12 de dezembro de 2012
12 Dezembro - Chiraz
Ontem, quando saí de Isfahan, estava um dia de sol lindo, mas 8 graus de temperatura. Parti em direcção a Yazd e passados cerca de 50 Km entrei no deserto de Siyahkuh. A temperatura foi subindo até aos 20º numa zona perto da qual são atingidas, no verão, as mais altas temperaturas do planeta. Rectas infindáveis atravessam as planícies onde o transito é quase todo composto por camiões, a caminho das áreas mais remotas do país e da principal fronteira com o Paquistão.
Quando estava em Portugal tanto a embaixada paquistanesa, como o Ministério dos Negócios Estrangeiros e pessoas que tinham estado na região, desaconselharam-me vivamente a atravessar o Paquistão, por grande parte do território não estar controlado pelas forças governamentais e ser extremamente perigoso. No Irão falei com pessoas que me disseram haver vários viajantes a atravessar o território sem problemas, de maneira que tentei aqui que me dessem o visto para passar. Infelizmente foi impossível, pois exigem que seja passado no país de origem do turista, pelo que não me resta outra solução senão ir até ao Sul do Irão, apanhar um barco para o Dubai e daí outro para Mumbai, na India, passando assim ao largo do Paquistão. Espero, dentro de dois dias, chegar ao porto iraniano de Bandar-e-Abbas.
Estava mais ou menos a meio do caminho de Yazd, quando, no meio daquele deserto de terra, se levantou uma ventania, idêntica à que tinha apanhado à chegada a Isfahan e que me obriga a rodar a baixa velocidade com a moto a abanar muito.
Chegado à cidade a meio da tarde encontrei um simpático Hotel. Jantei no restaurante que tinham no telhado e onde serviam refeições típicas Iranianas com vista sobre a cidade. Excelente carne estufada acompanhada de batatas cozidas, legumes e iogurte.
Hoje da manhã fui visitar a cidade onde, entre outras coisas, existe o templo do fogo. Os Zoroastros veneram o fogo como um Deus e este seu templo tem uma fogueira central que mantêm a arder há mais de 400 anos, segundo dizem.
Pelo meio dia e meio, saí em direção a Persépolis a 400 Km de distância.
Desta vez atravessava o deserto de Dar Anjir e, com as temperaturas à saída do Hotel a rondarem os 20º, hesitei entre sair de jeans ou vestir as calças do fato. Felizmente optei pela segunda solução pois tinha percorrido pouco mais de 50Km quando saí do deserto para entrar numa zona montanhosa e a temperatura, numa dezena de quilómetros, baixou dos 17º para os 8º, com as bordas da estrada cobertas de neve. É incrível como as oscilações de temperatura aqui são tão acentuadas.
Como saí tarde adoptei um ritmo mais rápido que o habitual, na casa dos 150, 160 Km/h para chegar a tempo de visitar as ruínas da antiga Persépolis. Os condutores dos camiões, que nunca viram uma moto a rodar a mais que 80 Km/h, ficam maravilhados e tocam a buzina em sinal de contentamento. No Irão são proibidas motos com mais de 250 c.c. e 99% têm mesmo apenas 125c.c.
Depois de visitar Persépolis, onde os palácios há 2500 já tinham requintes como água que vinha da montanha com canalizações subterrâneas, liguei para o contacto que o meu amigo Hosseini, de Arak, me tinha dado. Dois dos irmãos Omidvar vieram ter comigo às ruinas, um rapaz dos seus vinte e poucos anos e uma miúda muito bonita de 18 anos. Guiaram-me até à casa familiar, onde fizeram questão que ficasse.
A minha presença foi razão para a mãe Omidvar cozinhar um jantar especial e convidar toda a família. A irmã do pai, cujo filho está noivo da filha deles e os filhos casados, acompanhados das mulheres e marido da mais velha, mais três animadas crianças.
É uma família modesta ao estilo da do Hossein, de Urumia.
A casa resume-se a uma sala grande, uma cozinha e um quarto onde a irmã de 18 anos costuma dormir e estudar. A sala é um espaço amplo onde os únicos objetos são uma televisão num dos cantos, tapetes Persas no chão e algumas almofadas. Não existe um único móvel ou quadro na parede. Ali todos os Omidvar tomam as suas refeições sentados no chão, descansam durante o dia e dormem de noite, em cima de cobertores que estendem pelo chão.
Depois do excelente jantar de cabrito assado ficamos à conversa apoiados nas almofadas. Só os dois irmãos mais novos, que me foram buscar, falam inglês. A miúda foi pedida em casamento pelo primo direito, sete anos mais velho, quanto tinha 12 anos. Vão casar-se no próximo ano, quando ela fizer 19. Perguntei-lhe se estava apaixonada pelo primo e ela disse que não, mas que era um costume iraniano e que era muito mau uma rapariga chegar à idade dela sem ter tido um pedido de casamento. Como os contactos com rapazes são evitados em todo o lado, desde transportes, a escolas ou festas, que se resumem aos casamentos, muitas destas miúdas acabam, tal como a Mariam, a casar com os primos direitos.
A única viagem que fez na vida foi quando os pais a levaram a Meca, tinha ela 14 anos. O pai é devoto ferrenho e ficou chocado quando lhe disse que não acreditava em qualquer Deus. Antes tinha perguntado se Portugal fazia fronteira com os Estados Unidos e, sentado ao meu lado, viu, fascinado, fotografias do meu trajeto.
Chegada a hora de irmos dormir instalaram-me um cobertor e uma almofada entre a mãe e o irmão mas eu sugeri ficar sozinho no único quarto, com a desculpa que costumava ler até tarde e lá fiquei. O resto da família dormiu, como habitualmente, na sala.
No dia seguinte tomámos todos um excelente pequeno almoço naquele espaço comum, à base de pão iraniano feito pela mãe, leite vindo diretamente da vaca, ovos mexidos e fruta.
Pela dez da manhã apareceu o meu amigo Hosseini que tinha feito 800 Km desde Arak para me voltar a ver. Ele é amigo de um dos mais velhos dos Omidvar de maneira que fomos passar o dia a uma barraca que este irmão construiu junto a uma barragem. Antes passámos a buscar carne, já preparada e temperada, para fazer espetadas e lá almoçámos um churrasco e ficámos o dia a conversar, fumar cachimbo de água e beber xarope chiraz, uma bebida alcoólica clandestina feita por eles e que nem é má de todo, principalmente a partir do terceiro copo.
Como aquilo se arrastou também para jantar, acabei por voltar a dormir em casa deles.
A mãe criticou termos estado a beber álcool e lembrou que é proibido no Irão.
Pelas duas da manhã começou a chover e ouvi a mãe Omidvar dizer qualquer coisa ao filho mais novo que deu uma volta no cobertor e respondeu um gemido. Então a senhora levantou-se e, debaixo de chuva, foi tapar a minha moto com um grande plástico. Extraordinário. Não vou esquecer esta gente.
8 de dezembro de 2012
08 Dezembro - Isfahan
Ontem, quando o Hoseeini me acompanhou na sua scooter à saída de Arak e parámos na última rotunda para nos despedirmos um homem, dos seus sessenta anos, parou junto a nós e ficou a olhar para a moto até eu partir. Veio depois atrás de mim e, quando eu hesitei num cruzamento, fez sinal para o seguir. Guiou-me mais uns quilómetros e parou noutra rotunda para me indicar a saída que devia tomar, mas insistiu para que fosse almoçar à fábrica dele ali perto. Disse-lhe que não almoçava, mas aceitava beber um chá, até por curiosidade em saber como era uma industria privada no Irão.
Bebemos um chá, ficamos um pouco à conversa e depois foi mostrar-me a fábrica. Ali transformam lingotes de alumínio em perfis para portas, janelas, etc. Têm primeiro uma caldeira onde a temperatura dos lingotes é elevada até 400 graus, depois uma enorme prensa onde, a pressões de 2000 toneladas p.s.i os lingotes são transformados em vários tipos de perfis.
Ao lado, numa outra fábrica, o filho deste homem coordena a construção de estruturas para portas e janelas. Vendem essencialmente no Irão mas também exportam para os países que conseguem, depois das restrições internacionais, ou seja, algumas das antigas repúblicas russas, Afeganistão e Iraque.
É interessante saber como, embora este país seja controlado por um regime totalitário, têm industrias privadas a funcionarem bem.
Acabei por almoçar por lá e segui depois rumo a Isfahan. De início apanhei um pouco de chuva e depois frio, com a temperatura a baixar até aos 3 graus. A essas temperaturas não há punhos aquecidos que nos valham e os dedos começam a regelar. O fato da Spidi aguenta bem e mais camisola, menos camisola a coisa resolve-se.
O meu amigo em casa de quem tinha ficado ligou a um primo que vive em Isfahan antes de eu sair e disse-lhe que tratasse de arranjar estadia para mim. Quando liguei ao primo à chegada à cidade ele disse que uma senhora me ligaria de seguida. Passado um minuto tinha a Mahid ao telefone a dizer que tinha muito gosto que ficasse em casa dela. É fantástico como esta gente é tão hospitaleira que se prontificam rapidamente a dar acolhimento a um estrangeiro perdido neste mundo. Pedi a um táxi que me guiasse até casa da Mahid, que vive com o marido e um filho. Ela recebeu-me lindamente e passado meia hora, quando o marido chegou é que lhe anunciou: “Este é o Francisco, que conhece o Sr. Reza e vai cá ficar a dormir”. O marido era simpático e achou a situação normalíssima.
No fundo estas pessoas vivem sem grande coisa que fazer a não ser trabalhar e voltar para casa e quando têm alguém de outro país que lhes fala de coisas que só vêm nos filmes ficam fascinados. Mesmo as pessoas que encontramos na rua recebem-nos o melhor possível e não se cansam de repetir “welcome to Iran”.
Depois do jantar levaram-me a visitar a cidade. Fomos ver uma das fantásticas pontes com seis séculos de existência onde o Rei tinha um terraço particular de onde via as águas do Zayandehrood correrem e visitámos a extraordinária praça Imam onde há mais de quinhentos anos já se jogava Polo. Aqui o rei tinha não só um palácio no centro da praça, para quando queria ver o jogo, como uma mesquita particular, reservada para ele e as muitas mulheres.
Acabámos a noite num extraordinário “coffee shop” cheio de peças antigas de tudo quanto há nas paredes e tecto e pessoas sentadas a fumarem cachimbos de água e a beberem chá. Aqui, numa das zonas as mulheres podiam entrar e fumavam tanto ou mais que os homens. Um ambiente giríssimo.
Hoje fui ver outra das antigas pontes e regressei à praça. Dois rapazes convidaram-me para beber chá na loja de tapetes deles, junto à Mesquita que era como que um clube onde vários clientes se sentavam a tomar chá em amena cavaqueira. Às tantas entrou um que me disse: “eu vi-o ontem na “coffe shop” com uma família Iraniana”.
Por ali fiquei até regressar a casa pelas cinco da tarde.
7 de dezembro de 2012
07 Dezembro - Arak
Hoje pensei que iria ficar uns tempos “engavetado” no Irão.
Ontem à noite fui até ao centro de Sanandaj trocar dinheiro e dar uma volta a pé. Passei por um pequeno restaurante onde um homem na montra cozia uns tubérculos que depois regava com uma calda que parecia mel. Não faço ideia o que seria, mas tinham bom aspecto e provei um. Continuei sem saber o que estava a jantar mas era bom.
Hoje de manhã saí do Hotel cerca das dez da manhã com uma temperatura de 6º e vento bastante forte. Nos primeiros quilómetros subi uma serra sem qualquer vegetação e depois rodei durante uns cem quilómetros num planalto com uma forte ventania que fazia a moto dançar, o capacete vibrar, enquanto nas rectas andava inclinado como se fosse a curvar. Tive que rodar com muita atenção, a cento e poucos quilómetros por hora, pois de vez em quando apanhava com rabanadas que me arrastavam quase para a faixa contraria.
Da parte da tarde a coisa melhorou e apanhei um pouco de chuva, mas sem vento.
Acabei por parar duas vezes para atestar de gasolina. Nesta zona do país cada vez que paro junta-se gente a admirar a moto. Numa das bombas o movimentado e alegre grupo que me fazia muitas perguntas em Farsi para as quais eu não tinha obviamente resposta, não deixava de mexer em todos os botões da moto enquanto eu punha gasolina. Um dos personagens era um polícia fardado. Esse sim percebia o que dizia mas fingi também não entender. Não se cansava de repetir “passport, passport”. Eu disfarçava com medo que ele ficasse com o imprescindível documento, mas sem poder fugir mais à questão acabei mesmo por ter que passar o passaporte para as mãos do homem que quis ver se o meu visto estava em ordem.
Passados uns quilómetros uma operação stop em que me mandaram parar.
- “hello, sir. Which country”?
- Portugal
- Ha, Portugal. Cristiano Ronaldo. I love Cristiano Ronaldo. Do you love Cristiano Ronaldo?
- No.
- No? You don’t love Cristiano Ronaldo?
- No, but he is very good.
O homem olhou para mim com um ar incrédulo e mandou-me seguir viagem.
Parei num restaurante à beira da Estrada e mais uma vez se juntaram meia dúzia de homens a fazerem perguntas sobre a moto e a tirarem dezenas de fotografias aos vários membros do grupo junto à Honda.
Estava a chegar à cidade onde tencionava ficar quando à minha direita vejo uma central nuclear. Com toda a polémica que está a haver por causa das centrais nucleares iranianas não achei nada melhor que tirar umas fotografias à central. Estava eu quase s sentar-me de volta na moto quando parou um carro branco ao meu lado a dizer.
-Police, police. Your Passport.
O homem não estava nada com boa cara e quando hesitei em passar-lhe o Passaporte para as mãos ele começou a exaltar-se e sacou do cartão de polícia para que eu não tivesse dúvidas.
- You are going to prison because you took pictures of the plant.
- I’m sorry, I didn´t know one couldn´t
- Park the motorcycle and switch it off.
Pegou no telefone e falou para um suposto chefe. Eu só percebi Tourist e Portugal mas a coisa parecia-me muito mal encaminhada. Ele pediu a máquina e ordenou que apagasse todas as fotografias da central. Depois entrou para o carro e disse para eu me sentar ao lado dele e que fechasse a porta. Voltou a dizer que eu ia preso e pediu-me o Passaporte. Estava a ver a vida a andar para trás.
Viu que os vistos estavam em ordem e, por fim, devolveu-me o passaporte e disse que podia ir embora.
Montei rapidamente na moto e … ala que se faz tarde. Uff, que cagaço.
Estava dez minutos depois em Adria, ainda com o coração acelerado, a perguntar por um Hotel, quando um homem dos seus quarenta anos estacionou junto à moto, saiu do carro e ficou a observar, fascinado, a Crosstourer. Arranquei e ele partiu atrás de mim. Quando parámos num semáforo perguntei-lhe se conhecia um Hotel ao que ele respondeu.
- Hotel, no. Home, home. E fazia sinal para o seguir.
Por mais que eu repetisse “home, no. Hotel” ele insistia. “Hotel, no. Home, home”.
Pensei que a vida já não me podia correr pior naquele dia e lá fui atrás do homem até “home”.
Quando entrámos em casa dele a mulher e uma amiga fugiram para o quarto a rirem-se muito com a situação. Na sala estavam duas miúdas, de nove e onze anos filhas do casal e da amiga. Lá voltaram as duas mulheres passado um bocado com um ar de quem tinham estado a dar um jeito no penteado e lenço. Ele fez as apresentações. A mulher, que depois soube ter trinta anos, era muito bonita e parecia ser filha dele e a amiga era muito animada. A única palavra que o homem sabia em inglês era “home” mas as mulheres falavam qualquer coisa e acabámos por nos fazer entender lindamente. Eram todos simpatiquissimos. Trouxeram logo chá e fruta e insistiram para que ficasse lá a jantar e dormir. Gostei imenso de ali estar. Dei uma aula de Inglês à filha, joguei cartas com a amiga e ele propôs ir mostrar-me a cidade na sua “scooter”. Não me lembrei que era um iraniano ao volante de uma moto. Desde circular em sentido contrário por entre carros que andavam na faixa correta até rodar em cima dos passeios como se estivesse a andar na estrada, passando por razias em que eu tinha que encolher as pernas para não bater nos carros, passei por tudo um pouco. Demos uma volta pela cidade e depois levou-me ao bazar local, lindo, com tectos em cúpula. Às tantas entrámos numa porta estreita e descemos umas escadas que davam para uma espécie de clube com os mesmos tectos em cúpula feitos de pequenos tijolos. No meio da sala principal um lago e junto às paredes grandes camas em ferro, abertas de um dos lados onde jovens se juntam, de pernas cruzadas, a fumar cachimbos de água, um costume muito comum aqui não só nestes locais como nas casas particulares. Colocam dentro uns sabores a laranja ou outra fruta e fuma-se aquilo como quem bebe um copo com amigos. Naquele clube estavam umas dez daquelas camas com grupos de quatro e cinco miúdos ou homens mais velhos todos a fumar cachimbo em mera cavaqueira. Mulheres, obviamente não podem entrar, mas nas casas particulares também são grandes adeptas do cachimbo.
Dali seguimos para um “cofee shop” ainda dentro do enorme “bazar”. Um grande pátio no rés-do-chão, com um pé direito de três pisos tinha depois dos lados dois andares abertos para esse pátio com mesas e cadeiras. Explicaram-me que antes aquele local era uma espécie de Hotel. No pátio ficavam os camelos enquanto os donos comiam e dormiam nos patamares. Espectacular.
4 de dezembro de 2012
04 Dezembro - Back to Urumia
No Domingo fui finalmente buscar à Embaixada de Portugal em Teerão o “Carnet” que me enviaram de Portugal e sem o qual não podia entrar no país com a moto.
À tarde liguei para o meu amigo que tem uma espécie de táxi que tinha andado às voltas comigo na manhã em que cheguei a Teerão. Dessa vez o carro podre em que ele tira a placa a dizer táxi da mala e coloca no tejadilho, tinha ficado sem motor de arranque a meio da manhã e eu fiz-lhe uma revisão eléctrica à beira da estrada que deu os seus frutos. O motor de arranque nunca mais deixou de trabalhar, mas agora eram as luzes que de vez em quando se apagavam. Disse-lhe que não pegava no trabalho de noite e lá me levou com o carro a acender e apagar as luzes até ao terminal dos autocarros. No fim não me queria cobrar o transporte e paguei-lhe quase à força. Pelo caminho passou por nós um outro tipo de táxi que ainda não tinha visto. Era conduzido por uma mulher e por fora dizia “women’s taxi”. Perguntei ao meu amigo o que era aquilo e ele disse que são táxis conduzidos por mulheres e reservados ao transporte de mulheres. Pedi-lhe que o apanhasse para tirar uma fotografia e ele respondeu: “É muito difícil porque as mulheres guiam muito bem e desembaraçam-se melhor no trânsito”
À tarde liguei para o meu amigo que tem uma espécie de táxi que tinha andado às voltas comigo na manhã em que cheguei a Teerão. Dessa vez o carro podre em que ele tira a placa a dizer táxi da mala e coloca no tejadilho, tinha ficado sem motor de arranque a meio da manhã e eu fiz-lhe uma revisão eléctrica à beira da estrada que deu os seus frutos. O motor de arranque nunca mais deixou de trabalhar, mas agora eram as luzes que de vez em quando se apagavam. Disse-lhe que não pegava no trabalho de noite e lá me levou com o carro a acender e apagar as luzes até ao terminal dos autocarros. No fim não me queria cobrar o transporte e paguei-lhe quase à força. Pelo caminho passou por nós um outro tipo de táxi que ainda não tinha visto. Era conduzido por uma mulher e por fora dizia “women’s taxi”. Perguntei ao meu amigo o que era aquilo e ele disse que são táxis conduzidos por mulheres e reservados ao transporte de mulheres. Pedi-lhe que o apanhasse para tirar uma fotografia e ele respondeu: “É muito difícil porque as mulheres guiam muito bem e desembaraçam-se melhor no trânsito”
Apanhei o autocarro para Urumia às dez da noite e às oito da manhã estava a chegar à cidade do Hossein, que me esperava na central de camionagem. Contei-lhe que vinha no caminho a sonhar com o pequeno-almoço que a mãe dele faz, com excelentes ovos mexidos e compota e iogurte feitos por ela e lá fomos “at Sheakhloo’s for breakfast” antes de ele me levar à fronteira, a 50 Km dali, para levantar a moto.
Foi um processo complicado que durou perto de quatro horas com papeladas e mais papeladas a exigirem assinaturas de vários chefes perdidos ora no gabinete, ora no parque de estacionamento de terra, ora num outro edifício, sempre rodeados de um séquito de homens a quererem mais uma assinatura para conseguirem passar a fronteira. No final o chefe principal já se ria para mim e pediu-me desculpa por aquele tempo. Fui levantar a moto ao parque de segurança da fronteira, um lamaçal de onde me vi aflito para sair com a “Crosstourer” com pneus de estrada e voltámos finalmente a Urumia.
Já era tarde para me fazer à estrada de maneira que aproveitei para ir a um mecânico amigo do Hossein colar as protecções plásticas dos punhos que tinha partido nas vezes em que deixei a moto cair e que fazem falta nestes dias de baixas temperaturas pois não deixam o vento frio bater directamente nas mãos.
A semana passada um espanhol foi assaltado na estrada que eu pretendia apanhar e que passa junto a Teerão e por isso o Hossein recomendou-me seguir por um trajecto perto das fronteiras com o Iraque que é uma estrada com pouco movimento, mas onde não tem havido problemas.
Arranquei pelas dez e meia da manhã com o termómetro a marcar 5º.
Ontem tinha tido uma surpresa agradável quando fui atestar o depósito: paguei o equivalente a 4 euros. A gasolina de 95 octanas é vendida nas bombas a 22 cêntimos. Na província as bombas fora das cidades principais só têm gasolina de 85 octanas de maneira que foi a que tive que usar hoje. Essa custa 11 cêntimos o litro. A “Crosstourer” queixou-se um bocado, coitada, por lhe estar a dar de beber carrascão em vez de vinho de qualidade. Grilava em esforço a baixas rotações mas adaptou-se à situação. Que remédio. Também, a encher o depósito por 2 euros não se pode exigir muito.
Nestas estradas secundarias outro dos problemas é que as indicações muitas vezes estão só nos caracteres Farsi da língua deles e por isso tenho que parar, por vezes em sítios estranhos, para perguntar o caminho. Se em Teerão é difícil encontrar alguém que fale inglês aqui é quase impossível de maneira que lhes tenho que mostrar o mapa que consegui arranjar com as duas línguas para lhes explicar para onde quero ir.
Quando parei de uma das vezes cinco homens de bigode rodearam a moto e começaram todos a falar ao mesmo tempo sem que eu percebesse o que queriam. O problema é que um deles não saía da frente da moto. Por fim fui arrancando devagarinho a dizer que sim e mais também e a empurrar o homem com a moto até que ele lá se afastou. Não faço ideia o que quereriam.
Pelas quatro da tarde cheguei a uma cidade maior e perguntei a duas miúdas e um rapaz que vinham num carro, radiantes a acompanhar a moto, onde havia um Hotel. Eles ficaram satisfeitíssimos e trouxeram-me até um óptimo Hotel, quase novo, que pertence ao tio de uma das miúdas.
1 de dezembro de 2012
01 Dezembro - Tehran 7
Ontem fui visitar o principal Mercado de Teerão, a que eles chamam Bazar. O Bazar tem várias entradas que dão para uma avenida cortada à maioria do trânsito e é um emaranhado de pequenas ruelas cobertas que não têm mais de três metros de largura onde se vende de tudo. Embora quando entramos pareça uma confusão, está bem organizado pois tem uma parte de joalharias, onde mulheres vestidas de mantos pretos se perdem durante horas hipnotizadas pelo ouro e pedras preciosas e falsas, outra parte só de roupas, uma de frutas e especiarias, outra de electrodomésticos e por aí fora. Cada secção tem largas dezenas de pequenas lojas, algumas pouco mais que bancas com dois ou três metros quadrados. Está sempre cheio de gente pois é aqui que os locais da classe média e baixa fazem as suas compras e deve ser o único sítio onde o trânsito é proibido às motos, que se habituaram a circular nos passeios, nas faixas contrárias, a passar sinais encarnados, enfim temos a sensação que quem tem moto pode fazer o que quer. São milhares destas 125 a 4 tempos, todas muito parecidas, mas de dezenas de marcas diferentes, que parece terem conquistado a cidade. Temos a sensação de que mesmo que os decidissem pôr na ordem já era impossível porque não haveria polícias em todo o país para lhes acertar o passo.
Hoje fui tratar de renovar o meu Visto, que se veio a revelar tarefa complicada.
Andar com visto caducado no Irão representa prisão. Ouvi dizer que as prisões aqui não são nada acolhedoras de maneira que fui ao local que me indicaram em Teerão para tentar renová-lo, pois caducava dentro de dois dias.
Não pude sair antes do país porque só amanhã deve chegar o Carnet de Portugal que me permitirá ir levantar a moto à fronteira para seguir viagem.
Quando cheguei à esquadra da polícia onde tratam deste assunto começaram por me perguntar porque queria ficar mais tempo no país e se não tinha um avião para apanhar. Quando lhes digo que venho de moto olham sempre para mim com um ar de como quem diz: “mas o homem até que não tem cara de maluco” e começam a observar melhor a minha expressão como que à procura de algum traço que comprove a teoria deles, de que o rapaz não joga com o baralho todo. Esperam um pouco nesta observação e só depois voltam a falar. “Haaaa, veio de moto. Está bem. Já vamos tratar do seu caso. Espere sentado nessa cadeira”. Passado um quarto de hora mandaram-me comprar uma pasta em cartolina, como me lembro de ter na primária, dois impressos, fotocópia de passaporte e cópia de depósito de 300.000 reais (qualquer coisa como 11 euros) numa conta bancária do estado. Estava aberto o processo.
Voltei passada meia hora com depósito feito e tudo o resto preenchido. Entreguei o processo a uma menina que me mandou voltar a sentar na cadeira. Um quarto de hora depois fez-me sinal e indicou-me um colega fardado com quem deveria falar. O homem gentilmente disse-me para voltar amanhã de manhã. Pedi-lhe por favor que resolvesse o problema hoje porque tive medo que ao deixar passar um dia o processo pudesse emperrar definitivamente e o meu visto acabar entretanto.
Disse-me que ia ver o que podia fazer e entregou a papelada, acompanhada de uma ordem, a um rapaz mais novo que seguiu com ele para dentro do escritório.
Passado outro quarto de hora o rapaz saiu lá de dentro com o processo que entretanto já trazia apensa uma folha A4 totalmente escrita à mão, que me deixou apreensivo. Que raio de testamento teriam eles a dizer sobre mim?
Pediu que o seguisse até ao gabinete do chefe. Fiquei assustado. Tinham-me dito que isto era um processo relativamente simples e agora precisava de visitar o chefe?
Subimos num estreito elevador quatro andares até ao último piso. O rapaz mandou-me esperar numa sala onde em vez de velhas “tv guia” e “caras” tinha uma única revista com o Iman Khamenei na capa.
Passados dois minutos saiu do gabinete do chefe, a quem tinha entregue o meu processo, e uma secretaria também vestida com estes mantos pretos, em que parece que recortaram uma cara de uma revista e a colaram sobre o preto, sem que se veja um único cabelo ou pescoço, mandou-me entrar à frente dela para o gabinete do chefe.
Enquanto a rapariga fazia de tradutora o homem perguntou-me porque queria visitar por mais tempo o Irão, em que cidades tinha estado nos últimos quinze dias, que outras iria visitar nos 15 dias em que pretendia estender a minha estadia, em que países tinha passado antes de chegar ao Irão e por aí fora. Por fim, ficou muito intrigado por eu ter um carimbo de Marrocos no Passaporte.
Quando eu, já baralhado, não percebia se aquilo estava a correr bem ou mal o homem sai-se com esta:
- “Fale-me sobre Fátima”
- “Fátima?! Mas, Fátima, Fátima?
- “Sim, fale-me sobre Fátima”.
Fiquei embasbacado. Fátima? Quando aqui digo que sou português normalmente debitam-me uma quantidade enorme de nomes de jogadores e treinadores de futebol, a maioria dos quais mal ouvi falar, agora de Fátima nunca ninguém me tinha falado. Ainda puxei pela memória para ver se haveria algum jogador que se chamasse José de Fátima ou qualquer coisa parecida mas não. O Homem queria mesmo que eu lhe falasse de Fátima.
Bem, tentei recordar o que me tinham ensinado na catequese quando tinha seis anos, fiz uma cara de anjo e contei a história dos três pastorinhos como se de um filme cheio de luz e estrelas se tratasse. Descrevi os três pastorinhos tranquilos a levarem o seu rebanho, nossa senhora a aparecer no céu cheia de luz e brilho, uma mulher linda que falava com uma voz meiga e doce para aquelas três crianças. Enquanto contava isto fazia gestos, abria os braços para mostrar a grandiosidade do acontecimento.
O homem olhava para mim espantado, quase emocionado, como se estivesse a viver as sensações de Jacinto.
Por fim contei-lhe que de início ninguém acreditou nos três pastorinhos e eles sofreram muito até serem considerados santos.
O homem desceu à terra, recompôs-se na cadeira e disse: “sabe que na Síria se celebra o 23 de Março como dia de Nossa Senhora de Fátima?”
Não fazia a mínima ideia. Depois acrescentou qualquer coisa ao que a tradutora me comunicou, como quem transmite a um aluno que teve 20 valores na prova oral:
-“O meu chefe vai-lhe dar o visto para os quinze dias que pretende”
Agradeci ao chefe e saí satisfeito com a minha performance. Como era possível eu, um ateu, ser salvo por Nossa Senhora de Fátima? Achei que Ela deveria estar a pensar: “vamos lá ajudar este rapaz que está ali perdido no meio dos filisteus, tão perto da minha terra e sem fé nenhuma”.
Quando descíamos no elevador com o processo já assinado pelo chefe perguntei à rapariga porque se teria ele lembrado de Fátima ao que ela respondeu: “É que o meu chefe estudou muito Teologia”.
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