8 de dezembro de 2014

Mount Bromo




Dia difícil mas sensacional.
Felizmente acordei cedo e saí do Hotel em Malang ainda antes das nove. A ideia para o dia era visitar um vulcão a cerca de 50 Km da cidade e depois seguir até Lumajang, a caminho de Bali. O Mount Bromo esteve em erupção há três anos e continua a fumegar.
Comecei por subir uma estreita estrada de montanha até à entrada da zona de reserva natural onde se situa o vulcão. Um dos guardas, com ar de pouco convencido, perguntou se eu pretendia ir até à zona do vulcão com aquela moto. “Sim. Porque não?”
“Humm. Não me parece”.
Uns quilómetros mais à frente nova paragem junto a uma cabana de outros guardas.
“Acho que não vai conseguir passar com essa moto”
“Mas vejo jipes a passarem para baixo”
“Sim, os jipes passam”
“Então esta também haverá de passar”
Descarreguei as malas junto à cabana e arranquei por uma estreita estrada de terra em muito mau estado que descia até um árido planalto. Até aqui tudo bem e esta era a parte que eles achavam que eu dificilmente conseguiria passar com a “Cross Tourer”.
Lá em baixo o trajeto a caminho do vulcão era por umas pistas em areia vulcânica onde a “Cross Tourer” começou a escorregar muito mas lá ia andando. Estes pneus que montei em Singapura já vi que são excelentes em estrada seca ou molhada e bons em mau piso duro mas em lama ou areia têm muito pouca aderência.
Fui andando devagar pela pista de areia marcada  com fitas, como no TT, até que comecei a apanhar muita areia solta. Aí a frente ficou muito difícil de controlar e acabei por cair contra um barranco. A moto, encostada ao barranco, não ficou completamente deitada mas tinha uma inclinação suficiente para eu não a conseguir levantar sozinho. Sem ninguém por perto desliguei a ignição e limitei-me a esperar, até que, passados uns dez minutos, apareceu um homem de pano aos quadrados enrolado à volta da cara e cabeça que parecia tirado do Sahara só que aqui, em vez de vir montado num camelo vinha numa “scooter” que, sem qualquer problema, atravessava a zona de areia. O “leão do deserto”, que trazia um carregamento de ervas na traseira, lá me ajudou a levantar a moto e avisou que mais à frente o piso estava pior de maneira que decidi voltar para trás, até porque se começasse a chover teria muita dificuldade em enfrentar a ultima subida muito esburacada. De volta à base onde tinha as malas contratei então o meu salvador para me levar à pendura da “scooter” ver o vulcão. E assim foi. Percorremos os dois na “scooter” aquela meia dúzia de quilómetros através de um deserto de areia de lava até à base do vulcão onde a muita areia solta não deixava nem a “scooter” passar.
Aluguei então um cavalo a um homem que por ali estava com o qual fui até cerca de cem metros do topo. Aí, uns degraus cavados na montanha permitem-nos chegar à orla da cratera. É de facto impressionante. Embora sem atividade o vulcão continua a libertar um fumo intoxicante com um forte cheiro a enxofre que não nos deixa estar ali muito tempo. Apenas o necessário para fazer um pequeno filme e tirar meia dúzia de fotografias.
Pelos mesmos meios voltei à “Cross Tourer” e parti então em direção à cidade de Lumajang. O trajeto é maioritariamente pela principal estrada que atravessa a ilha de Java de Ocidente para Oriente que tem apenas uma faixa para cada lado, com um alcatrão razoável mas em alguns locais muito remendado e com muito transito, aqui já de bastantes camiões e milhares de pequenas motos e “scooters”.
As estradas na Indonésia são muito ao estilo do que eram as portuguesas nos anos sessenta. Nesta zona era particularmente sinuosa, quase toda feita entre segunda e quarta velocidades.

1 de dezembro de 2014

Yogyakarta




Quando deixei a cidade, passei no famoso Prambanan Temple, que fica uns 18 Km para oriente, na direção em que depois pretendia seguir. Só que, para apanhar a estrada principal à saída do Templo o GPS, como muita vez o faz, obrigou-me a dar voltas e voltinhas por estreitas ruas secundárias, muitas delas cheias de transito, de maneira que me atrasei bastante. Da parte da tarde apanhei depois uma fantástica estrada através da montanha que, felizmente, não tinha muito transito e deu-me imenso gozo o passeio que variava entre bom e mau piso e estradas mais ou menos sinuosas. Voltava a utilizar a sexta velocidade que até ali tinha engrenado apenas uma meia dúzia de vezes desde que entrara no país, tal é o congestionamento usual das estradas na Indonésia, principalmente nesta ilha de Java.
Só que, quando circulava em sexta a uns 110 Km/h apanhei uma lomba inesperada, a moto levantou voo e quando aterrou a mala do lado esquerdo, que tem um dos apoios partidos desde os desastres na Índia, saltou fora e foi a arrastar umas boas dezenas de metros pelo alcatrão. Felizmente não se estragou mais do que estava. Voltei a colocá-la no sítio a arranquei. O passeio estava maravilhoso mas começou a anoitecer e não me aparecia um hotel à frente. Também não tinha comido mais nada depois do pequeno almoço porque aqui, ao contrário da maioria dos países, não se encontram bancas de fruta na estrada.
Procurei numa cidade um pouco maior por onde passei mas o único hotel ainda estava em construção. No GPS indicava o mais próximo a cerca de 30 Km de maneira que fui à procura desse já noite dentro. O problema foi que o trajeto  era uma sinuosa estrada de montanha onde a chuva tinha arrastado lama para o alcatrão e, para piorar a situação, a chuva regressava. Percorri estes 30 Km com noite cerrada e muita escorregadela na lama, mesmo a baixa velocidade.
Por fim lá cheguei a um Hotel de fraca qualidade mas que tinha um duche quente e uma galinha com massa para o jantar que até nem estava nada má. No supermercado do outro lado da rua encontrei um gelado para sobremesa.
Nesta zona central da ilha de Java há muito pouco turismo e é raro encontrar quem fale inglês. Neste hotel de província ninguém “arranhava” sequer de maneira que, para o pequeno almoço do dia seguinte, depois de verificar que não tinham pão, tive que me contentar com o que me deram, ou seja um caldo de carne com bocados de carne dentro e batatas fritas de pacote partidas, a boiarem.
Arranquei depois pela mesma estrada secundaria que ali me tinha levado e que, em algumas zonas, passava junto à costa. O estado do piso variava bastante ao longo do percurso mas de um modo geral era uma estrada que deu gozo fazer e tinha uma bonita paisagem à volta. Às tantas, do alto da montanha, vi uma praia lá em baixo. Dei lá um salto. Estava deserta e a manhã de sol linda de maneira que aproveitei para tomar um banho nu. Quando voltava à estrada encontrei um sinal que indicava uma reserva de tartarugas e dei lá um salto. Um homem informou-me que as recolhiam em pequenas para as entregarem ao mar em adultas mas só vi cerca de uma dúzia de bebés tartaruga e três animais já com uns 50 cm de comprimento.
Pelas três da tarde parei junto a um homem com uma banca de estrada que vendia uns frutos do tamanho de ananases pequenos mas em que a casca é de picos. Pedi para me abrir um e comi aqueles bocados de polpa com caroços no meio que odiei mas serviram de almoço. Apanhei depois a minha dose diária de chuvada forte e, pelas cinco da tarde, cheguei a Malang, uma cidade agradável por conservar uma temperatura mais moderada, influenciada por ventos marítimos e outros vindos das altas montanhas dos arredores e com um centro onde os jardins públicos estão bem tratados.
Na manhã seguinte fui visitar um mercado de pássaros onde, curiosamente, tingem os pintos de várias cores, para os tornarem mais atraentes, calculo, e um outro de flores. Dei uma volta pela cidade, almocei no Toko Oen ao som do Frank Sinatra e vim beber um café a um Hotel onde tinha ontem vindo jantar, vizinho daquele onde estou instalado e que tem uma decoração fantástica com peças antigas fabulosas. O Tugu Hotel é mesmo considerado por alguns guias turísticos como o principal museu da cidade. Adorei o Hotel e embora estivesse fora do meu orçamento para lá ficar instalado, voltei a jantar lá.

28 de novembro de 2014

Dieng Plateau




Preocupada com a minha saúde a minha filha tinha-me mandado uma mensagem a dizer que se eu não fosse imediatamente a um medico me vinha cá buscar por uma orelha.
Assim, antes de deixar Purwokerto procurei no GPS uma farmácia e dei lá um salto. Sentia-me bastante melhor embora ainda tivesse a garganta inflamada.
O que eles chamam farmácia é um mini Mercado onde também vendem alguns remédios mas fiquei com a sensação que a maioria da população ainda se trata por métodos tradicionais ancestrais.
Quando com dificuldade expliquei à menina da farmácia, que não falava uma palavra de inglês, que me doía a garganta recomendou-me uma embalagem de um liquido espesso, embalado num saco de papel, tipo shampoo de hotel barato, verde e com sabor a hortelã. Segui as recomendações da menina, bebendo aquilo junto com um pouco de água e realmente penso que me fez bem.
Arranquei depois a caminho de Dieng Plateau, um planalto que fica a 2000 metros de altura e a 150 Km de ali. Parei para almoçar quando começou a chover com mais intensidade, num “self service” onde a única coisa que consegui escolher foi arroz branco e uma carne estofada não sei bem de que animal mas que estava ainda dentro do taxo com água a ferver. Por cima da vitrine com os vários pratos expostos, compostos na sua maioria por fritos de proveniência duvidosa, estavam vários cartões destes que atraem as moscas e elas ficam lá agarradas, carregados de vítimas.
Cheguei a Dieng Plateau com os últimos 40 Km através de uma fantástica estrada de montanha rodeada de densa vegetação e instalei-me num dos hoteis de fraca qualidade aqui existentes, pelas quatro da tarde.
Quando estava a tirar a mala da moto apareceram dois irmãos suíços, dos seus 30 anos, chegados em duas “scooters” alugadas em Yogyakarta, a cidade que previa visitar no dia seguinte. Estivemos um bocado à conversa e acabámos depois por ir jantar juntos. O mais velho vive na Indonésia há quatro anos, tendo por cá casado e aberto um restaurante.
Na manhã seguinte acordei relativamente cedo e fui visitar as atrações de Dieng Plateau, duas crateras de vulcão, perto uma da outra mas totalmente distintas. Uma está extinta e alberga um grande lago com uma água azul turquesa que dá uma boa imagem enquanto a outra tem alguma atividade com água a borbulhar e muito fumo a sair da cratera, obrigando-nos a utilizar máscaras de papel para nos aproximarmos do local.
Desci depois do planalto por uma estreita e movimentada estrada com muita inclinação, que nos leva a baixar dos 2000 metros para pouco mais de 100 em poucas dezenas de quilómetros e apanhei a seguir uma estrada linda, com muita vegetação dos dois lados que me levou até perto de Borobudur.
Parei para visitar o fantástico templo budista e fui ficar a Yogyakarta, 40 Km depois.
No dia seguinte voltei a fazer de turista e visitei o Palácio do Sultão onde apenas podemos ver a parte não habitada pois o atual  Sultão, cuja posição é hereditária, embora só possa passar para filhos varões, ainda governa a cidade e vive no Palácio, com uma grande família que inclui não só mulher e filhos (já não podem ser polígamos, coitados) mas também irmãos, cunhados e sobrinhos, num total de mais de cem pessoas. O que já não é utilizado pela família são os banhos, uma zona com duas piscinas e vários outros espaços que agora está aberta a visitas do publico e tem a curiosidade de ter sido restaurada há dez anos com um subsídio da Fundação Gulbenkian.
O guia que me mostrou o Palácio do Sultão falou-me, a meu pedido, um pouco mais sobre a situação religiosa na Indonésia. O país, disse-me ele, não tem uma religião oficial mas a maioria da população é muçulmana, tal como os membros do governo. Existe uma certa liberdade religiosa mas nem todas as religiões são aceites. São-no algumas facções do Cristianismo, e a mulher dele era católica, sendo ele muçulmano, assim como o Budismo e o Hinduísmo.
Na prática nunca vi tanta atividade nas mesquitas como aqui. Talvez para se afirmarem em relação às outras religiões chamam para as rezas matinais através dos seus altifalantes por volta das quatro da manhã, cerca de uma hora antes do nascer do sol, numa “conversa” que dura cerca de 15 minutos e que faz com que toda a vizinhança acorde, como me tem acontecido sempre que o Hotel onde fico é perto de uma das muitas mesquitas. O processo repete-se à hora do almoço e com o pôr do sol, o que se torna uma imposição quase insuportável para os não muçulmanos. O meu amigo suíço foi obrigado a mudar da primeira casa onde se tinha instalado porque a filha pequena também acordava e se assustava com a chamada para as rezas de uma mesquita vizinha.
Assisti ao mesmo problema no sul da Tailândia, região onde a maioria da população é Muçulmana, e é interessante verificar como a calma dos Budistas os leva a aceitarem a situação sem se queixarem.

26 de novembro de 2014

Tarikamalaya



Saí pelas 11 da manhã de Cimpancek e duas horas depois estava a entrar em Bandung, que é uma cidade agradável, com árvores nas ruas e um aspecto mais arrumado que Jakarta. O principal atrativo da cidade não o era para mim que ligo pouco a roupas. É que tem dezenas de lojas de “Stock off” com restos de coleções das grandes marcas, muitas delas fabricadas na Indonésia indo ali parar as sobras, com as etiquetas cortadas mas originais a uma fracção do preço europeu. Ainda entrei numa e comprei uma camisola para o meu filho.
No dia seguinte saí do hotel já perto do meio dia e, antes de deixar a cidade, ainda fui visitar o Museu Giologi que parece interessantíssimo mas infelizmente só tem os textos de explicação dos fenómenos Geológicos e sobre os produtos extraídos da terra, como metais, petróleo ou carvão, em Indonésio.
Arranquei de Bandung pela uma da tarde e teria passado pouco mais de meia hora quando uma chuvada forte se abateu sobre a estrada. Parei debaixo de um telheiro de uma oficina onde já estavam duas “scooters” também a fugirem da chuva. Voltei a arrancar vinte minutos depois quando o tempo melhorou um pouco mas viajei o resto do dia sempre debaixo de chuva. Numa das vilas por onde passei havia enormes cheias e parei para filmar um pouco as “scooter” a atravessarem aquele aguaceiro e “cortarem” a água como se fossem barcos.
Ali a vida não para quando chove.
Nesta parte central da ilha o transito melhora um pouco mas as médias continuam a ser muito baixas, com várias paragens e as “scooters” a passarem-me razias, em ambos os sentidos, de cada vez que passa a fluir menos. Esta é a principal estrada que atravessa a ilha de ocidente para oriente mas só tem uma via em cada sentido e é muito sinuosa de maneira que as ultrapassagens a que assisto são assustadoras. Quando estava parado junto a uma passagem de nível uma mulher que vinha numa “scooter”, com uma burca a fazer de capacete, como é comum, não conseguiu travar a tempo a bateu-me na traseira, quase me fazendo cair, mas não disse uma palavra ou fez qualquer sinal, simplesmente “furou” caminho e pôs-se à minha frente. Não resisti depois a passar-lhe uma razia, qual criança amuada, ao dobro da velocidade a que seguia.
Nesse dia comecei a sentir falta de força nas pernas e um cansaço maior que o habitual. Pensei que seria do frenesim do transito e parei numa pequena cidade a pouco mais de cem quilómetros de Bandung pelas quatro da tarde.
Só no dia seguinte percebi que estava com uma enorme gripe, certamente causada pelas chuvadas que tenho apanhado.
Durante o dia ainda percorri 170 Km até Baturraden, na montanha, mas à noite senti enormes arrepios de frio quando a temperatura andava a mais de 20º e na manhã seguinte não estava em estado de voltar à estrada, de maneira que fiquei um dia sem sair do Hotel e dormi a manhã toda.
24 horas fechado num Hotel onde me parecia ser o único cliente e com refeições que se assemelhavam às de um hospital de província levou-me a sair à rua no dia seguinte, mesmo se ainda não me sentia completamente curado da gripe.
Subi a montanha e entrei num parque natural por uma estreita estrada rodeada de densa vegetação. Fui ver uma fonte de água quente que sai de umas rochas a mais de 50º e corre depois para uma cascata cujas paredes ganharam diferentes tons de castanho e verde com a passagem desta água vulcânica. O vapor que sai daquela água envolve a paisagem da floresta, dando-lhe um ar misterioso.
Sentei-me num banco junto à passagem da água e um homem fez-me uma massagem aos pés com argila proveniente daquelas águas, que dizem faz muito bem à pele. Depois de massajar uma das minha pernas e pé com aquela argila virou-se para a cliente Indonésia que estava sentada ao meu lado e disse: “veja a diferença na cor das pernas dele. Antes e depois”. Pela conversa parecia estar a sugerir que eu estaria com os pés sujos quando ali cheguei.
Antes de sair do Hotel, situado numa vila já na montanha, tinha perguntado ao homem da recepção se haveria por ali uma farmácia ao que ele olhou para mim como se não fizesse a mínima ideia de que tipo de estabelecimento estaria eu a falar, de maneira que quando saí da fonte de água quente, almocei num restaurante da montanha e desci depois até à cidade cá em baixo. 

24 de novembro de 2014

Cikampek



Arranquei perto do meio dia com a ideia de fazer tranquilamente os 150 Km que me separavam de Bandung até às quatro ou cinco da tarde.
Só que não previ a loucura que é sair de Jakarta sem poder entrar na auto estrada pois as motos estão proibidas de as usar na Indonésia. É que esta ilha de Java que, não sendo a maior é a mais populosa, tem 140.000 Km2 ou seja, um tamanho de cerca de uma vez e meia a área de Portugal e nada menos que 135 milhões de habitantes que parecem ter cada um uma “scooter” ou moto de 125 c.c.
É a loucura total. Passadas duas horas de um para arranca entre milhares de motos e carros, debaixo de uma temperatura de 38º, com uma humidade altíssima e níveis de poluição assustadores, comecei a sentir as mesmas tonturas que tinha tido uma vez na Índia que acho se devem a uma baixa tensão. Parei para descansar uma meia hora durante a qual bebi um litro de água e fiquei novo.
Pelo caminho apanhei, por sorte, a feira de antiguidades da Jalan Surabaya que é fantástica. Um dos comerciantes, enquanto me mostrava um maravilhoso escafandro, réplica dos utilizados pela marinha Norte americana durante a segunda grande guerra, cotava-me que já tinha tido a visita dos Clinton’s e de Mick Jaeger, por mais que uma vez.
Tinha deixado a feira há pouco quando um miúdo numa 125 meteu conversa nuns sinais luminosos. Perguntou-me de onde vinha e quando lhe disse Portugal ficou espantado por eu vir sozinho: “Alone? Crazy, crazy”.
Achei graça ao miúdo e quando nos sinais seguintes me perguntou se não queria ir até casa dele que era ali perto, imaginei uma mãe a cozinhar um almoço maravilhoso e disse-lhe que sim. O miúdo dos seus vinte anos foi então à minha frente a afastar o transito em sinais com as mãos e pernas, tanto o que vinha no nosso sentido como em sentido contrário, qual policia motorizado.
Levou-me por umas ruas estreitas até um beco onde vivia. Entrámos então numa barraca com três pequenas divisões onde morava com um casal amigo. Na primeira divisão estavam uma moto e uma scooter meia desmontadas e com peças amontoadas no meio de muita tralha. A divisão seguinte era o quarto onde dormia o casal amigo com um colchão no chão, lençóis revoltos com ar muito sujo, vários cinzeiros cheios de beatas e papéis e lixo à volta. Não teria mais de dois metros por três e o único sítio sem ser o colchão do casal onde alguém se pudesse sentar era uma almofada onde descansava um rafeiro, com três meses de idade, a quem tinha caído o pelo quase todo e que os amigos do rapaz disseram ter sido causado por uma alergia. A miúda da casa deu uma limpeza rápida no cubículo, que consistiu em levar os cinzeiros lá para fora e amontoar a um canto papéis e lixo e ficámos os quatro ali em pé à conversa, pois a divisão seguinte era a cozinha que calculo fosse também quarto do rapaz e onde não me atrevi a entrar.
Ofereceram-me café mas disse que tinha acabado de beber muita água e tinha que voltar à estrada para tentar chegar ainda de dia a Bandung.
Depois de uma sessão fotográfica na barraca e junto à moto lá consegui arrancar, novamente guiado por este amigo com vocação para polícia de transito a quem desta vez recomendei que não mandasse afastar os outros carros do meu caminho pois dava muito nas vistas.
Voltei ao inferno do transito Indonésio onde não se vêm tantos camiões como na Índia mas muitas mais motos que parecem um enxame de abelhas a atacar quem lhes foi ao mel.
Só tinha tomado o pequeno almoço às dez da manhã mas durante o dia não passei por nenhum restaurante com aspecto minimamente limpo onde me apetecesse almoçar de maneira que às cinco da tarde começou a chover e decidi  parar numa destas tascas de beira de estrada. Um simpático velho disse-me que pusesse a moto abrigada da chuva quase dentro da tasca e a mulher veio perguntar o que queria. Em cima da mesa tinham uns peixes e outros fritos com aspecto de terem passado pela frigideira há mais de um mês de maneira que lhe pedi quatro bananas que vi a um canto e um chá que me soube maravilhosamente.
Quando arranquei estava a ficar noite e ainda faltavam 80 Km para Bandung que com aquele transito e estradas esburacadas era coisa para me levar a fazer em duas horas de maneira que, ao cheguei à próxima cidade, Cikampek, procurei um Hotel no GPS que me encaminhou para o único existente na zona. Não é dos piores onde tenho ficado e o pessoal é simpático.

21 de novembro de 2014

Indonésia


A Indonésia é o 15º país maior do mundo, com perto de dois milhões de quilómetros quadrados espalhados por mais de 17.500 ilhas, das quais cerca de 1.000 são permanentemente habitadas. Com mais de 250 milhões de habitantes é o quarto país mais populoso do mundo, a seguir à China, Índia e Estados Unidos. E sentimos isso quando circulamos nas ultra congestionadas ruas de Jakarta, a capital.
O país é menos civilizado que os vizinhos Malaios, Tailandeses ou, principalmente, de Singapura. Aqui já se vê muito lixo nas ruas, embora não atinja as proporções indianas, rios transformados em enormes esgotos e um transito caótico onde voltamos a ouvir o barulho das buzinas. Os motoristas de táxi já escarram para fora da janela e dão arrotos.
Os processos burocráticos para a moto entrar nos muitos países que tenho atravessado é o que podemos chamar um 8 ou 80. Na Malásia, por exemplo, mal olharam para a moto e não me pediram qualquer documento. Em Singapura também entrei sem qualquer problema embora à saída me dissessem que deveria ter carimbado o Carnet na entrada. Aqui na Indonésia foi um processo complicado que durou vários dias e incluiu pedidos de papelada a múltiplas instituições. Ontem felizmente resolveu-se, até porque quando estou sem a moto me sinto como que descalço.
Mas o dia não começou bem. Ao sair do Hotel de fraca qualidade situado nos últimos três andares de uma espécie de enorme centro comercial para ferramenta e material mecânico e electrónico, o elevador travou de repente entre dois andares levando a que eu e um casal que também ali viajava, quase fôssemos atirados ao chão. A mulher assustou-se mas o namorado ainda estava com mais medo. O que vale é que a cena durou pouco tempo. Sem tocarmos em qualquer botão o elevador voltou a arrancar e parou tranquilamente no rés do chão. Felizmente era a ultima vez que tinha que andar nele. Apanhei um táxi à porta já munido do que pensava serem todos os papéis necessários para levantar a moto mas o taxista não deu com o local onde estava a moto no caos que é o porto de Jakarta e acabou por me deixar noutro táxi local, que dizia saber muito bem onde eu queria ir. Não tínhamos andado mais de cinco minutos quando percebi que me estava a levar para longe do sítio previsto. Fartei-me de refilar e insultar o homem mas às tantas comecei a achá-lo com um ar estranho. Só me dizia “slow, slow” , revirava a cabeça e quando eu me chegava à frente e olhava para ele puxava a camisa para cima a tapar-lhe a cara até aos olhos.
Fiquei preocupado, até porque me estava a levar para uma zona do porto com muito mau aspecto. Comecei então a trata-lo bem e a dizer-lhe que era exatamente ali onde estávamos que eu queria ficar. “Pode parar aqui que é aqui mesmo”.
“No, no, slow, slow” e o homem não havia maneira de me deixar em lado nenhum. Eu a ver-me cada vez mais afastado do local onde estavam os escritórios da alfândega ia-lhe dizendo para parar junto a cada edifício que eu ficava ali mas o homem não parava mesmo. Sem saber falar inglês só repetia “slow, slow”. Passados três quartos de hora foi ter ao sítio onde eu realmente queria ir e só então percebi que nunca tinha estado perdido nem era maluco mas quis apenas dar uma martelada no taxímetro.
Cheguei ao escritório da alfândega eram uma e meia da tarde e só tinha tomado o pequeno almoço. Só consegui sair do porto com a moto às oito e meia da noite. Nessa manhã tinha deixado a mala num Hotel pior do que aquele em que estava antes mas mais barato e, quando lá regressei com a moto, duas raparigas que bebiam um chá numa pequena esplanada de rua em frente, meteram conversa e por ali fiquei a beber uma cerveja antes de ir jantar.
Uma delas falava pouco inglês mas convenceu-me que era muito boa massagista ... e era. No dia seguinte tinha aprendido a dizer “I want to ride your motorcycle”, de maneira que a levei a dar um passeio pela cidade. Fomos ver um teatro e uma exposição de pintura e a seguir pretendíamos ir até à praia mas perdemo-nos no caos da cidade. Quando parei para pôr gasolina caiu uma carga de água daquelas que parece que o céu nos vai cair em cima. Fiquei um quarto de hora à espera que passasse mas um homem avisou-nos que as ruas da cidade estavam a ficar intransitáveis e então lá arrancamos debaixo de chuva torrencial. Talvez por não chover há uns tempos e os esgotos estarem entupidos houve ruas em que a água chegava a meio das rodas da “Cross Tourer”.

19 de novembro de 2014

Jakarta



Cheguei a Jakarta ao fim da tarde e, como de costume, fui enganado pelo táxi que me levou ao Hotel. Só que aqui é ainda dentro do aeroporto que têm uns balcões onde várias companhias vendem viagens de táxi por quatro vezes mais do que custam se apanharmos o táxi à saída do aeroporto. Achei logo estranho porque a menina do balcão me veio acompanhar até ao carro.
A primeira impressão que temos de Jakarta é francamente má porque fora do centro a cidade é feia e suja. Para além disso os dez milhões de habitantes parecem não ter onde estar e ficamos com a sensação que há gente a mais não só parada nas ruas como a circular de carro ou “scooter”.
A moto, a viajar de barco, só chegava dois dias depois de maneira que no dia seguinte decidi ir fazer um passeio turístico.
Fui primeiro ao Nasional Monument, uma torre mandada construir pelo presidente Sukarno em 1961 para celebrar a independência do país, com uma grande chama dourada em cima e que tem a particularidade de ficar iluminada de azul à noite. Não tentei entrar porque estavam filas assustadoras no túnel de acesso ao elevador que nos permite subir ao ponto mais elevado.
Cá fora, nos mal tratados jardins e acessos, decorria uma manifestação com muitos jovens de bandas pretas na cabeça e bandeiras brancas com caracteres indecifráveis que vociferavam sob o olhar atento da polícia.
De seguida tentei visitar o palácio presidencial mas, mal atravessei a rua para chegar ao passeio em frente, o guarda que estava na guarita saiu e mandou-me atravessar a estrada de volta e não tirar fotografias. Só então reparei que realmente aquele passeio e a entrada do palácio estavam vazios.
Fui então num Tuk tuk até um mercado de rua onde acabei por almoçar uma espécie de cozido onde reconheci batatas e couves mas em que o ingrediente principal era, segundo a mulher, peixe mas tinha a consistência de toucinho e calculo que fosse a gordura que está entre a carne e a pele de algum peixe de grandes dimensões. Como aquilo era tudo cozido achei que não me faria mal. E não fez.
Fui depois visitar a mesquita Istiqlal que é a maior do sudeste asiático. Impressionante em tamanho mas, pelo menos por fora, sem graça nenhuma. Em Jakarta não se vêm turistas nas ruas e muito menos na mesquita de maneira que quando passei os enormes portões que dão acesso aos jardins que circundam a Istiqlal senti-me um pouco desconfortável, principalmente por estarem ali enormes grupos de jovens com as bandeiras  e panos pretos na cabeça que tinha visto duas horas antes junto ao Nasional Monument.
Perguntei a uns deles o que representava aquela manifestação e, num inglês muito fraco, lá me explicaram que era a favor do movimento Hizbut Tahrir que defende a existência de um único Estado Islâmico no mundo, um Califato, sujeito a um único líder eleito, um Califa, que aglomeraria todos os estados Islâmicos atuais e a partir daí converteria todos os outros ao Islamismo. O grupo foi formado em 1953 na Palestina, é contra a existência de Israel e embora seja proibido em vários países, ganhou nova força com a guerra na Síria, onde são um dos movimentos que lutam contra o regime. Dizem não ter nada a ver com o auto denominado Estado Islâmico, que tanto tem aparecido nas notícias, mas pelos vistos compartilham algumas das ideias.
Estive uma meia hora numa interessante conversa com eles mas comecei a sentir-me desconfortável quando se juntou muita gente à nossa volta, principalmente porque eu era o único estrangeiro naqueles terrenos da mesquita onde estavam muitas centenas de pessoas. A situação ainda se tornou mais estranha quando um rapaz me veio agarrar a mão e a beijou. Achei que era altura de partir e despedi-me dos estudantes.
Do outro lado da rua  desta enorme mesquita existe uma imponente catedral católica, que tinha sido mandada construir por Napoleão, quando ocupou a Holanda e com isso as suas colónias e reconstruída pelos holandeses entre 1899 e 1901. Entrei para ver. Estava arrumada e bem tratada mas não tinha uma única pessoa dentro.