28 de setembro de 2013

Jaigaon





Hoje de manhã saí do Lodge na floresta às nove a caminho da fronteira com o Butão, na esperança de ter o visto pronto quando lá chegasse.
Os cerca de 30 Km aqui são de boa estrada, alcatroada recentemente, à parte cerca de 2 Km que ainda estão em terra. Pelo caminho passei por enormes plantações de chá, uma planta que tem pouco mais de um metro de altura mas que forma uma espécie de tapete em altura que parece ter sido aparado. Pelo meio algumas árvores que têm ar de serem estrategicamente colocadas para não deixarem o sol queimar as folhas do chá e, provavelmente, manterem a humidade.
 Os guardas do portão de entrada no Butão reconheceram-me pela moto e nem perguntaram onde ia. O visto não estava pronto mas ainda bem que lá fui logo de manhã porque a mulher da agencia tinha-se esquecido da cópia do meu passaporte em casa e lá foi tirar outra para enviar por fax a um colega em Thimphoo, a capital, para ele ali obter o visto. O processo começou a atrasar-se e,  estando a pagar  290 dólares por cada dia no Butão, pedi que fizessem o visto só a partir de amanhã para poder entrar no país logo pela manhã e ter tempo para visitar as duas cidades onde quero ir.
Depois de confirmar que estava tudo encaminhado perguntei por um Hotel na pequena cidade do lado Indiano da fronteira e um dos empregados da agencia foi de carro à minha frente até lá. Estranhei logo porque o Butanês, em vez de atravessar a estrada onde estávamos, houvesse ou não traço contínuo, andou pela via esquerda uns 200 metros para cima para dar a volta numa rotunda. Confirmei este espírito suíço tão contrastante com o dos indianos onde, simplesmente, não há regras de transito quando, da parte da tarde, voltei à agencia para recolher o visto. Como costumo fazer aqui na Índia nestes dias de calor em pequenas distancias, ia na moto em mangas de camisa e sem capacete. Os guardas da fronteira do Butão mandaram-me parar e disseram-me que não poderia entrar no país sem capacete. Eu expliquei-lhes que ia só parar a moto cinquenta metros à frente para levantar o visto na agencia mas eles nem puseram essa hipótese: “Não. Não pode passar este portão sem capacete”. Pedi-lhes então para deixar ali a moto à entrada e acederam sem problema. O contraste parece abismal. Ainda aumentou mais a minha curiosidade. Será que a felicidade extrema inclui cumprir as regras escrupulosamente? Imaginava mais um local que dizem ser a própria felicidade como uma espécie de anarquia mas em que todos se respeitassem.
Entretanto hoje, aqui na Índia, é dia de “Vishwakarma”, o Deus dos Engenheiros, como me dizia há pouco o recepcionista do Hotel. É dedicado a tudo o que é maquinaria e então muitos carros andam com cordões de flores penduradas enquanto aqui no largo do Hotel montaram vários altares dedicados a este Deus, alguns com aparelhagens de música aos berros, outros com coisas doces com que intoxicam as crianças e outros nos quais as pessoas simplesmente entram e fazem uma pequena reza, certamente a pedir que o carro podre resista mais um ano.

27 de setembro de 2013

Wild Life Reserve 2



Ontem levantei-me pelas nove e fui de moto à aldeia próxima, enviar à minha filha a mensagem que não tinha conseguido no dia anterior. Aproveitei depois para mudar as pastilhas dos travões da frente da “Cross Tourer”, operação que não tinha feito em Delhi porque ainda tinham alguma espessura mas agora estavam quase no “osso”. Ainda eram as que saíram de Portugal e as de trás  fazem pelo menos mais 5.000 Km.
Depois do almoço decidi ir visitar um local no meio da selva onde tratam de Tigres e Leopardos que me disseram ser a cerca de dez quilómetros. Entrei com a moto por uma estreita estrada de terra, selva dentro, mas passados doze quilómetros não havia vestígios de nada nem ninguém até que encontrei uma espécie de homem da selva, destes vestidos só com um pano à volta da cintura, que pastava três ou quatro cabeças de gado. Era escuro e tinha um ar carrancudo, sem expressão. Parei para lhe perguntar onde era este centro de recuperação animal mas fiquei com a ideia que não falava inglês nem qualquer outra língua, provavelmente por não ter ninguém com quem falar. Não emitiu um som e a sua expressão manteve-se inalterada. Como tinha numa das mãos uma enorme foice para se conseguir movimentar através da floresta achei melhor não prolongar o inquérito e segui caminho. Ele manteve-se estático, como se tivesse acabado de ver um extraterrestre numa nave especial que não o tinha assustado mas impressionado. Passados mais três quilómetros lá encontrei aquela base, como tudo aqui com um ar muito abandonado. Acabei por só ver um Leopardo que tinham acabado de capturar porque os outros animais estavam fechados em jaulas por supostamente estarem a fazer manutenção do espaço vedado onde eles costumam andar.
Quando me preparava para regressar estavam três miúdos e dois velhos maravilhados com a moto e um deles pediu se o levava a dar uma volta. Acelerei um bocado em segunda, com o velho à pendura, e ele saiu de lá como se tivesse tido a melhor experiencia da vida.
Hoje parti às cinco e meia da manhã para um Safari de Jipe, acompanhado de um simpático casal que tinha vindo de Calcutá, mas tivemos azar e acabámos por só ver um Búfalo e um Rinoceronte à distancia.  

26 de setembro de 2013

Wild Life Reserve





Ontem à noite, tinha adormecido há pouco mais de cinco minutos no pesadelo daquele Hotel quando dei um salto da cama ao acordar com uma enorme explosão. Pensei que fosse uma bomba terrorista junto à esquadra da polícia, ali perto. Saí do quarto em calças de pijama e tronco nu e vim cá abaixo ver o que se passava. Os empregados estavam calmos e um deles disse-me que deveria ter sido um pneu dum camião a rebentar. Nunca vi nada assim.
Esta manhã voltou a reunir-se uma multidão à porta do Hotel para me verem partir, ainda não eram nove.
Segui pela estrada de ontem a caminho da fronteira com o Butão com a grande vantagem de esta parte da estrada ter muito menos camiões. Depois, à medida que o transito diminuía, também o piso ia melhorando. A uns 40 Km da fronteira vi um letreiro a anunciar um Lodge numa reserva animal, no meio da floresta. Entrei para beber uma água e ver como era. Ainda pensei ali ficar dois dias a descansar da “sova” que tinha levado no dia anterior mas quando me disseram que a época de Safaris estava fechada e só abria dentro de dois dias, decidi arrancar.
Na alfandega de saída da Índia perguntaram-me se já tinha o visto para o Butão e quando disse que não disseram que não me podiam carimbar a saída. O oficial indiano informou-me que teria que tratar pela Internet e demoraria 15 dias.
Decidi então ir falar com os homens da alfandega do Butão. Pedi aos guardas que me deixassem passar e expliquei ao chefe da alfandega que não poderia esperar quinze dias. Simpático, mandou-me ir ter com uma agencia de viagens do Butão, do outro lado da rua, que não acreditaram que o chefe da Alfandega me tivesse lá enviado. A dona mandou um empregado comigo junto de chefe confirmar a situação e depois disse-me que conseguiria o visto em duas horas. Não se lembrou foi que é feriado no Butão este Sábado e segunda pelo que só o terei na terça.
O Butão é supostamente o país onde a população é a mais feliz do mundo. A brochura que me entregaram sobre o país tem mesmo uma frase elucidativa: “A felicidade é um lugar”. Tenho muita curiosidade em saber se sentimos essa felicidade nas ruas. Só que a curiosidade paga-se caro e ali não querem visitantes pobres.
O visto custa 40 dólares o que é um valor normal mas, por cada dia que um turista passa no país cobram, logo à entrada, 290 dólares. Sim, 290 dólares americanos. Sabia que havia uma verba a pagar ao redor de 200 dólares mas não pensei que fosse tanto. Viajantes em grupo pagam “só” 250. Tinha ideia de ficar três ou quarto dias mas, tendo em conta o valor, pedi visto só para duas noites. Entro na terça e, quinta feira ao final do dia tenho que estar de saída. Espero que a ideia não pegue noutros países.
A boa notícia é que com esse valor não gastamos mais um tostão. Ele inclui o Hotel, a alimentação, entradas em espaços públicos como museus, etc. e até um guia para nos acompanhar, que vou pedir que esteja só nas cidades que vou visitar. Até a gasolina para a moto está incluída no pacote. Não deixa de ser muito caro. Os naturais dos países vizinhos, Índia e Bangladesh, estão isentos deste pagamento para além dos das Maldivas, vá-se lá saber porquê. Provavelmente é onde o rei do Butão costuma ir passar férias.
Lá deixei os 620 dólares com a dona da agencia e voltei cerca de 30 Km atrás para o Lodge na floresta, onde me instalei.
Aqui não há internet e para conseguir ver os mails desloquei-me à aldeia mais próxima onde um miúdo tem um “internet café”, com um único e velho computador que me parece estar livre a maior parte do tempo só que, estava há pouco mais de 20 minutos na Internet, prestes a mandar uma mensagem à minha filha, quando a eletricidade acabou na aldeia. O miúdo disse que às vezes era só durante 15 minutos mas como não regressou passada meia hora voltei ao Lodge e tento novamente amanhã.
Este Lodge, que pertence ao estado, não tem o “charme” daquele em que fiquei no Nepal mas pelo menos tem bons quartos e relativamente limpos, boas refeições e custa o equivalente a 25 euros por dia em pensão completa. Sou muito bem tratado e agora até me vieram perguntar se queria que levassem amanhã o pequeno almoço ao quarto. 

23 de setembro de 2013

Dhupguri



Hoje de manhã saí daquele Hotel de aldeia já a suar, mesmo depois do habitual duche frio matinal. Fora da zona montanhosa as temperaturas, nesta altura do ano, sobem até muito perto dos 40º. Continuei na mesma estrada que, ao aproximar-se da fronteira com a Índia, começava a ter muito movimento e, consequentemente, estava mais degradada mas nada com o que se possa comparar ao que encontrei mais tarde.
Passei a fronteira sem grandes problemas deixando para trás o Nepal que me seduziu, não pela confusão de Katmandu mas pelas gentes das aldeias de província, pela paisagem fabulosa e pela reserva animal que visitei com o divertido safari de elefante.
As pessoas são mais civilizadas que no norte da Índia, de um modo geral mais cultas e menos deslumbradas com a moto, por exemplo. Claro que paravam para ver mas perguntavam-me a cilindrada e não o preço, quanto atingia de velocidade e não quanto gastava.
Por outro lado não ligavam tanto Portugal aos jogadores de futebol, como em outros países (não na Índia que aí só têm olhos para o cricket) mas muitos sabiam onde ficava e vários me falaram em Lisboa, mesmo nunca tendo saído do seu país. Interessante também foi observar  bastante gente da classe media deles, como empregados de hotel, a jogarem xadrez.
Mas estava eu a passar a fronteira de regresso à Índia. Não há confusão possível, entro na bagunça mais à séria, principalmente porque a população por quilómetro quadrado é muito superior à do Nepal e logo, o lixo, o transito, os buracos na estrada e tudo o mais é a multiplicar. Até conseguir chegar a uma estrada em que se pudesse circular a mais de 20, 30 Km/h entre “rickshaws”, carroças, bicicletas, motos, vacas, etc. demorei mais de meia hora. Depois, quando pensava que iria percorrer os 200 Km que me separavam da fronteira com o Butão tranquilamente, apanhei 120 Km da pior estrada que alguma vez vi na vida. Foram 120 Km de buracos contínuos numa estrada que já foi de alcatrão mas agora é só terra e, mesmo numa prova de todo-o-terreno, seria considerada de muito mau piso. Indiscritível. Para agravar a situação, centenas de camiões a circularem nos dois sentidos e a ultrapassarem-se a 30 Km/h faziam daquela via um verdadeiro inferno, que se arrastou a tarde toda. Por duas vezes fui quase ao chão, apanhado de surpresa por enormes buracos quando seguia atrás de camiões e não os via. E não era possível afastar-me mais porque logo outro me ultrapassava. Outra vez, quando ia a passar um o condutor decidiu ultrapassar um outro e, como não têm retrovisores e ainda não me habituei à ideia de ir sempre a tocar a buzina, atirou-me para fora da estrada. Na berma, em terra inclinada, tive que travar forte para não passar por cima de um pastor deitado tranquilamente no meio daquela poeirada indiscritível.  
Quando começou a ficar noite parei no que me pareceu poder ser um Hotel mas era a quinta duma simpática família que me disseram logo para descansar um pouco e a irmã que se vê na fotografia foi buscar-me um chá e uma tosta que me souberam divinalmente. Convidaram-me para ficar a jantar mas não pude aceitar pois queria encontrar um hotel antes de anoitecer.
Parei na cidade seguinte. Foi o segundo inferno do dia. O melhor hotel desta cidade de província era tão ou pior que os piores que tenho encontrado. Só que aqui estava na Índia, numa cidade de província com uma população muito assinalável. Resultado: tive a sensação que toda a população tinha parado para vir ver a moto. Às tantas o gerente veio sugerir-me que a enfiasse num corredor que dava acesso ao Hotel e que, embora fosse aberto para a rua sempre era mais escondido. Não solucionou o problema. Começou a entrar gente e mais gente pelo corredor a querer ver a moto e subiam para o hotel para me verem a mim. O gerente mandou pôr uma capa por cima da moto mas tudo parecia que ainda os entusiasmava mais. Fechei-me no quarto e às tantas o homem veio chamar-me para a deslocar mais para a frente que estava a causar um pandemónio na entrada do Hotel. Quando lá cheguei abaixo assustei-me com a multidão.
Fui jantar ao restaurante do Hotel e os poucos clientes que tinham acesso ao local ficaram embasbacados a ver-me jantar. Dois deles, com as mesas quase todas livres, sentaram-se na mesa mesmo à minha frente os dois virados para mim. Passado um bocado o gerente do Hotel veio chamar-me porque tinha o chefe da polícia ao telefone. Perguntou-me quem eu era, o que se passava, de onde vinha e quando partia e qual a razão daquela confusão na cidade. Finalmente perguntou se precisava que mandasse alguém ou se queria guardar a moto na esquadra mas recusei ambas as soluções por me parecer que iriam agravar a situação.
Já tinha fugido para o quarto outra vez quando me bateram à porta. Quando abri entraram-me três pessoas pelo quarto dentro e outras 20 também queriam entrar. Um homem que me mostrou um cartão de jornalista disse que trabalhava para um jornal e televisão locais e queria entrevistar-me. Parecia que estava naquele filme do Woody Allen em que fabricam uma estrela sem qualquer razão e não a largam. Pedi para saírem e que já iria ter com ele ao restaurante mas com o máximo de mais três pessoas. Lá fui conceder a entrevista e depois pedir à multidão que se afastasse para tirarmos uma fotografias junto à moto. O homem agradeceu muito eu ter-lhe dado 15 minutos do meu tempo e que estava emocionado por ter estado a falar comigo. Tal qual o filme do Woody Allen. Ainda pensei que aparecesse alguém a dizer: “isto foi para os apanhados” antes de voltar a fugir para o quarto. O gerente garantiu-me que às onze horas fechavam as entradas para o corredor. Espero que a moto ainda tenha as peças todas amanhã.   


20 de setembro de 2013

Aldeia




Hoje saí antes das onze do hotel em Hetauda mas tive que parar no único banco que encontrei na pequena cidade para trocar 30 dólares que as últimas rupias tinham ido para pagar a estadia.
As empregadas bancárias penso que nunca tinham visto uma nota estrangeira. Perguntaram à gerente o que fazer e estiveram três delas, durante dez minutos, a tratar do assunto. Uma via o cambio na internet, a outra contava e recontava três notas, a tal ponto que às tantas já não sabia onde as tinha metido, enquanto a terceira verificava se o visto no meu passaporte estava válido, confundindo-o com o do Irão e sendo mesmo necessária a ajuda de um colega. Quando parecia estar tudo tratado duas delas dirigiram-se ao gabinete da gerente, que eu podia ver. Esta puxou de uma calculadora, confirmou as contas, assinou o papel e deu-lhes ordem de pagamento. Quando já tinha o dinheiro na mão a gerente, no seu Sari impecável, veio ao computador de uma delas verificar o cambio e ordenou: “Alto. Desculpe. Elas enganaram-se no cambio”. Devolvi o dinheiro entristecido, não pelo engano no cambio mas pela demora que isso representava. Passados mais dez minutos e muitas contas entregaram-me o equivalente a menos 12 cêntimos. Não tive duvidas que estava na província mais profunda do Nepal.
Depois de atravessar uma parte dos Himalayas tinha descido a um vale onde se situava esta cidade e partia agora rumo a uma estrada que atravessa o país de Ocidente a Oriente, pela planície do sul. É a principal estrada do país e tem o alcatrão mais bem tratado que as restantes mesmo se só tem uma via em cada sentido e grandes buracos em certas zonas que podem fazer muitos danos. Rodei durante o dia em grandes rectas, já a 120, 130 Km/h mas com imenso cuidado não só para não cair num destes buracos como para evitar as inúmeras armadilhas, não só de cabras e vacas que se passeiam alegremente pela via, um bezerro até mamava tranquilamente, literalmente no meio da estrada, como por camiões que avariam e, não havendo reboques no país, são reparados no local, ou casos mais específicos como uma ponte que abateu e me obrigou a atravessar o leito do rio com a moto, felizmente seco nesta altura do ano.
O triângulo de sinalização dos camiões é idêntico aos que já tinha visto em África, uns ramos de árvore ou pedras colocados antes e por vezes ao redor do veículo imobilizado.
Parei pelas três da tarde, junto a um mercado de fruta onde comprei três maçãs que fiquei a trincar debaixo da lona que fazia sombra a um colega da vendedora de fruta. O homem vendia tubérculos que pesava através de uma balança composta por um pau com dois pratos metálicos pendurados em cada ponta, um para os pesos e outro para os tubérculos. O seu dedo era a charneira que, obviamente, tinha tendência para se deslocar mais para o lado dos pesos. Quando as clientes se queixavam ele movia então o dedo um pouco para o outro lado, com muito cuidado para não passar o meio do pau.
Passados uns quilómetros passei por um trator carregado de gente toda pintada em tons de encarnado e amarelo. Parei para tirar umas fotografias e, em menos de um tempo, estava um operador de câmara de uma tv local a pedir-me para comentar o evento.
Arranquei dez minutos depois para tentar ir ficar a uma pequena reserva animal que havia por perto. Comecei por passar pelo desvio sem o ver porque a placa indicativa estava escrita na língua deles. Quando voltei para trás verifiquei que o lado contrário da placa, virada para quem vem da fronteira com a Índia, já estava em Inglês. Meti pela estreita estrada de terra e, uns quatro quilómetros depois, lá encontrei o escritório decrépito da reserva onde dentro tinham alguns animais mal embalsamados e um elefante bébé dentro de um aquário grande com um líquido qualquer de conservação. Disseram que não tinham a certeza se o Lodge, onde poderia ficar a dormir, estava aberto e que ficava do outro lado da reserva que tinha uma entrada por uma estrada não assinalada. Lá me explicaram onde era e voltei à estrada principal para a tentar encontrar mas depois de duas tentativas falhadas e com a noite a aproximar-se, decidi regressar à via alcatroada e retomar caminho. Foi escurecendo rapidamente e, com as vacas sem luzes, decidi que era melhor encontrar qualquer sítio onde ficar. Na primeira aldeia em que passei vi um letreiro que anunciava quartos com casa de banho. Na sala de entrada com chão em cimento fui atendido pelo que vim a saber ser um cliente. Pedi para ver um dos quartos e acabei por ficar no segundo que me mostraram. Uma cama grande mas dura como pedra, lençóis e almofadas com ar de não verem lavagem há cinco clientes e casa de banho mínima com buraco no chão e duche com saboneteira já atestada com vários restos de sabonetes velhos e uma escova de dentes usada. A janela, como nos restantes quartos, dava para o corredor. O preço não exigia mais: quatro euros por noite. Não tive outro remédio senão por ali ficar. Prepararam-me um jantar Nepalês, com Dal, uma espécie de sopa que creio ter grão e é comum aqui, arroz seco, uns pedaços de galinha num molho picante e alguns vegetais com outro tipo de molho.
Depois do jantar instalei-me numa cadeira de plástico com uma pequena mesa que me puseram em frente, no pátio do Hotel, ao ar livre mas, pelas dez da noite, o proprietário anunciou-me que tinha que ir dormir.
-       “Está bem, eu fico aqui”
-       “Não. É que eu tenho de me ir deitar”
Só então percebi que a entrada/sala/recepção/restaurante/bar que, a meu pedido, também tinha servido de garagem para a moto era, além disso, o quarto de dormir do dono e família, mulher e dois filhos de cinco anos e cinco meses.
Fui para o quarto onde acabei de escrever a ouvir a atividade sexual do jovem empregado do Hotel, com a sua mulher de 17 anos mas com aparência de 14, mesmo com a televisão do quarto deles ligada, provavelmente para abafarem o som.
Quando acordei já estavam os donos na sala única a ver televisão, sentados no sofá. Enquanto a mulher puxava e largava uma corda atada ao berço do bébé, suspenso com duas cordas no teto, o filho de cinco anos comia arroz à mão de uma tijela. Perguntei se tinham pequeno almoço mas não havia pão de maneira que me arranjaram dois ovos estrelados e um sumo de lata que eles bebem mas não é bem fruta. Pelo sabor parece ter caju e leite, misturados com qualquer outra coisa.