17 de fevereiro de 2014

Myanmar 4




A vila fronteiriça de Tachileik faz parte do famoso Triângulo Dourado, o ponto onde a Myanmar se juntam o Laos e a Tailândia.
Ao contrario do resto do país por onde andei, em que há muito pouco transito, ali vê-se enorme quantidade de jipes e “pick-ups” novos e muitas mais motos, mesmo se todas pequenas. Sente-se que há dinheiro a circular e cheira a “negócio ilícito”. Por incrível que pareça a moeda que circula na cidade em tudo o que são negócios, hotéis, restaurantes, etc., não é o Kyat birmanês mas o Baht tailandês.
Tinha combinado com a senhora do ministério que tratou da minha autorização para atravessar o país, que passaria de Myanmar para o Laos e não para a Tailândia. Ela concordou mas disse que eu teria primeiro que ir junto à passagem para a Tailândia carimbar o passaporte para então andar por outra estrada uns 20 Km, onde passaria para o Laos.
Quando cheguei ao local indicado não quis acreditar no que via. Depois de passar vários postos de controlo uma pequena casa representava a fronteira de saída, junto a um rio que, para ser atravessado, só tinha disponíveis pequenas e frágeis barcaças. Ali me deixou o guia, entretanto acompanhado pelo chefe da polícia local, que veio certificar-se que eu saía mesmo do país.
Sete ou oito homens colocaram primeiro a moto, sem as malas, dentro de água, com esta a chegar à parte de baixo dos escapes, içando-a depois a pulso para dentro de uma das barcaças. Ouvi as madeiras do fundo da pequena embarcação  estalarem, sob os 300 kg da Honda, e temi o pior. Para além disso o fundo plano daquele objeto flutuante parecia-me extremamente instável.
Um dos homens sentou-se em cima da moto, com um pé em cada uma das bordas do mini barco e lá puseram o motor de carro que o fazia navegar a trabalhar. Fiquei cheio de medo ao vê-la partir comigo e as malas a seguirmos numa segunda barcaça. Imaginei aquilo tudo a tombar e a “Cross Tourer” a falecer, afogada no Rio Mekong.
Felizmente chegou sã e salva e rapidamente a descarregaram na margem oposta.
Subi a rampa de chegada já montado na moto e com as malas nos seus sítios, depois de me despedir dos barqueiros que regressaram a Myanmar.
Vi uma casa que parecia ser a alfandega e estacionei à porta. Estava tudo deserto. Entrei e um homem, em troco nu e descalço, via televisão deitado numa cama de campismo colocada no meio da sala. Quando me viu deu um salto e, com um ar assustado perguntou-me de onde vinha. Não queria acreditar que tivesse chegado de Myanmar. Chamou o chefe que estava a dormir e apareceu a esfregar os olhos com uma camisolinha de alças e havaianas nos pés. Perguntou-me o que ali fazia  com ar de que nunca um estrangeiro por ali passara e, quando lhe expliquei que tinha chegado de Myanmar numa barcaça, disse-me que teria que voltar para trás pelo mesmo meio.
Expliquei-lhe que isso seria impossível porque já não me autorizavam a regressar ao país. Depois de muito insistir ligou a um superior que concordou com ele. Eu teria que voltar para onde tinha vindo. Só aceitavam pessoas no Laos que viessem da Tailândia e não de Myanmar. Insisti que não poderia regressar e sugeriu então que deixasse a moto e o acompanhasse à outra margem para falarmos com a alfandega de Myanmar.
Entretanto eram perto das seis da tarde e eu só tinha tomado o pequeno almoço às sete e meia da manhã. Perguntei se não tinham uma banana e um dos empregados foi lá dentro e regressou com uma lata de conserva de peixe que me soube como caviar russo.
O chefe do posto enfiou então um polo, umas calças e uns sapatos, de como quem vai à cidade, e lá partimos os dois noutra barcaça, com o sol já a pôr-se, de volta ao local de onde tinha partido uma hora antes.
Chegados à outra margem, tal como eu previra, os guardas fronteiriços birmaneses não me aceitaram de volta e gerou-se uma desconversa entre eles em que cada um dizia que eu tinha que ir para o país do outro. Senti-me um apátrida indesejado e sugeri que me abandonassem no meio do rio, numa jangada.
Depois de vários telefonemas e de eu me recusar terminantemente a trazer a moto de volta de noite , nas condições em que tinha ido, chegámos a um acordo. A moto ficaria no Laos e eu em Myanmar para, no dia seguinte, atravessar para a Tailândia e dali seguir para o Laos onde apanharia um táxi que me levasse ao pequeno posto do porto, onde recolheria a moto.
Esta situação gerou enorme confusão na cabeça dos responsáveis do ministério do Turismo birmanês que mandaram regressar o meu guia e o seu motorista para me acompanharem no dia a mais que eu teria que passar em Myanmar. 

16 de fevereiro de 2014

Myanmar 3




Hoje decidi voltar a fazer um esticão grande, percorrendo as etapas previstas para dois dias num só, como forma de poupar nos custos astronômicos do aluguer do carro e condutor que transportavam o guia.
Arranquei pelas oito e meia da manhã por estradas esburacadas que se tornaram cada vez piores, num percurso de mais de 500 Km onde, nalguns troços, não conseguia fazer médias superiores a 30 Km/h. Para agravar a situação as duas ultimas horas já foram feitas de noite. Cheguei a Keng Tung às oito da noite. Foram quase doze horas em cima da moto com poucas e curtas paragens.
Na entrada da cidade estava uma menina numa esplanada improvisada a vender espetadas diversas com ótimo aspeto e ovos cozidos em que lhes tiram o interior, penso que com uma seringa, fazem uma mistura com ervas aromáticas e injetam esse liquido de volta na casca, só então cozendo o ovo. Excelentes.
Parei a moto e a menina veio logo perguntar-me se não queria jantar. Sentei-me na mesa única onde, do outro lado, a mãe cortava vegetais e pedi uma cerveja para acompanhar aquelas maravilhosas espetadas. Passados uns minutos chegaram três amigas em duas motos. Uma delas, giríssima, com um ar mais indiano que oriental, meteu conversa. Ficámos por ali a beber mais umas cervejas. Estava na universidade local a estudar física e a família vivia em Yangon, a antiga capital e principal cidade do país.
Quando partimos, para ela me mostrar onde havia um Hotel, perguntei-lhe se não queria vir na minha moto. Aceitou, encantada. Perguntei se podia ir depressa, agarrou-se a mim e respondeu: “sim, sim”.
-       Não tem medo?
-       Não
Adorei aquela miúda.
Pelas oito e meia da manhã parti a caminho da fronteira. A estrada era fantástica, com um piso bastante irregular mas larga e com curvas e contracurvas rápidas que me deram imenso gozo. Ainda por cima, como em Myanmar as malas iam no carro do guia, aliviando muito o peso, pude aproveitar a “Cross Tourer” ao máximo, embora limitado pelos pneus de tacos que felizmente tinha montado na Índia e sem os quais teria tido grandes problemas nos dias anteriores.
Embora o transito em Myanmar seja reduzido, outro grande contraste com a Índia, temos que rodar com cuidado pois aqui não há sinais de transito nem riscos de marcação no alcatrão. Também não há limites de velocidade, ou de álcool no sangue mas são todos bastante ordeiros e civilizados, acabando o problema maior por serem os animais à solta na estrada, que passam por vacas, cães, porcos e muitas galinhas. Para além disso por vezes apanhamos areia ou gasóleo entornado, inesperadamente, a meio das curvas. Na etapa do dia anterior tinha feito três “slides” em cima de gasóleo mas neste dia correu tudo sem sobressaltos.
Às dez e meia da manhã estava no primeiro posto de fronteira, onde tive que esperar pelo guia que só chegou uma hora depois.
Sentado a ler numa cadeira que me estenderam reparei num budista que, debaixo dum telheiro em colmo, estava a fazer massagens nas costas a outro. Como tenho tido problemas de dores nas costas, que se têm vindo a agravar, fui ter com ele e pedi se me fazia uma massagem. Fez-me pressão sobre os músculos da coluna, massajou, carregou, esticou-me, apoiou os joelhos nas minhas costas e puxou-me com força as omoplatas para trás. Gemi de dores mas, quando me levantei, parecia outro. Senti-me vinte anos mais novo. Nunca ninguém me tinha feito uma massagem assim. 

13 de fevereiro de 2014

Myanmar 2




Finalmente, pelas dez da noite, alcatrão, primeiro em muito mau estado e depois um pouco melhor. Parei num restaurante de beira de estrada onde o dono me ofereceu uma garrafa de água e uns bolos, mesmo depois de lhe explicar que não tinha um tostão. As pernas estavam fracas depois de rodar horas em pé na moto, a única maneira de enfrentar aquelas estradas de terra tão esburacadas. Já me doíam joelhos e costas.
Voltei à estrada com a gasolina a chegar à reserva. Há mais de 300 Km que não passava por uma bomba. Finalmente encontrei uma. Tinha uma única bomba com que os rapazes se preparavam para me atestar o depósito. Decidi cheirar a mangueira antes de abastecer. Era Diesel. Antes tinha convencido o responsável, através de muita mímica, a pagar em dólares e receber o troco em moeda local, visto que ninguém falava uma palavra de Inglês.
Quando lhes expliquei que precisava era de gasolina mostraram-me umas garrafas plásticas de água de litro, atestadas com um liquido encarniçado. Cheirava a gasolina de maneira que, pedi desculpa à “Cross Tourer” e enfiei-lhe com sete litros do produto no bucho. Queixou-se, como de costume quando lhe dou deste tipo de zurrapa para beber, através de um grilar preocupante, mas não teve outro remédio senão “mamá-la”.
Entretanto passara por uma série de “check points” com cancelas abertas onde não me mandaram parar. Soube depois que foi porque sabiam que eu iria passar. No dia seguinte o meu guia, que seguia de jipe com o motorista, meia dúzia de horas atrás, sabia não só que eu tinha chegado a Mandalay às onze e meia da noite como a hora a que tinha passado em cada vila. Só não sabia em que Hotel eu ficara a dormir. Ficou em pânico, com medo de ser despedido, quando explicou à responsável do ministério que acompanhava a minha viagem quase ao minuto via telemóvel, que não sabia onde eu estava.
Quando lhe liguei às nove da manhã disse que estaria à porta do meu Hotel dentro de meia hora, mesmo depois de uma noite praticamente em branco e apareceu com o Chefe do Ministério do Turismo local e um carro da polícia a acompanhá-los. Passaram-me a senhora do ministério ao telefone que me pediu por tudo para me manter em contacto com o guia, que tinham ficado muito preocupados e que se sentiam responsáveis se alguma coisa me acontecesse, quais professores de colégio interno.
Disse-lhe estar fora de questão eu rodar junto com o carro do guia e não teve outro remédio senão aceitar, prometendo eu ligar para o guia no final de cada dia a dizer onde ficava a dormir.
Ainda em Mandalay quis ir à procura de um carregador para o meu computador e visitar um amigo que tinha conhecido através da Internet e que organiza uns passeios com motos locais  em Myanmar, ou seja 125’s. O Zach é muito simpático e deu-me imensas informações sobre o funcionamento do país, confirmando-me que eu tinha sido o primeiro a ter tido autorização para o atravessar num veículo próprio o que o espantou porque me contou que nem ele tem licença para atravessar as zonas onde eu iria passar. Pedi-lhe desculpa por aparecer com aquela comitiva ridícula e despedi-me já perto do meio dia. Parti, finalmente para o próximo destino e, como tinha feito aquele esticão do dia anterior, que o ministério tinha previsto eu percorrer em dois dias, decidi parar antes de anoitecer, na cidade de Taunggyi.
A população de Myanmar é simpatiquíssima, principalmente as mulheres que parecem ser em maior numero que os homens e, principalmente na província, ficam fascinadas por ver um estrangeiro. Riem-se, dizem adeus e, quando podem, metem conversa. Uma atitude radicalmente oposta à das Indianas que, devido talvez à sua cultura de subservencia, têm medo de falar com estranhos.
Nesta noite em Taunggyi  acabei por ir jantar a um restaurante Chinês, o único aberto perto das nove da noite. Na mesa ao lado estavam duas miúdas tailandesas e duas birmanesas, todas giríssimas. Enquanto eu lia o livro que trazia, à espera do jantar, as birmanesas não paravam de se rir para mim enquanto faziam comentários com as amigas. Às tantas convidaram-me para me mudar para a mesa delas e ofereceram-me o jantar. Bebemos vinho e cerveja a noite fora e acabámos numa sessão fotográfica de volta da moto na garagem do Hotel. Muito animado.

12 de fevereiro de 2014

Myanmar




Finalmente, tudo pronto para entrar em Myanmar, ou Birmânia como os ingleses e Americanos lhe continuam a chamar.
Às 7,45 estava a sair do Hotel a caminho do escritório da emigração em Moreh, uma barraca de telhado de zinco sem janelas. O responsável, a quem tinha mostrado o mail que recebi do governo de Myanmar a confirmar a chegada do guia na manhã anterior, quando o encontrei no internet café local, disse que mesmo assim teria que enviar o emissário comigo ao outro lado da fronteira para confirmar se o meu guia sempre lá estava.
Voltei a montar na traseira da pequena Honda da repartição e lá fomos os dois. Só que, desta vez, os militares indianos não nos deixaram passar para o lado Birmanês. Com as bombas que tinham rebentado quinze dia atrás na pequena vila e, na expectativa de terem mais problemas no dia seguinte, estão em pânico e cortam, o mais que podem, todas as entradas e saídas de Moreh. Voltamos para trás e o homem da moto foi acordar o chefe que vive por trás da barraca. Desta vez montou-se o chefe na traseira da Honda e lá foi, munido do meu passaporte, pedir autorização aos Birmaneses para eu passar. O meu guia já me esperava de maneira que, a partir daí, carimbaram a minha saída da Índia e os homens da alfândega, a quem tinha pedido para lá estarem às oito em vez das onze habituais, preencheram o Carnet e lá segui ao encontro dos “emplastros” que eram o guia e o seu motorista. Depois da papelada resolvida do lado Birmanês, arranquei com a moto atrás deles a caminho de Mandalay, a mais de 500 Km de distancia. Já eram perto das onze da manhã.
Passados meia dúzia de quilómetros vi que a situação era insustentável e ultrapassei o guia. Só que ainda tínhamos que parar na primeira cidade a levantar um registo provisório da moto. Com o papel na mão, uma autorização para atravessar o país com o numero de registo 001, comuniquei-lhes que nos encontrávamos em Mandalay, a 500 Km de distancia, que eu iria à frente.
Ainda percorri uns 80 Km em estrada alcatroada razoável mas depois tinha um troço pela frente , com  mais de 300 Km, tipo etapa de Dakar, numa pista de terra batida muito degradada.
Com a moto mais leve, por ter deixado as malas no carro do guia, diverti-me bastante, mesmo se a “Cross Tourer” pesa 300 Kg com o depósito cheio contra os 150 Kg das motos do Dakar.
Aquele troço é a única entrada em Myanmar para quem vem da Índia mas, como eles têm a fronteira praticamente fechada, tem muito pouco movimento. Uns poucos camiões e meia dúzia de jipes e carrinhas de transporte de pessoal.
Começou a anoitecer e a situação tornou-se mais complicada. Com o entretimento tinha-me esquecido de comer e ainda não tinha encontrado lugar onde trocar dinheiro, pelo que não tinha um tostão da moeda deles.
À borda da estrada por vezes haviam miúdos a chocalharem umas caixas numa espécie de peditório de “pão por Deus”. Só que, neste caso, eles recolhem dinheiro mas oferecem bolos, fruta e águas.
Parei num deles e, mesmo explicando que não tinha um tostão, ofereceram-me duas bananas que representaram o meu almoço.
Voltei a arrancar, noite dentro, por aquele inferno de buracos e passei por uma parte montanhosa de floresta onde, na borda da estrada, vi uma espécie de Alces com enormes chifres e, mais à frente, uma raposa.
Passadas duas horas parei junto a outro peditório e comi outra banana à borla.
Pelas nove da noite apanhei uma zona de areia mole , a Honda enterrou a roda da frente e... “pumba”, caí para o lado. Não estava ninguém por perto e, sozinho, não consegui pôr a moto em pé. Desliguei as luzes para não gastar bateria e só então reparei que estava uma noite linda, com 20º de temperatura e um céu estrelado maravilhoso, como já não via há muito.
Por ali fiquei à espera que viesse jipe ou camião. Passado um quarto de hora vi umas luzes ao fundo e voltei a ligar a ignição, para quem quer que fosse me ver a bloquear a estrada com a moto.
Uma carrinha cheia de pessoal parou junto à moto mas, talvez com medo que aquilo pudesse ser uma armadilha, só o condutor saiu, depois de alguma hesitação. Ajudou-me a levantar a moto e lá pude seguir viagem. 

11 de fevereiro de 2014

Moreh




Estou aqui há três dias mas ontem à tarde, finalmente, recebi um mail de um ministério na Birmânia a dizer que o meu guia, que eles me obrigaram a ter para atravessar o país, chegará aqui à fronteira amanhã de manhã.
Está um tempo fantástico, com sol e perto de 30º durante o dia e cerca de 15º à noite. Depois de tomar um pequeno almoço de uma espécie de pão frito e chá com leite numa tasca ao lado, passo os dias a ler numa cadeira à porta do Hotel.
Duas vezes por dia, quando a eletricidade chega à cidade e coincide com o funcionamento da rede de internet, o homem do Internet café do outro lado da rua chama-me e lá vou eu navegar durante cerca de uma hora.
Ouvem-se geradores a funcionar e militares, com capacetes, fatos camuflados, coletes à prova de bala e armados até aos dentes, patrulham constantemente a cidade.
Temos a sensação de estar num local de guerra. Há quinze dias fizeram rebentar várias bombas no centro da vila, felizmente sem vítimas, mas as forças de segurança andam visivelmente nervosas. Dentro de dois dias é o dia da República Indiano e esperam-se perturbações. A senhora do Restaurante conta-me que o seu tio vive “underground” e disse-lhe que, se eu voltasse para trás só podia deixar a vila dentro de três dias. Antes disso seria muito perigoso. Senti-me um pouco encurralado mas a pensar que fugiria para Myanmar mesmo a tempo.
Polícia e militares estranham este forasteiro por ali. Primeiro veio o chefe de polícia ter comigo, à paisana, a pedir-me o passaporte. Quando hesitei mostrou-me o seu cartão da polícia. Foi tirar fotocópias ao passaporte e convidou-me a tomar chá na tasca ao lado. Explicou-me que há muitos problemas na zona com os grupos independentistas e pediu-me compreensão pelo controlo.
Tinha-me tornado mais suspeito quando um conhecido membro da oposição local veio ter comigo para me convidar a assistir a um comício que haveria no dia seguinte. Prometeu-me a zona VIP e que teria direito a almoço. Gostava muito que eu fosse. Disse-lhe que não me queria envolver em política mas foi à loja de computadores fazer fotocópias do seu programa político e veio entregar-mas.
Ontem fui com uma das miúdas do restaurante em frente à pendura na moto a uma parte mais recôndita da vila, com ruas estreitas de lama, à procura de uma loja onde pudesse encontrar um carregador para o computador que perdi.
Os militares estranharam ver-me naquela parte da cidade e hoje, quando estava a jantar no restaurante da miúda, onde através das frechas abertas no piso de madeira vemos ratos a passearem alegremente, entraram pela barraca dentro, de metralhadoras em riste. Dois deles ficaram junto à minha mesa e outros dois, sem dizerem uma palavra, passaram para a cozinha e foram espiar as traseiras. Só quando regressaram me perguntaram o que fazia em Moreh e me pediram o Passaporte. Quando o fui buscar ao Hotel, do outro lado da rua, seguiram-me e, à porta do quarto, perguntaram-me se transportava armas ou substância ilícitas.
A mulher do homem dos computadores diz-me que já têm vindo aqui estrangeiros, de moto ou de carro, tentarem passar para Myanmar mas acabam sempre por não conseguir a famigerada autorização e voltam para trás. Uma mulher de um dos ministérios com quem falei ao telefone também me pediu que compreendesse a burocracia porque era a primeira vez que deixavam um veículo estrangeiro atravessar o país.
Hoje fui questionado por um polícia de outra corporação. Com óculos escuros, bigode e ar de “playboy”, uma imagem certamente influenciada por séries policiais americanas, disse-me pertencer a uma “espécie de NYSF”.
-NYSF ? perguntei eu. O que é isso?
New York Special Forces, respondeu ele.