16 de novembro de 2013

Bangladesh



O Bangladesh existe há pouco mais de 40 anos. Quando os ingleses deixaram a Índia, em 1947, parte do território ficou dividido entre Paquistão Oriental e Paquistão Ocidental, com a Índia a separar esse novo país em dois. O sistema durou mais que o esperado e só em 1971 a parte oriental do Paquistão se tornou independente, passando a designar-se Bangladesh.
É um dos países mais pobres do mundo. Tem menos do dobro de Portugal em tamanho e cerca de 140 milhões de habitantes. É muita gente para tão pouco espaço. A maioria da população dedica-se à agricultura de cereais e legumes. Os seus campos são férteis, banhados pelos rios que vêm dos Himalayas mas, por mais que plantem, o arroz que produzem não chega para alimentar tanta gente e acabam por ter que importar algum da Índia.
A única industria com volume é a de roupa, em que as trabalhadoras são exploradas através de salários baixíssimos e condições péssimas, para os patrões conseguirem vender as peças que fabricam aos europeus a preços ridículos. Estas empregadas fabris estavam ontem a manifestar-se para pedirem um aumento para 100 dólares mensais. Atualmente ganham 38 e os patrões propuseram 45. Mesmo tendo em conta que a vida aqui é barata são ordenados miseráveis. Refira-se que as fábricas concorrentes do Vietnam e Cambodja pagam cerca de 70 às suas empregadas enquanto na China ganham a “fortuna” de 140 dólares mensais.
Além disso, a maioria dos prédios onde estas fábricas se instalaram estão decrépitos, tendo um caído há pouco tempo, matando mais de mil destas desgraçadas.
A situação política está explosiva e, como referia ontem, a oposição decretou uma greve de quatro dias durante os quais não podem circular veículos e muitas das lojas estão fechadas.
Embora este local onde estou junto à fronteira com a Índia seja uma pequena vila hoje passou aqui à porta do Hotel uma barulhenta manifestação e à noite ouvi um vibrante comício em que os oradores gritavam palavras de revolta. Foi seguido por um concerto de um artista cá da aldeia a quem não vejo grande futuro. Estive para lá dar um salto mas ainda bem que não fui porque um rapaz que aqui trabalha na alfandega disse-me que acabou tudo à pancada. De facto a música parou de repente.
O Hotel onde me instalei, o único na vila, não tem restaurante e por isso tomo o pequeno almoço numa barraca perto onde servem uma espécie de pão frito e chá com leite. Ao almoço vou com um empregado da alfandega, um homem que não mede mais de 120 cm e me visita três ou quarto vezes por dia para perguntar se está tudo bem, almoçar a um restaurante mais longe, de “rickshaw”, destes a pedal. Aliás, são praticamente os únicos veículos que circulam nesta vila fronteiriça, para além dos camiões que passam a fronteira com arroz e cereais ou alguns triciclos motorizados, muitos deles com um ar artesanal e motores de moto serra, que pegam com uma corda.
Atravessar a vila de “rickshaw”, cerca de 1 Km, custa o equivalente a dez cêntimos e o “Tiger”, este meu guia anão, raramente me deixa pagar mais. Por um lado tem razão. Se lhes desse um euro, no dia seguinte havia uma guerra para ver quem me levava.
O “Tiger”, não fala uma palavra de inglês assim como ninguém no Hotel, mas lá nos vamos entendendo. No restaurante todos me observam, atrapalhado, a tentar cortar a carne com um garfo porque comem com as mãos. O criado serve-me o arroz no prato com uma tijela mas quando lhe digo que só quero metade da dose tira o que está a mais com a mão para a panela. Ontem, um cliente que já viu estrangeiros disse para me arranjarem uma faca e fartaram-se de rir com o meu ar de contentamento por ter uma faca e, claro, espantados a observar como usava garfo e faca, o garfo de sobremesa e a faca de talhante. Passou a ser o espetáculo da hora de almoço naquele restaurante e o “Tiger”, como que a vender o “show”, vai-lhes contando a minha história, que vim lá de um país longínquo que eles não fazem ideia onde fica mas que é ainda mais longe que o Paquistão, numa moto do tamanho de um carro.
Ficam todos a olhar, como se eu fosse um animal raro, fazem-lhe algumas perguntas que não faço ideia de que tratam e riem-se deste espécimen que come com talheres.

14 de novembro de 2013

English Bazar - 2




Depois de um desastre de moto dormimos sempre melhor.
Pelas nove da manhã saí de Krishnagar, rumo a uma pequena fronteira com o Bangladesh que vinha assinalada no Google Maps como uma estrada de entrada no país.
Quando saí de Kolkata temiam que o tufão que passou nas Filipinas se encaminhasse para lá mas acabou por tomar outro rumo e o céu tem estado limpo e as temperaturas agradáveis, a rondar os 28 a 30º durante o dia o que considero o ideal para andar de moto.
Depois de percorrer cerca de cem quilómetros e à medida que me aproximava da fronteira o transito começou a ficar muito reduzido o que traduzi como um mau sinal porque aqui, fronteiras de passagem significam sempre grande movimento de camiões, neste caso carregados de arroz e cereais importados pelo Bangladesh.
Chegado à zona de fronteira não foi com grande surpresa que deparei com uma alta rede e um portão com aspecto de não ser aberto há anos. Dois guardas fardados de camuflado, debaixo de uma pequena barraca de telhado de zinco tomavam conta do local.
- “Não, por aqui já não é possível atravessar há vários anos”
- “E onde posso passar para o Bangladesh”?
- “Não sei. Pergunte no nosso posto, a 1 Km daqui, de onde veio”.
Lá voltei atrás onde num pequeno quartel um grupo de guardas limpava espingardas e, estranhando a minha visita, um deles pôs-se em guarda, por pouco não me apontando a arma. Tinham cara de poucos amigos mas o chefe, que me viu chegar de dentro de uma barraca mandou chamar-me e acalmaram. Lá me explicou que ali não era possível passar e que teria que ir até
à fronteira de Hilli, 200 Km a Norte.
Em vez de regressar à estrada principal decidi então cortar caminho por estradas de província que, embora sejam mais estreitas, têm a vantagem de ter muito menos movimento de camiões e, por essa razão, também estarem em melhor estado. Ao fim dos dia voltei a apanhar a estrada nacional mas com troços que tinham sido alcatroados desde que aqui passei em sentido contrário, há cerca de um mês. Já era de noite quando cheguei, cansado, a English Bazaar. Fiquei noutro Hotel manhoso e parti cedo para a fronteira de Hilli a pouco mais de 100 Km.
Os últimos 80 Km antes de chegar à fronteira eram numa estrada surpreendentemente bem alcatroada. Via-se que tinha sido construída há pouco tempo e a população aproveitava aquele alcatrão impecável para nele estender cereais a secarem, ocupando parte da via. Até à fronteira vi até o que nunca tinha visto nos milhares de quilómetros que já fiz na Índia, sinais à entrada das vilas com o nome das povoações. Parecia quase um país civilizado, não fora o estendal de cereais.
Chegado à zona da fronteira voltei à realidade. Os funcionários da alfandega do pequeno posto fronteiriço nunca tinham visto um Carnet, a espécie de passaporte que utilizo para a moto, e foram buscar um velho livro com registo do ultimo que por ali tinha passado, correspondente a um carro estrangeiro que por lá atravessou a fronteira em 2009. Como de costume juntou-se uma multidão à volta da moto que os guardas vão enxotando de vez em quando. Depois de meia hora de preenchimento de papéis com os funcionários da alfandega tive que obter autorização de passagem dos guardas situados debaixo de um pequeno telheiro. Do outro lado de uma linha de comboio estão os do Bangladesh para quem o indiano ligou, através de um telefone em que dava a uma manivela de lado, a explicar que estava ali um estrangeiro com uma moto que queria entrar no país e se eles me aceitariam. Depois de muita conversa saíram do lado de lá dois guardas e um homem à paisana que pensei ser funcionário da alfandega do Bangadesh mas que mais tarde se apresentou como jornalista. Era ele que parecia dar ordens aos guardas para me deixarem entrar no país. Pararam a cinco metros de distancia dos indianos do outro lado de um marco que definia a fronteira. Os indianos deram-me ordem para avançar esses cinco metros com a moto e os guardas do outro lado, depois de muito olharem para o passaporte, lá me mandaram atravessar a linha de comboio para me deslocar aos escritórios da alfandega. Eram meio dia e um quarto na Índia e faltava um quarto para a uma no Bangladesh. Por estes lados acontece muito esta diferença horária de meia hora e por vezes de 15 minutos entre países.
Um primeiro homem mandou-me preencher um papel com os meus dados, passados três minutos pediu para acrescentar por trás o nome do pai, mais uns minutos e escrever a profissão e outros cinco minutos de hesitações para então me pedir que escrevesse a morada em Portugal. Passavam, entretanto, dois minutos da uma e já não tinha tempo de carimbar o passaporte antes do almoço. Saiu sem dizer nada e só passado um tempo percebi que tinha ido almoçar e só regressava às duas. Depois de almoçar eu um pacote de amendoins lá carimbei o passaporte mas faltava o mais importante, o visto no Carnet para a moto poder entrar. Os empregados que tratavam disso almoçavam das duas às três de maneira que tive que esperar outra hora. Lá chegaram para informarem que não podiam decidir nada e teriam que se deslocar à sede, a cerca de dois quilómetros, para falar com as chefias. Passou mais meia hora e o homem voltou a anunciar que os chefes vinham para falar comigo. Antes da chegada dos chefes ele mesmo deu uma arrumação no escritório, afastou a pequena mota que lá estava estacionada dentro para um canto, preparou três cadeiras para os chefes e disse-me para esperar sentado numa outra.
Os três chefes chegaram de “rickshaw” ainda a pedal, a forma mais utilizada por todos para as deslocações naquela vila fronteiriça. Simpáticos mas sem arriscarem quebrar a lei voltaram a analisar o Carnet e, sem aceitarem as minhas explicações acabaram por ligar para um chefe supremo, na capital. Este informou-os que, sem garantia bancária passada no Bangladesh, só poderia entrar no país com a moto se o ACP pedisse ao Automóvel Clube do Bangladesh que requisitasse uma licença especial do governo.
Outro problema é que o país está numa crise política, e a oposição decretou quatro dias de greve durante os quais nenhum veículo deve circular nas estradas, arriscando-se, segundo eles, a ser alvejado por radicais simpatizantes deste movimento. Instalei-me então no único Hotel da vila, por três euros por noite, à espera do pedido do ACP, que fiz através da internet com uma “pen” emprestada mais lenta do que se pode imaginar pois aqui, segundo o miúdo que trata da internet na alfandega, não há 3G.

13 de novembro de 2013

Krishnagar



Acordei com o quarto cheio de fumo e um cheiro terrível a fritos. Abri a porta que dava acesso à casa de banho e dei com a origem do problema. Este pequeno compartimento junto à casa de banho tinha uma janela sem vidro que tinha vista direta para o pátio onde cozinhavam. Abri a porta do quarto para entrar ar mas todo o Hotel estava debaixo desta nuvem de fumo. Vesti-me rapidamente, tirei a moto da sala de jantar, onde tinha passado a noite, e deixei aquele pesadelo pouco passava das oito horas, a caminho da fronteira com o Bangladesh, a meia dúzia de quilómetros.
Carimbei passaporte e Carnet da moto na parte Indiana da fronteira mas, ao chegar ao lado da fronteira do Bangladesh disseram-me que não poderia entrar com a moto sem uma garantia bancária e que os bancos estariam fechados sexta e sábado. Insisti que o Carnet representava uma garantia bancária mas sem efeito. Depois de vários contatos telefónicos com os seus superiores, separados por longos intervalos, decidiram que eu não poderia entrar com a moto e teria que voltar para a Índia. Falei ao cônsul português no Banglasdesh mas ele estava fora do país e não me ligou nenhuma.
O remédio seria voltar à Índia e dar a volta ao Bangladesh pelo Norte através das terríveis estradas que tinha percorrido quando vim do Butão para Calcutá. Resignado, fiz-me à estrada, já passava do meio dia, com a ideia de mesmo assim tentar a entrada no Bangladesh através de uma fronteira mais pequena.
Rumei a Norte através das esburacadas e movimentadas estradas que conhecia do mês passado e, passados uns 100 Km, ao sair para a berma para não apanhar com um camião de frente, esta tinha um degrau da altura dum passeio. A berma acabava de repente e tive que voltar à estrada sem ter espaço para parar. Bati de lado contra este degrau e caí para a faixa de rodagem. Não rodava a mais de 40/50 Km/h, assim como o camião que acabara de ultrapassar e que teve que travar a fundo para não me “passar a ferro”. Mais uma vez não me magoei e tenho que agradecer ao concessionário Honda “Motoboxe”, que me forneceu este fantástico fato da “Spidi” e o capacete “Shoei”, que têm ajudado a proteger-me. A moto partiu a maneta do travão e as malas em alumínio voltaram a sofrer. Populares vieram rapidamente ajudar-me a levantar a moto e lá arranquei com a maneta reduzida a um taco.
Não tinha percorrido mais de 30 Km quando, ao passar por um concessionário Honda com aspecto moderno e limpo, me chamaram. Veio mesmo a calhar. Tinham naquele fim de tarde uma cerimónia por fazerem a entrega da primeira 250R que vendiam, uma pequena monocilindrica com aspecto racing e pintura a condizer, com as cores da Repsol, a imitar as motos de Grande Prémio. Ficaram radiantes quando viram a “Cross Tourer”. Trataram de me trocar a maneta de travão que, por sorte trazia comigo e aproveitei para pedir que mudassem também as pastilhas do travão de trás e endireitassem a mala que ficou amolgada. Depois colocamos a moto no stand e eles ligaram ao patrão que veio rapidamente e ao responsável de zona da Honda que estava longe mas pediu fotografias. Passada uma hora fomos em caravana, eu e duas ou três motos novas, atrás de uma camioneta decorada com as cores do concessionário e um homem dentro num altifalante a anunciar maravilhas das novas Honda. Assim percorremos a cidade, a 10 à hora, até um segundo stand que tinham no centro, onde voltei a entrar com a moto. Senti-me um palhaço de circo mas pelas oito da noite lá me guiaram até um Hotel razoável onde fiquei. Estava em Krishnagar.  

12 de novembro de 2013

De volta à Índia

Calcuta 3       
De volta à Índia
Há três dias voltei à Índia, depois do trabalho que tive na Bélgica.
Este regresso começou em excelente nível. Tinha marcado um voo desde Lisboa para Calcutá com escala no Dubai, onde gosto de passar uma noite, não só para cortar o tempo de viagem como para me habituar melhor à diferença horária. Sempre que posso viajo na “Emirates” que é, sem duvida, a melhor companhia aérea que conheço. Não só por os aviões serem novos e estarem sempre limpos, o que não acontece em muitas das companhias nestes tempos de crise, como pela qualidade das refeições e o profissionalismo e simpatia das hospedeiras. Fazem lembrar-nos um pouco a TAP de há vinte ou trinta anos.
Desta vez tive a sorte de o avião estar cheio e, talvez por eu ser cliente habitual, me terem feito um “upgrade” para executiva. Viajar em executiva na “Emirates” em longo curso representa um novo conceito de transporte publico. Vamos tão cómodos e bem tratados que o tempo passa num abrir e fechar de olhos.
Para não estranhar este regresso, o Hotel em que fiquei no Dubai fez-me também um upgrade para uma suite, segundo eles por eu ter chegado à uma da manhã.
No dia seguinte, já em Calcutá, outra surpresa agradável. O Cônsul tinha acordado com a administração do melhor Hotel da cidade, um cinco estrelas chamado ITC Sonar, eu lá ficar à borla durante os três dias que passaria na cidade. O Hotel é espetacular, com requintes como uma cama com quatro almofadas de diferentes materiais e texturas para terem a certeza que o cliente encontra a ideal para si, um duche espaçoso e com muita pressão e nada menos que seis excelentes restaurantes. A relações publicas, no seu sari impecável em tons de encarnado e dourado, veio receber-me e levou-me ao quarto, pelo caminho explicando-me todas as comodidades de que poderia usufruir no Hotel. No quarto, uma moldura em cima da secretaria com uma fotografia minha na moto e um simpático texto a desejar óptima estadia e boa viagem.
No dia seguinte pela manhã apanhei um táxi até ao escritório do Cônsul, onde tinha deixado a Honda.
Aqui voltei à realidade da Índia pois enquanto o condutor do táxi que me tinha trazido do aeroporto no dia anterior parou a meio caminho para pôr gasóleo, este, mal saiu do Hotel, virou para uma rua com menos movimento e, sem dizer nada, como se da coisa mais natural do mundo se tratasse, parou o carro e saiu para fazer xixi na borda da estrada. Reparei que quando voltou ao táxi lavou vagamente as mãos com a água que sempre transportam numa garrafa de plástico. Isto lembrou-me que eles no fundo, embora vivam no meio do lixo, que se vê nas cidades por todo o lado, têm o hábito de se lavarem e mesmo as famílias mais pobres que vivem na rua lavam-se diariamente com baldes de água e dão banho às crianças nos passeios embora muitas vezes só com água, sem acesso a sabão. Muitos deste motoristas de táxi também vivem nos próprios táxis e vem-los, nas horas de descanso, com o táxi parado na berma da estrada, a dormirem no banco de trás.
Levei a moto até ao concessionário Honda onde tinha combinado fazer eu a reparação da suspensão da frente com as peças e ferramenta especial que trouxe de Portugal, emprestando eles o espaço e restante ferramenta. Nesse dia ainda tive tempo de desmontar o garfo da moto para no dia seguinte ir lá desarmá-lo para substituir os retentores que, com a pancada e terra que tinham apanhado nas estradas do Norte da Índia, estavam a deixar passar óleo.
A operação correu bem e aproveitei para também substituir os pneus que trouxe comigo no avião de Lisboa, as proteções plásticas dos punhos, já feitas em cacos, a maneta de embraiagem que tinha sido remendada quando da minha queda e outros pormenores como alguns parafusos de fixação da carenagem.
Com a moto já recondicionada, depois de o concessionário local se recusar a receber qualquer pagamento, nem mesmo o do óleo de suspensão que usei, parti a caminho do Bangladesh, pela hora de almoço do dia seguinte, por estradas muito movimentadas que me obrigam a fazer medias inferiores a 30 Km/h. Cheguei perto da fronteira já de noite e decidi por isso ficar numa pequena cidade a 5 Km. Aqui regressei à realidade, ou seja, um Hotel sujo e feio de seis euros por noite e uma multidão na rua de volta da moto. O quarto é um susto, com a parte de cima de uma das paredes rôxa, e outra verde alface, enquanto uma barra de azulejos num tom de roxo escuro a meio das paredes separa essas cores de uma zona de azulejos azul claro e brancos. O interior da porta está pintado de castanho e amarelo. Desconfio que o decorador tenha origens chinesas. A televisão está rodeada de teias de aranha enquanto a prateleira onde está pousada, coberta de pó, tem também uma garrafa de coca cola vazia deixada pelo ultimo cliente. A casa de banho suja tem até uma beata no chão e a já habitual, neste tipo de hotéis, escova de dentes usada, para quem se tenha esquecido da sua. Quando me entregaram o quarto o dono veio confirmar com os próprios olhos se o quarto havia sido limpo e deu o seu sinal de aprovação. Sim, está limpo, disse ele ao sair da inspeção à casa de banho. Estranharam que eu exigisse não um mas um par de lençóis lavados na cama, o de baixo a cobrir a almofada sem fronha.
Jantei no restaurante do Hotel às sete e meia porque não tinha almoçado e durante o jantar grupos de três homens entravam no restaurante, saídos da multidão que rodeava a moto, para me perguntarem de que país era e qual a cilindrada e preço da moto. Muito poucos têm a mínima ideia onde fica Portugal.
Pouco depois de subir para o quarto o dono do Hotel veio bater-me à porta a pedir que guardasse a moto dentro do restaurante porque lá fora não paravam de mexer nela.

18 de outubro de 2013

Goa




A minha ideia quando cheguei a Calcutá era tratar do visto para o Bangladesh, fazer a tal conferencia de imprensa que o cônsul tinha planeada e partir para Dhaka, capital do país vizinho, onde deixaria a moto estacionada por um mês para vir à Europa fazer um trabalho que tenho programado. Só que entretanto, no consulado do Bangladesh recusaram-se a dar-me um visto de duas entradas, de maneira que tive que deixar a moto em Calcuta e, como ainda tinha uns dias até apanhar o avião que estava marcado do Dubai para Portugal, vim até Goa que fica a caminho e não tinha tido a hipótese de visitar de moto.
Cheguei já de noite e instalei-me na Pangim Inn, que me tinha sido recomendada pelo cônsul local, este português.
Goa não tem nada a ver com o norte da Índia. Há muito menos lixo nas ruas e as estradas estão em bom estado.
No dia seguinte de manhã tratei de alugar uma “scooter” e fui explorar a região.
Com pouca coisa que visitar em Panjim, comecei por ir até Velha Goa. Não tinha percorrido dois quilómetros fora da cidade quando fui mandado parar pela polícia.
- “your licence, please”
- “your nationality”?
- “Portuguese”
- “Ah. Fala Português”? diz-me o polícia com pronuncia de inglês radicado no alentejo.
- “Sim”
- “What does it mean, sim”?
- “Yes”
- “Ah. Very well. Bacalhau. Ha, ha. You may go”
Em velha Goa, como em todo o lado na Índia, tudo o que são monumentos estão muito mal conservados. O velho palácio dos Governadores já não existe porque, ainda no século IXX os dirigentes portugueses decidiram-se mudar para o Palácio do Cabo, junto ao mar, e acabaram por destruir aquele para utilizarem parte do material para construírem o novo. Tanto a enorme Sé, a maior igreja na Ásia, como a Basílica do Bom Jesus, onde está o tumulo de S. Francisco Xavier, estão em bastante mau estado e a coleção de quadros dos governadores e vice reis portugueses, instalada no Museu Arqueológico, foi restaurada por curiosos que transformaram os dirigentes portugueses numa espécie de bonecos mascarados.
Interessante é a frase que estava na estátua de camões, originalmente edificada pelos portugueses em 1960, um ano antes de serem expulsos do território e agora recolhida no mesmo museu dos governadores: “Camões, o génio da pátria pelo mundo em pedaços repartida. Oferta de Portugal da Índia à Índia de Portugal”.
Curioso é também verificar que, mesmo no tempo dos Filipes, entre 1580 e 1640, estes nomeavam governadores portugueses e mesmo vice reis para tomarem conta dos territórios portugueses na Índia. Foram perto de duas dezenas, nesse período.
No dia seguinte viajei para sul na “scooter”, rumo às praias de Miramar e Dona Paula. Do meio do nada surge um imponente mas bem enquadrado na paisagem Hotel Hyatt onde parei para almoçar, junto à piscina. Turistas Americanos a almoçarem em tronco nu tinham ar de quem vinham passar uma semana à Índia sem saírem do Hotel. Fiquei depois a ler num dos sofás do jardim sobre a praia, com o calor temperado por uma ligeira brisa vinda do mar. Por ali fiquei até às cinco da tarde antes de regressar a Panjim.
Ontem fui para Norte, a parte mais turística de Goa. Visitei o forte dos Reis Magos, restaurado há dois anos mas já a começar a dar sinais de pouca ou nenhuma manutenção e o forte da Aguada, mais a norte. Não tinha ideia que os portugueses, desde o Afonso de Albuquerque, foram construindo várias fortificações ao longo da costa, desde Goa até Damão e Diu, passando por Bombaim, que acabou por ser oferecida aos ingleses como dote dum casamento real. Assim, o território por nós ocupado no século XVI não se limitava às quatro cidades mas incluía uma enorme zona costeira.
Sigo agora para Portugal, através do Dubai, para regressar a Calcutá no final do mês, antes de partir para o Bangladesh.