2 de outubro de 2015

Darwin - Australia




Mal o avião aterrou um cheiro intenso a queimado invadiu a cabina. Os passageiros que estavam à janela apressaram-se a tentar perceber, através da noite escura, de onde vinha aquela cor encarniçada do céu. E, assustados, observavam asas e motores. Ao mesmo tempo a hospedeira chefe, com ar preocupado, soltava-se do seu cinto de segurança, mais completo que o dos passageiros, levantava-se da cadeira com assento que levanta de costas para a cabine de pilotagem, a lembrar as das velhas salas de cinema, e pegava no telefone para anunciar ao comandante o forte cheiro a queimado, ainda o avião rolava pela pista. Tudo isto não demorou mais de 10 a 15 segundos, até se ouvir a voz do comandante anunciar aos passageiros: Não se preocupem. Este cheiro a queimado não vem do avião. O que se passa é que parece estar tudo a arder à volta do aeroporto.
No dia seguinte os jornais mostravam carros e casas em cinzas mas a maior parte foi mato, em grandes extensões, como é comum na Austrália.
Tinha acabado de aterrar em Darwin, para o regresso à minha volta ao mundo de moto. Passava pouco das cinco da manhã e decidi ficar uma hora ou duas pelo bar do pequeno aeroporto, à espera que fossem horas decentes para aparecer no Hotel que tinha reservado uns dias antes.
Quando finalmente saí para a rua o sol já tinha nascido mas o fumo intenso não deixava ver mais que uns vinte metros à frente. O chofer de táxi considerou o fogo uma banalidade e  três ou quatro quilómetros fora daquela zona já podíamos ver o azul do céu com o calor que prometia.
As praias são boas, por aqui?
Sim, mas não se pode tomar banho.
Porquê?
“Crocodilos e alferrecas, que se agarram ao corpo e provocam fortes queimaduras”.
Nunca tinha ouvido falar em crocodilos de água salgada mas o homem informou-me que são os piores.
“Bastante maiores que os dos rios e pântanos atingem facilmente os cinco metros e em vez de arrancarem um braço ou uma perna comem a vitima até ao ultimo osso”.
Aqui, todos os anos morrem pessoas comidas pelos crocodilos, conta-me o homem.
“Já ninguém vai nadar mas às vezes andam à pesca, em pé nos barcos e os animais saltam da água para os agarrar”.
Darwin é uma cidade pequena, com pouco movimento. É aqui que chegará a moto que, depois de muita insistência minha junto da companhia de navegação timorense, lá foi carregada num contentor transportado por um navio que, a fazer escala em Singapura, há de aqui chegar dentro de uns dez dias. Não me resta mais que aguardar a passear e ler na pequena piscina do Hotel.

7 de janeiro de 2015

Dili



Da fronteira até Dili são pouco mais de cem quilómetros de uma estreita estrada em grande parte alcatroada mas em muito mau estado. Estão a repará-la mas parecem alcatroar de novo um pequeno troço de 500 metros, depois passam a alcatroar outro a uns quilómetros de distancia e assim por diante com os intervalos em terra, já com o alcatrão arrancado e obviamente com buracos e lama. Demorei duas horas e meia a percorrer os cerca de 120 Km.
Quando encontrei a primeira bomba de gasolina, já perto da cidade, o depósito estava praticamente seco embora pelo caminho tivesse visto vendedores locais com garrafas de água cheias de gasolina expostas à beira da estrada. Quis evitá-las mas numa emergência não seria a primeira vez que a “Cross Tourer” bebia daquilo.
Em Timor Leste a moeda utilizada é o Dólar Americano embora os pequenos trocos sejam pagos em moeda local, que não seve para grande coisa.
Chegado à cidade passei junto ao pequeno aeroporto, que é praticamente dentro da cidade, e pouco depois, do lado direito, na marginal, temos o Palácio do Governo vindo do tempo colonial e das poucas construções bem conservadas ou, provavelmente, reconstruído depois da guerra.
Fui direito à embaixada portuguesa porque a minha ideia era pedir ao embaixador para lá guardar a moto até tratar do seu transporte para a Austrália.
O porteiro disse-me que tinham saído todos para almoçar e só regressavam às duas. Parti então procurar onde ficar. Precisava de resolver a estadia e o transporte da moto em 24 horas, para além  de arranjar um ou vários voos que me levassem a Bangkok até à noite do dia seguinte, pois tinha o regresso a Portugal marcado para as duas da manhã a partir da capital Tailandesa.
 Tinha visto um Hotel Dili que não tinha mau aspecto sem ser de luxo e portanto estaria dentro do meu orçamento mas, quando o procurava, passei pelo Hotel Timor, de que já tinha ouvido falar e bastante melhor. Parei a moto e fui perguntar o preço do quarto. Na recepção falaram-me em 135 dólares. Era muito para o meu “budget” e perguntei o que aconselhavam a metade do preço. Antes do recepcionista responder um português, que vinha a passar no Hall, apresentou-se como diretor do Hotel e perguntou se era eu que vinha na moto. Ao confirmar disse-me que tinha que lá ficar e ofereceu-me o quarto por metade do preço.
Mais tarde, muito simpaticamente, disse-me que a moto poderia ficar guardada no Hotel até ao embarque para a Australia e que, sendo feriado no país, poderia ir comigo no dia seguinte à empresa de navegação tratar do seu transporte.
Em meia hora tinha quase todos os meus problemas resolvidos. Faltavam os voos para Bangkok que consegui depois do almoço na Internet.
Da parte da tarde, nas traseiras do Hotel, estive a tratar de lavar o moto o mais pormenorizadamente possível assim como todo o equipamento que cá deixava pois tanto a embaixada Australiana em Lisboa como outras pessoas me tinham avisado que, quando a moto entrasse no país teria que ir lavada ao pormenor. Acho que não ficou mal.
Na manhã da partida acordei cedo e, antes de ir com o diretor do Hotel à companhia de navegação, ainda estive a lavar o fato, botas e capacete, que  viajam com a moto.
E assim acabou mais uma etapa desta viagem à volta do mundo. Espero que tenham gostado de a acompanhar. Quando regressar para a próxima etapa irei percorrer a Australia, Nova Zelandia, Japão e Estados Unidos.

5 de janeiro de 2015

West Timor



Quando saí do ferry vindo da ilha de Flores para Kupang, em Timor Ocidental, eram duas da manhã. Ainda hesitei em arrancar logo a caminho da fronteira com Timor Leste mas na pequena cidade onde desembarquei haviam vários grupos de jovens com muito mau aspecto que me chamavam quando eu passava e aquela hora, sem nada para fazerem, tinham ar de quem procurava problemas.
Por outro lado, sem acesso à internet nos últimos dois dias não tinha anotado o nome das cidades por onde teria que passar pelo que mais uma vez teria que me guiar pela bússola do iphone, visto que o GPS deixou de trabalhar há uns dias. E ainda eram duas da manhã pelo que teria três horas  e meia de circulação à noite que eu tento sempre evitar, pelos perigos que envolve. Além disso também tinha dormido mal e pouco no barco, com aqueles dois homens praticamente na minha cama, um de cada lado.
Por sorte, ao atravessar a cidade, passei por um Hotel que tinha a porta aberta de maneira que fiquei por ali a dormir mais umas horas.
Acordei perto das oito da manhã mas depois de tomar um duche e o pequeno almoço fui pôr os mails em dia e verificar o trajeto que teria que efetuar até Dili. Acabei por deixar o Hotel só às onze da manhã.
A estrada até perto da fronteira, cerca de 300 Km, era melhor do que eu estava à espera embora com algumas zonas onde o alcatrão tinha abatido, provocando lombas que por duas vezes me fizeram a mala esquerda, a tal que tem um suporte partido, saltar dum dos outros dois apoios, ficando a roçar no pneu.
Quando estamos perto da fronteira temos a ultima cidade Indonésia, Atambua e depois 30 Km de uma estrada em muito mau estado. Pensei que só me podia ter enganado e por três vezes parei para perguntar se aquela estrada era a única entre Timor Ocidental e Oriental. Confirmaram-me que sim e segui caminho. Ás tantas a estrada tinha abatido com as chuvas e a faixa de alcatrão resumia-se a uma pequena passagem para motos.
Cheguei à parte Indonésia da fronteira às quatro da tarde e informaram-me que já não seria possível passar pois em Timor Leste era mais uma hora e a fronteira fechava à cinco.
Perguntei se na aldeia não haveria um sítio onde pudesse ficar, uma pensão ou alguém que alugasse um quarto até porque nessa altura começou a chover e a estrada de volta para a cidade estaria ainda pior.
Disseram-me que não mas o chefe de alfândega acabou por me perguntar se eu não queria ficar a dormir no sofá da messe dos funcionários da alfândega, mesmo ali ao lado. Aceitei a sugestão e arrumei a moto num barracão que me indicaram. Nesse momento a chuva aumentou muito de intensidade.
Instalei-me na messe, sozinho, pois os guardas partiram para casa. Passado um bocado apareceu um, de camuflado, a dizer que eu ali não estaria bem e se não preferia ir dormir à camarata dos militares, que me arranjava um colchão. Concordei e levou-me falar com o chefe que acabou por sugerir eu ficar num colchão no escritório dele. Fui a uma pequena loja local comprar mais uma daquelas embalagens com esparguete instantâneo e tofu que tinha sido também o meu almoço e jantar do dia anterior e por ali fiquei a dormir. Às seis da manhã o chefe já estava no escritório e acordei com ele a traçar linhas num mapa com os pontos a controlar na fronteira terrestre.
Levantei-me, agradeci a estadia e voltei para a messe ler, porque a fronteira só abria às oito.
Quando passei para o lado de Timor Leste os guardas pareciam crianças, divertidos a praticar o seu português.

2 de janeiro de 2015

Barco Flores - Timor




Parecem cadáveres espalhados pelo chão depois de uma batalha.
Estou no barco que me leva da ilha de Flores para a de Timor. Uma viagem de 17 horas que começou antes das nove da manhã. É um ferry com uma parte de baixo onde carregam carros, motos, camiões, cavalos e cabras e um andar superior onde vão a maioria das pessoas. Outras preferem viajar deitadas em cima dos tejadilhos dos camiões que conduzem ou, como um grupo de mulheres que estenderam umas esteiras no espaço reservado aos veículos e ali fazem a viagem, algumas deitadas, a dormir, outras em amena cavaqueira e outras a tratarem de filhos pequenos. Alguns maridos também dormem por perto, junto aos dois carros, quatro camiões, umas dezenas de scooters, a Cross Tourer e uma quantidade de sacos de arroz que ali foram descarregados em carrinhos de mão nas primeiras horas da manhã. Na parte da frente, junto à rampa de saída, depois dos camiões, três cavalos alimentam-se da palha que o dono espalhou na zona, transformada em pequena cavalariça, enquanto do lado contrário quatro cabras comem ervas que penduraram numas escadas e um porco preto dorme no chão.
Fui dos últimos a subir para o andar de cima porque, sabendo como o mar pode ser bravo nesta zona, quis certificar-me que a moto era bem atada ao convés.
O espaço para passageiros é escasso para as necessidades. Para além dos que viajam no reservado aos veículos e animais, há quem prefira ficar pelas escadas de acesso ao piso superior. A sala única, que funciona como dormitório, bar, sala de estar e de jantar não tem mais que vinte por dez metros. Quando chego as cadeiras já estão todas ocupadas, algumas por homens e mulheres deitados ao longo de três a dormir. No chão desta sala, felizmente com janelas abertas para o calor e o bom tempo, colchões forrados a plástico que o barco disponibiliza acomodam mais homens e mulheres atacados pela doença do sono. Alguns preferem esteiras próprias.
Pouco depois de partirmos já há quem almoce um arroz trazido de casa, embrulhado em papel pardo ou comprado a vendedoras que antes do barco arrancar cá vêm dentro comercializar embalagens plásticas de refeições que confeccionaram essa madrugada compostas de arroz, legumes e ovos fritos.
A alternativa à sala é um dormitório com quarenta beliches colados uns aos outros e todos eles ocupados.
Mas antes de subir para o primeiro andar, enquanto esperava que atassem a moto, estava descansado. Quando comprei o bilhete tinham-me dito que, já no barco, poderia comprar o acesso a uma cabine VIP, por pouco mais de seis euros, talvez o mesmo que paga um passageiro sem veículo, tendo em conta que o meu bilhete com a moto custou 23.
Fui à procura da cabine. Era outra sala com beliches idêntica à primeira. A diferença é que esta tinha ar condicionado, as pessoas e camas um ar um pouco mais limpo e os lugares eram reservados. À falta de alternativa pedi um. As camas de baixo são no chão e preferi uma de cima, a pouco mais de um metro de altura. Os colchões estão encostados uns aos outros em grupos de cinco. Pousei em cima o blusão e capacete, a guardar o lugar, e fui procurar um sítio onde me sentar a ler, de preferência junto a uma janela. Na sala principal, ultra congestionada, foi impossível e acabei por colocar três dos colchões plásticos junto a uma das janelas do dormitório VIP. Extraordinário como não é só na Europa que esta sigla se banalizou. Zona VIP hoje em dia é um espaço ligeiramente melhor que o restante onde os amigos dos porteiros se misturam com atrizes de novela. Aqui não há atrizes mas há amigos de porteiros. Pouco depois de me ter instalado tive o azar de dois deles, sem lugar nos beliches, se virem deitar a dormir colados a mim, enquanto lia. O que estava ao meu lado não só ressonava como rangia os dentes de uma forma que fiquei com a ideia que se iam partir a qualquer momento.
Tanta gente a dormir fez-me sono e decidi ir até ao meu beliche. Já tinha um vizinho de cada lado, tão perto como se tivesse duas mulheres na minha cama. Quando acordei e hesitava em voltar ao meu lugar junto à janela, o do lado direito virou-se na cama e encostou a cabeça ao meu ombro. O meu “Hey”, mais alto que a conversa de fundo da televisão ligada ininterruptamente, foi suficiente para que se virasse para o outro lado, sem sequer abrir os olhos.
Pela uma e meia da tarde, ainda sem fome, decidi ir almoçar para passar o tempo. Sentei-me no bar e pedi um esparguete fininho com tofu que vêm numa embalagem plástica, idêntico ao que tinha comido na ultima viagem de barco.
Voltei para o meu lugar junto à janela para me distrair a ler e escrever e pelas cinco e meia da tarde desci à parte de baixo e, através de uma escada metálica, subi para um dos cantos do navio junto às amarrações e que são o único lugar ao ar livre que o barco tem disponível, reservado à tripulação. Fiquei, durante perto de uma hora, com dois dos marinheiros, a ver os golfinhos que saltavam à volta do barco, não em grupo como os costumamos ver, mas separados uns 20 a 50 metros uns dos outros, um ou outro a atreverem-se junto ao barco.  

29 de dezembro de 2014

Flores



A Ilha de Flores foi uma colónia portuguesa desde que aí desembarcámos no século XVI mas, em 1851, o governador Lima Lopes, a atravessar dificuldades financeiras e sem apoio da casa real, vendeu grande parte da ilha aos Holandeses que, três anos mais tarde, ocuparam a totalidade do território.
Durante  a segunda guerra mundial a ilha foi invadida pelos japoneses mas, com o fim da guerra, passou a fazer parte da Indonésia.
Os portugueses, ao contrário dos holandeses, misturavam-se com as populações locais e deixaram por lá não só nomes de famílias como a religião católica. Quase todos os perto de dois milhões de habitantes da ilha são católicos.
A estrada que apanhei para sair do porto de Labuan Bajo começava por subir uma serra num trajeto muito sinuoso e traiçoeiro, com várias partes em obras, pequenos troços em terra, desníveis no alcatrão e zonas a escorregarem muito. Já não chovia mas o alcatrão ainda estava encharcado. Passava pouco das quatro da manhã e não se via ninguém nem um único carro. Durante a primeira hora só me cruzei com um  camião e duas “scooters”, que rodavam juntas. Fui andando devagar e achei graça ver algumas casas muito humildes com iluminações de Natal.
Quando o dia começou a nascer, pelas cinco e meia, fiquei encantado com a beleza da paisagem que me rodeava. Muita vegetação e vales lindos. Um grande lago lá em baixo, com as margens a ziguezaguearem pela serra, produzia uma imagem de autentico bilhete postal.
Pelas sete da manhã parei num pequeno restaurante que tinha um ar mais limpo que os outros e tomei um pequeno almoço de arroz com grelos e um ovo cozido.
Segui depois até Ruteng. Cerca das dez da manhã começou a dar-me o sono e voltei a parar  para beber uma laranjada. Eram onze quando cheguei a Aimere, a vila onde embarcaria para o próximo destino. Comecei por ir ao porto saber quando tinha barco para West Timor, a parte da ilha que pertence à Indonésia. Disseram-me que sairia um no dia seguinte às oito da manhã.
Fui então à procura de sítio onde ficar e indicaram-me um pequeno “resort” com cabanas junto à praia, a meia dúzia de quilómetros.
O dono, descendente de portugueses embora não falasse a língua, chamava-se Francisco Rosário.
Instalei-me e fui para o bar, junto à praia deserta, onde fiquei a ler e tomei vários banhos naquela água morna durante o resto do dia. Era o único cliente mas ao fim da tarde chegou uma simpática italiana que explora uma empresa de mergulho na ilha e com quem jantei um excelente peixe apanhado no dia e cozinhado pelo Francisco.
Deitei-me cedo e acordei às seis da manhã. Tomei o pequeno almoço no bar da praia e segui para o porto. Comprei o bilhete e enquanto esperava no meio de gente e tralha para embarcar apareceu o Francisco, na sua moto, que me disse para eu o seguir que me ajudava a passar à frente da confusão. Parecia dono do porto. Fui atrás dele até à rampa de acesso e aí deu indicações para mandarem a minha moto entrar. Despedi-me e embarquei.

26 de dezembro de 2014

Sumbawa 3


Ao sair do Hotel, pelas nove da manhã, o recepcionista perguntou-me para onde ia e quando lhe referi que pretendia apanhar o ferry para a ilha de Flores disse-me que só havia um por dia que partia às oito da manhã. No dia anterior tinham-me informado que saíam barcos quase de hora a hora de maneira que decidi arrancar até ao Porto, a perto de 60 Km de ali, para estudar a situação “in loco”.
Quando lá cheguei disseram-me que haveria um segundo barco à tarde que deveria partir por volta das quarto.
- “mas não tem horário? sai às quatro ou quatro e meia”?
- “depende do número de clientes”
Eram dez da manhã e decidi então ir fazer a revisão à moto que tinha prevista para Timor. Calculava encontrar o filtro de ar já muito sujo porque sentia a moto a perder potencia gradualmente e temia que as velas também estivessem no estado a que chegaram no Irão, onde a cerâmica queimou, em resultado da má qualidade da gasolina. Como nalguns destes países do sudoeste asiático o combustível também é de fraca octanagem achei que deviam estar a pedir mudança. E estavam.
A operação é demorada nesta moto porque temos que retirar o depósito de combustível, desligar uma série de sensores e as velas dos cilindros da frente do V são de difícil acesso.
Por outro lado este mecânico/viajante também trabalha devagar.
Quando tinha tudo montado de novo, pus a moto a trabalhar e não só a luz de avaria se mantinha acesa como a moto não se aguentava ao ralenti. Achei que teria deixado alguma ficha mal ligada de maneira que voltei a retirar o depósito para deligar e voltar a ligar todas as fichas. Nova montagem e os mesmos sintomas. Entretanto o tempo passava e eu via que quase de certeza perderia o barco daquela tarde. Na segunda desmontagem retirei também a caixa do filtro de ar e só então reparei que tinha deixado um pequeno tubo de vácuo desligado.
Sabia que era o suficiente para aqueles sintomas e quando voltei a montar tudo de novo foi com confiança que pus a moto a trabalhar sem que a luz voltasse a acender.
Já passava das seis da tarde mas decidi ir até ao porto ver o que se passava. O barco ainda lá estava e disseram para me despachar que iria partir de seguida. Estranhei, ao entrar, só lá estar um camião dentro mas estacionei a moto no local onde me indicaram e subi para a zona superior com bancos bastante cómodos.
Começaram então a ser carregados mais camiões mas, com o movimento já parado, pelas oito da noite fui perguntar porque não partíamos.
“Estamos à espera de um cliente que está a chegar”
Quando o barco saiu eram nove da noite. Felizmente tinha um livro para ler e o tempo passou bem. Não tinha comido nada deste o pequeno almoço e no bar do barco arranjaram-me uma espécie de esparguete com o que penso seja tofu, que vem numas embalagens plásticas a que acrescentamos água a ferver. Não é muito mau.
Dormi uma três ou quatro horas e, pelas três e meia da manhã, fui acordado pelos altifalantes do barco a anunciarem a chegada.
Eram quatro da manhã quando saí do barco com a moto. Tinha ideia de ali ficar na vila a dormir mais umas horas numa qualquer pensão de esquina mas estavam todas de portas fechadas de maneira que não tive outro remédio senão arrancar noite dentro.
Como o GPS deixou de funcionar há uns dias e não tinha a quem perguntar o caminho guiei-me pela bússola do iphone para me levar para oriente.
Ao sair da vila os altifalantes de uma mesquita acordavam os fiéis para as rezas matinais e pouco depois vi homens a deixarem as casas à beira da estrada para se porem a pé a caminho do local de culto.

23 de dezembro de 2014

Sumbawa 2



Tinha posto o despertador para as oito e meia  mas acordei meia hora antes. Vesti a roupa que tinha no dia anterior, substituindo o banho com a água do tanque por uma lavagem de cara com água da torneira e fui ver se conseguia tomar um pequeno almoço na vila porque a mulher do dono da espelunca, quando o filho lhe perguntou se tinha alguma coisa para o meu pequeno almoço, levantou-se do chão onde estava sentada e respondeu: “só café”
Encontrei uma barraca onde uma mulher vendia uma espécie de pães de leite embalados em plástico com recheio de coco. Não eram maus  e preferi ao arroz da concorrência. Ainda na vila uma operação stop só para motos. Tinha apanhado já uma em Lombok. Mandam entrar todas as pequenas motos e “scooters” que passam na rua para um desvio onde uma dezenas de polícias verifica os documentos. Foi a primeira vez que me pediram par ver a carta de condução nesta viagem e logo dois dias seguidos. Desta vez também quiseram ver os documentos da moto mas quando viram que isso obrigaria a abrir uma das malas laterais e a minha moto estava a atrasar a fluidez do transito de muitas dezenas de pequenas motos em fila para serem verificadas, mandaram-me seguir.
Arranquei então pela única estrada da ilha que, tal como todas as outras na Indonésia, tem apenas uma faixa para cada lado. A ideia era ir até à capital, Bima,  a 320 Km de onde estava e a 60 do barco que teria que apanhar no dia seguinte.
A parte que vemos de Sumbawa, os arredores desta estrada que atravessa a ilha numa grande parte junto à costa norte, é pouco atrativa, com menos vegetação que o resto do país e até partes de campo bastante secas. No horizonte vi montanhas cobertas de verde mas de difícil acesso.
Em contrapartida a estrada dava imenso gozo, com sequencias de curvas rápidas, feitas em quarta e quinta, como eu gosto. Para além disso o tempo estava ótimo e a temperatura, influenciada pela proximidade do mar, não passava muito dos 30º.
Por isso resolvi logo de manhã vestir as calças do fato e as botas, que sempre dão mais proteção em caso de acidente e deixava-me preparado para a chuva que normalmente aparece da parte da tarde. E assim foi. Estava a menos de 100 Km do destino do dia quando uma enorme carga de água se abateu sobre a zona montanhosa que atravessava na altura. Parei debaixo de um telheiro, junto com outros motociclistas locais, onde ficamos perto de meia hora à espera que passasse o dilúvio.
Quando a chuva baixou de intensidade fui o primeiro a arrancar. Não tinha percorrido mais de dois quilómetros quando, à saída de uma curva larga, em que vinha a uns 85, 90 Km/h estava um lamaçal, com uns 5cm de altura, que a chuva tinha arrastado da montanha. Não tive tempo de fazer nada. Mal entrei no mar de lama “catrapum”, comigo e a moto a sermos arrastados pelo alcatrão uns vinte ou trinta metros. Por sorte tinha vestido o fato completo e não me magoei nada. Alguns homens que estavam em vias de começarem a limpar a estrada vieram rapidamente levantar a moto que também não sofreu muito com a queda. A mala direita amolgada, para se parecer mais com a esquerda, que tinha sofrido com os acidentes na Índia, a maneta de travão partida e os apoios do para brisas arrancados. Compus-me durante uns dois ou três minutos do que não chegou a ser um susto e logo pessoas que moravam ali vieram ajudar. Um deles trouxe mesmo uma mangueira com que tratou de lavar moto e condutor, cobertos de lama. Lá arranquei, mais devagar, para os últimos 90 Km até Bumi, pois a maneta do travão passou a ser um pequeno coto.
Chegado à cidade procurei o concessionário Honda e fui lá fazer as reparações antes de me instalar num Hotel. Aproveitei e mudei também as pastilhas dos travões da frente, que já estavam nas últimas.
Á noite fui a pé procurar um sítio onde jantar. Encontrei uma tasca em que me prometeram uma galinha acabada de assar e, para o provar, mostraram-me as brasas ainda acesas. Quando entrei uma ratazana, quase do tamanho de um pequeno coelho atravessou a sala de uma ponta à outra sem que os clientes se preocupassem ou lhe dessem sequer atenção. Uma banalidade. Tentei esquecer a imagem e jantei a galinha com arroz.