26 de dezembro de 2015

Hervey Bay



Quando cheguei a Hervey Bay fui direito ao porto onde tinha acabado há pouco uma corrida de barcos “offshore”
Estavam a carregar os barcos nos sofisticados atrelados e fiquei a admirar aquelas peças de arte.
Depois rodei junto à costa para escolher o parque de campismo, de entre a meia dúzia que havia num espaço de uns 10 Km.
Fui parar ao lado de um casal de velhos que ali tinha ido passar o fim de semana, cada um na sua moto. A dela uma Honda 750 e a dele uma Yamaha, destas a imitarem as Harley. Ele, barrigudo, em tronco nu e com um enorme bigode, tal como a moto, também parecia uma réplica de um condutor de Harley. Os dois muito simpáticos.
No acampamento reservei um passeio a Fraser Island que se vê do continente e é a maior ilha em areia do mundo, com 120 Km de comprimento.
Passaram buscar-me às sete e um quarto da manhã já num autocarro 4x4, de suspensão levantada. Fomos direitos a um Ferry que nos levou para a ilha onde não há estradas alcatroadas. Todas elas são em areia solta de maneira que, infelizmente, não poderia ter levado a moto.
Já na ilha visitámos primeiro o lago McKenzie, rodeado de uma faixa de areia de praia muito fininha e com uma água tão transparente que parece estarmos numa piscina. Tomámos uns banhos e depois seguimos para a praia propriamente dita parando antes no que penso ser o único Hotel da ilha, para almoçar.
A parte oriental da praia é larga e tem muitas dezenas de quilómetros. Jipes e autocarros podem rolar na areia de maneira que entrámos com o autocarro 4x4 pela areia, com uns trinta passageiros a bordo e rodámos durante uns bons 40 Km pelo areal. Parámos junto aos destroços de um barco do início do século XX e depois numa zona onde desagua um rio, de águas transparentes e límpidas. No mar da ilha não é possível tomar banho pois como há muito peixe na zona também há tubarões.
Parámos então junto a este rio onde estavam não só uma boa dezena de jipes mas também três avionetas que iam levantando e aterrando na praia com turistas a bordo.
Foi um dia realmente fora do comum.
A ilha tem a particularidade de ter muitas nascentes de água que formam diversos rios e grandes lagos. É também a única ilha no mundo de areia com uma floresta tropical no interior que se formou por existir naquela areia uma bactéria que alimenta as árvores, algumas, enormes, com mais de 1500 anos. No trajeto o guia contou-nos ainda que os portugueses foram os primeiros a chegar àquela ilha, muito antes do Captain Cook, e que os habitantes locais adoptaram mesmo algumas palavras portuguesas.

23 de dezembro de 2015

Agnes Water


O parque de campismo em Seventeen Seventy estava superlotado e fugi rapidamente. Andei dois ou três quilómetros para o interior e acabei por me instalar em Agnes Water num parque com um ar mais civilizado. Á minha frente estava um casal de Australianos muito simpático, como a maioria por aqui:
-       “Hi, mate. How are you today”?
Estavam à espera de duas amigas, que tinham conhecido noutro parque dois dias antes, uma delas muito animada. Convidaram-me para me juntar ao grupo a beber umas cervejas e por ali ficamos a tarde na cavaqueira com o homem a abrir cervejas umas atrás das outras, embora eu me tenha ficado por duas.
A seguir fui até à cozinha do parque de campismo, que são geralmente ao ar livre sobre um telheiro, por nesta zona da Australia nunca estar frio para precisarem de paredes. Por lá estava outro animado grupo, estes dos seus trinta anos. Um australiano que tinha estado a viver em Espanha e de lá trouxe uma espanhola que falava inglês com sotaque espanhol, com muitos rrr, como quando elas dizem “rebajas”.
Fazia ainda parte do grupo um Australiano mais velho, daqueles com uma pronuncia complicada e um francês, que tinha vendido o seu restaurante em Lyon e estava há um ano a estoirar a massa, viajando. Não dizia uma palavra de inglês e eu fazia de tradutor. Foi divertido. O australiano trouxe uma carrada de cervejas da carrinha e por ali ficámos. O francês foi dormir às onze e eu aguentei até à meia noite o que, para parque de campismo é uma noitada. Os outros ainda por lá ficaram. Fiquei com o contacto deles mas no dia seguinte, quando deixei o parque, o casal ainda dormia.
Fui almoçar a Byron Bay, que tem um ambiente giríssimo, do tipo anos setenta mas com a nova geração. Muitos descalços na rua, a beber copos nos cafés que o tempo não estava para praia, embora um animado grupo de quarentões se divertisse a aprender surf em “long boards”.
Almocei no restaurante junto à praia uma espécie de caldeirada que no menu vinha como “portuguese seafood stew” e foi a melhor refeição que tive desde que cheguei à Australia.

18 de dezembro de 2015

Yeppoon


Para o segundo dia que fiquei em Airlie Beach tinha reservado um passeio num velho barco à vela que incluía irmos até Whitsunday Island, onde existe uma das praias mais famosas e fabulosas do mundo, Whithaven Beach. A praia, de uma areia muito fina e branca, faz uns recortes que formam uma espécie de lagoas com diferentes tons de azul turquesa, conforme a profundidade. A vista do alto da ilha é, simplesmente, deslumbrante.
Estivemos na praia umas duas horas e voltamos a bordo para almoçar. De tarde fomos fazer “snorkling” para uma ilha perto. Fazendo aquelas ilhas parte do Great Barrier Reef a fauna marítima e, principalmente, os corais, são fabulosos com variações de cores e texturas constantes.
Neste passeio conheci uma escocesa giríssima, tatuada nos braços e pernas e com nariz, orelhas e boca atravessados por  piercings. Uma viagem fantástica no velho veleiro que começou às sete e meia da manhã e só acabou com o pôr do sol, à seis e meia da tarde. Inesquecível.
Deixei Airlie Beach pelas dez horas da manhã seguinte. Um Australiano que conheci no acampamento recomendou-me Yeppoon, a pouco mais de quinhentos quilómetros de distancia e foi para aí que vim.
O parque de campismo é fantástico porque se estende ao longo de uma estreita faixa costeira mesmo em cima da praia. Aqui já não há as alforrecas que têm aterrorizado o norte do país e mal acordei tomei um banho de mar fantástico. Depois do pequeno almoço ainda fiz uma máquina de roupa (não é assim que elas dizem?) antes de partir conhecer a zona. Fui visitar umas grutas que não eram nada de especial e parti para almoçar numa vila mais a Sul que é um parque natural, Emu Park, com enormes praias rasas onde a maré avança uma boa centena de metros.
No dia seguinte acordei cedo e, ainda não eram sete da manhã já estava a dar um mergulho na praia. Parti depois a caminho de Seventeen Seventy, a pouco mais de 200 Km. Já lá perto parei para almoçar num típico pub Australiano onde os clientes estão ao bar de chapéu de abas largas. Era numa pequena vila e alguns dos homens vieram perguntar-me de onde era a matricula da moto e desejar-me boa viagem. Aqui na Australia ligam pouco à moto e muitos, quando lhes digo que vim de Portugal, não acreditam.
Respondem: “pois, está bem. Aqui na Australia começou onde?”

14 de dezembro de 2015

Airlie Beach


Em Cowley Beach fui parar a um “camping” de fraca qualidade, numa praia quase ao abandono mas em que a senhora era simpática.
Quando perguntei se tinha wi-fi riu-se. “Nãao. Aqui não se apanha nada disso” Ela fez o preço na hora e perguntou-me:
- “o que acha de 10 dólares ?”
- “acho bem”.
Até as maquinas de lavar a roupa levavam só 3 dólares em vez dos habituais 4.
Aqueci qualquer coisa que levava comigo mas quando estava a meio do jantar começou a chover e lembrei-me que tinha a roupa a secar. Parecia uma dona de casa atarantada a correr recolher a roupa com o jantar a arrefecer.
 No dia seguinte fiz a mala com a roupa húmida e arranquei pelas nove e meia.
Percorri perto de 500 Km e cheguei a Airlie Beach, que tem um ambiente fantástico. Uma vila pequena mas com muito comércio, casas e apartamentos com bom aspecto, junto ao mar e nada menos que três marinas repletas de barcos de todos os tamanhos e feitios. Não espanta. Ali à volta há um grupo fabuloso de ilhas e o famoso Great Coral Reef.
Montei a “barraca” no bem organizado “camping” local. O espaço reservado aos “unpowered”, aqueles que não têm roulottes ou autocaravanas para ligar à eletricidade, era em terra com muitas árvores repletas de pássaros. Durante a noite ouvia uma ou outra discussão entre eles mas, a partir das cinco da manhã, quando nascia o sol, era um regabofe pegado. Um barulheira de conversas cruzadas com muitos piares distintos. Alguns pareciam estar a rir-se às gargalhadas, qual grupo de jovens a contarem as aventuras da noite anterior. Apetecia sair da tenda e gritar para a copa das árvores: “shut the fuck up. There are people trying to sleep, here”.
No primeiro dia que por ali fiquei comecei por dar um mergulho na boa e pouco concorrida piscina do parque,  onde fiquei a ler um pouco. Fui depois até à praia, onde tinham uma zona protegida por redes contra tubarões e, principalmente, para reterem as tais alforrecas assassinas.
Pela hora de almoço peguei na moto e fui visitar uma praia cerca de cinquenta quilómetros a Norte. É estranho como há zonas que estão bem exploradas turisticamente e outras, muito perto, quase abandonadas. Dingo Beach está como a terão deixado há décadas atrás, com casas de fraca qualidade e quase deserta. Um pequeno barco à venda na rua com ar de ninguém lhe pegar e um café restaurante onde o dono fez uma cara de perturbado quando lhe disse que queria comer qualquer coisa e me mandou falar com a mulher que me acabou por vender um pequeno filete em cima de um monte de batatas fritas oleosas por 15 dólares. O homem tinha entretanto abandonado o bar para se sentar ele a almoçar num canto de restaurante mas a senhora lá acabou por vir também ao bar tirar-me a cerveja.
A seguir ao almoço fiquei por ali a ler e dei um passeio a pé pela praia onde não se podia tomar banho pois a rede protetora estava  desfeita e podre.

13 de dezembro de 2015

Cowley Beach




Choveu muito durante a noite mas dormi bem. Quando estava a sair, pelas dez e meia da manhã, já voltava a americana da sua exploração matinal aos lagartos.
- “Vais já hoje embora? Nããão”.
Arranquei com um dia cinzento a caminho de Millaa Millaa onde me disseram haver umas cascatas fantásticas. De facto, num espaço de quinze quilómetros visitei três cascatas, duas delas fabulosas.
Parti depois em direção à costa, já a sul de Cairns. Fui primeiro até Mission Beach, onde almocei um hamburger excelente num café muito giro junto à praia e depois passei em Etty Bay, onde me tinham dito que havia um "camping" junto à praia muito simpático. Afinal tinha muita pouca graça e a dona não era muito simpática de maneira que decidi não ficar.
Ali havia pessoas a tomar banho no mar mas numa zona protegida por uma rede, provavelmente não só para tubarões mas também para estas alforrecas venenosas que são o terror do momento e matam mais que tubarões.
As pessoas, de um modo geral, são muito simpáticas aqui na Australia. Fazem um pouco lembrar-me a primeira vez que entrei num bar em Nova Iorque. A mulher virou-se para mim e disse efusivamente: “Olá, como é que você está hoje?”  e eu pensei: está a confundir-me com alguém. Só depois vi que tratava da mesma forma toda a gente que passasse aquela porta. Aqui é a mesma coisa. Todas falam como se nos conhecessem lindamente. Ontem num supermercado até fiquei atrapalhado com a maneira como a menina da caixa me disse aquilo com uma voz sexy e olhos nos olhos. Pensei, bolas, se tratas assim todos os clientes deve ser um desassossego. Quando estava a pagar já estava a convidá-la para vir dar um mergulho ao lago e ela a dizer-me que tinha lá estado essa manhã e a água estava optima.
Os homens que encontramos na rua aqui pela província também falam quase sempre: “Hi, mate. How are you today?”
Ficamos com a sensação de um “easy going” da maioria da população. Eles no fundo vivem bem, de um modo geral, e não devem ter muitas preocupações.
Nas vilas e cidades costeiras, até em Sydney, é curioso ver bastante gente descalça, homens, mulheres e principalmente crianças. Quando têm entre cinco e oito anos andam quase sempre descalços pela rua, mesmo quando a mãe que as acompanha usa sapatos ou havaianas.
No entanto já vi vários restaurantes, que nunca são muito sofisticados, com letreiros à porta a dizerem: “No shoes, no shirt, no food”.

12 de dezembro de 2015

Cairns - 2


Saí do “camping” só por volta das onze horas e decidi dar um passeio pela região, através das fantásticas estradas de montanha por entre a floresta. Fui visitar uma velha cidade mineira, onde a simpática mulher do centro de informações, quando lhe disse que era português, me contou que fazia parte do grupo que, em Melbourne, contestou a ocupação indonésia de Timor. Organizavam manifestações e eram muito ativas. Disse-me que todas as mulheres do grupo, que na altura teriam vinte e poucos anos, estavam fascinadas com o Xanana Gusmão. “Ele a lutar no mato”, dizia-me ela com um ar encantado. “E casou com uma australiana”, acrescentou.
Da parte da tarde fiz um corta mato por uma estrada de terra através de campos verdes, numa paisagem que podia ser austríaca, para ir ver o lago Eacham, que se formou numa cratera de vulcão e onde bastante gente aproveita para dar uns mergulhos, mesmo com este tempo chuvoso, pois a água é morna.
Instalei-me num pequeno “camping” muito giro por ter muitas árvores e ser inclinado até um lago em baixo.
Junto a esse lago estava montada uma tenda grande em lona verde tropa com duas cadeiras de pano à porta, deixadas à chuva, que parecia de um explorador africano. Encontrei-me com a miúda que a ocupava quando preparávamos os nossos jantares na cozinha do “camping”. Uma americana, divertida, que ficou fascinada quando lhe disse que tinha vindo de moto de Portugal. “that’s cool”.
Estava ali a viver sozinha há um mês, a fazer um estudo para a Universidade sobre uns lagartos que há junto ao lago.
A noite prometia chuva e frio e a velhota dona do “camping”, muito simpática, veio oferecer-nos cobertores e almofadas.

11 de dezembro de 2015

Cairns



Quando arranquei de manhã comecei logo por rodar numa zona muito diferente da Australia daquela onde tinha passado os últimos oito dias. Aqui, já a cerca de 200 Km de Cairns, na costa oriental Norte, começam a aparecer pequenas vilas a cada 30 ou 40 Km, há movimento nas estradas e pessoas de um lado para o outro, mesmo tendo em conta que a Australia não é um país muito populoso.
Passei por pequenas vilas muito bem arranjadas, com flores nos espaços públicos, a relva cortada e comercio e pequenos hotéis com bom aspecto.
À volta de Cairns existe uma floresta tropical ou “rain forest” como eles lhe chamam, e toda a zona é muito verde, nalguns locais até junto da costa.
Apanhei uma estrada de montanha através da floresta fabulosa. 70 Km de curvas e contra curvas em bom piso que me deram imenso gozo.
Entrei depois na cidade de Cairns e fui até à zona das praias. Visitei as várias que há a Norte da cidade e quando parei num parque de campismo junto a uma das praias, a simpática mulher que me atendeu deu-me um mapa com todos os locais de interesse na região. Almocei por ali num excelente “fish and chips” (filete de barra) e como ainda era cedo, segui viagem para Norte, até Port Douglas e dali até Mossman, onde aproveitei para ir visitar Mossman Gorge, uma zona de um rio na floresta  onde se forma uma lagoa com uma pequena queda de água e onde algumas pessoas aproveitam para tomar banho, à falta de o poderem fazer no mar. É que entre Outubro e Março aparecem por aqui umas pequena alforrecas venenosas que matam mesmo, de maneira que os poucos que se atrevem a mergulhar no mar vão equipados com fatos de borracha.
Pelas cinco da tarde acabei por me instalar num simpático “camping” junto a uma das praias.
Aqui na Australia há parques de campismo por todo o lado e as pessoas utilizam muito o sistema, seja com tendas ou autocaravanas, devido ao preço exorbitante dos hotéis.
Além disso, em muitas zonas não só há mais parques de campismo que Hoteis, como os parques, por terem pouca construção, têm direito a ocupar espaços muito melhores que os Hoteis, muitas das vezes em cima de praias, rios ou lagos.