28 de setembro de 2014

Tha Pla




Quando saímos de Chiang Mai a minha ideia era continuar a volta Á Tailândia, agora descendo pelo lado oriental, perto da fronteira com o Laos. Assim, nessa manhã olhei para o mapa e decidi ir visitar um parque natural que ficava junto a um enorme lago, a uns 200 Km de ali, para oriente.
O dia estava cinzento e, depois de um almoço numa esplanada com vista sobre um magnifico vale, apanhamos alguma chuva. Entramos no parque pelas três da tarde. Na prática, limitava-se a uma meia dúzia de quilómetros de estrada a desembocarem nas margens do lago, onde se poderia acampar.
Tiramos umas fotografias à paisagem deslumbrante e tratamos de ir procurar um sítio onde dormir visto não trazermos equipamento de campismo.
50 Km à frente, contornando as margens do lago, encontramos um pequeno “resort” com “bangalows” no meio do mato, onde ficamos como únicos hospedes. São sítios que não são visitados por estrangeiros por ficarem fora das rotas dos autocarros turísticos onde ninguém fala Inglês.
Como o “resort” não tinha restaurante perguntamos onde poderíamos jantar e indicaram-nos uma pequena aldeia de pescadores junto ao lago.
Pelas 8,30 da noite fizemos cerca de cinco quilómetros por uma estrada deserta e fomos ter às margens do lago onde, construídas em madeira em cima de estacas dentro de água, havia várias habitações de pescadores. Atravessámos por cima de umas estreitas tábuas que tocavam a água com o nosso peso para o que nos pareceu ser a casa mais movimentada mas, antes de aí chegarmos, saiu de lá um homem de bigode, descalço, em calções e tronco nu todo tatuado com o ar alegre de quem já tinha bebido uns copos. Percebia um pouco de inglês mas só sabia pronunciar duas ou três palavras de maneira que falámos com ele em inglês, acompanhado por gestos, e percebeu que pretendíamos jantar. Pediu que o acompanhássemos através das tábuas colocadas sobre a água, algumas delas afundando-se à nossa passagem uns bons 5 cm. A Maria tratou de tirar os sapatos e eu encharquei os meus mas lá chegámos ao que seria o restaurante. Dois homens e um miúdo dos seus 20 anos estavam sentados à volta de uma mesa onde várias garrafas vazias acompanhavam uma meia de whisky manhoso e os três cantavam Karaoke para um écran ao fundo desta salão ao ar livre, visivelmente “alegres”.
O homem tatuado explicou que pretendíamos comer qualquer coisa e o dono sugeriu um arroz de legumes que aceitámos. Enquanto ele cozinhava o arroz o nosso amigo tratou de se servir também ele de um copo de whisky e divertidíssimo por ali ficou a dançar e a cantar ao som do Karaoke. Às tantas perguntaram-nos se não queríamos cantar e tanto eu como a Maria ensaiámos músicas escolhidas de um enorme catálogo multilinguístico.
Passámos uma noite muito divertida a cantar e a beber com aqueles pescadores.
Na manhã seguinte voltámos lá, para ver o local à luz do dia e os nossos homens estavam radiantes por terem acabado de pescar uma espécie de pargo gigante, com cerca de 60 Kg. Preparavam-se para o transportar numa “pick-up” para o venderem na cidade mais próxima, pois na aldeia não tinham gente para comer tamanho animal.

26 de setembro de 2014

Sukhothai





Pelas dez da manhã partimos em direção a Sukhothai onde chegámos ainda a tempo de visitar parte da velha cidade. No início do século XIII Sukhothai foi um próspero reino que muitos consideram ter dado origem à Tailândia.
Ficámos a apreciar aquelas ruinas na manhã do dia seguinte, desta vez em bicicletas alugadas.
 Da parte da tarde contratámos o Chip, que organiza passeios de bicicleta na região, para darmos uma grande volta pelo campo.
O Chip mostrou-nos como a população de uma pequena aldeia dos arredores, maioritariamente agricultores, montou uma fábrica de móveis num período de seca, em regime de cooperativa, para compensar a falta de trabalho nos campos. Explicou-nos também tudo sobre o cultivo do arroz, mostrando-nos nos campos a diferença entre o que é semeado e o que  é plantado à mão e os vários tipos de arroz que cultivam na região. Por fim visitamos uma fabrica artesanal de uma espécie de aguardente de arroz, a que chamam whisky de arroz, que funciona só com um casal. Os dois fermentam o arroz para depois  destilarem o mosto em alambiques rudimentares. Produzem uns 100 litros por dia com a mulher a ir provando o produto ao longo das várias fases. Quando a vi fazer várias provas, sem cuspir o liquido, nos 15 minutos que ali estivemos, perguntei ao Chip se ela não chegava bêbada ao fim do dia de trabalho mas ele disse-me que não, que estava habituada. Deve ficar transtornada é se um dia deixar de beber whisky de arroz.
Na manhã seguinte arrancámos para Chiang Mai. À medida que vamos rodando para Norte a temperatura baixa um pouco, dos 37, 38º para 32,33, tornando-se mais fácil de suportar, e a paisagem é cada vez mais luxuriante, com vegetação densa desde a borda da estrada. A meio caminho parei numa pequena oficina onde me arranjaram uma porca para substituir a que tinha perdido de um dos apoios do para brisas.
Chiang Mai é uma cidade grande e tendo um aeroporto, é bastante turística. A primeira impressão foi má e, circulando pelas ruas principais, não encontrava nenhum Hotel. Decidi então parar num café onde anunciavam ter internet para procurar um. O trajeto do Hotel que escolhi mandava-nos para uma zona de ruas estreitas mais animada e com melhor ambiente. Comecei a apreciar a cidade. Depois de uma hora à procura do Hotel que tinha visto na Internet sem o encontrar acabámos por ficar no primeiro decente que nos apareceu. Jantámos numa tasca local, numa esplanada junto à estrada, e no dia seguinte  começamos por visitar um parque de elefantes, onde a Maria esteve a dar banho a um deles. Depois do banho no rio decidiu montar o elefante. Para isso o tratador mandou o elefante baixar-se e ela trepou lá para cima. O pior foi para sair. Por mais que o homem mandasse o elefante baixar-se de novo, o animal não lhe ligava nenhuma e rodopiava com a Maria em cima dele, embora uma corrente atada a uma pata que o tratador segurava com quantas forças tinha, não o deixasse ir longe. Às tantas decidiram tirar o elefante do rio mas mesmo cá fora ele recusou a baixar-se. Trouxeram então uma cria para junto dele com a intenção de o acalmar mas acabou por ter que ser outro tratador a saltar para cima de um segundo elefante que se pôs ao lado daquele passando a Maria de um para o outro.
Depois desse episódio caricato que já tinha toda uma plateia de publico e tratadores a assistir, cada um a dar a sua opinião, presenciamos um “show” extraordinário onde elefantes jogavam futebol e pintavam quadros com um pincel na tromba, de uma perfeição impressionante.
Por fim demos um passeio de elefante de uma hora pela floresta. Muito animada, a ida ao parque dos elefantes.
Nesse dia ainda fomos a um parque de Tigres onde tiramos fotografias junto às feras. Estes não pareciam estar drogados, como o de três dias antes, mas simplesmente bem amestrados.
Ao fim do dia ainda subimos à montanha mais alta de Chiang Mai para visitar o principal templo da cidade. A estrada até ao alto da montanha era espetacular com curvas e contracurvas de vários raios em bom piso. Já perto do cimo encontramos um grupo de uns vinte motociclistas que me contaram encontrarem-se ali todos os fins de tarde só pelo gozo de subirem e descerem aquela estrada.
O templo Budista era dos melhores e mais bem arranjados que já tenho visto e tivemos a sorte de chegar a uma hora onde começou uma reza dirigida por um “Master Buda” perante quem os miúdos budistas se ajoelhavam à sua passagem. Fantástico.

24 de setembro de 2014

Ayuthaya




A Tailândia é um país muito mais desenvolvido que os vizinhos da Birmânia, Laos, Vietnam ou Cambodja.
50% da população vive da agricultura, principalmente de arroz, do qual são o 3º exportador mundial, mas a industria desenvolveu-se muito nas ultimas décadas e produzem não só coisas básicas como roupas ou sapatos mas também alta tecnologia como computadores ou peças para automóveis. Na oficina onde estive a reparar a moto vi acessórios para motos de altíssima qualidade fabricados localmente.
O desenvolvimento económico levou a que o transito na capital se tornasse caótico. De carro leva-se horas a atravessar a cidade que é, toda ela, um engarrafamento enorme e permanente. Não que o transito não seja organizado mas ficamos com a sensação que cada habitante tem pelo menos um carro, na maioria “pick-ups”. Os sinais luminosos demoram muito mais tempo a mudar do que na Europa e é usual ficarmos parados 4 ou mesmo 5 minutos num sinal encarnado. O que vale é que, como bons Budistas que são, os tailandeses não se parecem enervar e é muito raro ouvir-se uma buzina.
No Segundo dia de visita à Tailândia fomos visitar o Palácio Real e o espetacular Templo Esmeralda, onde os reis oravam a Buda, antes de deixarmos Bangkok, a caminho de Ayuthaya, antiga capital.
Acordámos pelas nove  e ao procurarmos um local para tomar o pequeno almoço só nos ofereciam frango, arroz ou massa de maneira que acabámos num supermercado onde eu escolhi uma tarte recheada de maçã e a Maria o que parecia ser um pão recheado de chocolate. Sentámo-nos numa escada com o nosso “pick-nick”. A tarte não era má mas perante a insistência da Maria a dizer que o chocolate não sabia a chocolate procurámos a embalagem e constatamos que o pequeno almoço dela tinha sido pão recheado com pasta de feijão.
Tivemos uma manhã divertida que incluiu uma visita às ruinas da velha capital, um passeio de elefante, outro de canoa à volta de um mercado flutuante e uma sessão fotográfica junto a um tigre que felizmente parecia estar mais drogado que um “junkie” do Casal Ventoso.
Nesse dia ainda fizemos uns 200 Km em direção a Sukhothai.
Parámos junto a um telheiro à borda da estrada onde uma família vendia refeições. Sem perceberem uma palavra de inglês, pedimos um prato idêntico ao que o único cliente tinha, um arroz de camarão com bom aspecto, mesmo se picante de mais. Estávamos a acabar quando a senhora, simpática, trouxe uma travessa para a mesa explicando que era oferta da casa. Sem pestanejar a Maria deu uma garfada no que parecia ser um escaravelho embrulhado em legumes e pôs aquilo na boca.
-“grande corajosa”, disse eu.
- “pai ! o que é isto? É para comer?”
- “acho que não”
Com vergonha de deitar aquilo fora em frente da mulher ainda lhe deu duas trincas, que não lhe fizeram mal.
Nesse dia ficámos em Nakhon Sawan, uma cidade sem turistas e onde nem o empregado da recepção do Hotel falava Inglês. Quando lhe perguntámos a que horas fechavam as lojas apontou para o numero nove no seu relógio de pulso e disse:
- “three o’clock”

22 de setembro de 2014


Bangkok 2

Já estava com saudades de pegar na moto e partir, rumo ao desconhecido, sem horário ou calendário. Em Maio tinha deixado a “Cross Tourer” em Bangkok, em casa de um casal que conheci através de uma amiga comum.
Agora aterrei na capital Tailandesa acompanhado da minha filha Maria, que acabou o curso este ano e ainda não começou a trabalhar.
Veio comigo dar a volta à Tailandia pois quando aqui entrei em Janeiro vim do Cambodja direito a Bangkok, não chegando a conhecer o país.
Pensei que em Setembro já teria acabado a época das chuvas mas é suposto durar mais um mês. De qualquer forma já só temos apanhado uma chuva miuda e muito esporádica. O calor é que é quase insuportável, rondando os 37, 38º dia e noite e com muita humidade, que faz com que estejamos sempre a suar.
Chegámos por volta do meio dia de cá, seis horas mais que em Portugal e tratei logo de ver se a moto pegava. Tinha deixado a bateria desligada em Janeiro e, quando a liguei agora, parecia nova. A “Cross Tourer”, como boa Honda que é, pegou à primeira.
No dia seguinte ainda meio
“azomboado” por uma noite mal dormida, afectado pelo “jet lag” que, quando viajo para oriente me leva uma semana a passar, fui tratar de mudar o oleo à moto e fazer pequenas reparações como soldar os apoios em alumínio das carenagens inferiores, que se tinham partido com o tratamento que levou na India e Birmânia, e trocar as manetes de travão e embraiagem, vítimas das quedas que tive junto às praias das 4000 islands no Laos.
A Maria levou uma seca de três horas numa oficina de motos mas depois ainda tivemos tempo para visitar um templo Budista e a casa de Jim Thompson, um arquitecto Americano que para aqui veio viver no fim da segunda grande Guerra, depois de ter ficado encantado com o país quando cumpriu cá serviço militar. Em 43 a Tailandia decretou guerra à Inglaterra e Estados Unidos. Este Americano, que se tinha divorciado sem filhos, comprou um terreno em Bangkok, junto a um dos canais e montou várias casas típicas em madeira, para si e empregados, que trouxe da provincia depois de as fazer desmontar. O resultado é fantastico. Jim Thompson desapareceu misteriosamente, com 61 anos, quando passeava numa floresta Malaia e o sobrinho herdeiro entregou a casa ao estado como museu.
A Tailandia tem 60 milhões de habitantes dos quais 10 milhões vivem em Bangkok. O ano passado, como já tem acontecido por diversas vezes, os militares tomaram conta do poder por os partidos se desentenderem em revoltas por vezes sangrentas e, até novas eleições, que se esperam para dentro de um ou dois anos, vivem controlados pela tropa. Têm um rei que, como em qualquer regime actual, tem pouco poder executivo. Como curiosidade refira-se que a constituição decreta que o rei só pode ser budista e todos os jovens Tailandeses são obrigados, durante um periodo da sua vida, que se for sua vontade se pode resumir a uma ou duas semanas, a serem monges e viverem num Templo, seguindo regras rígidas que incluem a proibição de olhar para raparigas. Alguns adaptam-se ao sistema e passam lá uma vida santa.
 


10 de março de 2014

Bangkok


Pelas dez e meia da manhã deixei Siem Reap em direção à fronteira com a Tailândia. Quase que uma única recta de 150 Km em bom piso levam-nos até Krong Paoy Paet.
Passava pouco de meio dia quando aí cheguei. O homem que tratava do Carnet estava a almoçar mas dez minutos depois apareceu e rapidamente carimbou o documento. Ao chegar à secção de passaportes com a moto deparei com uma enorme fila de turistas, acabados de descarregar de uma camioneta. Um dos guardas fronteiriços propôs-me carimbar o Passaporte por seis dólares. Ofereci-lhe cinco e quando lhe passava o dinheiro para a mão surgiu o chefe que, com o ar mais natural do mundo, pegou nas notas que estavam na mão do entristecido homem, colocou-as dentro do Passaporte e partiu, regressando dois minutos depois com o carimbo de saída colocado.
Passei para a parte Tailandesa. Dois rapazes, um com os seus vinte anos e outro de uns trinta, estavam sentados por trás de uma mesa ao ar livre. Comandavam uma cancela manual que abriam e fechavam de vez em quando, não percebi bem com que critério. Carros, camiões ou pequenas motos, todos tinham que carimbar um papel e passaporte junto destes homens. No meio da mesa um cesto para as gorjetas, à vista de todos, em que quase toda a gente que por ali passava colocava ora moedas ora uma nota, neste caso retirando, pelas próprias mãos, o troco em moedas do cesto, conforme o que cada um achava justo. Os dois homens só olhavam para o cesto quando começava a ficar cheio de notas. Nessa altura o mais velho pegava no molho e colocava-as num saco que tinha ao lado da mesa.
Não senti que quem não contribuísse para o cesto fosse tratado de forma diferente. Influencia sim, teve a farda de um oficial superior a passar com um amigo, sem deixar gorjeta, que deixou os rapazes nervosos e apressados.
Tive que ali ficar à espera, durante duas horas, de um seguro que me obrigaram a fazer para a moto, por não aceitarem o internacional que trazia, e assisti em direto e a cores em como aquele dinheiro das gorjetas serviu não só para pagar a um fornecedor de Tabaco que apareceu com três pacotes de 20 maços para o rapaz mais velho como para quando ele enviou outro empregado carregar-lhe o telemóvel. O dinheiro com que paguei o seguro, que um suposto empregado da companhia veio trazer, também foi para dentro do saco azul.
Passava das três da tarde quando finalmente passei a fronteira e parti a caminho de Bangkok, a 250 Km de distancia. A estrada era boa mas, à medida que me aproximava da cidade, o transito intensificava-se até que, a uns cinquenta quilómetros, se começam a formar enormes filas que consegui ir passando mas muito devagar.
Entrei em Bangkok já de noite. É como uma cidade europeia mas mais espalhada em extensão e menos em altura. A Tailândia tem uma economia muito diferente da dos últimos países por onde passei até ali chegar. Fui ter a casa de uns amigos onde tinha combinado deixar a moto durante os próximos seis meses, até regressar à viagem. No dia seguinte, véspera de apanhar o avião para Lisboa, fiquei a tratar de lavar a moto, guardá-la na garagem, desligar a bateria e lavar fato, botas e capacete, que estavam num estado lastimoso.
Entretanto, desde o dia que passei na floresta do Cambodja estava com uma dor no ombro direito que pensei ser resultado de um desastre que tinha tido na marginal há cerca de um ano, que ainda tem dado dores, esporadicamente. Mas esta dor de agora agravava-se de dia para dia e ontem, depois do duche, reparei numa espécie de sinal, alto, que não me lembrava de ter. Tinha uma ponta solta de maneira que lhe dei um puxão forte para o conseguir arrancar. Era uma carraça, que se alimentara do meu corpo nos últimos cinco dias.


5 de março de 2014

Cambodja 2


Depois daquele dia passado na floresta, caí na cama, de rastos, às dez da noite. Acordei às seis e pelas sete estava a tomar o pequeno almoço numa das barracas da vila, ao lado de um talho de rua onde uma cabeça de vaca olhava para mim. Aqui não há pão e ovos também não se usam ao pequeno almoço. Tive que me adaptar a comer uma espécie de esparguete com ervas e sementes mergulhado num caldo quente. Não era mau. A menina ainda me propôs juntar uns pedaços de carne ou miolos de vaca àquela sopa mas preferi não arriscar.
Parti pelas oito e meia para percorrer de volta os 65 Km de estrada de terra que me tinham levado até ali. Desta vez pude rodar a 90 Km/h nas partes de melhor piso e fiz aquele trajeto numa hora. Já perto do fim, com as vibrações, soltaram-se os parafusos que prendem o vidro da carenagem e encostei numa “chafarica” de um miúdo que reparava pequenas motos, para recolocar as fixações. Uma jovem cliente, que esperava estendida numa rede presa na parede da barraca que a sua moto ficasse pronta, levantou-se quando ouviu o barulho da “Cross Tourer” a chegar.
Arranquei, já com o vidro no sítio, vinte minutos depois e apanhei a partir dali uma boa estrada alcatroada durante uns cem quilómetros e depois outros 150 Km de mau piso, com vários troços em terra batida.
Nesta zona do Norte do Cambodja não há bombas de gasolina como as conhecemos mas apenas comerciantes que, com um bidão e uma bomba manual, vendem gasolina à porta de casa ou do estabelecimento, protegidos por um chapéu de sol. Muitas vezes não é má mas mais cara que nas bombas convencionais, onde nestes países é vendida ao equivalente a um euro por litro.
À medida que rodo para sul a temperatura vai aumentando e hoje chegou aos 40º o que, mesmo sem forros no fato, dá para suar bastante. De vez em quando ponho-me em pé para o ar entrar pelo blusão.
Nos últimos cem quilómetros do dia voltei a apanhar estrada boa mas, quando estava a cerca de 60 Km de Kampong Cham, a cidade em que tinha planeado ficar, tive o meu primeiro furo da viagem. Por sorte estava a atravessar uma aldeia e quando olhei para o outro lado da rua havia uma dessas oficinas de motos locais. Parei para reparar o furo e eles estranharam o pneu ser “tubeless”, “como os dos carros”, referia o patrão. Foram a uma oficina que repara rodas de carros buscar um taco e, meia hora depois estava outra vez na estrada.
Kampong Cham é uma cidade gira, sobre o rio, onde volto a encontrar turistas.
No dia seguinte parti só por volta do meio dia para percorrer os 270 Km que me separavam de Siem Reap. Voltei a apanhar uma parte em terra batida e mais uma vez os suportes do vidro, que já estão em mau estado e não tenho para substituir, se desapertaram.
Siem Reap é fantástica, atravessada por um estreito rio, com um ambiente extraordinário. Instalei-me num pequeno Hotel, junto ao rio, cujo proprietário é um francês, filho de mãe vietnamita, sobrinho da rainha do Cambodja e casado com uma mulher local linda. Recebeu-me de forma fantástica e convidou-me para jantar com a família.
Á noite dei uma passeio a pé pela cidade. Uma animada rua com letreiros pendurados a anunciarem Pub’s Street é preenchida com bares e restaurantes cheios de turistas ocidentais, com música ao vivo em vários deles cujo som se mistura com o das bandas de rua, dando um ambiente de festa exótico ao local.
Ali a prostituição também é um dos atrativos turísticos e os homens dos táxis locais, pequenas motos com um reboque atrelado onde levam os passageiros, não se cansam de perguntar: “do you want a girl for bum, bum”?
Na manhã seguinte fui visitar a cidade velha e ao ver, da avenida de entrada, o Palácio de Angkor Wat, tive a mesma sensação de quando, há muitos anos atrás, vi pela primeira vez a imagem de Petra, na Jordania, com o sol da manhã a bater-lhe na fachada, em cima do dorso de um cavalo, ao descer o estreito desfiladeiro que ali nos leva. Sentimos uma falta de ar de encantamento por imagens que não são possíveis de reproduzir fotograficamente.
Aquele que é o maior monumento religioso do mundo foi mandado construir no século XII pelo rei Khmer Suryavarman II. Embora seja considerado um templo, na altura Indhu, era a residência do Rei. É rodeado por um enorme lago artificial em forma de quadrado e naquelas instalações, que incluíam duas piscinas em pátios interiores e jardins fabulosos, chegaram a viver 12.500 pessoas, incluindo, segundo reza a história, 18 bispos hindhus e 615 bailarinas.
Comecei a imaginar o maravilhoso que deveria ser Reinar naquela época, naquele palácio, com as bailarinas sempre a dançarem à nossa volta e os bispos a perdoarem-nos os pecados.
Fui visitar depois outras ruinas desta fabulosa velha cidade de Angkor Wat onde está incluído o Palácio Ta Prohm, considerado “World Heritage Site” pela Unesco. Esteve ao abandono durante séculos e quando o decidiram restaurar, já em pleno século XXI, optaram, e bem, por manter as seculares árvores que entretanto tinham crescido à volta e dentro das ruínas, dando-lhe um aspecto fantasmagórico, aproveitado para as filmagens de “Tomb Raider”.  


3 de março de 2014

Cambodja



Dia fantástico passado na floresta.
Ontem tinha ficado nesta vila, com as ruas em terra batida, junto a um rio. Depois de me aconselharem a não seguir viagem pelo outro lado do rio decidi ficar por aqui e, mais tarde várias pessoas me disseram-me que a estrada que pretendia apanhar estava praticamente intransponível, com grande quantidade de areia solta onde a “Cross Tourer” se enterraria facilmente.
Um miúdo veio sugerir-me uma alternativa original. Conhecia uma homem que vivia na floresta e propôs-me fazer um passeio através da densa floresta, uma espécie de “trecking” com a ajuda deste “homem da floresta”.


Achei boa ideia e, passava pouco das sete e meia da manhã quando arrancamos os dois na minha moto junto ao rio, para o atravessarmos sete ou oito quilômetros à frente. A primeira armadilha surgiu ainda nesse trajeto quando uma ponte caída me obrigou a atravessar outra muito rudimentar, estreita e de ar frágil. Esta estrada em que seguíamos era só para peões e motos pois não tinha largura para caberem carros e esta ponte não estava pensada para ser transposta por uma moto de 300 Kg. Felizmente aguentou o esforço.
A entrada para a barcaça era através de uma rampa estreita, em terra batida com areia solta e muita inclinação, com um barranco do lado de fora que acabava no rio. A coisa lá correu bem mas na saída, idêntica mas a subir, deixei cair a moto, felizmente sem estragos. Depois, no trajeto até à floresta, tive que atravessar uma ponte que tinha abatido a meio mas que continuavam a utilizar. Pedi ao miúdo para desmontar a lá passei sem problemas.
Chegámos a uma pequena aldeia na floresta com quatro ou cinco casas que não eram mais que telheiros sem paredes onde as pessoas se abrigavam das chuvas na época das monções e do sol nestes dias de calor. Um velho preparava folhas de tabaco que plantara junto ao rio enquanto a sua mulher fumava, tranquilamente, um cachimbo. As crianças da pequena aldeia, ao verem aparecer a “Cross Tourer” com um homem de capacete, devem ter pensado tratar-se de um extra terrestre e desataram a fugir assustadas. Aqui só a partir dos sete anos usam alguma peça de roupa.
Deixei a moto na aldeia e um miúdo guiou-nos, primeiro através de alguns campos de arroz e depois de floresta, durante cerca de 15 minutos, até casa do tal “homem da floresta” que vivia com uma mulher e dois filhos pequenos.
Iniciámos então a nossa caminhada através de densa floresta, onde o homem seguia à frente, manipulando uma espécie de pequena foice, com a qual ia abrindo caminho por entre a vegetação. O trajeto incluiu travessias de rios em que descalçamos os sapatos e eu também as meias, que provocaram o riso do “homem da floresta” e do miúdo que me acompanhava.  Pelo caminho passamos por várias crateras abertas pelas bombas largadas pelos americanos durante a guerra do Vietnam. Esta zona fica perto da fronteira e muitos dos guerrilheiros escondiam-se nesta floresta, razão pela qual foi tão bombardeada. O vizinho Laos, por onde passavam muitos dos abastecimentos dos Vietcongs, é considerado o país no mundo mais bombardeado de sempre, por milhar de habitantes. Durante a guerra do Vietnam os americanos descarregaram ali, em média, um bombardeiro B52 a cada 8 minutos durante dez anos seguidos, com o país a ser mais bombardeado nessa época que todos os países europeus juntos durante a segunda guerra mundial.
Passada uma hora de caminhada começámos a ouvir um barulho de veículo a desbravar caminho através da floresta. Cruzámo-nos então com um camião militar carregado de árvores ao que o “homem da floresta” fez um ar de zangado. Mais à frente encontramos várias árvores abatidas e ele parava e ficava um momento em frente de cada uma, como quem vela um morto.
Caminhávamos há três horas quando chegámos a um rio onde ficámos a tomar banho. Os meus companheiros de viagem lançaram uma rede que traziam e pescaram um peixe que assaram numa fogueira para o nosso almoço, acompanhado por arroz para eles e dois ovos cozidos para mim, que tínhamos trazido da vila.
Partimos de volta pela uma e meia da tarde. O “homem da floresta”, a galgar caminho sem sequer uma bússola, de vez em quando perdia-se mas acabava por “encontrar o norte” e, depois de passarmos por umas barracas isoladas onde mulheres descascavam arroz num almofariz, acabámos por encontrar o rio que atravessamos descalços para chegar de volta a casa dele já sem força nas pernas e com os pés a arderem. Tínhamos caminhado seis horas através da floresta.
No regresso de moto à vila da outra margem, as mesmas peripécias ao atravessar as pontes abatidas e a dificuldade do embarque e desembarque na barcaça,  quando vi a moto perto de cair ao rio com o condutor. Mas, desta vez, não houve quedas a registar.