantada. Fomos direitos a um Ferry que nos levou para a ilha onde não há estradas alcatroadas. Todas elas são em areia solta de maneira que, infelizmente, não poderia ter levado a moto.
Já na ilha visitámos primeiro o lago McKenzie, rodeado de uma faixa de areia de praia muito fininha e com uma água tão transparente que parece estarmos numa piscina. Tomámos uns banhos e depois seguimos para a praia propriamente dita parando antes no que penso ser o único Hotel da ilha, para almoçar.
A parte oriental da praia é larga e tem muitas dezenas de quilómetros. Jipes e autocarros podem rolar na areia de maneira que entrámos com o autocarro 4x4 pela areia, com uns trinta passageiros a bordo e rodámos durante uns bons 40 Km pelo areal. Parámos junto aos destroços de um barco do início do século XX e depois numa zona onde desagua um rio, de águas transparentes e límpidas. No mar da ilha não é possível tomar banho pois como há muito peixe na zona também há tubarões.
Parámos então junto a este rio onde estavam não só uma boa dezena de jipes mas também três avionetas que iam levantando e aterrando na praia com turistas a bordo.
Foi um dia realmente fora do comum.
A ilha tem a particularidade de ter muitas nascentes de água que formam diversos rios e grandes lagos. É também a única ilha no mundo de areia com uma floresta tropical no interior que se formou por existir naquela areia uma bactéria que alimenta as árvores, algumas, enormes, com mais de 1500 anos. No trajeto o guia contou-nos ainda que os portugueses foram os primeiros a chegar àquela ilha, muito antes do Captain Cook, e que os habitantes locais adoptaram mesmo algumas palavras portuguesas.

23 de dezembro de 2015

Agnes Water


O parque de campismo em Seventeen Seventy estava superlotado e fugi rapidamente. Andei dois ou três quilómetros para o interior e acabei por me instalar em Agnes Water num parque com um ar mais civilizado. Á minha frente estava um casal de Australianos muito simpático, como a maioria por aqui:
-       “Hi, mate. How are you today”?
Estavam à espera de duas amigas, que tinham conhecido noutro parque dois dias antes, uma delas muito animada. Convidaram-me para me juntar ao grupo a beber umas cervejas e por ali ficamos a tarde na cavaqueira com o homem a abrir cervejas umas atrás das outras, embora eu me tenha ficado por duas.
A seguir fui até à cozinha do parque de campismo, que são geralmente ao ar livre sobre um telheiro, por nesta zona da Australia nunca estar frio para precisarem de paredes. Por lá estava outro animado grupo, estes dos seus trinta anos. Um australiano que tinha estado a viver em Espanha e de lá trouxe uma espanhola que falava inglês com sotaque espanhol, com muitos rrr, como quando elas dizem “rebajas”.
Fazia ainda parte do grupo um Australiano mais velho, daqueles com uma pronuncia complicada e um francês, que tinha vendido o seu restaurante em Lyon e estava há um ano a estoirar a massa, viajando. Não dizia uma palavra de inglês e eu fazia de tradutor. Foi divertido. O australiano trouxe uma carrada de cervejas da carrinha e por ali ficámos. O francês foi dormir às onze e eu aguentei até à meia noite o que, para parque de campismo é uma noitada. Os outros ainda por lá ficaram. Fiquei com o contacto deles mas no dia seguinte, quando deixei o parque, o casal ainda dormia.
Fui almoçar a Byron Bay, que tem um ambiente giríssimo, do tipo anos setenta mas com a nova geração. Muitos descalços na rua, a beber copos nos cafés que o tempo não estava para praia, embora um animado grupo de quarentões se divertisse a aprender surf em “long boards”.
Almocei no restaurante junto à praia uma espécie de caldeirada que no menu vinha como “portuguese seafood stew” e foi a melhor refeição que tive desde que cheguei à Australia.

18 de dezembro de 2015

Yeppoon


Para o segundo dia que fiquei em Airlie Beach tinha reservado um passeio num velho barco à vela que incluía irmos até Whitsunday Island, onde existe uma das praias mais famosas e fabulosas do mundo, Whithaven Beach. A praia, de uma areia muito fina e branca, faz uns recortes que formam uma espécie de lagoas com diferentes tons de azul turquesa, conforme a profundidade. A vista do alto da ilha é, simplesmente, deslumbrante.
Estivemos na praia umas duas horas e voltamos a bordo para almoçar. De tarde fomos fazer “snorkling” para uma ilha perto. Fazendo aquelas ilhas parte do Great Barrier Reef a fauna marítima e, principalmente, os corais, são fabulosos com variações de cores e texturas constantes.
Neste passeio conheci uma escocesa giríssima, tatuada nos braços e pernas e com nariz, orelhas e boca atravessados por  piercings. Uma viagem fantástica no velho veleiro que começou às sete e meia da manhã e só acabou com o pôr do sol, à seis e meia da tarde. Inesquecível.
Deixei Airlie Beach pelas dez horas da manhã seguinte. Um Australiano que conheci no acampamento recomendou-me Yeppoon, a pouco mais de quinhentos quilómetros de distancia e foi para aí que vim.
O parque de campismo é fantástico porque se estende ao longo de uma estreita faixa costeira mesmo em cima da praia. Aqui já não há as alforrecas que têm aterrorizado o norte do país e mal acordei tomei um banho de mar fantástico. Depois do pequeno almoço ainda fiz uma máquina de roupa (não é assim que elas dizem?) antes de partir conhecer a zona. Fui visitar umas grutas que não eram nada de especial e parti para almoçar numa vila mais a Sul que é um parque natural, Emu Park, com enormes praias rasas onde a maré avança uma boa centena de metros.
No dia seguinte acordei cedo e, ainda não eram sete da manhã já estava a dar um mergulho na praia. Parti depois a caminho de Seventeen Seventy, a pouco mais de 200 Km. Já lá perto parei para almoçar num típico pub Australiano onde os clientes estão ao bar de chapéu de abas largas. Era numa pequena vila e alguns dos homens vieram perguntar-me de onde era a matricula da moto e desejar-me boa viagem. Aqui na Australia ligam pouco à moto e muitos, quando lhes digo que vim de Portugal, não acreditam.
Respondem: “pois, está bem. Aqui na Australia começou onde?”

14 de dezembro de 2015

Airlie Beach


Em Cowley Beach fui parar a um “camping” de fraca qualidade, numa praia quase ao abandono mas em que a senhora era simpática.
Quando perguntei se tinha wi-fi riu-se. “Nãao. Aqui não se apanha nada disso” Ela fez o preço na hora e perguntou-me:
- “o que acha de 10 dólares ?”
- “acho bem”.
Até as maquinas de lavar a roupa levavam só 3 dólares em vez dos habituais 4.
Aqueci qualquer coisa que levava comigo mas quando estava a meio do jantar começou a chover e lembrei-me que tinha a roupa a secar. Parecia uma dona de casa atarantada a correr recolher a roupa com o jantar a arrefecer.
 No dia seguinte fiz a mala com a roupa húmida e arranquei pelas nove e meia.
Percorri perto de 500 Km e cheguei a Airlie Beach, que tem um ambiente fantástico. Uma vila pequena mas com muito comércio, casas e apartamentos com bom aspecto, junto ao mar e nada menos que três marinas repletas de barcos de todos os tamanhos e feitios. Não espanta. Ali à volta há um grupo fabuloso de ilhas e o famoso Great Coral Reef.
Montei a “barraca” no bem organizado “camping” local. O espaço reservado aos “unpowered”, aqueles que não têm roulottes ou autocaravanas para ligar à eletricidade, era em terra com muitas árvores repletas de pássaros. Durante a noite ouvia uma ou outra discussão entre eles mas, a partir das cinco da manhã, quando nascia o sol, era um regabofe pegado. Um barulheira de conversas cruzadas com muitos piares distintos. Alguns pareciam estar a rir-se às gargalhadas, qual grupo de jovens a contarem as aventuras da noite anterior. Apetecia sair da tenda e gritar para a copa das árvores: “shut the fuck up. There are people trying to sleep, here”.
No primeiro dia que por ali fiquei comecei por dar um mergulho na boa e pouco concorrida piscina do parque,  onde fiquei a ler um pouco. Fui depois até à praia, onde tinham uma zona protegida por redes contra tubarões e, principalmente, para reterem as tais alforrecas assassinas.
Pela hora de almoço peguei na moto e fui visitar uma praia cerca de cinquenta quilómetros a Norte. É estranho como há zonas que estão bem exploradas turisticamente e outras, muito perto, quase abandonadas. Dingo Beach está como a terão deixado há décadas atrás, com casas de fraca qualidade e quase deserta. Um pequeno barco à venda na rua com ar de ninguém lhe pegar e um café restaurante onde o dono fez uma cara de perturbado quando lhe disse que queria comer qualquer coisa e me mandou falar com a mulher que me acabou por vender um pequeno filete em cima de um monte de batatas fritas oleosas por 15 dólares. O homem tinha entretanto abandonado o bar para se sentar ele a almoçar num canto de restaurante mas a senhora lá acabou por vir também ao bar tirar-me a cerveja.
A seguir ao almoço fiquei por ali a ler e dei um passeio a pé pela praia onde não se podia tomar banho pois a rede protetora estava  desfeita e podre.