29 de dezembro de 2014

Flores



A Ilha de Flores foi uma colónia portuguesa desde que aí desembarcámos no século XVI mas, em 1851, o governador Lima Lopes, a atravessar dificuldades financeiras e sem apoio da casa real, vendeu grande parte da ilha aos Holandeses que, três anos mais tarde, ocuparam a totalidade do território.
Durante  a segunda guerra mundial a ilha foi invadida pelos japoneses mas, com o fim da guerra, passou a fazer parte da Indonésia.
Os portugueses, ao contrário dos holandeses, misturavam-se com as populações locais e deixaram por lá não só nomes de famílias como a religião católica. Quase todos os perto de dois milhões de habitantes da ilha são católicos.
A estrada que apanhei para sair do porto de Labuan Bajo começava por subir uma serra num trajeto muito sinuoso e traiçoeiro, com várias partes em obras, pequenos troços em terra, desníveis no alcatrão e zonas a escorregarem muito. Já não chovia mas o alcatrão ainda estava encharcado. Passava pouco das quatro da manhã e não se via ninguém nem um único carro. Durante a primeira hora só me cruzei com um  camião e duas “scooters”, que rodavam juntas. Fui andando devagar e achei graça ver algumas casas muito humildes com iluminações de Natal.
Quando o dia começou a nascer, pelas cinco e meia, fiquei encantado com a beleza da paisagem que me rodeava. Muita vegetação e vales lindos. Um grande lago lá em baixo, com as margens a ziguezaguearem pela serra, produzia uma imagem de autentico bilhete postal.
Pelas sete da manhã parei num pequeno restaurante que tinha um ar mais limpo que os outros e tomei um pequeno almoço de arroz com grelos e um ovo cozido.
Segui depois até Ruteng. Cerca das dez da manhã começou a dar-me o sono e voltei a parar  para beber uma laranjada. Eram onze quando cheguei a Aimere, a vila onde embarcaria para o próximo destino. Comecei por ir ao porto saber quando tinha barco para West Timor, a parte da ilha que pertence à Indonésia. Disseram-me que sairia um no dia seguinte às oito da manhã.
Fui então à procura de sítio onde ficar e indicaram-me um pequeno “resort” com cabanas junto à praia, a meia dúzia de quilómetros.
O dono, descendente de portugueses embora não falasse a língua, chamava-se Francisco Rosário.
Instalei-me e fui para o bar, junto à praia deserta, onde fiquei a ler e tomei vários banhos naquela água morna durante o resto do dia. Era o único cliente mas ao fim da tarde chegou uma simpática italiana que explora uma empresa de mergulho na ilha e com quem jantei um excelente peixe apanhado no dia e cozinhado pelo Francisco.
Deitei-me cedo e acordei às seis da manhã. Tomei o pequeno almoço no bar da praia e segui para o porto. Comprei o bilhete e enquanto esperava no meio de gente e tralha para embarcar apareceu o Francisco, na sua moto, que me disse para eu o seguir que me ajudava a passar à frente da confusão. Parecia dono do porto. Fui atrás dele até à rampa de acesso e aí deu indicações para mandarem a minha moto entrar. Despedi-me e embarquei.

26 de dezembro de 2014

Sumbawa 3


Ao sair do Hotel, pelas nove da manhã, o recepcionista perguntou-me para onde ia e quando lhe referi que pretendia apanhar o ferry para a ilha de Flores disse-me que só havia um por dia que partia às oito da manhã. No dia anterior tinham-me informado que saíam barcos quase de hora a hora de maneira que decidi arrancar até ao Porto, a perto de 60 Km de ali, para estudar a situação “in loco”.
Quando lá cheguei disseram-me que haveria um segundo barco à tarde que deveria partir por volta das quarto.
- “mas não tem horário? sai às quatro ou quatro e meia”?
- “depende do número de clientes”
Eram dez da manhã e decidi então ir fazer a revisão à moto que tinha prevista para Timor. Calculava encontrar o filtro de ar já muito sujo porque sentia a moto a perder potencia gradualmente e temia que as velas também estivessem no estado a que chegaram no Irão, onde a cerâmica queimou, em resultado da má qualidade da gasolina. Como nalguns destes países do sudoeste asiático o combustível também é de fraca octanagem achei que deviam estar a pedir mudança. E estavam.
A operação é demorada nesta moto porque temos que retirar o depósito de combustível, desligar uma série de sensores e as velas dos cilindros da frente do V são de difícil acesso.
Por outro lado este mecânico/viajante também trabalha devagar.
Quando tinha tudo montado de novo, pus a moto a trabalhar e não só a luz de avaria se mantinha acesa como a moto não se aguentava ao ralenti. Achei que teria deixado alguma ficha mal ligada de maneira que voltei a retirar o depósito para deligar e voltar a ligar todas as fichas. Nova montagem e os mesmos sintomas. Entretanto o tempo passava e eu via que quase de certeza perderia o barco daquela tarde. Na segunda desmontagem retirei também a caixa do filtro de ar e só então reparei que tinha deixado um pequeno tubo de vácuo desligado.
Sabia que era o suficiente para aqueles sintomas e quando voltei a montar tudo de novo foi com confiança que pus a moto a trabalhar sem que a luz voltasse a acender.
Já passava das seis da tarde mas decidi ir até ao porto ver o que se passava. O barco ainda lá estava e disseram para me despachar que iria partir de seguida. Estranhei, ao entrar, só lá estar um camião dentro mas estacionei a moto no local onde me indicaram e subi para a zona superior com bancos bastante cómodos.
Começaram então a ser carregados mais camiões mas, com o movimento já parado, pelas oito da noite fui perguntar porque não partíamos.
“Estamos à espera de um cliente que está a chegar”
Quando o barco saiu eram nove da noite. Felizmente tinha um livro para ler e o tempo passou bem. Não tinha comido nada deste o pequeno almoço e no bar do barco arranjaram-me uma espécie de esparguete com o que penso seja tofu, que vem numas embalagens plásticas a que acrescentamos água a ferver. Não é muito mau.
Dormi uma três ou quatro horas e, pelas três e meia da manhã, fui acordado pelos altifalantes do barco a anunciarem a chegada.
Eram quatro da manhã quando saí do barco com a moto. Tinha ideia de ali ficar na vila a dormir mais umas horas numa qualquer pensão de esquina mas estavam todas de portas fechadas de maneira que não tive outro remédio senão arrancar noite dentro.
Como o GPS deixou de funcionar há uns dias e não tinha a quem perguntar o caminho guiei-me pela bússola do iphone para me levar para oriente.
Ao sair da vila os altifalantes de uma mesquita acordavam os fiéis para as rezas matinais e pouco depois vi homens a deixarem as casas à beira da estrada para se porem a pé a caminho do local de culto.

23 de dezembro de 2014

Sumbawa 2



Tinha posto o despertador para as oito e meia  mas acordei meia hora antes. Vesti a roupa que tinha no dia anterior, substituindo o banho com a água do tanque por uma lavagem de cara com água da torneira e fui ver se conseguia tomar um pequeno almoço na vila porque a mulher do dono da espelunca, quando o filho lhe perguntou se tinha alguma coisa para o meu pequeno almoço, levantou-se do chão onde estava sentada e respondeu: “só café”
Encontrei uma barraca onde uma mulher vendia uma espécie de pães de leite embalados em plástico com recheio de coco. Não eram maus  e preferi ao arroz da concorrência. Ainda na vila uma operação stop só para motos. Tinha apanhado já uma em Lombok. Mandam entrar todas as pequenas motos e “scooters” que passam na rua para um desvio onde uma dezenas de polícias verifica os documentos. Foi a primeira vez que me pediram par ver a carta de condução nesta viagem e logo dois dias seguidos. Desta vez também quiseram ver os documentos da moto mas quando viram que isso obrigaria a abrir uma das malas laterais e a minha moto estava a atrasar a fluidez do transito de muitas dezenas de pequenas motos em fila para serem verificadas, mandaram-me seguir.
Arranquei então pela única estrada da ilha que, tal como todas as outras na Indonésia, tem apenas uma faixa para cada lado. A ideia era ir até à capital, Bima,  a 320 Km de onde estava e a 60 do barco que teria que apanhar no dia seguinte.
A parte que vemos de Sumbawa, os arredores desta estrada que atravessa a ilha numa grande parte junto à costa norte, é pouco atrativa, com menos vegetação que o resto do país e até partes de campo bastante secas. No horizonte vi montanhas cobertas de verde mas de difícil acesso.
Em contrapartida a estrada dava imenso gozo, com sequencias de curvas rápidas, feitas em quarta e quinta, como eu gosto. Para além disso o tempo estava ótimo e a temperatura, influenciada pela proximidade do mar, não passava muito dos 30º.
Por isso resolvi logo de manhã vestir as calças do fato e as botas, que sempre dão mais proteção em caso de acidente e deixava-me preparado para a chuva que normalmente aparece da parte da tarde. E assim foi. Estava a menos de 100 Km do destino do dia quando uma enorme carga de água se abateu sobre a zona montanhosa que atravessava na altura. Parei debaixo de um telheiro, junto com outros motociclistas locais, onde ficamos perto de meia hora à espera que passasse o dilúvio.
Quando a chuva baixou de intensidade fui o primeiro a arrancar. Não tinha percorrido mais de dois quilómetros quando, à saída de uma curva larga, em que vinha a uns 85, 90 Km/h estava um lamaçal, com uns 5cm de altura, que a chuva tinha arrastado da montanha. Não tive tempo de fazer nada. Mal entrei no mar de lama “catrapum”, comigo e a moto a sermos arrastados pelo alcatrão uns vinte ou trinta metros. Por sorte tinha vestido o fato completo e não me magoei nada. Alguns homens que estavam em vias de começarem a limpar a estrada vieram rapidamente levantar a moto que também não sofreu muito com a queda. A mala direita amolgada, para se parecer mais com a esquerda, que tinha sofrido com os acidentes na Índia, a maneta de travão partida e os apoios do para brisas arrancados. Compus-me durante uns dois ou três minutos do que não chegou a ser um susto e logo pessoas que moravam ali vieram ajudar. Um deles trouxe mesmo uma mangueira com que tratou de lavar moto e condutor, cobertos de lama. Lá arranquei, mais devagar, para os últimos 90 Km até Bumi, pois a maneta do travão passou a ser um pequeno coto.
Chegado à cidade procurei o concessionário Honda e fui lá fazer as reparações antes de me instalar num Hotel. Aproveitei e mudei também as pastilhas dos travões da frente, que já estavam nas últimas.
Á noite fui a pé procurar um sítio onde jantar. Encontrei uma tasca em que me prometeram uma galinha acabada de assar e, para o provar, mostraram-me as brasas ainda acesas. Quando entrei uma ratazana, quase do tamanho de um pequeno coelho atravessou a sala de uma ponta à outra sem que os clientes se preocupassem ou lhe dessem sequer atenção. Uma banalidade. Tentei esquecer a imagem e jantei a galinha com arroz.

21 de dezembro de 2014

Sumbawa


Quando voltei ao restaurante buscar a moto depois da visita às cascatas ainda tinha as calças encharcadas mas, como estava calor, decidi arrancar mesmo assim para ver se chegava à vila do porto onde embarcaria para Sumbawa antes de anoitecer. A estrada era espetacular, com uma parte montanhosa mas bastante rápida e com o alcatrão a seguir as diferenças de inclinação do terreno, com lombas cegas e curvas com desníveis. Um gozo.
Passava pouco das seis e meia quando cheguei ao porto e me informaram que sairia um barco dentro de meia hora. A minha ideia inicial era ficar a dormir do lado de cá para não ter que andar de noite quando chegasse à outra margem mas não quis desperdiçar a oportunidade, sabendo que no dia seguinte não só o movimento seria muito maior como poderia mesmo não haver barco à hora que me desse jeito.
Fiz assim a travessia já de noite.
Tinham-me dito para tomar especial cuidado nestas ilhas a oriente de Lombok. Aqui já não há turismo, as populações são mais pobres e há bastantes assaltos.
Por essa razão deveria evitar, a todo o custo, andar de noite.
O barco levava não mais de uns 15 passageiros, quatro ou cinco camiões e outras tantas “scooters”. Não viajavam carros. Estacionei a moto, subi para o andar superior com um livro e sentei-me a ler. Passados uns dez minutos uma simpática gorda com um enorme tabuleiro de bananas chamou-me. “Bananas, my love”?
Lembrei-me que tinha almoçado há uma e meia da tarde e provavelmente não encontraria onde jantar na outra margem de maneira que lhe comprei quatro bananas que foram o meu jantar a bordo, acompanhadas de uma água.
Alguns dos passageiros meteram conversa, estranhando um estrangeiro naquelas andanças. Perguntei-lhes se encontraria hotel junto ao porto da outra margem e disseram-me que não. Teria que fazer uma dúzia de quilómetros até à primeira vila.
Um dos homens, de aspecto duvidoso, depois de várias perguntas sobre de onde eu vinha e para onde ia disse-me: “você é rico”. Respondi-lhe que não e cortei a conversa.
Desembarcado em Sumbawa pelas nove e meia arranquei, noite cerrada, por uma estrada quase deserta mas em bom estado a caminho de Alas, a tal vila que me tinham referido. Nesta ilha há praticamente uma única estrada, que a atravessa de ocidente para oriente. As derivações são estreitas vias, muitas das vezes em terra. Mas a ilha tem mais de 400 Km de comprimento.
Chegado a Alas perguntei onde havia um hotel e indicaram-me o que parecia ser o único. Um homem veio receber-me à porta e apresentou-me o filho, que “arranhava” umas coisas de inglês. Insistiu em mostrar-me o quarto mas eu não só já imaginava o que me esperava como, sem alternativa, teria que aceitar fosse o que fosse. O lençol e as almofadas nem tinham um ar sujo mas o edredon não tinha capa, o que não me espantou. Em Mataram, capital de Lombok, tinha insistido com o rapaz do Hotel para me fornecer um lençol para colocar debaixo do cobertor, sem qualquer sucesso. Aqui nem disse nada. Ou seja, limitei-me a dizer que estava ótimo. A casa de banho era um buraco no chão com um tanque de água ao lado, que parecia de um lago estagnado, com aranhas a boiarem. Dentro do tanque a habitual tijela plástica que os muçulmanos usam para se lavarem com água retirada destes tanques. Não há duche e a única torneira corre para dentro do tanque. Lavar os dentes, por exemplo, é uma operação complicada porque evidentemente não utilizamos a água do tanque.
As paredes tinham sujidade acumulada de anos. Impensável andar ali sem ser de sandálias.

17 de dezembro de 2014

Gili Travangan




Saí da capital de Lombok, Mataram, pelas onze da manhã e parti para Norte junto à costa, na direção onde eles me tinham indicado que ficava este grupo de três pequenas ilhas. O passeio é lindo porque aquela zona da costa forma várias pequenas baías com praias entaladas entre o mar e o palmeiral.
Quando vi as ilhas no horizonte e um pequeno porto de mar parei para perguntar se havia quem me levasse às ilhas. Pescadores que tratavam das redes responderam que sim mas pediram-me o equivalente a 30 euros que achei um exagero. Disseram-me então que, meia dúzia de quilómetros à frente, havia barcos que transportavam mais pessoas regularmente. Parti para o porto que me indicaram onde constatei que até tinham um armazém para se guardarem as muitas motos de quem ia para as ilhas trabalhar.
Embarquei num “speed boat”, com três motores de 200 cv. e outros tantos clientes e em dez minutos estávamos a desembarcar em Gili Travangan.
“Transport, sir, transport? where are you staying”?
Pequenas carroças puxadas por um cavalo esperam pelos turistas no porto para os levar aos hotéis. Eu não tinha nada marcado e preferi alugar uma bicicleta com um porta bagagens onde coloquei a pequena mala que trazia e fui explorar a zona.
Em menos de duas horas dei a volta à ilha por um estreito caminho onde se cruzam bicicletas e carroças. Durante o trajeto vários homens me perguntaram se não queria comprar erva, uma massagem ou a própria massagista.
Pelo caminho encontrei o hotel mais atrativo dentro do meu orçamento e deixei logo lá a mala. Era composto por várias cabanas de colmo junto à praia em que uma era a recepção e bar, outra um sítio para se estar sentado em almofadas a ler ou conversar e outras os quartos, com camas grandes de docel e mosquiteiro mas pouco espaço à volta. Do outro lado da entrada na cabana uma porta dava acesso à casa de banho que era ao ar livre, forrada a bamboo, tendo a minha uma enorme palmeira no meio. O duche era uma cana de bamboo de onde a água corria para o chão da casa de banho. Muito giro. 
Na praia tinham não só camas para se estar ao sol como algumas mesas e cadeiras à sombra de árvores e uns coloridos pufos que os empregados se apressavam a retirar de cada vez que começava a chover.
Depois de dar a volta à ilha e responder várias vezes que não me queria drogar nem receber massagens fui à procura de um sítio para almoçar, já pelas três e meia da tarde.
Encontrei um restaurante isolado, junto ao mar, com uma pequena loja de roupa ao lado, que pertence a um jamaicano que ali se instalou. Tinha um ambiente giríssimo com boa música e três empregadas muito animadas e divertidas, de maneira que acabei por voltar lá para jantar nesse dia e almoçar no dia seguinte.
Nas duas ultimas refeições elas andavam numa paródia pegada, a rirem muito até que uma delas me contou que a mais velha, dos seus trinta e muitos anos, estava apaixonada por mim. Convidei-a para jantar e ficou excitadíssima mas quando, num restaurante da vila sobre o mar, à luz das velas, caí na asneira de lhe dizer que partia no dia seguinte, já não quis ficar comigo no Hotel. Era mesmo amor.
Deixei Gili Tanwangan no barco da manhã com vontade de lá voltar, como me tem acontecido em tantos sítios. Na outra margem peguei na moto e arranquei para o lado oriental da ilha de Lombok, a caminho do porto onde apanharia o barco que me levar à seguinte, Sumbawa.
Tinham-me recomendado que, antes de partir, não deixasse de visitar uma zona montanhosa da ilha de Lombok com uma beleza invulgar e umas quedas de água espetaculares de maneira que, ficando até no meu caminho, foi para aí que me dirigi.
Quando lá cheguei, depois de subir a montanha com paisagem de floresta exuberante, vi um restaurante com bom aspecto e parei para almoçar. Tinha uma vista espetacular sobre o vale, com o mar ao longe.
Pouco depois entraram duas miúdas inglesas que se sentaram na mesa ao lado da minha e, quando disseram que também vinham visitar as quedas de água, sugeri irmos juntos.
Embora vários guias nos recomendassem que o caminho para a segunda cascata, que seria a mais espetacular, era quase impossível fazer sem acompanhamento, decidimos ir só os três e foi muito divertido. Atravessámos um rio várias vezes por entre pedras e corrente, ao princípio descalços e de calças arregaçadas mas para o fim com  sapatos e calças encharcadas. Pelo meio caí dentro de água, felizmente numa altura em que tinha passado o meu iphone à Laura.
A cascata era sensacional e tomámos os três um enorme banho debaixo da queda de água.

15 de dezembro de 2014

Lombok




Quando regressei a Denpasar vindo de Ubud passei no Hotel do italiano onde tinha ficado antes, a buscar duas malas que lá tinha deixado e no registo em que tinha pedido uma extensão do meu Visto de entrada no país para depois seguir a caminho do barco que me levaria a Lombok, a próxima ilha a caminho de Timor.
O passaporte não estava pronto e quando saí, já perto das três da tarde, achei que dificilmente apanharia um barco nesse dia. De qualquer forma fiz-me à estrada, não sem antes ter parado num excelente restaurante italiano para almoçar a pensar que provavelmente iria enfrentar mais uns dias sem uma refeição decente.
O GPS tem um problema de regulação que tenho estado a tentar resolver mas que ainda me manda muitas vezes dar “a volta ao bilhar grande” antes de chegar ao destino. Desta vez programei-o para me guiar até à vila da doca e ele, felizmente, mandou-me para uma zona montanhosa mais a norte.
Quando fui a Ubud o italiano do Hotel de Bali tinha-me dito que não poderia deixar de visitar um lago fabuloso que existe na cratera de um velho vulcão extinto, ao estilo da nossa “lagoa das sete cidades” nos Açores que é daquelas paisagens que, quando vemos pela primeira vez do alto da montanha, ficamos de boca aberta de espanto pela beleza natural do local.
Pois desta vez o GPS mandou-me para a zona montanhosa junto ao lago Danau Batur. Quando lá cheguei acima, já depois de ter percebido a volta que estava a dar e de ter apanhado mais uma enorme chuvada, com ruas inundadas pelo caminho, vi um letreiro a indicar “Lake View Hotel”. Lembrei-me então da recomendação do italiano e, como já eram quase seis da tarde e estava um nevoeiro que não permitia ver lago nenhum, decidi por ali ficar. O Hotel estava vazio, ao ponto de ter passado aquele final de tarde a jogar “snooker” com a menina da recepção.
No dia seguinte, quando acordei e olhei para a vista pela janela do quarto, conclui que foi uma óptima ideia ter por ali ficado. O Hotel tinha uma situação fabulosa no alto da montanha, com vista deslumbrante sobre o lago. Estava uma manhã linda de sol e tomei o pequeno almoço no terraço superior a regalar os olhos com aquela paisagem fantástica.
Desci depois a serra por uma estrada muito sinuosa mas linda deste interior de Bali, com muita vegetação nas margens e, a certa altura, uma vista espetacular do alto da montanha para a costa com muitas palmeiras e um mar salpicado de pequenas ilhas.
Já no porto um polícia de alfandega perguntou-me onde ia e quando lhe respondi disse: “então talvez fosse boa ideia eu ver os documentos da moto”. É coisa que não me pedem nem nas fronteiras e não fazia ideia onde os tinha metido. O que vale é que quando ele percebeu que eu tinha que abrir e vasculhar várias malas disse: “deixe lá, deixe lá. Pode seguir”.
No barco para Lombok, a próxima ilha a oriente, numa travessia de mais de quatro horas, houve dois rapazes simpáticos que meteram conversa e combinámos que seguiria depois a moto deles para me indicarem um Hotel onde ficar. Pelo caminho pararam numa grande rotunda para se encontrarem com outros amigos, uma situação muito comum aqui. Os miúdos estacionam as “scooters” junto ao passeio central das rotundas e ficam à conversa, sentados nas rotundas. Quando não são rotundas são pontes. Sempre que há uma ponte sobre um qualquer rio vemos várias “scooters”, quando não são dezenas, estacionadas com miúdos à conversa.
Um dos rapazes pediu a um amigo para ir comprar à esquina umas maçarocas de milho e uma bebida à base de leite de coco misturado com um pouco de limão, leite e açúcar, que eles servem em pequenos sacos de plástico com gelo. Corta-se um canto do saco de plástico e bebemos por ali. Foi aquele o meu almoço e estava óptimo.
Estes rapazes recomendaram-me visitar uma pequena ilha próxima, Gili Trawangan que segundo eles era uma “free Island”.
- “O que querem dizer com isso de free Island”?
- “É uma ilha em que não há polícia e por isso pode-se fumar erva ou cheirar coca à vontade que ninguém diz nada. Cada um faz o que quer mas funciona tudo muito bem e não há crime porque é uma comunidade pequena e, se alguém se porta mal é simplesmente corrido da ilha. Não há veículos motorizados e só se pode circular de bicicleta ou a cavalo”.
Achei graça e no dia seguinte fui à procura de um barco que me levasse a Gili Trawangan.

13 de dezembro de 2014

Bali




A ilha de Bali, para quem está à espera de praias paradisíacas desilude bastante. É uma ilha vulcânica e por isso as praias são de areia escura, pouco atrativa. A que chamam “double six” perto do pequeno Hotel onde fiquei e onde fui no dia em que cheguei, era grande em extensão mas de areia dura e escura. Ao fim da tarde enchia-se de locais a jogarem futebol e os bares, frequentados por bifalhada de classe media tinham música ao vivo de fraca qualidade. Uma chungaria pouco atrativa.
A capital, Denpasar, é de ruas estreitas muito movimentadas com milhares de “scooters” e carros a provocarem enormes engarrafamentos pelo meio de muitas lojas e restaurantes virados para estes turistas do tipo que vemos em Albufeira no verão.
A situação melhora muito na parte sul da ilha. Aqui, uma pequena ilha que não tinha origem vulcânica foi ligada à principal através de um istmo. Esta zona, muito mais calma, já tem praias de areia clara, embora poucas. Curiosamente, sendo de longe as melhores praias de Bali, têm pouca gente e pessoas com muito melhor aspecto. Muitos deles são miúdos que vêm para o surf e de facto o local é um verdadeiro paraíso de surf.
Uma das praias a que fui formava uma esquerda de dois metros que parecia feita de propósito, com os bons surfistas a fazerem tubos fabulosos.
Depois, para além das praias há vários “spots” de surf onde não existe areia mas apenas rochas só que no mar as rochas que se estendem mar dentro provocam ondas ideais para o surf. Assim amontoam-se estas centenas de praticantes que andam de “spot” em “spot” nas suas “scooters” equipadas com um suporte lateral para as pranchas. É um ambiente giro.
Outra praia que visitei tinha umas cabanas em colmo  na areia que eram restaurantes e locais onde alugavam pranchas com um ar muito “tropical cool”.
Isto, sim, é o que eu verdadeiramente esperava de Bali. Mas resume-se a três ou quatro praias.
O que mais me encantou acabou por ser o interior da ilha, principalmente uma vila também turística mas com muito melhor ambiente que a capital. Chama-se Ubud e tem restaurantes e lojas com bom aspecto, templos Hindus, uma “Monkey Forest”, cheia de macacos e campos de arroz nos arredores. Muita vegetação formando uma paisagem natural deslumbrante que se encaixa bem nos templos e Palácio do antigo Sultão. Não há gente a mais e o ambiente é giro.
Um museu particular, com quadros pouco interessantes, alberga uma impressionante coleção de espadas e punhais.
Talvez a única vantagem de visitar estes locais mais turísticos é a qualidade dos Hoteis e restaurantes. Em Bali consegui comer um excelente bife, o que não me acontecia desde que saí de Portugal, há mais de dois meses.
Fiquei quatro dias num pequeno Hotel que tinha um quarto óptimo e limpo, com uma decoração simples mas gira e a particularidade de a casa de banho, bem arranjada, ser enorme e ao ar livre. Ou seja, a parte do duche e banheira não tinham teto. Já tinha tomado muitas vezes duche ao ar livre mas agora foi a primeira vez que tomei um duche à chuva, ou seja, um chuveiro quase do tamanho da casa de banho.
O Hotel pertencia a um simpático italiano casado com uma indonésia que, no dia em que tinha lá dois amigos também italianos a jantar me convidou. Fez uma esparguetada do melhor e acabámos a noite a provar uma aguardente Balinense que ele dizia tem causado muitos problemas na ilha por haver gente a morrer depois de beberem a que é mal feita mas aquela era de confiança, segundo ele, fabricada por uns amigos especialistas do Norte da ilha. Pelo menos no dia seguinte estávamos os quatro vivos e de boa saúde.
Este hotel tem à porta uma lavandaria que é explorada pelo mesmo casal com duas empregadas que, de cada vez que me viam sair na moto me faziam milhares de recomendações, visivelmente preocupadas em verem o que consideravam um velho maluco numa moto com tamanho desadequado à capacidade física do condutor. Eu dizia-lhes sempre que sim e mais também e lá seguia viagem.
No outro dia, estavam as duas e a patroa à porta quando saí e me fizeram as recomendações habituais, quais mães preocupadas.
Quando vou a arrancar, enquanto lhes respondia automaticamente que não havia qualquer problema, distraí-me, passei com a roda da frente por cima de uma grande pedra, desequilibrei-me e ... “catrapum”, moto no chão. Elas vieram as três a correr ajudar-me a levantar a moto e pude ler na cara das três: “como é que este tótó chegou até aqui, não nos entra na cabeça”.