24 de fevereiro de 2014

"4000 Islands" - Laos



Continuei a rodar para Sul, sempre perto das margens do Mekong. A estrada nº 13, que sai da capital a caminho do Cambodja tem bom piso e são quase tudo grandes rectas. Para variar deixei-a por duas vezes e percorri troços de cerca de cem quilómetros por estradas secundarias que passavam mais perto do rio.
Parei na cidade de Paksé, num excelente Hotel de 4 estrelas onde a diária foram 20 dólares. No dia seguinte parti primeiro visitar umas quedas de água e da parte da tarde as espetaculares ruinas  Wat Phu do que foi um imponente templo Khmer do século XII, hoje classificadas como património da humanidade pela Unesco.
Quando ali chegava parei junto de duas turistas que vinham de bicicleta desde a “Guest House” em que se tinham instalado, a meia dúzia de quilómetros, para lhes perguntar o caminho e acabámos por passar três dias juntos, primeiro nesta visita às ruinas e depois numa ilha onde combinámos encontrar-nos.
Elas partiram de manhã num autocarro e eu deixei o Hotel pelas onze da manhã. Como agora estava do lado ocidental do Mekong e a passagem para a outra margem por uma ponte obrigava-me a percorrer mais cem quilómetros, segui a sugestão da dona do Hotel e apanhei o que ela chamava um “ferry” que transportaria a moto. Não eram mais que duas barcaças, presas uma à outra através de um estrado em madeiras, que dobravam sob o peso da moto. Enquanto atravessava o rio, num trajeto de cinco minutos, pensei no que aconteceria se as tábuas se partissem. Acabaríamos eu e a “Cross Tourer” afogados pois com o fato da moto e botas seria impensável conseguir nadar e colete ou boia naquelas embarcações é coisa que nem sabem o que é.
Na outra margem rodei mais cerca de 120 Km para Sul onde apanhei novo “ferry” do mesmo estilo para uma das famosas “4.000 islands” que se formaram naquela parte do Rio Mekong junto à fronteira do Laos com o Cambodja.
São um salpicar de ilhas, muitas delas inabitadas, que formam uma paisagem deslumbrante. Os empreendimentos que a população construiu para albergar os turistas são rústicos, quase todos em madeira, com telhados de colmo ou zinco. Tudo aquilo tem um ar muito Hippie e um ambiente de total relax.
Fui para a ilha de Don Det onde as minhas amigas se tinham instalado nessa manhã.
O desembarque é feito na praia de maneira que foi um festival para subir com a moto pela areia seca. Ao princípio ganhei balanço e ainda fui avançando mas às tantas enterrou-se e só com a ajuda de turistas que estavam na praia ou no bar e umas tábuas que pusemos por baixo, consegui trazer a moto para cima. A ilha de Don Det tem uns quatro quilómetros de diâmetro e está ligada por uma ponte à de Don Khon que tem mais sete ou oito.
Almocei logo ali num bar junto à praia e da parte da tarde encontrei-me com as minhas amigas noutro bar. Jantámos sobre o rio e à noite fomos a uma sensacional festa na praia, com música dos anos 70, onde dançamos à volta de uma fogueira.
No dia seguinte partimos os três na moto para a outra ilha e passamos o dia numa pequena praia junto ao que dizem serem as maiores cascatas da Ásia, que se formaram quando um braço do rio entrou ilha dentro. A altura a que cai a água não é muito elevada mas estendem-se por um grande espaço com diferentes quedas de água. Jantámos com mais duas amigas que conhecemos nesse dia e despedimo-nos. No dia seguinte elas ficavam pela zona e eu seguia para o Cambodja. 

22 de fevereiro de 2014

Laos 2




O Laos é um país pobre. Com uma área de 240 Km2, pouco mais de duas vezes e meia o tamanho de Portugal, tem apenas 6,5 milhões de habitantes, maioritariamente agricultores. Um terço vive abaixo do nível classificado como de pobreza extrema, ou seja com menos de um euro por dia. Foram colonizados pela França até 1953 e em 75 da guerra civil resultou um regime comunista.
Mais de 90% da população é budista.
Deixei o Hotel pelas nove da manhã, rumo a sul e à capital, Vientiane. Tinha pensado passar numas quedas de água que havia perto mas a quantidade de turistas na cidade assustou-me e decidi fugir. Na noite anterior tinha saído para jantar e, na rua por trás do Hotel, estava montada uma feira de artesanato com centenas de turistas a acotovelarem-se pelas estreitas passagens. Um pavor.
Tinha percorrido menos de cem quilómetros numa estrada de montanha de piso razoável quando encontrei um miúdo alemão, que viajava de bicicleta, a remendar um furo na berma da estrada. Parei para perguntar se precisava de ajuda e ficamos à conversa. Tinha estado a percorrer a América do Sul de bicicleta com a namorada mas no Chile zangaram-se e partiu cada um para seu lado. Ele apanhou um avião para Bangkok com a bicicleta e andava por estas bandas há um mês. Contou-me que regressava a Bangkok para voltar para a Alemanha ter com a namorada de quem tinha saudades. Tinha posto “o pé na argola” com outras miúdas mas estava arrependido. O amor é lindo.
Estávamos nesta conversa quando parou um casal de Lituanos numa Suzuki por quem tinha passado há umas dezenas de quilómetros. Iam a caminho da Austrália e tinham embarcado a moto num avião do Nepal para Bangkok. Juntaram-se à conversa enquanto o alemão reparava calmamente o furo e por ali ficamos perto de uma hora. Trocamos e mails, despedimo-nos e partimos a três ritmos muito diferentes.
Estava a uns 80 Km de Vientiane quando vi um letreiro a indicar uma “Eco Village”, dez quilômetros fora da estrada principal. Como eram quase cinco da tarde resolvi espreitar. Era um “resort” espetacular com os quartos em cabanas montadas sobre estacas, no meio da floresta, junto a um rio onde ao fim da tarde e pela manhã pescadores passavam nos seus estreitos barcos movidos através de uma longa estaca que espetavam no leito do rio. A  zona de recepção/restaurante, também em madeira, estava muito bem decorada com uma organizada coleção de borboletas e outros insectos, recolhidos na zona. Em frascos, as várias espécies de cobras.
Era o único hóspede do empreendimento e jantei à luz das velas naquele terraço sobrelevado debruçado sobre o rio no meio de densa floresta.
Deitei-me cedo e, pelas oito e meia saí, depois de um excelente pequeno almoço, a caminho de Vientiane. Na capital sentimos que ainda estão espantados com a chegada dos turistas e, talvez até, pouco preparados para os explorarem. Entramos em qualquer templo sem guardas, bilhetes  ou perguntas e só o Palácio Presidencial, muito ao estilo dos velhos colonizadores franceses, está vedado a curiosos.
Ao deixar a cidade enganei-me na estrada a seguir. Tinha rodado uns 80 Km quando dei pelo erro. Para não voltar atrás cortei caminho por uma estrada de terra. Pensei que teria uma dúzia de quilômetros pela frente naquele tipo de piso mas afinal percorri perto de cem nesta ligação. Ao parar perto de uma aldeia para tirar umas fotografias umas mulheres que estavam debaixo de um toldo a vender legumes chamaram-me e convidaram-me para almoçar. Comi uma espécie de esparguete caseiro num molho muito picante que colocávamos em cima de folhas de alface. Estava óptimo mas uma delas, vendo-me a suar com o picante que aquilo estava, riu-se e foi a casa buscar um copo de água para apagar o fogo na minha língua. Nenhuma falava uma palavra de Inglês mas divertiram-se com o meu ar de “tótó”.
Segui viagem rumo a sul, a caminho do Cambodja. O piso da estrada de terra era bom e podia rodar em quarta a cerca de 70 Km/h mas, de repente, uma zona de buracos inesperada fez com que a mala do lado esquerdo, que já tinha o suporte inferior partido, resultado de um dos “estoiros” da Índia, saltasse do sítio,  começando a roçar na roda. O barulho parecia o de um furo. Parei disposto a repará-lo mas, felizmente foi só preciso voltar a colocar a mala no seu suporte. Acabei por ficar numa pequena cidade de província, num Hotel junto ao rio Mekong, que separa o Laos da Tailândia. Aqui há poucos turistas. O gerente do Hotel avisou-me que a música do Karaoke local estaria a tocar, junto ao Hotel, até às três da manhã. À noite, quando estava junto da recepção a apanhar o sinal de internet, veio perguntar-me se queria que a menina da recepção passasse a noite comigo por 40 euros. Disse-lhe que não e propôs 25.

20 de fevereiro de 2014

Laos




Depois daquela confusão sobre onde haviam de me largar, ao ser escorraçado tanto do Laos como de Myanmar, acabei por passar a noite num pequeno Hotel do lado de Myanmar, junto à fronteira com a Tailândia, na zona do chamado triângulo dourado. Comigo não tinha mais do que aquilo que trazia vestido, ou seja o fato da moto. Tomei um duche, dormi e no dia seguinte voltei a vestir o fato com a mesma roupa interior, entretanto com o suor já seco.
O meu guia, que já ia a caminho de casa, recebeu ordens governamentais para regressar ao meu encontro e acompanhar-me naquele dia extra que eu passaria em Myanmar. Pelas dez da manhã parti no carro do guia até à fronteira com a Tailândia. Tinham cancelado a minha saída do país pelo que tiveram que voltar a carimbar o passaporte. O guia e o seu motorista não só passaram a fronteira comigo como me levaram até ao “tuc-tuc”, uma espécie de “pick-ups” com bancos na parte de trás que fazem os transportes locais, que me levaria até à fronteira com o Laos, uns 20 Km mais a Sul, junto à margem do rio Mekong, que separa os dois países. Na parte de trás da “pick-up”, adaptada com dois bancos corridos, já dormia uma senhora gorda que, estendida no banco esquerdo o ocupava por completo. Esperei uma meia hora pela hora de partida, tipo camioneta de carreira, no outro banco e acabou por chegar mais uma cliente, vestida com muitos folhos e cheiro a perfume barato. Chegado à fronteira não havia mais ninguém para atravessar para o Laos pelo que tive que alugar um barco só para mim. Do outro lado do rio a alfandega estava deserta e quando, depois de tratar do visto e carimbar o passaporte saí para a rua, não haviam nem táxis nem qualquer outro transporte. Convenci o condutor do único carro estacionado no local a levar-me ao posto, junto ao rio, onde tinha deixado a moto. Pelas quatro da tarde estava outra vez montado na “Cross Tourer”.
Não tinha a mínima ideia do que iria encontrar no Laos. Se as estradas eram ainda piores que as de Myanmar, se haveria hotéis ou pensões onde ficar naquela parte recôndita do país, etc.
Pus 7 litros de gasolina com o dinheiro que me restava em Bahts Tailandesas, aceites como pagamento sem problema no Laos, e parti em direção à vila mais próxima, Huay Xai, a pouco mais de quarenta quilómetros de distancia. Quando lá cheguei fiquei surpreendido ao ver muitos turistas ocidentais e uma vila visivelmente virada para a sua exploração. Passei por um restaurante onde assavam pato num churrasco cá fora e parei para o meu habitual almoço/jantar. Eram umas cinco da tarde. Estava a devorar o meu pato, acompanhado de uma cerveja local, servida em garrafas de mais de meio litro e por acaso bem boas, quando um casal de Belgas ao ver a moto, pediu para se sentar na minha mesa. Costumavam viajar de moto, cada um na sua, mas agora tinham as motos no Canadá, para em breve irem até ao Alasca, e ali tinham alugado umas bicicletas para darem uma volta pelo Laos. Não queriam acreditar que eu tivesse conseguido atravessar Myanmar e diziam que, se isso constasse nos blogs de viagens, o mau mail iria ser invadido por perguntas sobre como fazer para o conseguir, pois nunca o governo de Myanmar tinha dado autorização antes para alguém atravessar o país por estrada.
Para descansar dos movimentados últimos dias decidi ficar por ali mais um dia, instalei-me no Hotel que os Belgas me indicaram e aproveitei para, no dia seguinte, fazer uma revisão à moto que sentia estar a perder potencia para além de custar mais a pegar. Quando abri a tampa do filtro de ar percebi a razão. Embora tivesse sido substituído em Delhi, há cerca de 7.500 Km atrás, estava totalmente bloqueado, com  sujidade e areia. Por sorte tinha um suplente comigo.
Depois do dia de descanso arranquei a caminho de Luang Prabang, onde tinha combinado encontrar-me com uma amiga mexicana que tinha conhecido dois meses antes em Goa. No primeiro dia fui até Luang Namtha e a qualidade das estradas impressionou-me pelo bom asfalto, marcações e sinais de transito, algo que não via há muito. A estrada de montanha era fabulosa e deu-me imenso gozo faze-la, com a qualidade do piso a permitir-me inclinações da moto que há muito não experimentava. Pensei que, se calhar, as estradas no Laos eram todas assim. No dia seguinte acabaram as minhas ilusões. O piso da estrada entre as duas cidades era não só muito mau como algumas partes do percurso eram em terra batida, esburacada. Na estrada comecei a ver mais turistas mas desta vez eram Tailandeses que ali fazem férias de carro. Passeiam-se em caravana onde cada um dos recentes jipes tem um numero e seguem em fila por ordem numérica em grupos de cerca de dez carros. Param todos juntos para almoçar em restaurantes marcados para depois seguirem na sua excursão, delineada ao pormenor.
Luang Prabang é uma cidade fantástica, atravessada por dois rios, com “Guest Houses” típicas bem decoradas e muitos templos bem conservados. Junto a um dos rios os restaurantes sobre a margem são uma das atrações enquanto à noite uma feira de produtos artesanais muito animada enche as ruas de turistas ocidentais.
Não via o Laos tão virado ao turismo. Os habitantes ainda estão meio aparvalhados com a chegada destes forasteiros e tentam extrair-lhes o mais que podem. O Hotel onde fiquei, em que o rapaz me pediu o equivalente a 15 euros pela noite às duas da tarde, pelas seis, com apenas um quarto disponível, já o ouvi propor a uma alemã por 35 euros. 

17 de fevereiro de 2014

Myanmar 4




A vila fronteiriça de Tachileik faz parte do famoso Triângulo Dourado, o ponto onde a Myanmar se juntam o Laos e a Tailândia.
Ao contrario do resto do país por onde andei, em que há muito pouco transito, ali vê-se enorme quantidade de jipes e “pick-ups” novos e muitas mais motos, mesmo se todas pequenas. Sente-se que há dinheiro a circular e cheira a “negócio ilícito”. Por incrível que pareça a moeda que circula na cidade em tudo o que são negócios, hotéis, restaurantes, etc., não é o Kyat birmanês mas o Baht tailandês.
Tinha combinado com a senhora do ministério que tratou da minha autorização para atravessar o país, que passaria de Myanmar para o Laos e não para a Tailândia. Ela concordou mas disse que eu teria primeiro que ir junto à passagem para a Tailândia carimbar o passaporte para então andar por outra estrada uns 20 Km, onde passaria para o Laos.
Quando cheguei ao local indicado não quis acreditar no que via. Depois de passar vários postos de controlo uma pequena casa representava a fronteira de saída, junto a um rio que, para ser atravessado, só tinha disponíveis pequenas e frágeis barcaças. Ali me deixou o guia, entretanto acompanhado pelo chefe da polícia local, que veio certificar-se que eu saía mesmo do país.
Sete ou oito homens colocaram primeiro a moto, sem as malas, dentro de água, com esta a chegar à parte de baixo dos escapes, içando-a depois a pulso para dentro de uma das barcaças. Ouvi as madeiras do fundo da pequena embarcação  estalarem, sob os 300 kg da Honda, e temi o pior. Para além disso o fundo plano daquele objeto flutuante parecia-me extremamente instável.
Um dos homens sentou-se em cima da moto, com um pé em cada uma das bordas do mini barco e lá puseram o motor de carro que o fazia navegar a trabalhar. Fiquei cheio de medo ao vê-la partir comigo e as malas a seguirmos numa segunda barcaça. Imaginei aquilo tudo a tombar e a “Cross Tourer” a falecer, afogada no Rio Mekong.
Felizmente chegou sã e salva e rapidamente a descarregaram na margem oposta.
Subi a rampa de chegada já montado na moto e com as malas nos seus sítios, depois de me despedir dos barqueiros que regressaram a Myanmar.
Vi uma casa que parecia ser a alfandega e estacionei à porta. Estava tudo deserto. Entrei e um homem, em troco nu e descalço, via televisão deitado numa cama de campismo colocada no meio da sala. Quando me viu deu um salto e, com um ar assustado perguntou-me de onde vinha. Não queria acreditar que tivesse chegado de Myanmar. Chamou o chefe que estava a dormir e apareceu a esfregar os olhos com uma camisolinha de alças e havaianas nos pés. Perguntou-me o que ali fazia  com ar de que nunca um estrangeiro por ali passara e, quando lhe expliquei que tinha chegado de Myanmar numa barcaça, disse-me que teria que voltar para trás pelo mesmo meio.
Expliquei-lhe que isso seria impossível porque já não me autorizavam a regressar ao país. Depois de muito insistir ligou a um superior que concordou com ele. Eu teria que voltar para onde tinha vindo. Só aceitavam pessoas no Laos que viessem da Tailândia e não de Myanmar. Insisti que não poderia regressar e sugeriu então que deixasse a moto e o acompanhasse à outra margem para falarmos com a alfandega de Myanmar.
Entretanto eram perto das seis da tarde e eu só tinha tomado o pequeno almoço às sete e meia da manhã. Perguntei se não tinham uma banana e um dos empregados foi lá dentro e regressou com uma lata de conserva de peixe que me soube como caviar russo.
O chefe do posto enfiou então um polo, umas calças e uns sapatos, de como quem vai à cidade, e lá partimos os dois noutra barcaça, com o sol já a pôr-se, de volta ao local de onde tinha partido uma hora antes.
Chegados à outra margem, tal como eu previra, os guardas fronteiriços birmaneses não me aceitaram de volta e gerou-se uma desconversa entre eles em que cada um dizia que eu tinha que ir para o país do outro. Senti-me um apátrida indesejado e sugeri que me abandonassem no meio do rio, numa jangada.
Depois de vários telefonemas e de eu me recusar terminantemente a trazer a moto de volta de noite , nas condições em que tinha ido, chegámos a um acordo. A moto ficaria no Laos e eu em Myanmar para, no dia seguinte, atravessar para a Tailândia e dali seguir para o Laos onde apanharia um táxi que me levasse ao pequeno posto do porto, onde recolheria a moto.
Esta situação gerou enorme confusão na cabeça dos responsáveis do ministério do Turismo birmanês que mandaram regressar o meu guia e o seu motorista para me acompanharem no dia a mais que eu teria que passar em Myanmar. 

16 de fevereiro de 2014

Myanmar 3




Hoje decidi voltar a fazer um esticão grande, percorrendo as etapas previstas para dois dias num só, como forma de poupar nos custos astronômicos do aluguer do carro e condutor que transportavam o guia.
Arranquei pelas oito e meia da manhã por estradas esburacadas que se tornaram cada vez piores, num percurso de mais de 500 Km onde, nalguns troços, não conseguia fazer médias superiores a 30 Km/h. Para agravar a situação as duas ultimas horas já foram feitas de noite. Cheguei a Keng Tung às oito da noite. Foram quase doze horas em cima da moto com poucas e curtas paragens.
Na entrada da cidade estava uma menina numa esplanada improvisada a vender espetadas diversas com ótimo aspeto e ovos cozidos em que lhes tiram o interior, penso que com uma seringa, fazem uma mistura com ervas aromáticas e injetam esse liquido de volta na casca, só então cozendo o ovo. Excelentes.
Parei a moto e a menina veio logo perguntar-me se não queria jantar. Sentei-me na mesa única onde, do outro lado, a mãe cortava vegetais e pedi uma cerveja para acompanhar aquelas maravilhosas espetadas. Passados uns minutos chegaram três amigas em duas motos. Uma delas, giríssima, com um ar mais indiano que oriental, meteu conversa. Ficámos por ali a beber mais umas cervejas. Estava na universidade local a estudar física e a família vivia em Yangon, a antiga capital e principal cidade do país.
Quando partimos, para ela me mostrar onde havia um Hotel, perguntei-lhe se não queria vir na minha moto. Aceitou, encantada. Perguntei se podia ir depressa, agarrou-se a mim e respondeu: “sim, sim”.
-       Não tem medo?
-       Não
Adorei aquela miúda.
Pelas oito e meia da manhã parti a caminho da fronteira. A estrada era fantástica, com um piso bastante irregular mas larga e com curvas e contracurvas rápidas que me deram imenso gozo. Ainda por cima, como em Myanmar as malas iam no carro do guia, aliviando muito o peso, pude aproveitar a “Cross Tourer” ao máximo, embora limitado pelos pneus de tacos que felizmente tinha montado na Índia e sem os quais teria tido grandes problemas nos dias anteriores.
Embora o transito em Myanmar seja reduzido, outro grande contraste com a Índia, temos que rodar com cuidado pois aqui não há sinais de transito nem riscos de marcação no alcatrão. Também não há limites de velocidade, ou de álcool no sangue mas são todos bastante ordeiros e civilizados, acabando o problema maior por serem os animais à solta na estrada, que passam por vacas, cães, porcos e muitas galinhas. Para além disso por vezes apanhamos areia ou gasóleo entornado, inesperadamente, a meio das curvas. Na etapa do dia anterior tinha feito três “slides” em cima de gasóleo mas neste dia correu tudo sem sobressaltos.
Às dez e meia da manhã estava no primeiro posto de fronteira, onde tive que esperar pelo guia que só chegou uma hora depois.
Sentado a ler numa cadeira que me estenderam reparei num budista que, debaixo dum telheiro em colmo, estava a fazer massagens nas costas a outro. Como tenho tido problemas de dores nas costas, que se têm vindo a agravar, fui ter com ele e pedi se me fazia uma massagem. Fez-me pressão sobre os músculos da coluna, massajou, carregou, esticou-me, apoiou os joelhos nas minhas costas e puxou-me com força as omoplatas para trás. Gemi de dores mas, quando me levantei, parecia outro. Senti-me vinte anos mais novo. Nunca ninguém me tinha feito uma massagem assim.