5 de março de 2014

Cambodja 2


Depois daquele dia passado na floresta, caí na cama, de rastos, às dez da noite. Acordei às seis e pelas sete estava a tomar o pequeno almoço numa das barracas da vila, ao lado de um talho de rua onde uma cabeça de vaca olhava para mim. Aqui não há pão e ovos também não se usam ao pequeno almoço. Tive que me adaptar a comer uma espécie de esparguete com ervas e sementes mergulhado num caldo quente. Não era mau. A menina ainda me propôs juntar uns pedaços de carne ou miolos de vaca àquela sopa mas preferi não arriscar.
Parti pelas oito e meia para percorrer de volta os 65 Km de estrada de terra que me tinham levado até ali. Desta vez pude rodar a 90 Km/h nas partes de melhor piso e fiz aquele trajeto numa hora. Já perto do fim, com as vibrações, soltaram-se os parafusos que prendem o vidro da carenagem e encostei numa “chafarica” de um miúdo que reparava pequenas motos, para recolocar as fixações. Uma jovem cliente, que esperava estendida numa rede presa na parede da barraca que a sua moto ficasse pronta, levantou-se quando ouviu o barulho da “Cross Tourer” a chegar.
Arranquei, já com o vidro no sítio, vinte minutos depois e apanhei a partir dali uma boa estrada alcatroada durante uns cem quilómetros e depois outros 150 Km de mau piso, com vários troços em terra batida.
Nesta zona do Norte do Cambodja não há bombas de gasolina como as conhecemos mas apenas comerciantes que, com um bidão e uma bomba manual, vendem gasolina à porta de casa ou do estabelecimento, protegidos por um chapéu de sol. Muitas vezes não é má mas mais cara que nas bombas convencionais, onde nestes países é vendida ao equivalente a um euro por litro.
À medida que rodo para sul a temperatura vai aumentando e hoje chegou aos 40º o que, mesmo sem forros no fato, dá para suar bastante. De vez em quando ponho-me em pé para o ar entrar pelo blusão.
Nos últimos cem quilómetros do dia voltei a apanhar estrada boa mas, quando estava a cerca de 60 Km de Kampong Cham, a cidade em que tinha planeado ficar, tive o meu primeiro furo da viagem. Por sorte estava a atravessar uma aldeia e quando olhei para o outro lado da rua havia uma dessas oficinas de motos locais. Parei para reparar o furo e eles estranharam o pneu ser “tubeless”, “como os dos carros”, referia o patrão. Foram a uma oficina que repara rodas de carros buscar um taco e, meia hora depois estava outra vez na estrada.
Kampong Cham é uma cidade gira, sobre o rio, onde volto a encontrar turistas.
No dia seguinte parti só por volta do meio dia para percorrer os 270 Km que me separavam de Siem Reap. Voltei a apanhar uma parte em terra batida e mais uma vez os suportes do vidro, que já estão em mau estado e não tenho para substituir, se desapertaram.
Siem Reap é fantástica, atravessada por um estreito rio, com um ambiente extraordinário. Instalei-me num pequeno Hotel, junto ao rio, cujo proprietário é um francês, filho de mãe vietnamita, sobrinho da rainha do Cambodja e casado com uma mulher local linda. Recebeu-me de forma fantástica e convidou-me para jantar com a família.
Á noite dei uma passeio a pé pela cidade. Uma animada rua com letreiros pendurados a anunciarem Pub’s Street é preenchida com bares e restaurantes cheios de turistas ocidentais, com música ao vivo em vários deles cujo som se mistura com o das bandas de rua, dando um ambiente de festa exótico ao local.
Ali a prostituição também é um dos atrativos turísticos e os homens dos táxis locais, pequenas motos com um reboque atrelado onde levam os passageiros, não se cansam de perguntar: “do you want a girl for bum, bum”?
Na manhã seguinte fui visitar a cidade velha e ao ver, da avenida de entrada, o Palácio de Angkor Wat, tive a mesma sensação de quando, há muitos anos atrás, vi pela primeira vez a imagem de Petra, na Jordania, com o sol da manhã a bater-lhe na fachada, em cima do dorso de um cavalo, ao descer o estreito desfiladeiro que ali nos leva. Sentimos uma falta de ar de encantamento por imagens que não são possíveis de reproduzir fotograficamente.
Aquele que é o maior monumento religioso do mundo foi mandado construir no século XII pelo rei Khmer Suryavarman II. Embora seja considerado um templo, na altura Indhu, era a residência do Rei. É rodeado por um enorme lago artificial em forma de quadrado e naquelas instalações, que incluíam duas piscinas em pátios interiores e jardins fabulosos, chegaram a viver 12.500 pessoas, incluindo, segundo reza a história, 18 bispos hindhus e 615 bailarinas.
Comecei a imaginar o maravilhoso que deveria ser Reinar naquela época, naquele palácio, com as bailarinas sempre a dançarem à nossa volta e os bispos a perdoarem-nos os pecados.
Fui visitar depois outras ruinas desta fabulosa velha cidade de Angkor Wat onde está incluído o Palácio Ta Prohm, considerado “World Heritage Site” pela Unesco. Esteve ao abandono durante séculos e quando o decidiram restaurar, já em pleno século XXI, optaram, e bem, por manter as seculares árvores que entretanto tinham crescido à volta e dentro das ruínas, dando-lhe um aspecto fantasmagórico, aproveitado para as filmagens de “Tomb Raider”.  


3 de março de 2014

Cambodja



Dia fantástico passado na floresta.
Ontem tinha ficado nesta vila, com as ruas em terra batida, junto a um rio. Depois de me aconselharem a não seguir viagem pelo outro lado do rio decidi ficar por aqui e, mais tarde várias pessoas me disseram-me que a estrada que pretendia apanhar estava praticamente intransponível, com grande quantidade de areia solta onde a “Cross Tourer” se enterraria facilmente.
Um miúdo veio sugerir-me uma alternativa original. Conhecia uma homem que vivia na floresta e propôs-me fazer um passeio através da densa floresta, uma espécie de “trecking” com a ajuda deste “homem da floresta”.


Achei boa ideia e, passava pouco das sete e meia da manhã quando arrancamos os dois na minha moto junto ao rio, para o atravessarmos sete ou oito quilômetros à frente. A primeira armadilha surgiu ainda nesse trajeto quando uma ponte caída me obrigou a atravessar outra muito rudimentar, estreita e de ar frágil. Esta estrada em que seguíamos era só para peões e motos pois não tinha largura para caberem carros e esta ponte não estava pensada para ser transposta por uma moto de 300 Kg. Felizmente aguentou o esforço.
A entrada para a barcaça era através de uma rampa estreita, em terra batida com areia solta e muita inclinação, com um barranco do lado de fora que acabava no rio. A coisa lá correu bem mas na saída, idêntica mas a subir, deixei cair a moto, felizmente sem estragos. Depois, no trajeto até à floresta, tive que atravessar uma ponte que tinha abatido a meio mas que continuavam a utilizar. Pedi ao miúdo para desmontar a lá passei sem problemas.
Chegámos a uma pequena aldeia na floresta com quatro ou cinco casas que não eram mais que telheiros sem paredes onde as pessoas se abrigavam das chuvas na época das monções e do sol nestes dias de calor. Um velho preparava folhas de tabaco que plantara junto ao rio enquanto a sua mulher fumava, tranquilamente, um cachimbo. As crianças da pequena aldeia, ao verem aparecer a “Cross Tourer” com um homem de capacete, devem ter pensado tratar-se de um extra terrestre e desataram a fugir assustadas. Aqui só a partir dos sete anos usam alguma peça de roupa.
Deixei a moto na aldeia e um miúdo guiou-nos, primeiro através de alguns campos de arroz e depois de floresta, durante cerca de 15 minutos, até casa do tal “homem da floresta” que vivia com uma mulher e dois filhos pequenos.
Iniciámos então a nossa caminhada através de densa floresta, onde o homem seguia à frente, manipulando uma espécie de pequena foice, com a qual ia abrindo caminho por entre a vegetação. O trajeto incluiu travessias de rios em que descalçamos os sapatos e eu também as meias, que provocaram o riso do “homem da floresta” e do miúdo que me acompanhava.  Pelo caminho passamos por várias crateras abertas pelas bombas largadas pelos americanos durante a guerra do Vietnam. Esta zona fica perto da fronteira e muitos dos guerrilheiros escondiam-se nesta floresta, razão pela qual foi tão bombardeada. O vizinho Laos, por onde passavam muitos dos abastecimentos dos Vietcongs, é considerado o país no mundo mais bombardeado de sempre, por milhar de habitantes. Durante a guerra do Vietnam os americanos descarregaram ali, em média, um bombardeiro B52 a cada 8 minutos durante dez anos seguidos, com o país a ser mais bombardeado nessa época que todos os países europeus juntos durante a segunda guerra mundial.
Passada uma hora de caminhada começámos a ouvir um barulho de veículo a desbravar caminho através da floresta. Cruzámo-nos então com um camião militar carregado de árvores ao que o “homem da floresta” fez um ar de zangado. Mais à frente encontramos várias árvores abatidas e ele parava e ficava um momento em frente de cada uma, como quem vela um morto.
Caminhávamos há três horas quando chegámos a um rio onde ficámos a tomar banho. Os meus companheiros de viagem lançaram uma rede que traziam e pescaram um peixe que assaram numa fogueira para o nosso almoço, acompanhado por arroz para eles e dois ovos cozidos para mim, que tínhamos trazido da vila.
Partimos de volta pela uma e meia da tarde. O “homem da floresta”, a galgar caminho sem sequer uma bússola, de vez em quando perdia-se mas acabava por “encontrar o norte” e, depois de passarmos por umas barracas isoladas onde mulheres descascavam arroz num almofariz, acabámos por encontrar o rio que atravessamos descalços para chegar de volta a casa dele já sem força nas pernas e com os pés a arderem. Tínhamos caminhado seis horas através da floresta.
No regresso de moto à vila da outra margem, as mesmas peripécias ao atravessar as pontes abatidas e a dificuldade do embarque e desembarque na barcaça,  quando vi a moto perto de cair ao rio com o condutor. Mas, desta vez, não houve quedas a registar.

27 de fevereiro de 2014

4000 Islands 2 - Laos


Hoje acordei ainda não eram seis com o movimento de barcos no cais mesmo junto ao pequeno Hotel. Acabei por voltar a adormecer e pelas nove da manhã fui a um restaurante ao lado tomar o pequeno almoço e ver os mails. Parti para a praia onde embarcam a moto só às onze e meia. Por sorte estava lá um dos barcos de transporte que acabara de descarregar mercadoria para os restaurantes e bares da ilha.
Para atravessar a praia foi um festival parecido com o da chegada mas desta vez correu melhor porque era a descer. Embalei de cá de cima e passei primeiro a parte em que tínhamos posto as pranchas para depois entrar na areia mole onde acabei por cair mas já perto da margem. O barqueiro ajudou-me a levantar a moto e a partir daí foi fácil.
A menina do bar da praia, com quem tinha acabado a noite no dia da festa, veio ao terraço da esplanada despedir-se com um ar amuado, por eu partir sem dizer nada. 
Na margem do lado continental a subida de saída não tinha tanta areia mole mas era muito íngreme. Tomei balanço e, estava quase no topo quando a roda da frente prendeu numa raiz de árvore e votei a cair. Desta vez empenei a maneta do travão e magoei-me numa perna que no fim do dia estava com um inchaço.
Fui direito a uma bomba de gasolina pois já estava no fim da reserva depois dos passeios a três pela ilha e parti rumo à fronteira com o Cambodja, a uns 30 Km.
Pediram-me o Carnet para a moto, que já não usava desde a Índia. Tratei do visto e despachei-me com bastante rapidez.
Quando saí perguntei ao guarda de que lado da estrada circulavam ali pois eu tinha acabado de atravessar dois países onde se circula à direita mas sabia que, pelo menos na vizinha Tailândia, circulam à esquerda. O guarda não percebeu a minha pergunta e mandou-me seguir pela esquerda, creio que para dizer que eu não precisava de entrar nas instalações da Alfandega, do lado direito.
Arranquei pelo lado esquerdo de uma estrada deserta e, passados uns quatro quilómetros, por sorte, o primeiro veiculo que encontrei era uma moto que circulava no mesmo sentido que eu mas do lado direito da estrada. Passei para o lado direito e, um ou dois quilómetros à frente um jipe em sentido contrário veio confirmar que agora é que estava na faixa certa.
Tinha percorrido uns dez quilómetros desde a fronteira  quando surgiu o desvio para a estrada que pretendia apanhar, a caminho de uma floresta que é reserva natural e que tinha curiosidade de visitar.
A estrada era de terra com algumas partes em bom piso mas outras bastante degradadas. Seria impensável passar aqui na época das chuvas. Nas partes em que o piso estava melhor podia rodar a 70/80 Km/h em quinta mas às tantas apanhei um buraco maior sem estar à espera e a mala esquerda, a tal que tem o suporte inferior partido, saltou do sítio e voltou a raspar no pneu. Rapidamente a recoloquei na posição certa e segui viagem. Pelas duas e meia da tarde parei junto a uma barraca onde vendiam bebidas e pouco mais. Comprei uma manga verde e uma garrafa de sumo que foram o meu almoço. A menina, quando me viu a fazer uma careta pela acidez da Manga, ofereceu-me um frasco com uma colher do que me pareceu ser açúcar. Achei boa ideia e pulverizei a Manga com aquilo. Acho que também tinha açúcar só que além disso tinha qualquer coisa muito picante. Dei uma dentada e fiquei-me por ali, com o ar divertido da miúda da loja e de outra que, do outro lado da mesa, dava de mamar ao filho.
O mapa indicava que a estrada iria melhorar mas, passados uns 60 Km cheguei a uma vila, junto a um rio, em que as ruas eram todas em terra batida. Pus gasolina em mais uma bomba manual ligada a um bidão e preparava-me para atravessar o rio de barco quando um rapaz me indicou que já era muito tarde para passar para o outro lado pois a estrada nessa outra margem estava em muito pior estado, com muita areia solta e o percurso até à cidade mais próxima eram perto de cem quilómetros. Decidi então ficar por ali a dormir, num pequeno “guest house” onde o banho é tomado com uma tijela com que se recolhe água num tanque existente na casa de banho e se entorna por cima. Soube-me bem depois de um dia muito suado.

 

24 de fevereiro de 2014

"4000 Islands" - Laos



Continuei a rodar para Sul, sempre perto das margens do Mekong. A estrada nº 13, que sai da capital a caminho do Cambodja tem bom piso e são quase tudo grandes rectas. Para variar deixei-a por duas vezes e percorri troços de cerca de cem quilómetros por estradas secundarias que passavam mais perto do rio.
Parei na cidade de Paksé, num excelente Hotel de 4 estrelas onde a diária foram 20 dólares. No dia seguinte parti primeiro visitar umas quedas de água e da parte da tarde as espetaculares ruinas  Wat Phu do que foi um imponente templo Khmer do século XII, hoje classificadas como património da humanidade pela Unesco.
Quando ali chegava parei junto de duas turistas que vinham de bicicleta desde a “Guest House” em que se tinham instalado, a meia dúzia de quilómetros, para lhes perguntar o caminho e acabámos por passar três dias juntos, primeiro nesta visita às ruinas e depois numa ilha onde combinámos encontrar-nos.
Elas partiram de manhã num autocarro e eu deixei o Hotel pelas onze da manhã. Como agora estava do lado ocidental do Mekong e a passagem para a outra margem por uma ponte obrigava-me a percorrer mais cem quilómetros, segui a sugestão da dona do Hotel e apanhei o que ela chamava um “ferry” que transportaria a moto. Não eram mais que duas barcaças, presas uma à outra através de um estrado em madeiras, que dobravam sob o peso da moto. Enquanto atravessava o rio, num trajeto de cinco minutos, pensei no que aconteceria se as tábuas se partissem. Acabaríamos eu e a “Cross Tourer” afogados pois com o fato da moto e botas seria impensável conseguir nadar e colete ou boia naquelas embarcações é coisa que nem sabem o que é.
Na outra margem rodei mais cerca de 120 Km para Sul onde apanhei novo “ferry” do mesmo estilo para uma das famosas “4.000 islands” que se formaram naquela parte do Rio Mekong junto à fronteira do Laos com o Cambodja.
São um salpicar de ilhas, muitas delas inabitadas, que formam uma paisagem deslumbrante. Os empreendimentos que a população construiu para albergar os turistas são rústicos, quase todos em madeira, com telhados de colmo ou zinco. Tudo aquilo tem um ar muito Hippie e um ambiente de total relax.
Fui para a ilha de Don Det onde as minhas amigas se tinham instalado nessa manhã.
O desembarque é feito na praia de maneira que foi um festival para subir com a moto pela areia seca. Ao princípio ganhei balanço e ainda fui avançando mas às tantas enterrou-se e só com a ajuda de turistas que estavam na praia ou no bar e umas tábuas que pusemos por baixo, consegui trazer a moto para cima. A ilha de Don Det tem uns quatro quilómetros de diâmetro e está ligada por uma ponte à de Don Khon que tem mais sete ou oito.
Almocei logo ali num bar junto à praia e da parte da tarde encontrei-me com as minhas amigas noutro bar. Jantámos sobre o rio e à noite fomos a uma sensacional festa na praia, com música dos anos 70, onde dançamos à volta de uma fogueira.
No dia seguinte partimos os três na moto para a outra ilha e passamos o dia numa pequena praia junto ao que dizem serem as maiores cascatas da Ásia, que se formaram quando um braço do rio entrou ilha dentro. A altura a que cai a água não é muito elevada mas estendem-se por um grande espaço com diferentes quedas de água. Jantámos com mais duas amigas que conhecemos nesse dia e despedimo-nos. No dia seguinte elas ficavam pela zona e eu seguia para o Cambodja. 

22 de fevereiro de 2014

Laos 2




O Laos é um país pobre. Com uma área de 240 Km2, pouco mais de duas vezes e meia o tamanho de Portugal, tem apenas 6,5 milhões de habitantes, maioritariamente agricultores. Um terço vive abaixo do nível classificado como de pobreza extrema, ou seja com menos de um euro por dia. Foram colonizados pela França até 1953 e em 75 da guerra civil resultou um regime comunista.
Mais de 90% da população é budista.
Deixei o Hotel pelas nove da manhã, rumo a sul e à capital, Vientiane. Tinha pensado passar numas quedas de água que havia perto mas a quantidade de turistas na cidade assustou-me e decidi fugir. Na noite anterior tinha saído para jantar e, na rua por trás do Hotel, estava montada uma feira de artesanato com centenas de turistas a acotovelarem-se pelas estreitas passagens. Um pavor.
Tinha percorrido menos de cem quilómetros numa estrada de montanha de piso razoável quando encontrei um miúdo alemão, que viajava de bicicleta, a remendar um furo na berma da estrada. Parei para perguntar se precisava de ajuda e ficamos à conversa. Tinha estado a percorrer a América do Sul de bicicleta com a namorada mas no Chile zangaram-se e partiu cada um para seu lado. Ele apanhou um avião para Bangkok com a bicicleta e andava por estas bandas há um mês. Contou-me que regressava a Bangkok para voltar para a Alemanha ter com a namorada de quem tinha saudades. Tinha posto “o pé na argola” com outras miúdas mas estava arrependido. O amor é lindo.
Estávamos nesta conversa quando parou um casal de Lituanos numa Suzuki por quem tinha passado há umas dezenas de quilómetros. Iam a caminho da Austrália e tinham embarcado a moto num avião do Nepal para Bangkok. Juntaram-se à conversa enquanto o alemão reparava calmamente o furo e por ali ficamos perto de uma hora. Trocamos e mails, despedimo-nos e partimos a três ritmos muito diferentes.
Estava a uns 80 Km de Vientiane quando vi um letreiro a indicar uma “Eco Village”, dez quilômetros fora da estrada principal. Como eram quase cinco da tarde resolvi espreitar. Era um “resort” espetacular com os quartos em cabanas montadas sobre estacas, no meio da floresta, junto a um rio onde ao fim da tarde e pela manhã pescadores passavam nos seus estreitos barcos movidos através de uma longa estaca que espetavam no leito do rio. A  zona de recepção/restaurante, também em madeira, estava muito bem decorada com uma organizada coleção de borboletas e outros insectos, recolhidos na zona. Em frascos, as várias espécies de cobras.
Era o único hóspede do empreendimento e jantei à luz das velas naquele terraço sobrelevado debruçado sobre o rio no meio de densa floresta.
Deitei-me cedo e, pelas oito e meia saí, depois de um excelente pequeno almoço, a caminho de Vientiane. Na capital sentimos que ainda estão espantados com a chegada dos turistas e, talvez até, pouco preparados para os explorarem. Entramos em qualquer templo sem guardas, bilhetes  ou perguntas e só o Palácio Presidencial, muito ao estilo dos velhos colonizadores franceses, está vedado a curiosos.
Ao deixar a cidade enganei-me na estrada a seguir. Tinha rodado uns 80 Km quando dei pelo erro. Para não voltar atrás cortei caminho por uma estrada de terra. Pensei que teria uma dúzia de quilômetros pela frente naquele tipo de piso mas afinal percorri perto de cem nesta ligação. Ao parar perto de uma aldeia para tirar umas fotografias umas mulheres que estavam debaixo de um toldo a vender legumes chamaram-me e convidaram-me para almoçar. Comi uma espécie de esparguete caseiro num molho muito picante que colocávamos em cima de folhas de alface. Estava óptimo mas uma delas, vendo-me a suar com o picante que aquilo estava, riu-se e foi a casa buscar um copo de água para apagar o fogo na minha língua. Nenhuma falava uma palavra de Inglês mas divertiram-se com o meu ar de “tótó”.
Segui viagem rumo a sul, a caminho do Cambodja. O piso da estrada de terra era bom e podia rodar em quarta a cerca de 70 Km/h mas, de repente, uma zona de buracos inesperada fez com que a mala do lado esquerdo, que já tinha o suporte inferior partido, resultado de um dos “estoiros” da Índia, saltasse do sítio,  começando a roçar na roda. O barulho parecia o de um furo. Parei disposto a repará-lo mas, felizmente foi só preciso voltar a colocar a mala no seu suporte. Acabei por ficar numa pequena cidade de província, num Hotel junto ao rio Mekong, que separa o Laos da Tailândia. Aqui há poucos turistas. O gerente do Hotel avisou-me que a música do Karaoke local estaria a tocar, junto ao Hotel, até às três da manhã. À noite, quando estava junto da recepção a apanhar o sinal de internet, veio perguntar-me se queria que a menina da recepção passasse a noite comigo por 40 euros. Disse-lhe que não e propôs 25.