10 de novembro de 2014

Sepang



Quando cheguei ao circuito de Sepang não tinha passe para entrar no “padock” que era onde me interessava ir mas, como bom português, convenci os vários porteiros a deixarem-me passar e, já lá dentro, fui ter com o Miguel Oliveira, o piloto português que corre nas moto3, que tratou de me arranjar um passe.
Fui depois falar com o diretor da equipa Honda de motogp para tentar organizar uma fotografia onde estivesse eu, a moto e os pilotos da marca. Ele concordou com a ideia e pediu ao Marquez e ao Pedrosa para, ao saírem do circuito fazerem a fotografia comigo e a moto, que entretanto fui buscar para dentro do “padock”.
As corridas foram espetaculares e só foi pena o Miguel ter caído na primeira volta das moto3. O Marquez voltou a ganhar nas motogp e o Rossi, com o mesmo entusiasmo dos miúdos de vinte anos, ficou em segundo.
Quanto às motogp em si cada vez que as vejo fico impressionado com a sua aceleração e velocidade em recta, superiores às de um Formula 1.
No Domingo voltei a jantar no “Hard Rock”, especialmente animado no fim de semana de motogp, e segunda feira ainda fiquei por Kuala Lampur para visitar as Batu Caves, umas grutas naturais enormes à entrada da cidade. Desiludiram-me pelo mal tratadas e sujas que estão. Fui ainda procurar uns pneus novos para a moto, que os de tacos que tinha montado na Índia e que tanto jeito deram estavam no fim, mas não os consegui encontrar.
Arranquei assim na terça para Malaca com a curiosidade de constatar se ainda haveria algo de português na cidade que Afonso de Albuquerque conquistou em 1511 e que se manteve em nossa posse até os holandeses nos terem de lá corrido, 130 anos depois.
Quando cheguei dei uma volta pela cidade e parei quando vi um chamado Portugis Hotel, com as cores da nossa bandeira à porta. Embora fosse uma espelunca e a dona chinesa, a mulher foi simpática e achou graça eu ter vindo de Portugal na moto de maneira que me fez um preço especial e por ali me instalei.
O Hotel, de tectos baixos, tinha alguns móveis bons mas mau aspecto e sujidade por todo o lado.
A chinesa recomendou-me o Spa do primeiro andar e deu a entender que a massagista de serviço fazia mais que massagens.
Perguntei-lhe o que havia mais de Portugal em Malaca e indicou-me um bairro vizinho de descendentes de portugueses.
Estava a dar uma volta pelo bairro de fraca qualidade de construção quando parei, junto ao mar e de dois homens sentados no que já teriam sido bons sofás, agora apodrecidos pela exposição aos elementos, debaixo de um telheiro no que parecia ser um poiso habitual. Perguntei-lhes se havia alguma sede portuguesa e um deles, quando lhe disse que era português, pediu para me sentar ao lado dele e começou a falar comigo em português, não perfeito mas compreensível.
O seu nome era Jorge Alcântara e era descendente dos portugueses que cá tinham ficado no século XVI. Disse-me que a língua tinha passado através das gerações e ele também a ensinara aos filhos de maneira que em casa falavam sempre em português.
A comunidade de descendentes são cerca de 1200 pessoas, a maioria já com muitas misturas de raças, como é nosso costume.
Estivemos ali uma meia hora à conversa e depois ele pediu a um amigo, também supostamente português mas que falava muito pouco, para me guiar na sua “scooter” até à sede do “Portuguese Settlement”, um local com um ar decrépito, um restaurante chamado Lisbon mas onde as refeições são Malaias, e um Museu com meia dúzia da tarecos. O que foi um Lisbon Hotel, com bom aspecto, só durou dois anos como Hotel e foi depois vendido a uma Universidade que lecciona ali.
A presença portuguesa em Malaca neste século XXI tem um ar bastante miserável mas pelo menos existe e resistiu 500 anos. Para além disso algumas das nossas palavras ficaram na língua Malaia, como Escola ou Manteiga.
Almocei no restaurante do “Portuguese Settlement” pelas quatro e meia da tarde uns bons camarões em molho de ananás muito pouco portugueses e regressei ao Hotel.
Pelas nove da noite decidi ir jantar só uma sopa porque tinha almoçado já tarde.
Recomendaram-me um restaurante perto onde pedi a única sopa disponível, com esparguete.
“E para beber?”
“Um sumo natural”
“Isso não temos”
“Então o que têm?”
“Água, sumos enlatados ou chá de ervas”
Um pouco contrariado optei pelo chá de ervas. Quando o criado me perguntou se queria quente ou frio preferi quente por ter medo de beber água neste sítios sem ser fervida.
Sabem quando os criados, satisfeitos, nos dizem: “boa escolha”?
Neste caso o homem olhou para mim com a cara exatamente contrária, como quem procura uma expressão de lucidez na minha face sem conseguir encontrar.
Quando chegou o que tinha encomendado percebi a razão de me considerar maluco. É que o caldo da sopa que vinha na tijela com o esparguete e o chá quente, servido no copo, eram exatamente o mesmo líquido.
Pus umas pingas de picante na sopa para lhe mudar um pouco o sabor e lá bebi esse chá à colher e o outro pelo copo sem me queixar.



8 de novembro de 2014

East coast




No dia seguinte decidi ir explorar um bocado desta costa oriental da Malásia.
A maior parte dela está ao abandono, com excelentes locais para se construírem bons hotéis junto à praia mas com apenas alguns empreendimentos de casas de fraca qualidade afastadas uns 200 metros da costa, enquanto esta é maioritariamente ocupada por barracas de pescadores.
Perto de Kanung, mais a sul, existem alguns poços de petróleo da Petronas, a empresa estatal. Quando quis tirar uma fotografia a um deles apareceu logo um guarda numa “scooter” a dizer que eu não podia ali estar, não percebi porquê.
Quando parei para almoçar um homem que estava sentado na esplanada e tinha uma “scooter” maior, de 400c.c., convidou-me para me sentar na mesa dele e ofereceu-me o almoço.
Contou-me que costuma fazer uns passeios pela Malásia de moto, com um grupo de amigos, e conhecia bem o lago onde eu tinha estado.
No fim perguntou-me se não queria também jantar e combinámos encontrar-nos mais tarde. Fomos a um restaurante de estrada excelente que ele conhecia e recomendou-me o trajeto que devia seguir no dia seguinte, a caminho de Kuala Lampur, sem passar pela auto estrada.
Segui o conselho do Nuaur e apanhei mais uma estrada linda, rodeada de vegetação e que passa junto a outro lago, este natural mas menos impressionante que o primeiro.
Quando cheguei a Kuala Lampur, pelas quatro e meia da tarde, instalei-me num Hotel a meia dúzia de quilómetros do centro, para ser mais barato, e fui visitar as Torres Petronas que são mais impressionantes ao vivo que em fotografia.
Com uma altura enorme e mais de 80 andares, que não quis explorar, têm na parte de baixo um centro comercial fantástico, com as melhores lojas italianas e francesas, para além das habituais Zaras e outras que tais.
Quando regressava ao Hotel vi um grande aglomerado de motos, a maioria Harleys, junto ao Hard Rock Café e decidi lá parar para jantar. Como ainda não havia mesa sentei-me no bar e beber uma Guiness.
Ao meu lado direito estava uma miúda Indiana linda a beber um enorme cocktail azul e do lado esquerdo um Americano extrovertido dos seus quarenta anos. Estava à conversa com a rapariga quando me chamaram para a mesa. Vivia no Dubai com os pais e estava ali a passar férias sozinha. Como ela, sendo Indhu, não podia comer carne de vaca, apresentei-lhe o Americano, para a entreter enquanto eu jantava. Quando voltei estavam animadíssimos e juntei à conversa um miúdo indiano que estava ao lado e cuja família vive na Malásia. Divertimo-nos imenso os quatro enquanto bebíamos mais umas cervejas e a miúda uma série de copázios do que parecia alcool etílico com gelo e limão e que a faziam falar cada vez mais alto e rir que nem uma perdida.
A meio da noite perguntei ao Indiano que ali vivia porque teriam umas bandeirolas penduradas no bar a dizer motogp e só então soube que as corridas eram esse fim de semana, no circuito de Sepang, a 40 Km de Kuala Lampur.
Despedimo-nos pela uma e meia da manhã, todos muito alegres, comigo a tentar montar o namoro entre aquela rapariga linda e o simpático Indiano.
Na manhã seguinte, mal acordei, arranquei para o circuito.

6 de novembro de 2014

Kenyir Lake





Pela manhã, em Cameron Highlands, visitei duas impressionantes plantações de chá, que cobrem montes e vales a perder de vista. O ano passado tinha visto plantas de chá pela primeira vês na vida, quando andei pela província de Assam, na Índia. Fazem campos lindos porque não têm mais de um metro de altura e crescem de forma que parece que o topo foi aparado, formando uma espécie de  tapete verde sobre elevado do chão. Magnífico
Depois de deixar as plantações segui as recomendações do meu amigo Russo e rumei a oriente. Desci a serra por outra fantástica estrada larga e de curvas rápidas e entrei depois numa zona de floresta tropical densa. O russo tinha-me avisado para atestar o depósito antes de entrar nesta zona e assim fiz. Durante 200 Km desta estrada larga que abriram através da floresta virgem não há restaurantes, habitações ou qualquer comércio ou construção. É uma estrada com muito pouco movimento e que não tem mais que floresta de um lado e outro. Paisagem fabulosa. De vez em quando parava para ouvir o chilrear dos pássaros na selva e excrementos de elefante indicavam locais onde teriam atravessado a estrada. De um lado e outro vi macacos saltarem entre os galhos das árvores.
Antes de entrar na zona de floresta felizmente comi duas bananas numa banca de beira de estrada que foram o meu almoço.
Pelas quatro e meia da tarde cheguei ao Kenyir Lake, um enorme lago artificial criado quando foi aberta esta estrada, que ainda não aparece nos mapas ou no GPS.
Instalei-me no fantástico Hotel que construíram junto ao lago num “bungalow” com janelas amplas que abrem para um terraço com vista deslumbrante sobre a água.
Respira-se o silencio naquele enorme lago, talvez do tamanho do nosso Alqueva mas rodeado de floresta virgem e salpicado de pequenas ilhas. Soberbo.
No dia seguinte só arranquei por volta do meio dia e continuei para oriente, até à costa. Desci depois rumo a sul, sempre junto a esta costa oriental e parei numa pequena estância de fraca qualidade mas com o atrativo de ser um “spot” de surf.
Antes de procurar onde ficar fui até à praia beber uma cerveja.
O bar do areal, que incorporava uma escola de surf, não tinha clientes e uma miúda mexicana, a ouvir boa música por detrás do balcão, estava com ar de não esperar ninguém e quase se assustou com a minha chegada. Recolheu os chinelos do chão e a “T” shirt que tinha em cima da mesa junto ao bar e pediu que me sentasse. Ficámos à conversa. Tinha ali chegado com 18 anos, quando viajava sozinha pela Malásia. Conheceu um rapaz local por quem se apaixonou e ali vive há seis, a fazer surf quando as ondas ajudam. Entretanto aproveitou para, durante quatro anos, passar os dias de semana em Kuala Lampur, onde tirou um curso de economia, mas de momento não tem outros planos senão para ali ficar, ao sabor das ondas.
Quando me despedi e pedi para lhe tirar uma fotografia junto a uma prancha de surf, tirou o pano que tinha à volta e fez pose de anuncio, em biquíni.
Fui procurar onde dormir e instalei-me numa espelunca das que já não conhecia desde a Índia. Uma mulher desdentada começou por me pedir o equivalente a 17 euros pelo quarto com ar condicionado mas baixou para dez quando lhe disse que não o queria ligar. Quando perguntei se tinha água quente desmanchou-se a rir a dar a entender que água quente só conhecia na panela da cozinha. Mas, com a temperatura exterior a 30º o duche frio soube-me lindamente. Á porta do quarto tinha um bocado de cartão daqueles dos ovos a arder no que pareciam preparativos para uma cerimónia Vudu. Quando lhe perguntei o que representava aquela queima explicou-me que era, simplesmente, para afastar os mosquitos.
Pelos trajes familiares, com mulheres e raparigas de cabeça tapada, constatei que eram muçulmanos, como a maioria da população malaia e nestes casos nunca resisto perguntar, ao jantar, se têm alguma bebida alcoolica.
Quando lhe perguntei se tinha cerveja a mulher tapou a boca para abafar o riso nervoso, como se eu tivesse dito uma blasfémia. Com medo de repetir o que eu tinha dito, olhou para o marido, um homem enorme, barrigudo e sério sentado em frente de uma televisão, para confirmar que estava distraído, e respondeu baixinho: “Não, aqui não temos isso”.
Há países como o Irão ou a Arábia Saudita onde simplesmente não se vende álcool em lado nenhum mas nestes onde aceitam outras religiões e costumes os estabelecimentos que não pertencem a muçulmanos vendem, de maneira que a pergunta não é totalmente descabida.

4 de novembro de 2014

Cameron Highlands




Ao sair de George Town ainda tive direito a assistir a uma cena que podia ter acabado mal, à porta do Guest House onde estava instalado.
Estava a colocar as malas na moto enquanto o proprietário do Hostal ao lado explicava a um miúdo inglês, acompanhado da namorada, como se conduzia a “scooter” que acabara de lhe alugar. O rapaz, com ar confiante, dizia que sim, que não havia problema, e sentou a namorada atrás dele.
Com milhares de “scooters” a serem conduzidas nestes países por homens e mulheres de todas as idades e muitas delas alugadas a turistas que normalmente se vão safando melhor ou pior, o miúdo achou que tinha que ser uma coisa facílima. E é, só que ele nem de bicicleta devia saber andar. Acelerou e travou ao mesmo tempo e a “scooter” lá arrancou debaixo de uma barulheira que se confundia com os berros do homem do Hostal: “SLOWLY, SLOWLY. BRAKE”
 Conseguiu parar nem ele sabe como e o homem  foi ter come ele a insistir que tinha que ir devagar.
“Sim, sim” respondeu o bife. “sem problema”.
Voltou a arrancar e não fez mais de vinte metros aos esses a acelerar a fundo e a travar com quanta força tinha, antes de se espetar com a namorada no alcatrão.
O velho berrava que nem um desalmado enquanto recolhia a mal tratada “scooter” e a namorada desatou a correr assustada, de capacete na cabeça, e só parou no quarto do Hostal, para desespero do homem que no meio dos berros pedia o capacete de volta. Tive que fazer enorme esforço para não me desatar a rir
Arranquei em direção ao interior, para visitar uma zona montanhosa onde existem grandes plantações de chá. Desta vez atravessei para o continente pela ponte, ao estilo da nossa Vasco da Gama, e percorri cerca de 100 Km de autoestrada para sul.
Pouco depois de deixar a via rápida, onde as motos estão isentas de portagem, entrei numa estrada de montanha fantástica com sequencias de curvas e contracurvas rápidas, de quinta, rodeada de uma paisagem de floresta que se foi tornando mais densa ao longo dos 150 Km que me levaram a Cameron Highlands, no topo da montanha. Um gozo. Pelo caminho encontrei 4 rapazes que tinham vindo simplesmente acelerar para aquela serra nas suas motos coreanas de 250 c.c. e bebemos um chá juntos numa barraca de borda de estrada.
Em Cameron Hinghlands instalei-me num simpático Hotel de montanha, com plantas a crescerem no telhado. A temperatura tinha passado dos 39º à saída de George Town para 25º no alto da montanha. Á noite baixou ainda para uns 19 ou 20º. Tomei um duche mais quente que o habitual e para jantar, na sala com lareira acesa, vesti uma camisola. Prefiro calor a frio mas já tinha saudades de uma temperatura destas.
Um rapaz de origem Russa e a sua bonita namorada Malaia, que me tinham visto chegar na moto à tarde, pediram para se sentarem à minha mesa de jantar e quiseram saber pormenores da viagem. Ele vive há anos na Malásia, tinha ali vindo passar dois ou três dias e conhece bem o país. Perguntei-lhe o que devia visitar e deu-me excelentes indicações não só para a Malásia como para a Indonésia.

2 de novembro de 2014

Penang Island


Sem encontrar qualquer tipo de macaco, arranquei daquela espécie de Hotel pelas 9 da manhã a caminho da ilha de Penang que fica perto da costa e onde também se pode chegar através de uma longa ponte. Fiz o trajeto por estradas secundárias e optei pelo ferry, por ser a primeira alternativa que me apareceu. Entrei no meio de uma enchente de “scooters” e estacionámos com muito pouco espaço entre as motos, apenas o suficiente para desmontar e esticar as pernas. Ao meu lado direito estava um casal em que a mulher trazia um bébé ao colo que não teria mais de um mês. Ficou em pé entre a minha moto e a “scooter” do marido que preferiu ficar sentado ao volante. Quando o barco ia para atracar na outra margem eu estava em pé do lado esquerdo da moto, à conversa com outro homem e com uma mão no punho da moto. Ao atracar, o barco bateu com tal força no cais que a minha moto, que estava no descanso lateral, se desequilibrou para o lado contrário, onde estava a mulher com a criança ao colo sem espaço para onde fugir. Como tinha a mão já no punho puxei-a com quanta força tinha e consegui, não sei como, voltar a pô-la direita, evitando que caísse para cima da mulher e do bébé. Acho que se eles não estivessem ali não tinha tido força para a levantar.
A Malásia tem uma população de 28 milhões de habitantes dos quais 22 milhões se encontram na parte continental ou West Malaysia, que faz fronteira a norte com a Tailândia e a Sul com Singapura. A outra parte do país, East Malaysia, com uma área aproximada à da parte ocidental, encontra-se na ilha de Borneo, que reparte com a Indonésia e o pequeno sultanato do Brunei.
A maior originalidade do sistema político é que têm um Rei mas que é eleito a cada 5 anos, de entre os descendentes hereditários dos monarcas de 9 dos 13 estados que formam o país. Na prática têm um sistema de rotatividade, de maneira que o rei muda a cada 5 anos.
A população é uma mistura de raças com influencias mais fortes tanto de Indianos como de Chineses.
Quando cheguei à ilha de Penang, ainda era uma da tarde e decidi começar por dar uma volta à ilha. Pelo caminho almocei num restaurante junto ao mar e, da parte da tarde visitei uma quinta de frutos tropicais, onde bebi um sumo.
Pelas quatro e meia da tarde estava em George Town, a cidade desta ilha com 290 Km2. É uma cidade gira por ser tão cosmopolita, misturando zonas de prédios e Hoteis modernos com bairros típicos que nos transportam no tempo.
Instalei-me numa Guest House dum destes bairros. A rua chama-se Love Lane porque em tempos era onde os empresários locais tinham os apartamentos onde instalavam as suas amantes, apartamentos esses agora transformados em pequenos Guest Houses e Hostais que albergam a maioria dos jovens ocidentais em viagem por aquelas bandas. A rua é muito animada, com bares bem arranjados e algumas lojas de tralha antiga muito giras. Parece estarmos nos anos 70.
Ali a dois passos visitei o bairro chinês com ruas típicas e a atração de “grafitis” extraordinários, por vezes em três dimensões, aproveitando partes de bicicletas ou outros materiais.
No dia seguinte decidi fazer uma caminhada através da selva de um parque natural existente na ilha que me levaria à “turtle beach” onde supostamente avistaria enormes tartarugas. O trajeto de quatro quilómetros através da selva, com subidas e descidas acentuadas em carreiros disformes é cansativo e acabei por conseguir uma boleia de barco para voltar da praia de onde as tartarugas tinham emigrado.  Pelo caminho através da floresta encontrei muito pouca gente mas qual não foi o meu espanto quando vejo um casal de miúdos em que ele tinha vestida uma camisola da seleção portuguesa de futebol. Perguntei-lhe se sabia que camisola era aquela e o rapaz respondeu-me: “Claro. Sou um grande fã da seleção portuguesa”. Tem graça mas acho triste sermos só conhecidos nestes países longínquos através do futebol. Ninguém tem ideia onde fica Portugal e muitos nunca ouviram sequer falar no nome.

31 de outubro de 2014

Malásia




Can Pak Bera fica a menos de cem quilómetros da fronteira com a Malásia. Deixei o Hotel perto das onze horas e, ao parar numa bomba de gasolina, um homem da minha idade olhou para a moto e para os meus cabelos brancos e, com um ar sorridente, veio apalpar-me os músculos dos braços.
Fiquei só com 380 Bhats no bolso, o equivalente a cerca de 10 euros. Quando cheguei à fronteira, depois de tratar do Carnet da moto fui carimbar o passaporte mas o guarda olhou para o meu visto e disse-me que tinha caducado no dia anterior pelo que deveria pagar 500 Bhats, a tabela por cada dia de atraso. Disse-lhe que já só tinha 380, se não me fazia um desconto mas ele com cara de poucos amigos devolveu-me o passaporte e disse ou paga 500 Bhats ou não passa. Uma rapariga Israelita, bem gira por sinal, ao ouvir a conversa deu-me os 120 Bhats que faltavam. Fiquei-lhe imensamente agradecido e trocámos contactos.
A paisagem do norte da Malásia está ao nível da Tailândia, com muita vegetação, assim como a chuva, que este ano decidiu ficar por mais tempo e voltou a cair-me em cima, com força, pouco depois de entrar no país.
O primeiro aspecto curioso que nos salta à vista é que, à semelhança dos Americanos, os Malaios têm o habito de ter uma bandeira do país hasteada à porta de casa. Isto ainda é mais caricato pelo facto de a bandeira da Malásia ser muito parecida com a  americana, com as mesmas riscas encarnadas e brancas, diferenciando-se apenas na parte em que ambas têm o fundo azul mas onde as estrelas dos estados americanos aparecem substituídas por um sol e uma lua. Se pensarmos que isto é um país onde a grande maioria da população é muçulmana, o que se traduz, normalmente, num ódio aos americanos, ainda mais insólita é a situação.
Como entrei na Malásia sem um tostão em moeda local nem sequer dinheiro Tailandês, tendo apenas os 1500 dólares que transporto escondidos na moto para qualquer emergência, parti em direção à cidade mais próxima para procurar uma caixa multibanco. Ainda sem mapa do país utilizei a bússola do GPS para voltar para perto da costa ocidental de onde pretendia seguir para sul. Depois de levantar moeda Malaia em Simpang Ampat parei junto a uma pequena feira onde comi uma espetada de caranguejo e umas batatas fritas como almoço e segui junto à costa na esperança de encontrar um hotel onde ficar, por já serem quatro da tarde. Mas, fui andando, com vários desvios para estradas secundárias junto ao estreito de Malaca, e nada.
Perto das seis da tarde e quando já começava a escurecer, depois de ter perguntado a várias pessoas que me diziam não haver nada por perto, recorri ao GPS que me indicava um Hotel 10 Km para sul. Lá segui o que o aparelho me disse, como habitualmente com a distancia a passar para o dobro, e cheguei a um “resort” com um aspecto frio e desconfortável, com ar de pertencer ao estado, dentro da floresta. Na recepção fui atendido por duas mulheres de cabeça tapada, uma baixinha e magra e outra gorda e alta, que se mostraram muito divertidas com a minha presença e quiseram logo aprender como se dizia “welcome” em português e “how are you?”
Quando perguntei à pequenota se ali se viam animais ela respondeu:
-       À noite não.
-       E de dia?
-       De dia também não.
Um empregado que estava por perto e ouviu a conversa contradisse:
-       Eu costumo ver aqui uns macacos pretos com uma rodela branca à volta dos olhos e um rabo muito comprido que saem de uma grande árvore, perto do “bungalow” onde vai ficar, pelas sete e meia da manhã e regressam ao pôr do sol.
A mulher ainda ficou mais divertida. Trabalha ali há tantos anos e nunca tinha ouvido falar em tais espécimenes. A ver se os vejo amanhã.

29 de outubro de 2014

Tan Pak Bera



Custou-me sair de Ko Lanta. Estava um dia indo quando acordei e a praia deserta, separada do meu “bungalow” por meia dúzia de palmeiras, chamava por mim com aquele mar quase sem ondas de águas mornas. Mas o problema é que o meu visto estava a acabar e tinham-me avisado que na fronteira cobravam bem por cada dia ultrapassado no mês que eles concedem.
Arranquei perto das onze da manhã para voltar a passar os dois “ferries” de regresso ao continente. Das várias ilhas em que estive na Tailândia esta foi a que gostei mais não só por ter muito menos turismo que as outras como por ter encontrado este “resort” que, não sendo de luxo, era muito simpático e tinha uma situação extraordinária sobre uma praia deserta. Por 12,5 euros por noite.
Tinham-me recomendado vivamente que não fosse para as províncias mais a sudeste da Tailândia, por serem muito perigosas.
No total do país 95% da população são budistas mas, junto às fronteiras do sul mais de 80% da população são muçulmanos e a maioria são até de uma raça diferente, com pele mais escura e traços menos orientais que os Tailandeses do Norte e Centro.
O problema, que já encontrei noutros países como a Índia, é que muitas vezes as fronteiras são decididas em reuniões entre governantes ou nas Nações Unidas, longe das regiões que estão a dividir e por pessoas que nunca estiveram nos locais nem conhecem a realidade. Os próprios governantes desses países na maioria das vezes nunca visitaram essas regiões, por vezes recônditas. Tal como nas províncias orientais da Índia a maioria da população é de raça oriental e religião budista, estando muito mais perto física e culturalmente de Myanmar do que do resto da Índia, no Sul da Tailândia as populações têm muito mais afinidades com os vizinhos Malaios que com o resto do país. Embora isso não possa ser considerado uma desculpa o facto é que se criaram grupos revolucionários que têm espalhado o caos na região, com a colocação de bombas e assassinato de polícias, militares e até monges budistas. Não existe turismo na região que é perigosa para estrangeiros, principalmente ocidentais, de maneira que desci junto à costa ocidental muito mais pacífica, embora também maioritariamente muçulmana.
No caminho ia acertando com força numa miúda de uma “scooter”. Preparava-me para a ultrapassar ao triplo da velocidade a que ela ia, como faço a centenas de “scooters” diariamente, quando a miúda, que ainda por cima viajava sem capacete, como é costume aqui, decidiu atravessar-se à minha frente para entrar numa casa do outro lado da rua, sem olhar pelos retrovisores ou fazer qualquer sinal. Eu rodava a cerca de 120 Km/h. Travei a fundo e desviei o mais que pude para a esquerda, passando uma razia com a minha roda da frente à de trás da “scooter”. Ela só se apercebeu da situação quando eu já tinha passado.
Nesse dia apanhei apenas uma pequena chuvada, como já é costume a meio da tarde, mas não durou mais de uns dez quilómetros e não cheguei a parar.
Acabei por me instalar num pequeno Hotel na vila costeira de Can Pak Bera, uma zona sem graça. Fui jantar a um restaurante à beira mar onde uma rapariga de cabeça tapada me avisou logo que não serviam bebidas alcoólicas e me pediu que pagasse a conta quando estava a meio da refeição porque queria ir-se embora. E assim foi. Fiquei sozinho no restaurante e só não fechei a porta antes de sair porque era ao ar livre. Já estava com saudades da Tailândia budista.