4 de novembro de 2014

Cameron Highlands




Ao sair de George Town ainda tive direito a assistir a uma cena que podia ter acabado mal, à porta do Guest House onde estava instalado.
Estava a colocar as malas na moto enquanto o proprietário do Hostal ao lado explicava a um miúdo inglês, acompanhado da namorada, como se conduzia a “scooter” que acabara de lhe alugar. O rapaz, com ar confiante, dizia que sim, que não havia problema, e sentou a namorada atrás dele.
Com milhares de “scooters” a serem conduzidas nestes países por homens e mulheres de todas as idades e muitas delas alugadas a turistas que normalmente se vão safando melhor ou pior, o miúdo achou que tinha que ser uma coisa facílima. E é, só que ele nem de bicicleta devia saber andar. Acelerou e travou ao mesmo tempo e a “scooter” lá arrancou debaixo de uma barulheira que se confundia com os berros do homem do Hostal: “SLOWLY, SLOWLY. BRAKE”
 Conseguiu parar nem ele sabe como e o homem  foi ter come ele a insistir que tinha que ir devagar.
“Sim, sim” respondeu o bife. “sem problema”.
Voltou a arrancar e não fez mais de vinte metros aos esses a acelerar a fundo e a travar com quanta força tinha, antes de se espetar com a namorada no alcatrão.
O velho berrava que nem um desalmado enquanto recolhia a mal tratada “scooter” e a namorada desatou a correr assustada, de capacete na cabeça, e só parou no quarto do Hostal, para desespero do homem que no meio dos berros pedia o capacete de volta. Tive que fazer enorme esforço para não me desatar a rir
Arranquei em direção ao interior, para visitar uma zona montanhosa onde existem grandes plantações de chá. Desta vez atravessei para o continente pela ponte, ao estilo da nossa Vasco da Gama, e percorri cerca de 100 Km de autoestrada para sul.
Pouco depois de deixar a via rápida, onde as motos estão isentas de portagem, entrei numa estrada de montanha fantástica com sequencias de curvas e contracurvas rápidas, de quinta, rodeada de uma paisagem de floresta que se foi tornando mais densa ao longo dos 150 Km que me levaram a Cameron Highlands, no topo da montanha. Um gozo. Pelo caminho encontrei 4 rapazes que tinham vindo simplesmente acelerar para aquela serra nas suas motos coreanas de 250 c.c. e bebemos um chá juntos numa barraca de borda de estrada.
Em Cameron Hinghlands instalei-me num simpático Hotel de montanha, com plantas a crescerem no telhado. A temperatura tinha passado dos 39º à saída de George Town para 25º no alto da montanha. Á noite baixou ainda para uns 19 ou 20º. Tomei um duche mais quente que o habitual e para jantar, na sala com lareira acesa, vesti uma camisola. Prefiro calor a frio mas já tinha saudades de uma temperatura destas.
Um rapaz de origem Russa e a sua bonita namorada Malaia, que me tinham visto chegar na moto à tarde, pediram para se sentarem à minha mesa de jantar e quiseram saber pormenores da viagem. Ele vive há anos na Malásia, tinha ali vindo passar dois ou três dias e conhece bem o país. Perguntei-lhe o que devia visitar e deu-me excelentes indicações não só para a Malásia como para a Indonésia.

2 de novembro de 2014

Penang Island


Sem encontrar qualquer tipo de macaco, arranquei daquela espécie de Hotel pelas 9 da manhã a caminho da ilha de Penang que fica perto da costa e onde também se pode chegar através de uma longa ponte. Fiz o trajeto por estradas secundárias e optei pelo ferry, por ser a primeira alternativa que me apareceu. Entrei no meio de uma enchente de “scooters” e estacionámos com muito pouco espaço entre as motos, apenas o suficiente para desmontar e esticar as pernas. Ao meu lado direito estava um casal em que a mulher trazia um bébé ao colo que não teria mais de um mês. Ficou em pé entre a minha moto e a “scooter” do marido que preferiu ficar sentado ao volante. Quando o barco ia para atracar na outra margem eu estava em pé do lado esquerdo da moto, à conversa com outro homem e com uma mão no punho da moto. Ao atracar, o barco bateu com tal força no cais que a minha moto, que estava no descanso lateral, se desequilibrou para o lado contrário, onde estava a mulher com a criança ao colo sem espaço para onde fugir. Como tinha a mão já no punho puxei-a com quanta força tinha e consegui, não sei como, voltar a pô-la direita, evitando que caísse para cima da mulher e do bébé. Acho que se eles não estivessem ali não tinha tido força para a levantar.
A Malásia tem uma população de 28 milhões de habitantes dos quais 22 milhões se encontram na parte continental ou West Malaysia, que faz fronteira a norte com a Tailândia e a Sul com Singapura. A outra parte do país, East Malaysia, com uma área aproximada à da parte ocidental, encontra-se na ilha de Borneo, que reparte com a Indonésia e o pequeno sultanato do Brunei.
A maior originalidade do sistema político é que têm um Rei mas que é eleito a cada 5 anos, de entre os descendentes hereditários dos monarcas de 9 dos 13 estados que formam o país. Na prática têm um sistema de rotatividade, de maneira que o rei muda a cada 5 anos.
A população é uma mistura de raças com influencias mais fortes tanto de Indianos como de Chineses.
Quando cheguei à ilha de Penang, ainda era uma da tarde e decidi começar por dar uma volta à ilha. Pelo caminho almocei num restaurante junto ao mar e, da parte da tarde visitei uma quinta de frutos tropicais, onde bebi um sumo.
Pelas quatro e meia da tarde estava em George Town, a cidade desta ilha com 290 Km2. É uma cidade gira por ser tão cosmopolita, misturando zonas de prédios e Hoteis modernos com bairros típicos que nos transportam no tempo.
Instalei-me numa Guest House dum destes bairros. A rua chama-se Love Lane porque em tempos era onde os empresários locais tinham os apartamentos onde instalavam as suas amantes, apartamentos esses agora transformados em pequenos Guest Houses e Hostais que albergam a maioria dos jovens ocidentais em viagem por aquelas bandas. A rua é muito animada, com bares bem arranjados e algumas lojas de tralha antiga muito giras. Parece estarmos nos anos 70.
Ali a dois passos visitei o bairro chinês com ruas típicas e a atração de “grafitis” extraordinários, por vezes em três dimensões, aproveitando partes de bicicletas ou outros materiais.
No dia seguinte decidi fazer uma caminhada através da selva de um parque natural existente na ilha que me levaria à “turtle beach” onde supostamente avistaria enormes tartarugas. O trajeto de quatro quilómetros através da selva, com subidas e descidas acentuadas em carreiros disformes é cansativo e acabei por conseguir uma boleia de barco para voltar da praia de onde as tartarugas tinham emigrado.  Pelo caminho através da floresta encontrei muito pouca gente mas qual não foi o meu espanto quando vejo um casal de miúdos em que ele tinha vestida uma camisola da seleção portuguesa de futebol. Perguntei-lhe se sabia que camisola era aquela e o rapaz respondeu-me: “Claro. Sou um grande fã da seleção portuguesa”. Tem graça mas acho triste sermos só conhecidos nestes países longínquos através do futebol. Ninguém tem ideia onde fica Portugal e muitos nunca ouviram sequer falar no nome.

31 de outubro de 2014

Malásia




Can Pak Bera fica a menos de cem quilómetros da fronteira com a Malásia. Deixei o Hotel perto das onze horas e, ao parar numa bomba de gasolina, um homem da minha idade olhou para a moto e para os meus cabelos brancos e, com um ar sorridente, veio apalpar-me os músculos dos braços.
Fiquei só com 380 Bhats no bolso, o equivalente a cerca de 10 euros. Quando cheguei à fronteira, depois de tratar do Carnet da moto fui carimbar o passaporte mas o guarda olhou para o meu visto e disse-me que tinha caducado no dia anterior pelo que deveria pagar 500 Bhats, a tabela por cada dia de atraso. Disse-lhe que já só tinha 380, se não me fazia um desconto mas ele com cara de poucos amigos devolveu-me o passaporte e disse ou paga 500 Bhats ou não passa. Uma rapariga Israelita, bem gira por sinal, ao ouvir a conversa deu-me os 120 Bhats que faltavam. Fiquei-lhe imensamente agradecido e trocámos contactos.
A paisagem do norte da Malásia está ao nível da Tailândia, com muita vegetação, assim como a chuva, que este ano decidiu ficar por mais tempo e voltou a cair-me em cima, com força, pouco depois de entrar no país.
O primeiro aspecto curioso que nos salta à vista é que, à semelhança dos Americanos, os Malaios têm o habito de ter uma bandeira do país hasteada à porta de casa. Isto ainda é mais caricato pelo facto de a bandeira da Malásia ser muito parecida com a  americana, com as mesmas riscas encarnadas e brancas, diferenciando-se apenas na parte em que ambas têm o fundo azul mas onde as estrelas dos estados americanos aparecem substituídas por um sol e uma lua. Se pensarmos que isto é um país onde a grande maioria da população é muçulmana, o que se traduz, normalmente, num ódio aos americanos, ainda mais insólita é a situação.
Como entrei na Malásia sem um tostão em moeda local nem sequer dinheiro Tailandês, tendo apenas os 1500 dólares que transporto escondidos na moto para qualquer emergência, parti em direção à cidade mais próxima para procurar uma caixa multibanco. Ainda sem mapa do país utilizei a bússola do GPS para voltar para perto da costa ocidental de onde pretendia seguir para sul. Depois de levantar moeda Malaia em Simpang Ampat parei junto a uma pequena feira onde comi uma espetada de caranguejo e umas batatas fritas como almoço e segui junto à costa na esperança de encontrar um hotel onde ficar, por já serem quatro da tarde. Mas, fui andando, com vários desvios para estradas secundárias junto ao estreito de Malaca, e nada.
Perto das seis da tarde e quando já começava a escurecer, depois de ter perguntado a várias pessoas que me diziam não haver nada por perto, recorri ao GPS que me indicava um Hotel 10 Km para sul. Lá segui o que o aparelho me disse, como habitualmente com a distancia a passar para o dobro, e cheguei a um “resort” com um aspecto frio e desconfortável, com ar de pertencer ao estado, dentro da floresta. Na recepção fui atendido por duas mulheres de cabeça tapada, uma baixinha e magra e outra gorda e alta, que se mostraram muito divertidas com a minha presença e quiseram logo aprender como se dizia “welcome” em português e “how are you?”
Quando perguntei à pequenota se ali se viam animais ela respondeu:
-       À noite não.
-       E de dia?
-       De dia também não.
Um empregado que estava por perto e ouviu a conversa contradisse:
-       Eu costumo ver aqui uns macacos pretos com uma rodela branca à volta dos olhos e um rabo muito comprido que saem de uma grande árvore, perto do “bungalow” onde vai ficar, pelas sete e meia da manhã e regressam ao pôr do sol.
A mulher ainda ficou mais divertida. Trabalha ali há tantos anos e nunca tinha ouvido falar em tais espécimenes. A ver se os vejo amanhã.

29 de outubro de 2014

Tan Pak Bera



Custou-me sair de Ko Lanta. Estava um dia indo quando acordei e a praia deserta, separada do meu “bungalow” por meia dúzia de palmeiras, chamava por mim com aquele mar quase sem ondas de águas mornas. Mas o problema é que o meu visto estava a acabar e tinham-me avisado que na fronteira cobravam bem por cada dia ultrapassado no mês que eles concedem.
Arranquei perto das onze da manhã para voltar a passar os dois “ferries” de regresso ao continente. Das várias ilhas em que estive na Tailândia esta foi a que gostei mais não só por ter muito menos turismo que as outras como por ter encontrado este “resort” que, não sendo de luxo, era muito simpático e tinha uma situação extraordinária sobre uma praia deserta. Por 12,5 euros por noite.
Tinham-me recomendado vivamente que não fosse para as províncias mais a sudeste da Tailândia, por serem muito perigosas.
No total do país 95% da população são budistas mas, junto às fronteiras do sul mais de 80% da população são muçulmanos e a maioria são até de uma raça diferente, com pele mais escura e traços menos orientais que os Tailandeses do Norte e Centro.
O problema, que já encontrei noutros países como a Índia, é que muitas vezes as fronteiras são decididas em reuniões entre governantes ou nas Nações Unidas, longe das regiões que estão a dividir e por pessoas que nunca estiveram nos locais nem conhecem a realidade. Os próprios governantes desses países na maioria das vezes nunca visitaram essas regiões, por vezes recônditas. Tal como nas províncias orientais da Índia a maioria da população é de raça oriental e religião budista, estando muito mais perto física e culturalmente de Myanmar do que do resto da Índia, no Sul da Tailândia as populações têm muito mais afinidades com os vizinhos Malaios que com o resto do país. Embora isso não possa ser considerado uma desculpa o facto é que se criaram grupos revolucionários que têm espalhado o caos na região, com a colocação de bombas e assassinato de polícias, militares e até monges budistas. Não existe turismo na região que é perigosa para estrangeiros, principalmente ocidentais, de maneira que desci junto à costa ocidental muito mais pacífica, embora também maioritariamente muçulmana.
No caminho ia acertando com força numa miúda de uma “scooter”. Preparava-me para a ultrapassar ao triplo da velocidade a que ela ia, como faço a centenas de “scooters” diariamente, quando a miúda, que ainda por cima viajava sem capacete, como é costume aqui, decidiu atravessar-se à minha frente para entrar numa casa do outro lado da rua, sem olhar pelos retrovisores ou fazer qualquer sinal. Eu rodava a cerca de 120 Km/h. Travei a fundo e desviei o mais que pude para a esquerda, passando uma razia com a minha roda da frente à de trás da “scooter”. Ela só se apercebeu da situação quando eu já tinha passado.
Nesse dia apanhei apenas uma pequena chuvada, como já é costume a meio da tarde, mas não durou mais de uns dez quilómetros e não cheguei a parar.
Acabei por me instalar num pequeno Hotel na vila costeira de Can Pak Bera, uma zona sem graça. Fui jantar a um restaurante à beira mar onde uma rapariga de cabeça tapada me avisou logo que não serviam bebidas alcoólicas e me pediu que pagasse a conta quando estava a meio da refeição porque queria ir-se embora. E assim foi. Fiquei sozinho no restaurante e só não fechei a porta antes de sair porque era ao ar livre. Já estava com saudades da Tailândia budista.   

26 de outubro de 2014

Ko Lanta Island




 No dia seguinte, pelas oito da manhã, vieram-me buscar ao Hotel numa “pick-up” para o tal passeio de barco. Ao princípio, sozinho na caixa de carga, senti-me como os pretos que vi na Namíbia a viajarem nas caixas de carga das “pick-ups” com os patrões brancos ao volante e o lugar vago ao lado. Mas lá apanhámos mais um casal de miúdos americanos pelo caminho e já não me senti tão abandonado.
Na prática aqui os turistas, e não só, andam todos de um lado para o outro em bancos corridos colocados nas caixas de carga das “pick-ups”. A alternativa são as “scooter” de aluguer.
Quinze minutos depois estávamos no pequeno porto onde nos esperava um destes barcos típicos Tailandeses que são uma espécie de canoas com bancos corridos de cada lado e um motor de carro colocado na traseira, ligado a uma hélice através de um longo veio em que o conjunto faz pivot para fazer de leme ou para o piloto simplesmente tirar a hélice de dentro de água, o que passa a ser o ponto morto. Fazem um barulho ensurdecedor, incómodo principalmente em viagens longas, pois não têm nem filtro de ar nem silenciador no escape.
Arrancámos naquela “traineira” para um passeio fabuloso, que durou quase o dia inteiro. Fomos primeiro a duas pequenas ilhas, inacessíveis por serem escarpas altas, mas onde nas margens têm um mundo de peixes e corais em quantidade e variedade impressionantes. Andámos cerca de meia hora em cada a fazer “snorkeling” e com a Go Pro filmei paisagens submarinas extraordinárias, embora  o resultado final não tenha sido o esperado, talvez por a água não estar tão transparente como à vista me pareceu. As vezes que tinha andado com óculos e um respirador a ver o fundo do mar tinha visto meia dúzia de peixes sem grande interesse mas aqui parecia que os peixes estavam a representar para nós uma amostra de variedade tanto de formatos como de cores, alguns às riscas outros às pintas. Simplesmente fantástico.
De ali seguimos para uma terceira ilha onde voltámos a mergulhar borda fora mas desta vez para passarmos por uma gruta dentro de água para o interior da ilha onde, à saída, encontramos uma praia rodeada de rochas altíssimas cobertas de vegetação. Impressionante. A única entrada para aquela que chamam Morakat Cave é por dentro de água, com a maré vazia, através desta gruta que fica submersa quando a maré enche e por isso, em tempos idos, o local foi utilizado por piratas para esconderem o seu espólio antes de o levarem para o continente.
Visitámos depois uma quarta ilha, muito maior, onde existem mesmo alguns “Resorts” de várias classes e onde almoçámos, para regressarmos a Ko Lanta pelas três da tarde na viagem de pouco mais de uma hora. Um dia fantástico.

23 de outubro de 2014

Ilha Phi Phi



Fiquei pela praia da ilha Phi Phi até às duas e meia da tarde. Passei depois no Hotel a tomar um duche e parti para o porto apanhar o único barco diário, que parte da ilha às 15,30.
A viagem começou com um tempo fantástico e, no pontão da frente, adormeci ao sol na parte da viagem em que já nos tínhamos afastado da ilha e estávamos ainda longe das espalhadas pela outra margem para as poder observar. Íamos a meio caminho quando no horizonte se começou a vislumbrar uma tempestade, com o céu preto e o mar mais agitado. Quando entrámos naquela zona veio uma chuva que foi aumentando muito de intensidade e o vento começou a soprar muito forte. Eu era dos poucos passageiros que estava cá fora. Agarrei o livro e a toalha que trazia mas perdi o chapéu que tinha comprado na ilha no dia anterior para me proteger a careca. A situação piorou e acabei por entrar na cabine. No interior estavam umas 30 pessoas, a maioria com ar preocupado enquanto duas japonesas, praticamente em pânico, vestiam os coletes de salvação a preverem o pior.
Armado em lobo do mar tentei acalmá-las dizendo que aquilo não era nada e que não corríamos qualquer perigo, o que até era verdade. No entanto, os pequenos barcos que eram suposto colher alguns dos passageiros pelo caminho, como se tinha passado na ida, não apareceram devido ao temporal e acabámos por ter que arrancar para o porto de onde eu tinha saído na manhã do dia anterior com todos os passageiros a bordo.
Quando chegamos ainda chovia, embora com menos intensidade e era quase noite de maneira que me voltei a instalar em Krabi, desta vez num “bungalow” de borda de estrada junto à praia, por ser mais barato que o parque onde tinha ficado duas noites antes.
Na manhã seguinte chovia um pouco e acabei por sair já perto das onze, a caminho da ilha de Ko Lanta que já duas pessoas me tinham recomendado vivamente e que fica a pouco mais de cem quilómetros. Depois de atravessar um primeiro Ferry para a ilha mais pequena andamos meia dúzia de quilómetros para entrar num segundo que nos leva à ilha maior. Este ultimo deixará de existir  em breve, o que é pena, pois estão a construir uma ponte que junta os cerca de 200 metros que separam as duas margens. Enquanto isso não acontece o preço do bilhete para os dois ferries, incluindo a passagem da moto, são o equivalente a um euro.
A ilha de Ko Lanta é fantástica não por a paisagem ser mais exuberante que as que visitei antes mas por estar menos explorada turisticamente. Nesta altura do ano facilmente encontramos praias fantásticas absolutamente desertas e acabei por me instalar numa cabana dum “Resort”, junto a uma destas praias, onde pago o equivalente a 12,50 euros por noite. Antes disso fui até um parque natural existente na ponta da ilha mas onde, tal como outros que visitei na Tailândia, não podemos andar mais que dois ou três quilómetros dentro do parque, onde se encontra uma zona em que se pode acampar. Só que este tinha uma praia deserta onde acompanhei duas americanas que encontrei no local num banho em cuecas. Ficamos à conversa dentro da água quente e elas recomendaram-me um passeio de barco que tinham feito no dia anterior por quatro pequenas ilhas perto de Ko Lanta.
Quando saímos de dentro de água e eu voltei a vestir o fato da moto senti uma coisa dentro de uma das botas que ao princípio pensei tratar-se de um bocado de terra e ignorei, só que se começou a mexer. Tirei a bota e saiu de lá um caranguejo, ainda vivo. Rimo-nos da situação e despedi-me das miúdas.

21 de outubro de 2014

Krabi




Hoje, acordei já perto das dez, tomei o pequeno almoço num restaurante a 300 metros de casa e, antes de deixar Phuket, ainda me fui despedir da menina, tão querida, com quem tinha estado ontem à noite.
Na noite passada ainda tive um episódio caricato quando, na rua dos bares, decidi tirar uma fotografia a dois travestis espampanantes, de plumas e saltos altos. Uma delas pediu-me para lhe dar 100 Bahts e ficou furiosa por eu recusar, deixando de fazer a pose. Quando estavam distraídas com outros turistas tirei a fotografia mas ela, ao ver, veio ter comigo e espetou-me as unhas na mão. Não lhe dei uma lambada porque tinha o dobro do meu tamanho e, no fundo, não saberia bem se estaria a bater num homem ou numa mulher.
Ao arrancar segui um trajeto indicado pelo meu amigo Ernest em que passei numa estrada de montanha linda, pelo meio das altíssimas rochas cobertas de vegetação que há nesta região e que formam uma paisagem exuberante.
Pelas quatro da tarde cheguei a Krabi, local onde tinha previsto ficar. Como a praia estava quase deserta e a areia dura, da maré vazante, desci a moto até ao areal e acelerei à beira mar pela magnífica praia.
Parei depois para almoçar, numa esplanada sobre o mar, o que me pareceu ser um choco gigante. Tinha um aspecto fantástico em cru mas ficou muito duro depois de assado nas brasas.
Tratei de procurar onde ficar e acabei por voltar a instalar-me num “bungalow” de um parque natural aqui junto à praia. A menina da recepção indicou-me que a “password” para o “wifi” era Phi Phi e perguntei-lhe se havia aqui maneira de chegar à ilha. Disse-me que o porto de onde saía um barco todas as manhãs para a paradisíaca ilha era mesmo ali, nas traseiras da recepção, de maneira que tratei logo de comprar um bilhete para o barco do dia seguinte.
Pelas seis da tarde, com o sol a pôr-se mas uma temperatura de mais de 30º ainda fui dar um mergulho. A maré estava muito vazia de maneira que andei pela praia de areia muito fina, quase terra, uns bons 200 metros antes de entrar na água e depois outros tantos, com água pelo joelho, até ter profundidade suficiente para poder tomar banho. Olhei para o lado e estava mais afastado da costa que duas ilhas dos seus 2 e 5 hectares que tinham quase deixado de ser ilhas, de tal forma baixou a mare. Uma visão deslumbrante com a água, onde apenas quatro ou cinco crianças brincavam, quase à temperatura ambiente.
Jantei por ali e deitei-me cedo.
A viagem de barco até à ilha Phi Phi, que demora cerca de hora e meia, é espetacular. Passamos por entre muitas pequenas ilhas desabitadas e, pelo caminho, o barco chega mais perto da costa noutro local, para embarcar mais pessoas que fazem o transbordo de pequenas canoas motorizadas, das muitas que têm aqui como motores de carro a diesel, instalados na traseira, que fazem a refrigeração através de um sistema com tubos onde circula água doce que mergulham na água do mar na parte de trás do barco. A saída da cambota liga diretamente a um longo veio, dos seus três ou quatro metros de comprimento, na ponta do qual está a hélice. O sistema não prevê marcha atrás e o ponto morto faz-se com o piloto a inclinar o conjunto motor/ventoinha para a frente, tirando-a fora de água. Engenhoso e eficiente.
A mulher da recepção em Krabi tinha-me dito que não teria problemas em encontrar onde ficar na ilha Phi Phi e, de facto, mal desembarcamos somos invadidos com propostas que variam entre pensões de 12 euros por noite a fabulosos hotéis, com “bungalows” em cima de praias desertas por 150 euros.
Fiquei-me por uma de 25 euros, bera mas junto a uma praia onde os bares com música “chill out” durante o dia e cadeiras onde ficar a ler e torrar ao sol se transformavam à noite em locais de festa e animação.
Ali não circulam veículos motorizados, à exceção de duas ou três “scooters” da polícia, de maneira que andamos do porto para os hotéis a pé, acompanhados de miúdos que, nuns carrinhos de mão, transportam as malas. Para alguns locais da ilha só se vai de barco.
Instalei-me na praia a tomar banhos sem fim naquelas águas paradas e quentes e almocei por ali. Adormeci depois ao sol e apanhei um escaldão na cara e careca como não me lembrava de alguma vez ter apanhado.
À noite, quando regressava do jantar, vinha a caminhar junto a um estrangeiro dos seus 40  anos quando as meninas de uma das casas de massagens nos chamaram. “É para si” disse-me ele. “Não. Pareceu-me ser para si”.
Conversa puxa conversa decidimos ir beber uma cerveja a um dos bares da praia. O Jeremy tem um trabalho curioso: Especializou-se nos Estados Unidos em “half pipes” e constrói-os contratado pelas estâncias de esqui. Esteve em trabalho na Austrália, onde eu não fazia ideia que existiam pistas de esqui, e ali passava férias antes de partir para um novo contrato na Suiça, onde passaria o inverno.