27 de dezembro de 2012
24 de dezembro de 2012
Mumbai – 2
Ontem, visitei uma
das muitas galerias de arte existentes nesta zona de Mumbai e o Museu
“Chhatrapati Shivaji Maharaj Vastu Sangrahalaya”. Não, não decorei este nome.
Os ingleses, que o construiram chamavam-lhe simplesmente “Prince of Wales
Museum of Western India”. Ali está exposta arte Indiana através dos séculos,
muitas das peças oferecidas por Jamsetji Tata, um industrial indiano de sucesso
dos inícios do século XX que morreu com 47 anos. Ratan Tata, o descendente que
agora controla as dezenas de empresas do grupo, é um dos homens mais ricos do
mundo. O grupo Tata é um potentado na industria do aço, construção de automóveis
e camiões, Telecomunicações e, entre muitas outras coisas, proprietário da Tetley
tea e da Jaguar e Land Rover.
Da parte da tarde
apanhei um barco no “Gate of India”, um imponente arco junto ao cais, que os
inglese construíram para receberem o rei “George V”, o único monarca Inglês que
visitou a India. Uma hora depois estava na Elephanta Island cujo nome se deve
aos portugueses, quando aqui andaram nos séculos XVI e XVII.
Tiveram uma cena
que podia ter sido hoje. Deram o nome à ilha quando por lá encontraram uma enorme estátua de um elefante,
que se calcula fosse contemporânea das que estão nas famosas caves da ilha, de
entre os séculos VI a VIII d.c. e que representam maioritariamente a deusa
Hindu Shiva.
Os portugueses
decidiram trazer a estátua do elefante para Portugal só que, quando estavam a
carregá-la para a Nau, as correntes eram fracas e a estátua foi parar ao fundo
do mar. Está-se mesmo a ver a cena:
- “Ó Zé, faz mais
força desse lado. Dá-me uma chicotadas nesses escravos que não estão a fazer
força nenhuma. Puxem mais, vai. Ai, Ai, Ai, Fo....” Pumba. Estátua no fundo do
mar.
- “Pôrra, pá, eu
não te disse que essa correntes estavam podres? Enforca-me aí meia dúzia de
gajos para eu arranjar uma desculpa para dar ao D. Manuel”.
E por lá ficou a
estátua até que os ingleses a “pescaram” e colocaram, aqui em Mumbai, no
“Victoria and Albert Museu”.
Ao fim do dia
ainda passei na “National Gallery of Modern Art” onde está patente uma
exposição com as obras do pintor e escultor indiano Ramkinkar Baij.
Como curiosidade
refira-se que nesta “National Gallery” deixam miúdos, de várias idades, ficarem
a pintar no chão junto às peças do mestre, o que não só dá um ambiente muito
giro e animado à exposição como certamente ajuda os futuros artistas a ganharem
inspiração naquele espaço onde se respira arte.
23 de dezembro de 2012
Mumbai
Estou há quatro dias em Mumbai e tenho mudado de Hotel todos os dias. Não só por serem maus de mais mas também para ir conhecendo diferentes partes da cidade. Ontem fui parar a um local agradável, em cima de um monte com vista para um lago mas não tinha espaço para dar a volta dentro da casa de banho e também não me atrevi a ligar o esquentador eléctrico, com um aspecto decrépito, com medo de ficar electrocutado. Para fechar a porta do quarto uma tranca tipo porta de castelo e um comum cadeado. Só visto.
Hoje apanhei outro “rickshaw” e desci para sul rumo a uma parte mais civilizada da cidade. Nesta península perto de Colaba o transito é vedado a estas infernais viaturas, já se vêm bons blocos de apartamentos, Hoteis de luxo, stands de Rolls e Porsche e não há lixo espalhado pelas ruas. Parece que entramos noutra cidade. Não deixa, no entanto, de haver miséria nas ruas. Junto ao Hotel, no passeio, vive uma família, com uma mãe e quatro filhos. Sempre que passo a senhora manda um filho diferente pedir-me dinheiro. Vou dando gorjetas mas como não se dá dois passos sem nos pedirem alguma coisa deixo pouco a cada um. Hoje levei os vizinhos do passeio a comer um gelado aqui ao lado e adoraram.
De manhã um outro miúdo andou comigo durante horas. Não teria mais de seis ou sete anos. De vez em quando, sem qualquer razão aparente, fazia uma roda completa no passeio, tipo artista de circo. Os pais põem-nos a fazer estas habilidades para cativar as pessoas e para eles aquilo passou a ser quase uma necessidade. Já não andam na rua sem fazerem qualquer malabarismo. Mais tarde vi uma miúda de quatro anos a equilibrar-se numa corda estendida a dois metros de altura, com a irmã mais velha a marcar o ritmo com um tambor.
É nesta zona da cidade que estão museus e galerias de arte e onde se joga Criquet de calças e camisa branca e golf no único campo existente na cidade. O Criquet é o principal desporto na India. Está para eles como o futebol para os portugueses. À noite havia um jogo importante num Estádio aqui perto e era a loucura nas ruas, antes de entrarem para o recinto, com vendedores de buzinas e bandeiras a fazerem enorme estardalhaço.
Aproveitei o dia para fazer visitas turísticas e passear um pouco a pé pela Marine Drive, a marginal cá do sítio.
22 de dezembro de 2012
Dubai
O voo de Bandar
Abbas para o Dubai dura pouco mais de 20 minutos.
Fiquei no Dubai
24 horas. Tinha cá estado há cinco ou seis anos e está bastante melhor. Na
altura já existiam a maioria destes prédios lindos que construíram no centro,
projetados por alguns dos melhores arquitetos mundiais, mas ainda estava tudo
em obras, havia muito pouca sinalização e as infraestruturas rodoviárias eram
um caos onde nos perdíamos facilmente.
Agora está tudo
com um ar mais acabado e organizado. Já existem placas de sinalização,
canteiros bem tratados junto a algumas das vias principais e, como muitas das
obras pararam com a crise, está tudo mais assente. Aquele projeto megalómano
das ilhas em forma de Palmeira ficou a meio. Penso que uma está quase acabada
mas a segunda, como pude verificar do avião quando chegava, não passa de um
aterro que fizeram mar dentro, ainda insignificante.
O Dubai continua
a cheirar a dinheiro. No aeroporto o prémio para um qualquer sorteio não é um
Fiat ou Toyota mas um Mc Laren que lá está em exposição enquanto pelas ruas
vêm-se stands da Ferrari, Aston Martin e muitos carros grandes e gastadores a
circularem. Os próprios táxis têm motores a gasolina e caixa automática.
Aqui não há
Hoteis a vinte euros e, para encontrar um a 50, fui parar a uma zona da cidade
mais frequentada por asiáticos e paquistaneses.
Logo que saí à
rua uma miúda filipina veio-me oferecer os seus préstimos sexuais pelo dinheiro
que eu quisesse dar. À noite, na “boite” do Hotel, que era pouco maior que o
quarto, um grupo de umas dez miúdas Paquistanesas, giríssimas, dançavam num
palco rodeado de mesas com homens de meia idade a assistirem. Uma das danças
obrigava-as a rodarem as cabeças tão depressa que temi se soltassem dos corpos.
Aqui, no entanto, não se podem despir pois como país árabe que são os Emiratos,
seria um crime punível no mínimo com umas valentes chicotadas nas raparigas e
dono do estabelecimento.
No dia seguinte
fui até à praia onde tomei maravilhosos banhos naquela água transparente e
quente. Parti ao fim da tarde para
Mumbai (Bombaim) onde cheguei já de noite.
Sabia que o Hotel
que tinha marcado era perto do Aeroporto. Quando me propus apanhar um táxi um
homem que se fez passar por taxista dirigiu-me para o táxi e sentou-se ao lado
do condutor. Perguntei porque vinham os dois e ele disse que ia também, que o
táxi era dele. Não tínhamos andado mais de 500 metros quando me informou que o
preço a pagar eram 1500 rupias ou seja, trinta dólares. Disse-lhe que parasse o
táxi que eu saía ali mesmo e ele respondeu que não, que isso dava muito mau
aspecto e perguntou-me quanto estaria disposto a pagar. Falei-lhe em cinco
dólares e atirou-se ao ar. Que no mínimo levava dez dólares. O Hotel não era a
mais de três ou quatro quilómetros. À chegada, saí do táxi e fui perguntar qual
era o preço normal para o trajeto desde o aeroporto. “200 rupias”, respondeu o
recepcionista. Tirei 300 do bolso e paguei ao homem. Ele não me largou e veio o
recepcionista e um cliente da espelunca, acabado de sair do banho enrolado uma
toalha, discutirem com este acompanhante de taxista ao qual se juntou o
condutor. O tom subiu a um nível em que estava mesmo à espera de pancada mas
depois de muitos insultos e provocações lá arrancou taxista e acompanhante para
tentarem enganar mais um.
O bairro em que
fiquei era do género “abaixo de cão”, como eu gosto. Muito movimentado e sujo,
com uma vida e cores extraordinárias. Os carros, motos e “rickshaw”, agora com
motor de vespa em vez de pedais, atropelam-se uns aos outros no meio de um transito
caótico e selvagem. O lixo, em vez de ser posto em caixotes é despejado nos
intervalos do passeio central num monte imundo que a camioneta do lixo carrega,
de manhã, à pazada. É evidente que muito fica espalhado pela rua e passeios, se
é que podemos chamar isso a caminhos de terra esburacados. No meio da confusão
crianças divertem-se a brincar, adolescentes vendem frutas estranhas em bancas
improvisadas e muita gente circula por entre a confusão de carros e camiões
estacionados nas bermas e transito que se atropela em todos os sentidos.
Hoje mudei de
Hotel, para ir conhecendo partes diferentes da cidade mas o cenário manteve-se
quase idêntico. Amanhã volto a mudar, dessa vez para uma zona um pouco melhor.
20 de dezembro de 2012
20 Dezembro - Portugal
Estou a ler um livro muito bom: A Cidade da Alegria de Dominique Lapierre. Passa-se em Calcutá nos anos 60 e faz-nos lembrar o quão relativa é a falta de dinheiro que aí sentimos, em Portugal.
A maioria da população vivia mal antes do 25 de Abril. Depois, em cerca de quinze anos, muita gente passou para a classe media, e começaram a comer bem, os filhos a estudarem até à universidade, a segurança social e os hospitais públicos a funcionarem, enfim todos passaram a viver melhor. Com o dinheiro fácil, que os bancos faziam chegar às nossas mãos através de empréstimos que faziam no exterior, esta nova classe média comprou carros e casas, enfim, construiu um nível de vida superior às suas possibilidades reais. Isto passou-se não só em Portugal mas também noutros países que entraram para a Comunidade Europeia e a quem criaram a ilusão que as suas populações podiam viver com o nível de vida dos países industrializados, sem terem uma base económica, de criação de riqueza, que o pudesse fazer crer.
Tenho constatado isso nesta viagem que estou a fazer à volta do mundo tendo atravessado alguns destes países que entraram para a Comunidade Europeia e outros que não.
O que se passa nos países que não entraram na Comunidade Europeia, como a Croácia o Monte Negro ou a Turquia, é que as pessoas, por nunca terem vivido acima das suas possibilidades, não sofreram o choque que nós agora estamos a sentir. O nível de vida dessas populações foi crescendo mas de uma forma gradual e realista e não à conta de dinheiro emprestado. E estão mais felizes. Na própria Albânia encontrei pessoas alegres, simpáticas, bem com a vida, mesmo a viverem com pouco dinheiro.
Quando chegou a hora de voltar à realidade, de vivermos com o dinheiro que realmente temos, o sacrifício é grande tanto para portugueses como para gregos ou espanhóis. E o que é interessante verificar é que não custa mais a um português ver o seu ordenado baixar de 750 para 500 euros que a um grego sofrer uma redução de 1300 para 1000 ou um espanhol de 1800 para 1400. Todos acham que estão na miséria quando miséria verdadeira é o que se passa na India onde ainda hoje, como no tempo da Cidade da Alegria, famílias inteiras têm que procurar cascas de fruta nos caixotes do lixo para as cozinharem por não terem dinheiro para comprar meio quilo de arroz, ou na Africa sub sahariana onde vi crianças a quem, mais que alimentos, faltava água potável para beberem.
Quando chegou a hora de voltar à realidade, de vivermos com o dinheiro que realmente temos, o sacrifício é grande tanto para portugueses como para gregos ou espanhóis. E o que é interessante verificar é que não custa mais a um português ver o seu ordenado baixar de 750 para 500 euros que a um grego sofrer uma redução de 1300 para 1000 ou um espanhol de 1800 para 1400. Todos acham que estão na miséria quando miséria verdadeira é o que se passa na India onde ainda hoje, como no tempo da Cidade da Alegria, famílias inteiras têm que procurar cascas de fruta nos caixotes do lixo para as cozinharem por não terem dinheiro para comprar meio quilo de arroz, ou na Africa sub sahariana onde vi crianças a quem, mais que alimentos, faltava água potável para beberem.
Claro que se compreende a dificuldade de quem comprou casa e carro com dinheiro emprestado e, de um dia para o outro, perde casa e carro e tem que passar a viver de uma forma a que já não está, ou mesmo nunca esteve, habituado, mas é sempre preferível comer uma bolonhesa num quarto alugado que passar fome numa barraca. No entanto, estes últimos, por nunca terem passado por uma fase boa na vida, conseguem muitas vezes ser mais felizes que os primeiros.
No fundo temos que nos habituar a viver com menos dinheiro e pensarmos que a vida poderia ser muito pior, se temos tido o azar de nascer noutro país. Há que adaptar a vida a uma nova realidade.
Quando parei em Évora, no início desta viagem, uma rapariga casada e com dois filhos contava-me que, hoje em dia, cozinhava tudo na Bimby, desde bolachas a iogurtes ou até Ketchup e que, com isso, poupava 150 euros por mês em supermercado. Claro que a maioria da população não tem dinheiro para comprar uma Bimby, nem a prestações, e muitos nem para gastarem por mês no supermercado o que aquela rapariga poupa, mas eu lembro-me, muito antes de haver Bimbys, que as pessoas faziam as bolachas e os iogurtes em casa, e eram muito melhores que os do supermercado.
18 de dezembro de 2012
18 Dezembro - Good bye Iran
Hoje deixei o Irão, a caminho do Dubai, de onde seguirei para Mumbai (Bombaim), na India. Foi um mês de fantásticas experiencias, especialmente a nível humano. Este povo vive debaixo de muitas regras e limitações e todos com quem falei sonham em deixar aquele país para viverem uma liberdade que a maioria desconhece, pois a revolução, com a destituição do Shá e chegada ao poder dos Ayatolah, foi há mais de trinta anos.
Ontem à hora do almoço comprei uns frutos secos e uma laranjada, parei a moto junto à praia e fiquei a ver o mar e as famílias que vão com os carros para a areia e ali ficam reunidas. Como de costume pararam uns jovens a admirarem a moto. Fizeram-me as habituais perguntas sobre mim e a moto e depois sentaram-se no muro enquanto um deles enrolava um charro que os quatro fumaram. Quando lhes perguntei se era haxixe, perguntaram-me se eu não queria dar umas passas, a rirem-se, como quem diz: o que seria o velho a fumar haxe? Propuseram-me, então, uma cerveja que também arranjavam. Percebo que estes jovens, com pouco que fazerem nos tempos livres, se droguem. Aliás está a ser um problema grave no Irão desta geração, principalmente porque a heroína, vinda do vizinho Afeganistão através de uma zona de fronteira montanhosa muito difícil de controlar, lhes chega às mãos ao preço da chuva. No outro dia contaram-me que os traficantes têm esquemas para passar a droga, através das montanhas, inacreditáveis. Às vezes habituam camelos a irem ter a um local do lado iraniano onde lhes dão comida e depois soltam-nos, carregados de droga do lado do Afeganistão, sendo os próprios camelos os traficantes. Se os apanham não têm dono.
Também é incrível como os americanos invadiram o Afeganistão com a desculpa de que era preciso controlar a produção de papoilas e acabar com os laboratórios de morfina e heroína e passados anos, continua tudo na mesma.
Ao fim da tarde, quando parei a moto na rua para ir ao agente de navegação, ao voltar tinha um guarda, armado de metralhadora, a guardar a moto. Como tinha visto muito movimento de volta da moto decidiu, por iniciativa própria, ficar a tomar conta da moto, de metralhadora em punho, a mandar afastar os populares. Quando cheguei quase que me fez continência e ordenou a retirada do pessoal para que eu arrancasse. Inédito.
Antes de partir para o Aeroporto fui ao porto, com o homem da agência de navegação, para carregar a Honda.
Comigo ia um Polaco, que tinha encontrado em Teerão numa velha BMW e três miúdos suecos, dois irmãos com uma BMW 650 e uma Yamaha Super Teneré com vinte anos e um amigo com uma Africa Twin da mesma época. Íamos todos a caminho da India e como ninguém tinha conseguido vistos para o Paquistão encontrámo-nos em Bandar Abbas para carregarmos as motos no mesmo contentor.
O Polaco já tinha percebido que Teerão tinha um problema de droga. Estava maravilhado com o preço do “produto” e passava os dias fechado no Hotel, enquanto esperava que chegasse da Alemanha um veio de transmissão da BMW que se tinha partido. Quando partimos para o porto para embarcar as motos ele entrou em paranóia, disse que tinha que passar no Hotel e ficamos três horas à espera do homem. Quase perdemos o embarque.
Os suecos eram muito simpáticos e civilizados. Um deles tinha começado a andar de moto quinze dias antes de partir da Suécia e outro um mês e meio. Ao vê-los nas motos, muito concentrados a dez à hora, até fazia confusão como ali tinham chegado. Cada vez que apanhavam uma estrada de terra iam ao chão mas estavam ali inteiros, mesmo com os suportes das malas feitos em pedaços.
O porto de Bandar Abbas continua movimentadíssimo e, se houve companhias de navegação internacionais que se retiraram da zona quando foram decretadas as sanções de proibição de exportações e importações de e para o Irão, outras vieram substitui-las com os navios a fazerem fila ao largo, para carregarem e descarregarem mercadoria. Os negócios com os países vizinhos e todos os asiáticos, incluindo a China e a India, continuam a bom ritmo.
Quando entrei no Irão tinha ideia de lá ficar só dez dias e, sabendo que não se podia levantar dinheiro no país, pois os bancos não têm relações com os europeus, levava comigo 1000 dólares e 100 euros. Embora a vida seja muito barata como passei lá um mês e tinha deixado logo 200 dólares na fronteira e gasto outros cem em vistos e visitas turísticas em Teerão, sobraram 700 dólares e 100 euros que me deram para viver o mês inteiro, incluindo hoteis e bilhete de avião até ao Dubai na Iran air. Mais barato que ficar em Portugal. Cada dólar é trocado por 30.000 Rial Iranianos ou 3.000 Tuman, uma redução que eles fazem automaticamente. Não é muito dinheiro mas com o equivalente a três euros atravessa-se Teerão de uma ponta à outra de táxi ou enche-se o depósito da moto de gasolina. A maioria dos hotéis em que fiquei custavam cerca de quinze euros por noite, mesmo se não me pudesse pôr a investigar se alguém teria dormido naqueles lençóis antes, pois as duvidas passariam rapidamente a certezas. De qualquer forma o dinheiro foi até ao último tostão, tendo comprado almoço no aeroporto, um pacote de amendoins e uma laranjada com os últimos trocos que tinha no bolso.
13 de dezembro de 2012
13 Dezembro - Bandar Abbas
Saí de Persepolis pelas oito e meia da manhã debaixo de chuva forte e 8 graus de temperatura. Tinha 600 Km pela frente sem qualquer cidade pelo caminho onde pudesse haver um Hotel. Viajei rumo ao sul de maneira que, à medida que me aproximava do equador, a temperatura ia subindo. Pela hora do almoço já estava pelos 20 graus e tinha parado de chover e, quando cheguei a Bandar Abbas, estava um dia de verão com o céu descoberto e 28º.~
Pelo caminho atravessei o deserto Kavir-e-Namak-e-Sirjan e parei para almoçar num destes restaurantes que têm tantas mesas como camas. Destas em que eles se sentam com amigos, de pernas cruzadas, a fumar uma cachimbada.
Em todos os sítios por onde passo ficam a admirar a moto como se de um ovni se tratasse, mas ainda não me tinha acontecido atestar o depósito numa bomba de gasolina e o dono, quando ia a pagar, dizer-me: “Não é nada. Siga viagem”. Inimaginável na Europa materialista em que vivemos.
Bandar Abbas é uma típica cidade costeira, com muito movimento e cor.
Na praia de areia escura e dura, carros e motos circulam até à beira mar com os donos cá fora, acompanhados de família ou amigos, a conversarem entre duas passas de cachimbo de água. Dois barcos naufragados parecem estar ali há anos sem que alguém faça alguma coisa para os remover.
Depois de me instalar fui acabar de tratar do meu visto para a India, cujo processo tinha começado em Teerão, e passei numa agência de navegação a saber que barcos há e para onde. Parece que a opção mais viável é mesmo um Ferry para o Dubai, que fica aqui do outro lado do Estreito de Oman, e depois um navio de carga para Mumbai, na India, passando ao largo do Paquistão.
Se tudo correr bem apanho o próximo ferry, que parte segunda-feira.
Mesmo a tempo pois a minha extensão de visto acaba na terça.
As pessoas a meterem conversa na rua já cansam, mas lá vou respondendo a todos.
- “Where are you from?”
- “Portugal”
- “Cristiano Ronaldo”, “Carlos Queiros”, “Welcome to Iran”.
Um homem a quem perguntei onde era um restaurante pediu que o seguisse com a moto, levou-me até dentro do estabelecimento e só não se sentou comigo à mesa porque eu lhe disse que estava à espera de amigos. Até pediu a ementa para saber o que eu queria jantar e traduziu para o criado.
O trânsito em Bandar Abbas é muito peculiar. Em algumas horas do dia é um movimento louco, mas entre a uma e as quatro da tarde as lojas fecham e vêm-se muito poucos carros a circular. A cidade para, autenticamente. A partir das cinco da tarde a loucura regressa e, à noite, continua em grande, mas aí ficamos com a sensação que, sem terem mais nada que fazer e com a gasolina tão barata, os iranianos pegam no carro e vão passear pela cidade e buzinar mais um bocado.
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