6 de setembro de 2013

Lucknow


O dia de ontem foi difícil. Saí de Agra às dez e meia da manhã a caminho de Lucknow que fica a cerca de 320 Km. Estavam perto de 40º e voltei a enfiar o fato completo e botas. Pensei que demoraria quatro a cinco horas a percorrer o trajeto mas a estrada era má, nalgumas zonas muito esburacada e o transito infernal na maior parte do caminho de maneira que demorei seis horas e meia para percorrer os pouco mais de 300 Km. Pelo caminho a dose habitual de animais na estrada desde cabras a vacas passando por um macaco que atravessou a autoestrada e até uma espécie de abutre que, no meio da via, se entretinha com os restos de uma ovelha atropelada.
O transito caótico obriga-me a uma atenção redobrada constante. Desta vez até um carro da polícia, a cerca de 120 Km/h, apanhei em sentido contrario na auto estrada para além de uma camioneta que me surgiu de frente, na sua faixa da esquerda, à saída de uma curva quando eu ultrapassava outra. Dessa vez assustei-me. Tive que travar forte e encostar à esquerda.
A maioria dos carros que circulam aqui levam os retrovisores fechados, para poderem passar mais facilmente por entre os outros na terceira faixa que eles inventam quando o transito está entupido e há só duas. Não é que fizesse alguma diferença estarem na posição correta porque nunca olham para eles. A teoria é ir circulando pelos espaços livres de estrada, ultrapassando pela direita ou esquerda, conforme dê mais jeito e sem verificar se vem alguém atrás porque já se sabe que vem sempre. Só não há muitos mais acidentes porque têm uma grande vantagem na maneira de guiarem: não se vê ninguém a fazer movimentos bruscos. Os carros, motos e outros triciclos ou carroças que tal vão-se encaixando uns nos outros, como um puzzle, lentamente, de maneira que cada um vai percebendo para onde vai o outro. Não há regras de transito a não ser a que diz ser suposto circular pela esquerda mas mesmo essa não é seguida à letra por nenhum dos condutores. A polícia não manda parar ninguém por mais infracções que cometa pois eles próprios não sabem o que é ou não uma infracção e como na prática não há regras também não há infracções. Eles estão na estrada apenas para ajudar a escoar o transito quando o engarrafamento é mais complicado. No meio de toda a confusão que isto provoca ainda não vi um condutor zangado a insultar outro ou em stress. Tocam todos muito a buzina mas isso é por outras razões. A buzina tornou-se uma questão cultural e eles usam-na da mesma forma que nós colocamos uma música no face book para os amigos ouvirem. Os camiões têm escrito na traseira “please horn” e os colegas cumprem, como quem dá música. Até os pequenos toques são ignorados pelos envolvidos com um simples olhar de indiferença.
Entretanto na parte da auto estrada que estava em pior estado acabei por cair num buraco dos grandes, com a suspensão a bater no fundo e um dos retrovisores a desapertar-se mas felizmente pneu e jante aguentaram bem a pancada.
Nestes trajetos pela província profunda, onde não existem sítios onde se possa comer qualquer coisa minimamente decente, costumo parar numa banca de fruta mais isolada e almoçar duas bananas e outras tantas maçãs. A fotografia é de uma dessas paragens em que chego sem ninguém por perto e passados cinco minutos tenho uma multidão a admirar a moto. Por vezes mal me consigo mexer.
Chegado a Lucknow tive que ficar no Hotel menos mau que encontrei, para contrastar com o fabuloso de Agra. Aqui só o recepcionista falava inglês e tive que mandar mudar os lençóis da cama que tinham manchas de sangue enquanto o duche foi tomado de chinelos nos pés. Curiosamente o jantar, que é invariavelmente galinha cozinhada de uma ou outra forma, estava óptimo.

O dia de hoje foi muito mais tranquilo. A temperatura pelas onze horas estava nos 40º e decidi arrancar em jeans e sapatos. Felizmente.
A estrada para Gorakhpur, onde estou agora, estava em bom estado na maior parte do trajeto, para os níveis indianos e, embora tenha arrancado tarde, percorri a mesma distancia de ontem em quatro horas.
Para cima de Agra deixam de se ver turistas e mesmo os hotéis são só ocupados por Indianos. Por outro lado, à medida que vou para Norte e me aproximo do Nepal, onde espero entrar amanhã, há menos transito nas estradas que ligam as cidades e também por isso estas resistiram melhor às chuvas das monções, que recentemente acabaram.

5 de setembro de 2013

Agra




Esta manhã um problema estúpido fez com que ficasse por Agra mas por outro lado ainda bem porque tive um dia muito divertido.
Tinha ideia de ver o Taj Mahal de manhã e arrancar a seguir para outra cidade, só que quando fui para pôr a moto a trabalhar alguém, durante a noite, a tinha engatado em 1ª e como a deixo sempre em ponto morto não me ocorreu que isso pudesse ter acontecido. Como resultado disso o motor de arranque não funcionava e pensei tratar-se de um problema elétrico. Comecei por desmontar fusíveis, depois a tampa esquerda traseira par ver os relés, de seguida o interruptor do motor de arranque e só quando, quase uma hora depois, fui mudar a moto de posição para desmontar o motor de arranque, vi que estava engatada. Que grande tótó.
Decidi então ficar mais um dia em Agra e visitar o Taj Mahal com calma.
Tive a sorte de apanhar um guia divertidíssimo que não só era muito bem disposto como conhecia metade da população, metia conversa com a outra metade e tirava fotografias artísticas com o meu iphone, segundo os ângulos que ele achava mais espetaculares. Enfim, um personagem. Dentro do Taj Mahal punha-se a cantar em tom de opera, nas divisões que o Shah tinha reservado à música, para eu poder apreciar as qualidades acústicas do local. Estava a divertir-me tanto com ele que o convidei para almoçar e passámos o resto da tarde a beber cervejas em bares de terceira categoria. Pelo meio insistiu para que fosse conhecer o cunhado e a rapariga com quem ia casar e respectivas amigas. De vez em quando a mulher, já conhecendo a peça, telefonava-lhe a perguntar quando voltava para casa e o Gulshan passava-me o telefone para ela se certificar que ele estava comigo e não com uma galdéria qualquer. Rimos a tarde toda.
O Taj Mahal é de facto espetacular, pelo seu mármore que deixa entrar a luz do sol dando-lhe um brilho especial e pela obra em si para a qual foram necessários 22.000 homens a trabalharem durante 20 anos, para além de 1000 elefantes, utilizados para trazerem materiais preciosos dos quatro cantos da Ásia.
O Túmulo foi mandado construir pelo Shah Jahan em memoria da sua terceira mulher, Mumtaj Mahal que morreu quando dava à luz o 14º filho.
O Shah está sepultado ao seu lado.

4 de setembro de 2013

Delhi 4



Ontem, depois de montar as velas que chegaram de Portugal e o filtro de ar novo a moto lá acabou por pegar. Logo que ficou pronta fui a um concessionário Honda local mudar óleo e filtro, atestei o depósito e acertei a pressão dos pneus deixando-a “ready to go”.
Já estava há seis dias em Delhi e só não fiquei desesperado porque fui muito bem recebido em casa dos embaixadores. Fizeram-me sentir como se estivesse em casa e são sem duvida os melhores representantes que poderíamos ter na Índia. No Sábado até acabei por ir com eles a um almoço informal, na piscina da casa do Embaixador de Moçambique, onde estavam também os Embaixadores do México e Peru e o português João Cravinho que é Embaixador da União Europeia na Índia.
Arranquei hoje de Delhi, pelas dez da manhã, com uma temperatura de mais de trinta graus. Por questões de segurança vesti o fato, embora sem forro, e calcei as botas. A temperatura foi aumentando ao longo do dia e quando, por volta do meio dia, estava perdido numa aldeia, debaixo de um calor arrasador, à espera que uma cancela de passagem de nível abrisse, com comboios de mercadorias infindáveis a atravessarem vindos de um e outro lado, pela primeira vez nesta viagem senti-me mal fisicamente. O termómetro da moto marcava 44º, a humidade devia estar próxima dos 100% e eu, ensopado em suor, sentia os pés chapinharem dentro das botas. Com a moto no descanso e dezenas de populares de volta dela a fazerem-me perguntas em Indu para as quais obviamente não tinha resposta, encostei-me a um carro com o que penso ter sido uma baixa tensão e pensei que ia desmaiar. Imaginei-me a acordar passadas um par de horas sem botas e não mais que o volante da moto pousado ao meu lado.
Tirei o blusão, bebi mais água e depois de molhar a cara e a cabeça comecei a sentir-me melhor. Os comboios lá acabaram de passar e voltei à estrada na procura difícil do trajeto para Agra. As indicações são poucas e fora das cidades praticamente ninguém fala Inglês. Um polícia que me queria dizer para voltar na segunda à esquerda e a quem eu, sem perceber o que ele dizia, lhe perguntava:
 “So, I have to turn the next on the left”? respondeu-me: “No, on the next, next”.
Passados uns quilómetros a “navegar” por estradas sujas e confusas no meio de “rickshaws” a pedal e motorizados, vacas ao abandono no meio da estrada, camiões que custa acreditar possam rodar pelos seus meios, miúdos nas bermas descalços e sujos, tudo com muito lixo à mistura, encontrei um sinal que dizia “Golf Course”. Foi como uma miragem de água no deserto. Era uma da tarde e pensei que seria o sítio ideal para almoçar. Passados meia dúzia de quilómetros comecei a passar por uma série de condomínios bem tratados, com guardas à porta e cancelas e por fim cheguei a este Hotel fabuloso com um campo de 18 buracos projetado por Gregg Normann. É isto que é extraordinário neste país, os contrastes constantes que se cruzam à nossa frente. Um guarda abriu-me a primeira cancela e à porta do Hotel estavam dois imponentes porteiros, fardados e de turbante. A partir dali o meu dia dava uma volta de 180º. Parecia um filme. O gerente do Hotel veio receber-me à porta. Excelente profissional, perguntou como tinha ido ali parar e depois de lhe contar a minha história e que nesse dia estava a caminho de Agra disse que o grupo a que pertencia era proprietário do melhor Hotel de Agra. “Se quiser que lhe marque um quarto?” Fez-me um preço especial e aceitei.
“Voçês são uma cadeia de Hoteis?”
“Não. Temos alguns mas essencialmente somos uma firma de construção. Nós edificámos todos estes condomínios aqui à volta”
Quando lhe perguntei se depois do almoço me indicava o caminho para Agra respondeu:
“Nós fizemos uma auto estrada para Agra, com cerca de 200Km. Um dos nossos motoristas guia-o até à entrada dessa auto estrada”
“Ah. É uma que passa junto ao circuito de Fórmula 1 ?”
“Sim. Nós construímos o circuito”
As firmas neste país quando são grandes, são mesmo grandes.
Depois de um óptimo almoço acompanhado por três sumos de laranja e um litro de água com gás italiana, o tal motorista levou-me à autoestrada construída por eles. Nunca tinha visto uma assim na Índia. Parecia que estava num país europeu. Impecavelmente alcatroada e, surpreendentemente, talvez por a portagem ser mais cara que o habitual aqui, meia dúzia de carros a circularem. Pouco mais de uma hora depois estava em Agra e voltava à confusão habitual a caminho do segundo oásis do dia, onde me instalei. Amanhã vou visitar o Taj Mahal.



1 de setembro de 2013


Delhi 3


Delhi 3

Hoje de manhã aproveitei boleia do Embaixador para a cidade e fui visitar Delhi. Primeiro a parte de New Delhi mais arranjada, onde estão instaladas a maioria das embaixadas e a residência do Presidente, ministérios, etc. Tudo rodeado de bem tratados jardins, ajudados pelas chuvas das monções que até à semana passada inundaram a cidade. Agora deixou de chover com essa intensidade mas o céu continua enublado e uma humidade de 90% parece transformar os 30º atmosféricos em 50. Cinco minutos depois de sair do duche estou a suar.
A visita seguiu depois pelo túmulo de Humayun, antecessor do famoso Taj Mahal de Agra, que espero visitar logo que a moto esteja operacional. Depois passei pelo enorme templo Bahá que, ao representar uma flor de Lotus pretende ser um apelo à paz no mundo através de um elogio a todas as religiões.
Estava tranquilo a circular pelos jardins à volta desta enorme flor de betão forrado a mármore quando dois miúdos dos seus vinte anos, certamente por me terem confundido com alguém famoso, vieram pedir-me para tirarem, um de cada vez, uma fotografia ao meu lado. Outros viram e juntaram-se para tirarem também eles fotografias comigo e por mais que lhes explicasse que era um simples turista não ligavam nenhuma. Foram 10 minutos hilariantes que acabaram com a minha fuga.
De ali segui para a parte velha da cidade que me lembra a India a que estou mais habituado: transito muito confuso, maioritariamente de “rickshaws” motorizados ou não, sujidade pelas ruas, homens a dormirem pelos cantos quando não estão a cuspir para o chão, vendedores de tudo quanto há, barbeiros de rua, limpadores de ouvidos, malabaristas ou trapaceiros que pretendem curar doenças através de milagres instantâneos, tudo acompanhado pelo som ensurdecedor das buzinas de carros e motos que tocam sem parar, dão uma animação a estas cidades indianas fora do vulgar.
Depois de dar uma volta a pé pelas ruas apanhei um “rickshaw” de pedal até um restaurante que me tinham recomendado. Num trajeto de 15 minutos, que incluiu circularmos na faixa contrária, o condutor pedir-me para saltar fora para poder passar por cima do separador central, razias e toques de frente e por trás houve de tudo. Ao terceiro susto deixei de avisar o homem e optei por fechar os olhos até ultrapassarmos o problema.
Regressei com um “rickshawer” mais consciente a caminho da estação de metro para voltar a casa. Curioso foi constatar que também aqui, à semelhança de Teerão, o metro tem uma carruagem reservada para mulheres.