29 de setembro de 2013

Paro





A minha grande curiosidade em visitar o Butão era, para além das normais visitas a templos e museus e de me maravilhar com a exuberante paisagem dos Himalayas sem neve, de que já tinha tido um fantástico exemplo no Nepal, tentar perceber qual o segredo para aquela gente conseguir ser, como dizem “a população mais feliz do planeta”. Ontem, no transito, já tinha percebido que eles cumprem as regras mas isso só por si não torna ninguém feliz, antes pelo contrario.
Li extractos de discursos de alguns dos últimos reis do Butão. Sim, é uma monarquia, desde que o país existe como tal, o início do século passado. Curiosamente nestes discursos os reis nunca falam em inflação, crise, desemprego ou outras desgraças que afligem os países ditos civilizados. Os discursos dos reis referem sempre as coisas boas que vão acontecendo no país, que nunca esteve em guerra desde que o primeiro rei conseguiu unificar o território, e dizem que a ambição deles é que a população viva cada vez mais feliz. Nunca referem mais próspera ou com menores dificuldades financeiras. Simplesmente, mais feliz.
O Butão é um pequeno país, com cerca de metade do tamanho de Portugal, todo ele nos Himalayas e com menos de 700.000 habitantes.
À medida que rodava país dentro ia-me apercebendo de razões que podem influenciar essa felicidade de que tanto se fala. 1º ponto importante, ela não vem do dinheiro. A maioria da população vive com muito pouco dinheiro. Muito menos que os portugueses, por exemplo. E sentimos logo no primeiro contacto com esta gente que estão muito mais felizes, de um modo geral, do que quem vive no Dubai, a destrocar petrodólares ou em Londres, Paris ou Nova Iorque. Não há psicólogos ou psiquiatras mas apenas Monges Budistas e “Great Lamas”.
Mas como dizia, a primeira razão palpável desta felicidade é que saímos da confusão e sujidade da Índia e entramos diretamente nos Himalayas que formam como que uma fronteira natural no sul do país. Passados três quilómetros já estamos com uma paisagem deslumbrante à nossa frente de enormes montanhas forradas a verde, com muito pouco transito e sem lixo nas ruas. Eu que nem era de lá já me estava a sentir mais feliz por ali estar. A principal estrada de entrada no país, como todas as outras é estreita, por vezes em mau estado e entrelaçada nos Himalayas como se estivesse a eles abraçada. Precipícios de um lado, montanha que abate do outro, camiões que não se conseguem cruzar sem saírem os dois para as respectivas bermas seria uma situação complicada em qualquer outro lugar. Ali faz parte e ninguém se queixa, hipnotizado que está por aquela calma transmitida pelo ar das montanhas que nos faz respirar mais devagar.
Constatei o estado de espírito da população logo no transito da montanha em que tanto carros como camiões, quando percebiam que vinha uma moto atrás mais rápida que eles, encostavam na berma e faziam sinal para eu passar. Mais tarde, confirmei essa mentalidade generalizada quando a polícia nos mandou parar a dizer que teríamos de esperar cerca de hora e meia por estarem a reparar a estrada. Formou-se uma enorme fila de carros, carrinhas e camiões que foram sendo desviados para um largo onde havia um pequeno restaurante à beira da estrada. Não ouvi uma única pessoa a queixar-se ou a dizer que estava atrasada para seja o que for. Para eles o tempo não é importante e estarem ali parados ou a caminho do que tinham para fazer parecia ser exatamente a mesma coisa. Mais espantado fiquei quando, passada uma hora, outro polícia veio anunciar que teríamos que esperar mais duas porque a estrada que estavam a arranjar tinha abatido montanha abaixo. E não há outra estrada de chegada à capital por aquele lado do país. Aquela gente recebeu a notícia com o ar mais natural do mundo e limitaram-se a esperar calmamente. Não estavam a conter uma fúria interior mas simplesmente não se sentiam afectados pelo que nem sequer consideravam um problema. Este estado de espírito sim, certamente faz parte do estudo para obtenção do diploma da felicidade.
Outra curiosidade deste povo é a maneira de se vestirem. A maior parte dos homens anda de saias, que são mesmo obrigatórias para quem trabalha para o estado, enquanto as mulheres que se vêm na rua vestem quase todas calças, independentemente das suas preferências sexuais.
Ao contrário do Nepal que, por ser a terra Natal do Buda, teria mais razões para ser um país maioritariamente budista mas onde a população é quase toda Indhu, aqui 95% são Budistas. Para eles há só um Deus, o mesmo de todas as religiões. Acredito que este estado de espírito do povo do Butão se deve muito à calma e meditação incentivadas pela religião Budista que todos seguem e que lhes é incutida desde miúdos na escola. As crianças são ensinadas a meditar nas escolas e em vez da ginástica comum, praticam yoga.
Neste primeiro dia fiquei na cidade de Paro, a segunda do país. Comecei por ir ver, ao longe, o extraordinário mosteiro “Tigers Nest” cravado na escarpa da montanha a várias centenas de metros de altura. Aqui, onde agora vivem monges, terá estado o segundo Buda quando, no século VIII chegou à região.
Fui depois visitar um templo Budista para perceber um pouco o que lá se passa. Um grupo de uns 30 monges estava a acabar uma cerimónia a que infelizmente não me deixaram assistir, nem a mim nem ao meu guia que não sendo monge é Budista. Sentia-se que era uma cerimónia importante e eram dirigidos por um “Great Lama” ou mestre Budista. Vi-o sair do recinto, com um homem que faz de guarda ao chefe e vai batendo um chicote no chão na frente do caminho. A acompanharem o “Great Lama” ou “Rimpoche” vêm ainda dois monges e um militar fardado e de espingarda ao ombro, não vá o guarda do chicote ter dificuldades em cumprir a sua missão, mesmo se tanto militar como espingarda tinham ar de nunca terem disparado um tiro. Todo este folclore, que se destinava simplesmente à caminhada do “Great Lama” do Templo para a casa que ocupava na ocasião, no terreno adjacente, como na maior parte dos casos de deslocações de pessoas importantes por todo o mundo, é mais para marcar a importância do personagem que para ter um efeito prático de proteção.
Os monges recolheram a uma espécie de camarata do outro lado do Templo.
Fiquei num Hotel simples mas limpo onde me serviram um excelente jantar.

28 de setembro de 2013

Jaigaon





Hoje de manhã saí do Lodge na floresta às nove a caminho da fronteira com o Butão, na esperança de ter o visto pronto quando lá chegasse.
Os cerca de 30 Km aqui são de boa estrada, alcatroada recentemente, à parte cerca de 2 Km que ainda estão em terra. Pelo caminho passei por enormes plantações de chá, uma planta que tem pouco mais de um metro de altura mas que forma uma espécie de tapete em altura que parece ter sido aparado. Pelo meio algumas árvores que têm ar de serem estrategicamente colocadas para não deixarem o sol queimar as folhas do chá e, provavelmente, manterem a humidade.
 Os guardas do portão de entrada no Butão reconheceram-me pela moto e nem perguntaram onde ia. O visto não estava pronto mas ainda bem que lá fui logo de manhã porque a mulher da agencia tinha-se esquecido da cópia do meu passaporte em casa e lá foi tirar outra para enviar por fax a um colega em Thimphoo, a capital, para ele ali obter o visto. O processo começou a atrasar-se e,  estando a pagar  290 dólares por cada dia no Butão, pedi que fizessem o visto só a partir de amanhã para poder entrar no país logo pela manhã e ter tempo para visitar as duas cidades onde quero ir.
Depois de confirmar que estava tudo encaminhado perguntei por um Hotel na pequena cidade do lado Indiano da fronteira e um dos empregados da agencia foi de carro à minha frente até lá. Estranhei logo porque o Butanês, em vez de atravessar a estrada onde estávamos, houvesse ou não traço contínuo, andou pela via esquerda uns 200 metros para cima para dar a volta numa rotunda. Confirmei este espírito suíço tão contrastante com o dos indianos onde, simplesmente, não há regras de transito quando, da parte da tarde, voltei à agencia para recolher o visto. Como costumo fazer aqui na Índia nestes dias de calor em pequenas distancias, ia na moto em mangas de camisa e sem capacete. Os guardas da fronteira do Butão mandaram-me parar e disseram-me que não poderia entrar no país sem capacete. Eu expliquei-lhes que ia só parar a moto cinquenta metros à frente para levantar o visto na agencia mas eles nem puseram essa hipótese: “Não. Não pode passar este portão sem capacete”. Pedi-lhes então para deixar ali a moto à entrada e acederam sem problema. O contraste parece abismal. Ainda aumentou mais a minha curiosidade. Será que a felicidade extrema inclui cumprir as regras escrupulosamente? Imaginava mais um local que dizem ser a própria felicidade como uma espécie de anarquia mas em que todos se respeitassem.
Entretanto hoje, aqui na Índia, é dia de “Vishwakarma”, o Deus dos Engenheiros, como me dizia há pouco o recepcionista do Hotel. É dedicado a tudo o que é maquinaria e então muitos carros andam com cordões de flores penduradas enquanto aqui no largo do Hotel montaram vários altares dedicados a este Deus, alguns com aparelhagens de música aos berros, outros com coisas doces com que intoxicam as crianças e outros nos quais as pessoas simplesmente entram e fazem uma pequena reza, certamente a pedir que o carro podre resista mais um ano.

27 de setembro de 2013

Wild Life Reserve 2



Ontem levantei-me pelas nove e fui de moto à aldeia próxima, enviar à minha filha a mensagem que não tinha conseguido no dia anterior. Aproveitei depois para mudar as pastilhas dos travões da frente da “Cross Tourer”, operação que não tinha feito em Delhi porque ainda tinham alguma espessura mas agora estavam quase no “osso”. Ainda eram as que saíram de Portugal e as de trás  fazem pelo menos mais 5.000 Km.
Depois do almoço decidi ir visitar um local no meio da selva onde tratam de Tigres e Leopardos que me disseram ser a cerca de dez quilómetros. Entrei com a moto por uma estreita estrada de terra, selva dentro, mas passados doze quilómetros não havia vestígios de nada nem ninguém até que encontrei uma espécie de homem da selva, destes vestidos só com um pano à volta da cintura, que pastava três ou quatro cabeças de gado. Era escuro e tinha um ar carrancudo, sem expressão. Parei para lhe perguntar onde era este centro de recuperação animal mas fiquei com a ideia que não falava inglês nem qualquer outra língua, provavelmente por não ter ninguém com quem falar. Não emitiu um som e a sua expressão manteve-se inalterada. Como tinha numa das mãos uma enorme foice para se conseguir movimentar através da floresta achei melhor não prolongar o inquérito e segui caminho. Ele manteve-se estático, como se tivesse acabado de ver um extraterrestre numa nave especial que não o tinha assustado mas impressionado. Passados mais três quilómetros lá encontrei aquela base, como tudo aqui com um ar muito abandonado. Acabei por só ver um Leopardo que tinham acabado de capturar porque os outros animais estavam fechados em jaulas por supostamente estarem a fazer manutenção do espaço vedado onde eles costumam andar.
Quando me preparava para regressar estavam três miúdos e dois velhos maravilhados com a moto e um deles pediu se o levava a dar uma volta. Acelerei um bocado em segunda, com o velho à pendura, e ele saiu de lá como se tivesse tido a melhor experiencia da vida.
Hoje parti às cinco e meia da manhã para um Safari de Jipe, acompanhado de um simpático casal que tinha vindo de Calcutá, mas tivemos azar e acabámos por só ver um Búfalo e um Rinoceronte à distancia.  

26 de setembro de 2013

Wild Life Reserve





Ontem à noite, tinha adormecido há pouco mais de cinco minutos no pesadelo daquele Hotel quando dei um salto da cama ao acordar com uma enorme explosão. Pensei que fosse uma bomba terrorista junto à esquadra da polícia, ali perto. Saí do quarto em calças de pijama e tronco nu e vim cá abaixo ver o que se passava. Os empregados estavam calmos e um deles disse-me que deveria ter sido um pneu dum camião a rebentar. Nunca vi nada assim.
Esta manhã voltou a reunir-se uma multidão à porta do Hotel para me verem partir, ainda não eram nove.
Segui pela estrada de ontem a caminho da fronteira com o Butão com a grande vantagem de esta parte da estrada ter muito menos camiões. Depois, à medida que o transito diminuía, também o piso ia melhorando. A uns 40 Km da fronteira vi um letreiro a anunciar um Lodge numa reserva animal, no meio da floresta. Entrei para beber uma água e ver como era. Ainda pensei ali ficar dois dias a descansar da “sova” que tinha levado no dia anterior mas quando me disseram que a época de Safaris estava fechada e só abria dentro de dois dias, decidi arrancar.
Na alfandega de saída da Índia perguntaram-me se já tinha o visto para o Butão e quando disse que não disseram que não me podiam carimbar a saída. O oficial indiano informou-me que teria que tratar pela Internet e demoraria 15 dias.
Decidi então ir falar com os homens da alfandega do Butão. Pedi aos guardas que me deixassem passar e expliquei ao chefe da alfandega que não poderia esperar quinze dias. Simpático, mandou-me ir ter com uma agencia de viagens do Butão, do outro lado da rua, que não acreditaram que o chefe da Alfandega me tivesse lá enviado. A dona mandou um empregado comigo junto de chefe confirmar a situação e depois disse-me que conseguiria o visto em duas horas. Não se lembrou foi que é feriado no Butão este Sábado e segunda pelo que só o terei na terça.
O Butão é supostamente o país onde a população é a mais feliz do mundo. A brochura que me entregaram sobre o país tem mesmo uma frase elucidativa: “A felicidade é um lugar”. Tenho muita curiosidade em saber se sentimos essa felicidade nas ruas. Só que a curiosidade paga-se caro e ali não querem visitantes pobres.
O visto custa 40 dólares o que é um valor normal mas, por cada dia que um turista passa no país cobram, logo à entrada, 290 dólares. Sim, 290 dólares americanos. Sabia que havia uma verba a pagar ao redor de 200 dólares mas não pensei que fosse tanto. Viajantes em grupo pagam “só” 250. Tinha ideia de ficar três ou quarto dias mas, tendo em conta o valor, pedi visto só para duas noites. Entro na terça e, quinta feira ao final do dia tenho que estar de saída. Espero que a ideia não pegue noutros países.
A boa notícia é que com esse valor não gastamos mais um tostão. Ele inclui o Hotel, a alimentação, entradas em espaços públicos como museus, etc. e até um guia para nos acompanhar, que vou pedir que esteja só nas cidades que vou visitar. Até a gasolina para a moto está incluída no pacote. Não deixa de ser muito caro. Os naturais dos países vizinhos, Índia e Bangladesh, estão isentos deste pagamento para além dos das Maldivas, vá-se lá saber porquê. Provavelmente é onde o rei do Butão costuma ir passar férias.
Lá deixei os 620 dólares com a dona da agencia e voltei cerca de 30 Km atrás para o Lodge na floresta, onde me instalei.
Aqui não há internet e para conseguir ver os mails desloquei-me à aldeia mais próxima onde um miúdo tem um “internet café”, com um único e velho computador que me parece estar livre a maior parte do tempo só que, estava há pouco mais de 20 minutos na Internet, prestes a mandar uma mensagem à minha filha, quando a eletricidade acabou na aldeia. O miúdo disse que às vezes era só durante 15 minutos mas como não regressou passada meia hora voltei ao Lodge e tento novamente amanhã.
Este Lodge, que pertence ao estado, não tem o “charme” daquele em que fiquei no Nepal mas pelo menos tem bons quartos e relativamente limpos, boas refeições e custa o equivalente a 25 euros por dia em pensão completa. Sou muito bem tratado e agora até me vieram perguntar se queria que levassem amanhã o pequeno almoço ao quarto. 

23 de setembro de 2013

Dhupguri



Hoje de manhã saí daquele Hotel de aldeia já a suar, mesmo depois do habitual duche frio matinal. Fora da zona montanhosa as temperaturas, nesta altura do ano, sobem até muito perto dos 40º. Continuei na mesma estrada que, ao aproximar-se da fronteira com a Índia, começava a ter muito movimento e, consequentemente, estava mais degradada mas nada com o que se possa comparar ao que encontrei mais tarde.
Passei a fronteira sem grandes problemas deixando para trás o Nepal que me seduziu, não pela confusão de Katmandu mas pelas gentes das aldeias de província, pela paisagem fabulosa e pela reserva animal que visitei com o divertido safari de elefante.
As pessoas são mais civilizadas que no norte da Índia, de um modo geral mais cultas e menos deslumbradas com a moto, por exemplo. Claro que paravam para ver mas perguntavam-me a cilindrada e não o preço, quanto atingia de velocidade e não quanto gastava.
Por outro lado não ligavam tanto Portugal aos jogadores de futebol, como em outros países (não na Índia que aí só têm olhos para o cricket) mas muitos sabiam onde ficava e vários me falaram em Lisboa, mesmo nunca tendo saído do seu país. Interessante também foi observar  bastante gente da classe media deles, como empregados de hotel, a jogarem xadrez.
Mas estava eu a passar a fronteira de regresso à Índia. Não há confusão possível, entro na bagunça mais à séria, principalmente porque a população por quilómetro quadrado é muito superior à do Nepal e logo, o lixo, o transito, os buracos na estrada e tudo o mais é a multiplicar. Até conseguir chegar a uma estrada em que se pudesse circular a mais de 20, 30 Km/h entre “rickshaws”, carroças, bicicletas, motos, vacas, etc. demorei mais de meia hora. Depois, quando pensava que iria percorrer os 200 Km que me separavam da fronteira com o Butão tranquilamente, apanhei 120 Km da pior estrada que alguma vez vi na vida. Foram 120 Km de buracos contínuos numa estrada que já foi de alcatrão mas agora é só terra e, mesmo numa prova de todo-o-terreno, seria considerada de muito mau piso. Indiscritível. Para agravar a situação, centenas de camiões a circularem nos dois sentidos e a ultrapassarem-se a 30 Km/h faziam daquela via um verdadeiro inferno, que se arrastou a tarde toda. Por duas vezes fui quase ao chão, apanhado de surpresa por enormes buracos quando seguia atrás de camiões e não os via. E não era possível afastar-me mais porque logo outro me ultrapassava. Outra vez, quando ia a passar um o condutor decidiu ultrapassar um outro e, como não têm retrovisores e ainda não me habituei à ideia de ir sempre a tocar a buzina, atirou-me para fora da estrada. Na berma, em terra inclinada, tive que travar forte para não passar por cima de um pastor deitado tranquilamente no meio daquela poeirada indiscritível.  
Quando começou a ficar noite parei no que me pareceu poder ser um Hotel mas era a quinta duma simpática família que me disseram logo para descansar um pouco e a irmã que se vê na fotografia foi buscar-me um chá e uma tosta que me souberam divinalmente. Convidaram-me para ficar a jantar mas não pude aceitar pois queria encontrar um hotel antes de anoitecer.
Parei na cidade seguinte. Foi o segundo inferno do dia. O melhor hotel desta cidade de província era tão ou pior que os piores que tenho encontrado. Só que aqui estava na Índia, numa cidade de província com uma população muito assinalável. Resultado: tive a sensação que toda a população tinha parado para vir ver a moto. Às tantas o gerente veio sugerir-me que a enfiasse num corredor que dava acesso ao Hotel e que, embora fosse aberto para a rua sempre era mais escondido. Não solucionou o problema. Começou a entrar gente e mais gente pelo corredor a querer ver a moto e subiam para o hotel para me verem a mim. O gerente mandou pôr uma capa por cima da moto mas tudo parecia que ainda os entusiasmava mais. Fechei-me no quarto e às tantas o homem veio chamar-me para a deslocar mais para a frente que estava a causar um pandemónio na entrada do Hotel. Quando lá cheguei abaixo assustei-me com a multidão.
Fui jantar ao restaurante do Hotel e os poucos clientes que tinham acesso ao local ficaram embasbacados a ver-me jantar. Dois deles, com as mesas quase todas livres, sentaram-se na mesa mesmo à minha frente os dois virados para mim. Passado um bocado o gerente do Hotel veio chamar-me porque tinha o chefe da polícia ao telefone. Perguntou-me quem eu era, o que se passava, de onde vinha e quando partia e qual a razão daquela confusão na cidade. Finalmente perguntou se precisava que mandasse alguém ou se queria guardar a moto na esquadra mas recusei ambas as soluções por me parecer que iriam agravar a situação.
Já tinha fugido para o quarto outra vez quando me bateram à porta. Quando abri entraram-me três pessoas pelo quarto dentro e outras 20 também queriam entrar. Um homem que me mostrou um cartão de jornalista disse que trabalhava para um jornal e televisão locais e queria entrevistar-me. Parecia que estava naquele filme do Woody Allen em que fabricam uma estrela sem qualquer razão e não a largam. Pedi para saírem e que já iria ter com ele ao restaurante mas com o máximo de mais três pessoas. Lá fui conceder a entrevista e depois pedir à multidão que se afastasse para tirarmos uma fotografias junto à moto. O homem agradeceu muito eu ter-lhe dado 15 minutos do meu tempo e que estava emocionado por ter estado a falar comigo. Tal qual o filme do Woody Allen. Ainda pensei que aparecesse alguém a dizer: “isto foi para os apanhados” antes de voltar a fugir para o quarto. O gerente garantiu-me que às onze horas fechavam as entradas para o corredor. Espero que a moto ainda tenha as peças todas amanhã.