17 de dezembro de 2014

Gili Travangan




Saí da capital de Lombok, Mataram, pelas onze da manhã e parti para Norte junto à costa, na direção onde eles me tinham indicado que ficava este grupo de três pequenas ilhas. O passeio é lindo porque aquela zona da costa forma várias pequenas baías com praias entaladas entre o mar e o palmeiral.
Quando vi as ilhas no horizonte e um pequeno porto de mar parei para perguntar se havia quem me levasse às ilhas. Pescadores que tratavam das redes responderam que sim mas pediram-me o equivalente a 30 euros que achei um exagero. Disseram-me então que, meia dúzia de quilómetros à frente, havia barcos que transportavam mais pessoas regularmente. Parti para o porto que me indicaram onde constatei que até tinham um armazém para se guardarem as muitas motos de quem ia para as ilhas trabalhar.
Embarquei num “speed boat”, com três motores de 200 cv. e outros tantos clientes e em dez minutos estávamos a desembarcar em Gili Travangan.
“Transport, sir, transport? where are you staying”?
Pequenas carroças puxadas por um cavalo esperam pelos turistas no porto para os levar aos hotéis. Eu não tinha nada marcado e preferi alugar uma bicicleta com um porta bagagens onde coloquei a pequena mala que trazia e fui explorar a zona.
Em menos de duas horas dei a volta à ilha por um estreito caminho onde se cruzam bicicletas e carroças. Durante o trajeto vários homens me perguntaram se não queria comprar erva, uma massagem ou a própria massagista.
Pelo caminho encontrei o hotel mais atrativo dentro do meu orçamento e deixei logo lá a mala. Era composto por várias cabanas de colmo junto à praia em que uma era a recepção e bar, outra um sítio para se estar sentado em almofadas a ler ou conversar e outras os quartos, com camas grandes de docel e mosquiteiro mas pouco espaço à volta. Do outro lado da entrada na cabana uma porta dava acesso à casa de banho que era ao ar livre, forrada a bamboo, tendo a minha uma enorme palmeira no meio. O duche era uma cana de bamboo de onde a água corria para o chão da casa de banho. Muito giro. 
Na praia tinham não só camas para se estar ao sol como algumas mesas e cadeiras à sombra de árvores e uns coloridos pufos que os empregados se apressavam a retirar de cada vez que começava a chover.
Depois de dar a volta à ilha e responder várias vezes que não me queria drogar nem receber massagens fui à procura de um sítio para almoçar, já pelas três e meia da tarde.
Encontrei um restaurante isolado, junto ao mar, com uma pequena loja de roupa ao lado, que pertence a um jamaicano que ali se instalou. Tinha um ambiente giríssimo com boa música e três empregadas muito animadas e divertidas, de maneira que acabei por voltar lá para jantar nesse dia e almoçar no dia seguinte.
Nas duas ultimas refeições elas andavam numa paródia pegada, a rirem muito até que uma delas me contou que a mais velha, dos seus trinta e muitos anos, estava apaixonada por mim. Convidei-a para jantar e ficou excitadíssima mas quando, num restaurante da vila sobre o mar, à luz das velas, caí na asneira de lhe dizer que partia no dia seguinte, já não quis ficar comigo no Hotel. Era mesmo amor.
Deixei Gili Tanwangan no barco da manhã com vontade de lá voltar, como me tem acontecido em tantos sítios. Na outra margem peguei na moto e arranquei para o lado oriental da ilha de Lombok, a caminho do porto onde apanharia o barco que me levar à seguinte, Sumbawa.
Tinham-me recomendado que, antes de partir, não deixasse de visitar uma zona montanhosa da ilha de Lombok com uma beleza invulgar e umas quedas de água espetaculares de maneira que, ficando até no meu caminho, foi para aí que me dirigi.
Quando lá cheguei, depois de subir a montanha com paisagem de floresta exuberante, vi um restaurante com bom aspecto e parei para almoçar. Tinha uma vista espetacular sobre o vale, com o mar ao longe.
Pouco depois entraram duas miúdas inglesas que se sentaram na mesa ao lado da minha e, quando disseram que também vinham visitar as quedas de água, sugeri irmos juntos.
Embora vários guias nos recomendassem que o caminho para a segunda cascata, que seria a mais espetacular, era quase impossível fazer sem acompanhamento, decidimos ir só os três e foi muito divertido. Atravessámos um rio várias vezes por entre pedras e corrente, ao princípio descalços e de calças arregaçadas mas para o fim com  sapatos e calças encharcadas. Pelo meio caí dentro de água, felizmente numa altura em que tinha passado o meu iphone à Laura.
A cascata era sensacional e tomámos os três um enorme banho debaixo da queda de água.

15 de dezembro de 2014

Lombok




Quando regressei a Denpasar vindo de Ubud passei no Hotel do italiano onde tinha ficado antes, a buscar duas malas que lá tinha deixado e no registo em que tinha pedido uma extensão do meu Visto de entrada no país para depois seguir a caminho do barco que me levaria a Lombok, a próxima ilha a caminho de Timor.
O passaporte não estava pronto e quando saí, já perto das três da tarde, achei que dificilmente apanharia um barco nesse dia. De qualquer forma fiz-me à estrada, não sem antes ter parado num excelente restaurante italiano para almoçar a pensar que provavelmente iria enfrentar mais uns dias sem uma refeição decente.
O GPS tem um problema de regulação que tenho estado a tentar resolver mas que ainda me manda muitas vezes dar “a volta ao bilhar grande” antes de chegar ao destino. Desta vez programei-o para me guiar até à vila da doca e ele, felizmente, mandou-me para uma zona montanhosa mais a norte.
Quando fui a Ubud o italiano do Hotel de Bali tinha-me dito que não poderia deixar de visitar um lago fabuloso que existe na cratera de um velho vulcão extinto, ao estilo da nossa “lagoa das sete cidades” nos Açores que é daquelas paisagens que, quando vemos pela primeira vez do alto da montanha, ficamos de boca aberta de espanto pela beleza natural do local.
Pois desta vez o GPS mandou-me para a zona montanhosa junto ao lago Danau Batur. Quando lá cheguei acima, já depois de ter percebido a volta que estava a dar e de ter apanhado mais uma enorme chuvada, com ruas inundadas pelo caminho, vi um letreiro a indicar “Lake View Hotel”. Lembrei-me então da recomendação do italiano e, como já eram quase seis da tarde e estava um nevoeiro que não permitia ver lago nenhum, decidi por ali ficar. O Hotel estava vazio, ao ponto de ter passado aquele final de tarde a jogar “snooker” com a menina da recepção.
No dia seguinte, quando acordei e olhei para a vista pela janela do quarto, conclui que foi uma óptima ideia ter por ali ficado. O Hotel tinha uma situação fabulosa no alto da montanha, com vista deslumbrante sobre o lago. Estava uma manhã linda de sol e tomei o pequeno almoço no terraço superior a regalar os olhos com aquela paisagem fantástica.
Desci depois a serra por uma estrada muito sinuosa mas linda deste interior de Bali, com muita vegetação nas margens e, a certa altura, uma vista espetacular do alto da montanha para a costa com muitas palmeiras e um mar salpicado de pequenas ilhas.
Já no porto um polícia de alfandega perguntou-me onde ia e quando lhe respondi disse: “então talvez fosse boa ideia eu ver os documentos da moto”. É coisa que não me pedem nem nas fronteiras e não fazia ideia onde os tinha metido. O que vale é que quando ele percebeu que eu tinha que abrir e vasculhar várias malas disse: “deixe lá, deixe lá. Pode seguir”.
No barco para Lombok, a próxima ilha a oriente, numa travessia de mais de quatro horas, houve dois rapazes simpáticos que meteram conversa e combinámos que seguiria depois a moto deles para me indicarem um Hotel onde ficar. Pelo caminho pararam numa grande rotunda para se encontrarem com outros amigos, uma situação muito comum aqui. Os miúdos estacionam as “scooters” junto ao passeio central das rotundas e ficam à conversa, sentados nas rotundas. Quando não são rotundas são pontes. Sempre que há uma ponte sobre um qualquer rio vemos várias “scooters”, quando não são dezenas, estacionadas com miúdos à conversa.
Um dos rapazes pediu a um amigo para ir comprar à esquina umas maçarocas de milho e uma bebida à base de leite de coco misturado com um pouco de limão, leite e açúcar, que eles servem em pequenos sacos de plástico com gelo. Corta-se um canto do saco de plástico e bebemos por ali. Foi aquele o meu almoço e estava óptimo.
Estes rapazes recomendaram-me visitar uma pequena ilha próxima, Gili Trawangan que segundo eles era uma “free Island”.
- “O que querem dizer com isso de free Island”?
- “É uma ilha em que não há polícia e por isso pode-se fumar erva ou cheirar coca à vontade que ninguém diz nada. Cada um faz o que quer mas funciona tudo muito bem e não há crime porque é uma comunidade pequena e, se alguém se porta mal é simplesmente corrido da ilha. Não há veículos motorizados e só se pode circular de bicicleta ou a cavalo”.
Achei graça e no dia seguinte fui à procura de um barco que me levasse a Gili Trawangan.

13 de dezembro de 2014

Bali




A ilha de Bali, para quem está à espera de praias paradisíacas desilude bastante. É uma ilha vulcânica e por isso as praias são de areia escura, pouco atrativa. A que chamam “double six” perto do pequeno Hotel onde fiquei e onde fui no dia em que cheguei, era grande em extensão mas de areia dura e escura. Ao fim da tarde enchia-se de locais a jogarem futebol e os bares, frequentados por bifalhada de classe media tinham música ao vivo de fraca qualidade. Uma chungaria pouco atrativa.
A capital, Denpasar, é de ruas estreitas muito movimentadas com milhares de “scooters” e carros a provocarem enormes engarrafamentos pelo meio de muitas lojas e restaurantes virados para estes turistas do tipo que vemos em Albufeira no verão.
A situação melhora muito na parte sul da ilha. Aqui, uma pequena ilha que não tinha origem vulcânica foi ligada à principal através de um istmo. Esta zona, muito mais calma, já tem praias de areia clara, embora poucas. Curiosamente, sendo de longe as melhores praias de Bali, têm pouca gente e pessoas com muito melhor aspecto. Muitos deles são miúdos que vêm para o surf e de facto o local é um verdadeiro paraíso de surf.
Uma das praias a que fui formava uma esquerda de dois metros que parecia feita de propósito, com os bons surfistas a fazerem tubos fabulosos.
Depois, para além das praias há vários “spots” de surf onde não existe areia mas apenas rochas só que no mar as rochas que se estendem mar dentro provocam ondas ideais para o surf. Assim amontoam-se estas centenas de praticantes que andam de “spot” em “spot” nas suas “scooters” equipadas com um suporte lateral para as pranchas. É um ambiente giro.
Outra praia que visitei tinha umas cabanas em colmo  na areia que eram restaurantes e locais onde alugavam pranchas com um ar muito “tropical cool”.
Isto, sim, é o que eu verdadeiramente esperava de Bali. Mas resume-se a três ou quatro praias.
O que mais me encantou acabou por ser o interior da ilha, principalmente uma vila também turística mas com muito melhor ambiente que a capital. Chama-se Ubud e tem restaurantes e lojas com bom aspecto, templos Hindus, uma “Monkey Forest”, cheia de macacos e campos de arroz nos arredores. Muita vegetação formando uma paisagem natural deslumbrante que se encaixa bem nos templos e Palácio do antigo Sultão. Não há gente a mais e o ambiente é giro.
Um museu particular, com quadros pouco interessantes, alberga uma impressionante coleção de espadas e punhais.
Talvez a única vantagem de visitar estes locais mais turísticos é a qualidade dos Hoteis e restaurantes. Em Bali consegui comer um excelente bife, o que não me acontecia desde que saí de Portugal, há mais de dois meses.
Fiquei quatro dias num pequeno Hotel que tinha um quarto óptimo e limpo, com uma decoração simples mas gira e a particularidade de a casa de banho, bem arranjada, ser enorme e ao ar livre. Ou seja, a parte do duche e banheira não tinham teto. Já tinha tomado muitas vezes duche ao ar livre mas agora foi a primeira vez que tomei um duche à chuva, ou seja, um chuveiro quase do tamanho da casa de banho.
O Hotel pertencia a um simpático italiano casado com uma indonésia que, no dia em que tinha lá dois amigos também italianos a jantar me convidou. Fez uma esparguetada do melhor e acabámos a noite a provar uma aguardente Balinense que ele dizia tem causado muitos problemas na ilha por haver gente a morrer depois de beberem a que é mal feita mas aquela era de confiança, segundo ele, fabricada por uns amigos especialistas do Norte da ilha. Pelo menos no dia seguinte estávamos os quatro vivos e de boa saúde.
Este hotel tem à porta uma lavandaria que é explorada pelo mesmo casal com duas empregadas que, de cada vez que me viam sair na moto me faziam milhares de recomendações, visivelmente preocupadas em verem o que consideravam um velho maluco numa moto com tamanho desadequado à capacidade física do condutor. Eu dizia-lhes sempre que sim e mais também e lá seguia viagem.
No outro dia, estavam as duas e a patroa à porta quando saí e me fizeram as recomendações habituais, quais mães preocupadas.
Quando vou a arrancar, enquanto lhes respondia automaticamente que não havia qualquer problema, distraí-me, passei com a roda da frente por cima de uma grande pedra, desequilibrei-me e ... “catrapum”, moto no chão. Elas vieram as três a correr ajudar-me a levantar a moto e pude ler na cara das três: “como é que este tótó chegou até aqui, não nos entra na cabeça”.

11 de dezembro de 2014

Lumajang



Depois do dia passado de volta do vulcão, com todas as peripécias para lá chegar, fiquei numa pequena cidade de província, no que parecia ser o único hotel na vizinhança. A menina da recepção ficou radiante por ver chegar um cliente e quando voltei para lhe pedir uma toalha e um sabonete desfez-se em desculpas dando mesmo a sensação que não tinham um cliente faz tempo. Perguntei-lhe se tinham restaurante e voltou a rir-se muito para me dizer que não.
Onde posso encontrar um restaurante para jantar?
Não há
Não há um restaurante na cidade?
Não.
Recorri à internet.
No “Booking” anunciavam um único restaurante em Lumajang e sugeriam que fosse o primeiro a deixar um comentário no site deles sobre o estabelecimento.
Perguntei onde era o Warung Apung.
Ah, sim. Pois é. Há esse. Fica a uns três ou quarto quilómetros de aqui.
Fui até lá. Estava desarrumado. Parecia ter havido ali uma festa qualquer no dia anterior e ainda não tinham posto a casa em ordem. Havia muitos insectos a passearem por chão e paredes. Pedi a ementa. Vinha, obviamente só em Indonésio mas tinha algumas fotografias. Olhei para a que tinha melhor aspecto e tentei que me explicassem o que era mas nenhum dos empregados falava uma palavra de Inglês. Fizeram-me sinal que era uma boa escolha. Em menos de cinco minutos, como é costume nestes países asiáticos, trouxeram-me um prato que tinha lulas e legumes. Estava intragável com as lulas mais duras que uma borracha escolar mas, com um almoço que se tinha resumido a quatro pequenas bananas não tive outro remédio senão come-las sem me queixar.
No dia seguinte parti a caminho do “ferry” que me levaria a Bali. A estrada, com muitas partes de montanha, continua muito movimentada até porque esta é a única via que os camiões utilizam para abastecer as ilhas para oriente de Java com produtos que vêm da capital e do seu porto marítimo. Os camiões aqui são relativamente pequenos, para poderem circular nestas estreitas estradas e portanto têm que ser em quantidade. Como Java é a região do planeta com mais densidade populacional e deve existir uma “scooter” por família, imaginem a confusão.
Tinha ideia que Bali era uma ilha relativamente pequena, com cerca de 30 ou 40 Km de comprimento mas, mal saí do barco vi um sinal que tirou as minhas dúvidas. Indicava a distancia para Denpasar, a capital da ilha: 128 Km
Ao ritmo de para arranca a que se circula aqui isso representam três horas de caminho de maneira que, pelas seis da tarde, quando ficou noite, tratei de procurar um Hotel onde ficar.  Encontrei um que era um centro de yoga e fui recebido por uma senhora que falava muito devagar e transmitia uma calma que condizia com o espaço, bem decorado, em colmo e palha e com estátuas Hindus e Budistas. Muitas vezes as duas religiões misturam-se um pouco. O quarto, também em madeira forrada a palhinha, com o teto esconso e cama com docel coberta por uma rede mosquiteira, tinha a casa de banho ao ar livre e as próprias paredes não chegavam até cima, fazendo-nos entrar no ambiente da floresta que o rodeava, com os barulhos de pássaros e macacos que já tinha visto na beira da estrada pouco depois de desembarcar.
Outro pormenor que nos salta à vista é que em Bali voltamos a ver cães vadios, animais que não existem normalmente em países muçulmanos mas que havia em quantidade na Tailândia. Embora a Indonésia seja um país maioritariamente muçulmano, Bali é um caso à parte, com a maioria da população a ser Hindu.

8 de dezembro de 2014

Mount Bromo




Dia difícil mas sensacional.
Felizmente acordei cedo e saí do Hotel em Malang ainda antes das nove. A ideia para o dia era visitar um vulcão a cerca de 50 Km da cidade e depois seguir até Lumajang, a caminho de Bali. O Mount Bromo esteve em erupção há três anos e continua a fumegar.
Comecei por subir uma estreita estrada de montanha até à entrada da zona de reserva natural onde se situa o vulcão. Um dos guardas, com ar de pouco convencido, perguntou se eu pretendia ir até à zona do vulcão com aquela moto. “Sim. Porque não?”
“Humm. Não me parece”.
Uns quilómetros mais à frente nova paragem junto a uma cabana de outros guardas.
“Acho que não vai conseguir passar com essa moto”
“Mas vejo jipes a passarem para baixo”
“Sim, os jipes passam”
“Então esta também haverá de passar”
Descarreguei as malas junto à cabana e arranquei por uma estreita estrada de terra em muito mau estado que descia até um árido planalto. Até aqui tudo bem e esta era a parte que eles achavam que eu dificilmente conseguiria passar com a “Cross Tourer”.
Lá em baixo o trajeto a caminho do vulcão era por umas pistas em areia vulcânica onde a “Cross Tourer” começou a escorregar muito mas lá ia andando. Estes pneus que montei em Singapura já vi que são excelentes em estrada seca ou molhada e bons em mau piso duro mas em lama ou areia têm muito pouca aderência.
Fui andando devagar pela pista de areia marcada  com fitas, como no TT, até que comecei a apanhar muita areia solta. Aí a frente ficou muito difícil de controlar e acabei por cair contra um barranco. A moto, encostada ao barranco, não ficou completamente deitada mas tinha uma inclinação suficiente para eu não a conseguir levantar sozinho. Sem ninguém por perto desliguei a ignição e limitei-me a esperar, até que, passados uns dez minutos, apareceu um homem de pano aos quadrados enrolado à volta da cara e cabeça que parecia tirado do Sahara só que aqui, em vez de vir montado num camelo vinha numa “scooter” que, sem qualquer problema, atravessava a zona de areia. O “leão do deserto”, que trazia um carregamento de ervas na traseira, lá me ajudou a levantar a moto e avisou que mais à frente o piso estava pior de maneira que decidi voltar para trás, até porque se começasse a chover teria muita dificuldade em enfrentar a ultima subida muito esburacada. De volta à base onde tinha as malas contratei então o meu salvador para me levar à pendura da “scooter” ver o vulcão. E assim foi. Percorremos os dois na “scooter” aquela meia dúzia de quilómetros através de um deserto de areia de lava até à base do vulcão onde a muita areia solta não deixava nem a “scooter” passar.
Aluguei então um cavalo a um homem que por ali estava com o qual fui até cerca de cem metros do topo. Aí, uns degraus cavados na montanha permitem-nos chegar à orla da cratera. É de facto impressionante. Embora sem atividade o vulcão continua a libertar um fumo intoxicante com um forte cheiro a enxofre que não nos deixa estar ali muito tempo. Apenas o necessário para fazer um pequeno filme e tirar meia dúzia de fotografias.
Pelos mesmos meios voltei à “Cross Tourer” e parti então em direção à cidade de Lumajang. O trajeto é maioritariamente pela principal estrada que atravessa a ilha de Java de Ocidente para Oriente que tem apenas uma faixa para cada lado, com um alcatrão razoável mas em alguns locais muito remendado e com muito transito, aqui já de bastantes camiões e milhares de pequenas motos e “scooters”.
As estradas na Indonésia são muito ao estilo do que eram as portuguesas nos anos sessenta. Nesta zona era particularmente sinuosa, quase toda feita entre segunda e quarta velocidades.

1 de dezembro de 2014

Yogyakarta




Quando deixei a cidade, passei no famoso Prambanan Temple, que fica uns 18 Km para oriente, na direção em que depois pretendia seguir. Só que, para apanhar a estrada principal à saída do Templo o GPS, como muita vez o faz, obrigou-me a dar voltas e voltinhas por estreitas ruas secundárias, muitas delas cheias de transito, de maneira que me atrasei bastante. Da parte da tarde apanhei depois uma fantástica estrada através da montanha que, felizmente, não tinha muito transito e deu-me imenso gozo o passeio que variava entre bom e mau piso e estradas mais ou menos sinuosas. Voltava a utilizar a sexta velocidade que até ali tinha engrenado apenas uma meia dúzia de vezes desde que entrara no país, tal é o congestionamento usual das estradas na Indonésia, principalmente nesta ilha de Java.
Só que, quando circulava em sexta a uns 110 Km/h apanhei uma lomba inesperada, a moto levantou voo e quando aterrou a mala do lado esquerdo, que tem um dos apoios partidos desde os desastres na Índia, saltou fora e foi a arrastar umas boas dezenas de metros pelo alcatrão. Felizmente não se estragou mais do que estava. Voltei a colocá-la no sítio a arranquei. O passeio estava maravilhoso mas começou a anoitecer e não me aparecia um hotel à frente. Também não tinha comido mais nada depois do pequeno almoço porque aqui, ao contrário da maioria dos países, não se encontram bancas de fruta na estrada.
Procurei numa cidade um pouco maior por onde passei mas o único hotel ainda estava em construção. No GPS indicava o mais próximo a cerca de 30 Km de maneira que fui à procura desse já noite dentro. O problema foi que o trajeto  era uma sinuosa estrada de montanha onde a chuva tinha arrastado lama para o alcatrão e, para piorar a situação, a chuva regressava. Percorri estes 30 Km com noite cerrada e muita escorregadela na lama, mesmo a baixa velocidade.
Por fim lá cheguei a um Hotel de fraca qualidade mas que tinha um duche quente e uma galinha com massa para o jantar que até nem estava nada má. No supermercado do outro lado da rua encontrei um gelado para sobremesa.
Nesta zona central da ilha de Java há muito pouco turismo e é raro encontrar quem fale inglês. Neste hotel de província ninguém “arranhava” sequer de maneira que, para o pequeno almoço do dia seguinte, depois de verificar que não tinham pão, tive que me contentar com o que me deram, ou seja um caldo de carne com bocados de carne dentro e batatas fritas de pacote partidas, a boiarem.
Arranquei depois pela mesma estrada secundaria que ali me tinha levado e que, em algumas zonas, passava junto à costa. O estado do piso variava bastante ao longo do percurso mas de um modo geral era uma estrada que deu gozo fazer e tinha uma bonita paisagem à volta. Às tantas, do alto da montanha, vi uma praia lá em baixo. Dei lá um salto. Estava deserta e a manhã de sol linda de maneira que aproveitei para tomar um banho nu. Quando voltava à estrada encontrei um sinal que indicava uma reserva de tartarugas e dei lá um salto. Um homem informou-me que as recolhiam em pequenas para as entregarem ao mar em adultas mas só vi cerca de uma dúzia de bebés tartaruga e três animais já com uns 50 cm de comprimento.
Pelas três da tarde parei junto a um homem com uma banca de estrada que vendia uns frutos do tamanho de ananases pequenos mas em que a casca é de picos. Pedi para me abrir um e comi aqueles bocados de polpa com caroços no meio que odiei mas serviram de almoço. Apanhei depois a minha dose diária de chuvada forte e, pelas cinco da tarde, cheguei a Malang, uma cidade agradável por conservar uma temperatura mais moderada, influenciada por ventos marítimos e outros vindos das altas montanhas dos arredores e com um centro onde os jardins públicos estão bem tratados.
Na manhã seguinte fui visitar um mercado de pássaros onde, curiosamente, tingem os pintos de várias cores, para os tornarem mais atraentes, calculo, e um outro de flores. Dei uma volta pela cidade, almocei no Toko Oen ao som do Frank Sinatra e vim beber um café a um Hotel onde tinha ontem vindo jantar, vizinho daquele onde estou instalado e que tem uma decoração fantástica com peças antigas fabulosas. O Tugu Hotel é mesmo considerado por alguns guias turísticos como o principal museu da cidade. Adorei o Hotel e embora estivesse fora do meu orçamento para lá ficar instalado, voltei a jantar lá.

28 de novembro de 2014

Dieng Plateau




Preocupada com a minha saúde a minha filha tinha-me mandado uma mensagem a dizer que se eu não fosse imediatamente a um medico me vinha cá buscar por uma orelha.
Assim, antes de deixar Purwokerto procurei no GPS uma farmácia e dei lá um salto. Sentia-me bastante melhor embora ainda tivesse a garganta inflamada.
O que eles chamam farmácia é um mini Mercado onde também vendem alguns remédios mas fiquei com a sensação que a maioria da população ainda se trata por métodos tradicionais ancestrais.
Quando com dificuldade expliquei à menina da farmácia, que não falava uma palavra de inglês, que me doía a garganta recomendou-me uma embalagem de um liquido espesso, embalado num saco de papel, tipo shampoo de hotel barato, verde e com sabor a hortelã. Segui as recomendações da menina, bebendo aquilo junto com um pouco de água e realmente penso que me fez bem.
Arranquei depois a caminho de Dieng Plateau, um planalto que fica a 2000 metros de altura e a 150 Km de ali. Parei para almoçar quando começou a chover com mais intensidade, num “self service” onde a única coisa que consegui escolher foi arroz branco e uma carne estofada não sei bem de que animal mas que estava ainda dentro do taxo com água a ferver. Por cima da vitrine com os vários pratos expostos, compostos na sua maioria por fritos de proveniência duvidosa, estavam vários cartões destes que atraem as moscas e elas ficam lá agarradas, carregados de vítimas.
Cheguei a Dieng Plateau com os últimos 40 Km através de uma fantástica estrada de montanha rodeada de densa vegetação e instalei-me num dos hoteis de fraca qualidade aqui existentes, pelas quatro da tarde.
Quando estava a tirar a mala da moto apareceram dois irmãos suíços, dos seus 30 anos, chegados em duas “scooters” alugadas em Yogyakarta, a cidade que previa visitar no dia seguinte. Estivemos um bocado à conversa e acabámos depois por ir jantar juntos. O mais velho vive na Indonésia há quatro anos, tendo por cá casado e aberto um restaurante.
Na manhã seguinte acordei relativamente cedo e fui visitar as atrações de Dieng Plateau, duas crateras de vulcão, perto uma da outra mas totalmente distintas. Uma está extinta e alberga um grande lago com uma água azul turquesa que dá uma boa imagem enquanto a outra tem alguma atividade com água a borbulhar e muito fumo a sair da cratera, obrigando-nos a utilizar máscaras de papel para nos aproximarmos do local.
Desci depois do planalto por uma estreita e movimentada estrada com muita inclinação, que nos leva a baixar dos 2000 metros para pouco mais de 100 em poucas dezenas de quilómetros e apanhei a seguir uma estrada linda, com muita vegetação dos dois lados que me levou até perto de Borobudur.
Parei para visitar o fantástico templo budista e fui ficar a Yogyakarta, 40 Km depois.
No dia seguinte voltei a fazer de turista e visitei o Palácio do Sultão onde apenas podemos ver a parte não habitada pois o atual  Sultão, cuja posição é hereditária, embora só possa passar para filhos varões, ainda governa a cidade e vive no Palácio, com uma grande família que inclui não só mulher e filhos (já não podem ser polígamos, coitados) mas também irmãos, cunhados e sobrinhos, num total de mais de cem pessoas. O que já não é utilizado pela família são os banhos, uma zona com duas piscinas e vários outros espaços que agora está aberta a visitas do publico e tem a curiosidade de ter sido restaurada há dez anos com um subsídio da Fundação Gulbenkian.
O guia que me mostrou o Palácio do Sultão falou-me, a meu pedido, um pouco mais sobre a situação religiosa na Indonésia. O país, disse-me ele, não tem uma religião oficial mas a maioria da população é muçulmana, tal como os membros do governo. Existe uma certa liberdade religiosa mas nem todas as religiões são aceites. São-no algumas facções do Cristianismo, e a mulher dele era católica, sendo ele muçulmano, assim como o Budismo e o Hinduísmo.
Na prática nunca vi tanta atividade nas mesquitas como aqui. Talvez para se afirmarem em relação às outras religiões chamam para as rezas matinais através dos seus altifalantes por volta das quatro da manhã, cerca de uma hora antes do nascer do sol, numa “conversa” que dura cerca de 15 minutos e que faz com que toda a vizinhança acorde, como me tem acontecido sempre que o Hotel onde fico é perto de uma das muitas mesquitas. O processo repete-se à hora do almoço e com o pôr do sol, o que se torna uma imposição quase insuportável para os não muçulmanos. O meu amigo suíço foi obrigado a mudar da primeira casa onde se tinha instalado porque a filha pequena também acordava e se assustava com a chamada para as rezas de uma mesquita vizinha.
Assisti ao mesmo problema no sul da Tailândia, região onde a maioria da população é Muçulmana, e é interessante verificar como a calma dos Budistas os leva a aceitarem a situação sem se queixarem.