4 de dezembro de 2012

04 Dezembro - Back to Urumia

No Domingo fui finalmente buscar à Embaixada de Portugal em Teerão o “Carnet” que me enviaram de Portugal e sem o qual não podia entrar no país com a moto. 
À tarde liguei para o meu amigo que tem uma espécie de táxi que tinha andado às voltas comigo na manhã em que cheguei a Teerão. Dessa vez o carro podre em que ele tira a placa a dizer táxi da mala e coloca no tejadilho, tinha ficado sem motor de arranque a meio da manhã e eu fiz-lhe uma revisão eléctrica à beira da estrada que deu os seus frutos. O motor de arranque nunca mais deixou de trabalhar, mas agora eram as luzes que de vez em quando se apagavam. Disse-lhe que não pegava no trabalho de noite e lá me levou com o carro a acender e apagar as luzes até ao terminal dos autocarros. No fim não me queria cobrar o transporte e paguei-lhe quase à força. Pelo caminho passou por nós um outro tipo de táxi que ainda não tinha visto. Era conduzido por uma mulher e por fora dizia “women’s taxi”. Perguntei ao meu amigo o que era aquilo e ele disse que são táxis conduzidos por mulheres e reservados ao transporte de mulheres. Pedi-lhe que o apanhasse para tirar uma fotografia e ele respondeu: “É muito difícil porque as mulheres guiam muito bem e desembaraçam-se melhor no trânsito”

Apanhei o autocarro para Urumia às dez da noite e às oito da manhã estava a chegar à cidade do Hossein, que me esperava na central de camionagem. Contei-lhe que vinha no caminho a sonhar com o pequeno-almoço que a mãe dele faz, com excelentes ovos mexidos e compota e iogurte feitos por ela e lá fomos “at Sheakhloo’s for breakfast” antes de ele me levar à fronteira, a 50 Km dali, para levantar a moto.

Foi um processo complicado que durou perto de quatro horas com papeladas e mais papeladas a exigirem assinaturas de vários chefes perdidos ora no gabinete, ora no parque de estacionamento de terra, ora num outro edifício, sempre rodeados de um séquito de homens a quererem mais uma assinatura para conseguirem passar a fronteira. No final o chefe principal já se ria para mim e pediu-me desculpa por aquele tempo. Fui levantar a moto ao parque de segurança da fronteira, um lamaçal de onde me vi aflito para sair com a “Crosstourer” com pneus de estrada e voltámos finalmente a Urumia.

Já era tarde para me fazer à estrada de maneira que aproveitei para ir a um mecânico amigo do Hossein colar as protecções plásticas dos punhos que tinha partido nas vezes em que deixei a moto cair e que fazem falta nestes dias de baixas temperaturas pois não deixam o vento frio bater directamente nas mãos.

A semana passada um espanhol foi assaltado na estrada que eu pretendia apanhar e que passa junto a Teerão e por isso o Hossein recomendou-me seguir por um trajecto perto das fronteiras com o Iraque que é uma estrada com pouco movimento, mas onde não tem havido problemas.

Arranquei pelas dez e meia da manhã com o termómetro a marcar 5º.
Ontem tinha tido uma surpresa agradável quando fui atestar o depósito: paguei o equivalente a 4 euros. A gasolina de 95 octanas é vendida nas bombas a 22 cêntimos. Na província as bombas fora das cidades principais só têm gasolina de 85 octanas de maneira que foi a que tive que usar hoje. Essa custa 11 cêntimos o litro. A “Crosstourer” queixou-se um bocado, coitada, por lhe estar a dar de beber carrascão em vez de vinho de qualidade. Grilava em esforço a baixas rotações mas adaptou-se à situação. Que remédio. Também, a encher o depósito por 2 euros não se pode exigir muito.

Nestas estradas secundarias outro dos problemas é que as indicações muitas vezes estão só nos caracteres Farsi da língua deles e por isso tenho que parar, por vezes em sítios estranhos, para perguntar o caminho. Se em Teerão é difícil encontrar alguém que fale inglês aqui é quase impossível de maneira que lhes tenho que mostrar o mapa que consegui arranjar com as duas línguas para lhes explicar para onde quero ir.

Quando parei de uma das vezes cinco homens de bigode rodearam a moto e começaram todos a falar ao mesmo tempo sem que eu percebesse o que queriam. O problema é que um deles não saía da frente da moto. Por fim fui arrancando devagarinho a dizer que sim e mais também e a empurrar o homem com a moto até que ele lá se afastou. Não faço ideia o que quereriam.

Pelas quatro da tarde cheguei a uma cidade maior e perguntei a duas miúdas e um rapaz que vinham num carro, radiantes a acompanhar a moto, onde havia um Hotel. Eles ficaram satisfeitíssimos e trouxeram-me até um óptimo Hotel, quase novo, que pertence ao tio de uma das miúdas.

1 de dezembro de 2012

01 Dezembro - Tehran 7

Ontem fui visitar o principal Mercado de Teerão, a que eles chamam Bazar. O Bazar tem várias entradas que dão para uma avenida cortada à maioria do trânsito e é um emaranhado de pequenas ruelas cobertas que não têm mais de três metros de largura onde se vende de tudo. Embora quando entramos pareça uma confusão, está bem organizado pois tem uma parte de joalharias, onde mulheres vestidas de mantos pretos se perdem durante horas hipnotizadas pelo ouro e pedras preciosas e falsas, outra parte só de roupas, uma de frutas e especiarias, outra de electrodomésticos e por aí fora. Cada secção tem largas dezenas de pequenas lojas, algumas pouco mais que bancas com dois ou três metros quadrados. Está sempre cheio de gente pois é aqui que os locais da classe média e baixa fazem as suas compras e deve ser o único sítio onde o trânsito é proibido às motos, que se habituaram a circular nos passeios, nas faixas contrárias, a passar sinais encarnados, enfim temos a sensação que quem tem moto pode fazer o que quer. São milhares destas 125 a 4 tempos, todas muito parecidas, mas de dezenas de marcas diferentes, que parece terem conquistado a cidade. Temos a sensação de que mesmo que os decidissem pôr na ordem já era impossível porque não haveria polícias em todo o país para lhes acertar o passo.

Hoje fui tratar de renovar o meu Visto, que se veio a revelar tarefa complicada.
Andar com visto caducado no Irão representa prisão. Ouvi dizer que as prisões aqui não são nada acolhedoras de maneira que fui ao local que me indicaram em Teerão para tentar renová-lo, pois caducava dentro de dois dias.
Não pude sair antes do país porque só amanhã deve chegar o Carnet de Portugal que me permitirá ir levantar a moto à fronteira para seguir viagem.
Quando cheguei à esquadra da polícia onde tratam deste assunto começaram por me perguntar porque queria ficar mais tempo no país e se não tinha um avião para apanhar. Quando lhes digo que venho de moto olham sempre para mim com um ar de como quem diz: “mas o homem até que não tem cara de maluco” e começam a observar melhor a minha expressão como que à procura de algum traço que comprove a teoria deles, de que o rapaz não joga com o baralho todo. Esperam um pouco nesta observação e só depois voltam a falar. “Haaaa, veio de moto. Está bem. Já vamos tratar do seu caso. Espere sentado nessa cadeira”. Passado um quarto de hora mandaram-me comprar uma pasta em cartolina, como me lembro de ter na primária, dois impressos, fotocópia de passaporte e cópia de depósito de 300.000 reais (qualquer coisa como 11 euros) numa conta bancária do estado. Estava aberto o processo.
Voltei passada meia hora com depósito feito e tudo o resto preenchido. Entreguei o processo a uma menina que me mandou voltar a sentar na cadeira. Um quarto de hora depois fez-me sinal e indicou-me um colega fardado com quem deveria falar. O homem gentilmente disse-me para voltar amanhã de manhã. Pedi-lhe por favor que resolvesse o problema hoje porque tive medo que ao deixar passar um dia o processo pudesse emperrar definitivamente e o meu visto acabar entretanto.
Disse-me que ia ver o que podia fazer e entregou a papelada, acompanhada de uma ordem, a um rapaz mais novo que seguiu com ele para dentro do escritório.
Passado outro quarto de hora o rapaz saiu lá de dentro com o processo que entretanto já trazia apensa uma folha A4 totalmente escrita à mão, que me deixou apreensivo. Que raio de testamento teriam eles a dizer sobre mim?
Pediu que o seguisse até ao gabinete do chefe. Fiquei assustado. Tinham-me dito que isto era um processo relativamente simples e agora precisava de visitar o chefe?
Subimos num estreito elevador quatro andares até ao último piso. O rapaz mandou-me esperar numa sala onde em vez de velhas “tv guia” e “caras” tinha uma única revista com o Iman Khamenei na capa.
Passados dois minutos saiu do gabinete do chefe, a quem tinha entregue o meu processo, e uma secretaria também vestida com estes mantos pretos, em que parece que recortaram uma cara de uma revista e a colaram sobre o preto, sem que se veja um único cabelo ou pescoço, mandou-me entrar à frente dela para o gabinete do chefe.
Enquanto a rapariga fazia de tradutora o homem perguntou-me porque queria visitar por mais tempo o Irão, em que cidades tinha estado nos últimos quinze dias, que outras iria visitar nos 15 dias em que pretendia estender a minha estadia, em que países tinha passado antes de chegar ao Irão e por aí fora. Por fim, ficou muito intrigado por eu ter um carimbo de Marrocos no Passaporte.
Quando eu, já baralhado, não percebia se aquilo estava a correr bem ou mal o homem sai-se com esta:
-         “Fale-me sobre Fátima”
-         “Fátima?! Mas, Fátima, Fátima?
-         “Sim, fale-me sobre Fátima”.
Fiquei embasbacado. Fátima? Quando aqui digo que sou português normalmente debitam-me uma quantidade enorme de nomes de jogadores e treinadores de futebol, a maioria dos quais mal ouvi falar, agora de Fátima nunca ninguém me tinha falado. Ainda puxei pela memória para ver se haveria algum jogador que se chamasse José de Fátima ou qualquer coisa parecida mas não. O Homem queria mesmo que eu lhe falasse de Fátima.
Bem, tentei recordar o que me tinham ensinado na catequese quando tinha seis anos, fiz uma cara de anjo e contei a história dos três pastorinhos como se de um filme cheio de luz e estrelas se tratasse. Descrevi os três pastorinhos tranquilos a levarem o seu rebanho, nossa senhora a aparecer no céu cheia de luz e brilho, uma mulher linda que falava com uma voz meiga e doce para aquelas três crianças. Enquanto contava isto fazia gestos, abria os braços para mostrar a grandiosidade do acontecimento.
O homem olhava para mim espantado, quase emocionado, como se estivesse a viver as sensações de Jacinto.
Por fim contei-lhe que de início ninguém acreditou nos três pastorinhos e eles sofreram muito até serem considerados santos.
O homem desceu à terra, recompôs-se na cadeira e disse: “sabe que na Síria se celebra o 23 de Março como dia de Nossa Senhora de Fátima?”
Não fazia a mínima ideia. Depois acrescentou qualquer coisa ao que a tradutora me comunicou, como quem transmite a um aluno que teve 20 valores na prova oral:
-“O meu chefe vai-lhe dar o visto para os quinze dias que pretende”
Agradeci ao chefe e saí satisfeito com a minha performance. Como era possível eu, um ateu, ser salvo por Nossa Senhora de Fátima? Achei que Ela deveria estar a pensar: “vamos lá ajudar este rapaz que está ali perdido no meio dos filisteus, tão perto da minha terra e sem fé nenhuma”.
Quando descíamos no elevador com o processo já assinado pelo chefe perguntei à rapariga porque se teria ele lembrado de Fátima ao que ela respondeu: “É que o meu chefe estudou muito Teologia”.

28 de novembro de 2012

28 Novembro - Tehran 6

No outro dia encontrei num restaurante um casal em que ele era Finlandês e ela Japonesa. Aqui os poucos estrangeiros que se encontram metem logo conversa.  

Perguntei-lhes se era bom o que estavam a comer e como se chamava e eles disseram que sim, mas também não sabiam o nome. Tinham apontado para o que outro cliente estava a almoçar e foi assim que lhes trouxeram aquilo. Adoptei a mesma táctica e ficámos os três a comer a mesma coisa. O homem andava a viajar pela Asia há dois anos e chamou-me a atenção para um pormenor que ainda não tinha reparado: no Irão não há cães.

Depois de falar com outras pessoas confirmei o que se passa. Os Iranianos consideram o cão um animal sujo, com uma certa razão, diga-se de passagem. Como eles não estão com meias medidas decidiram que os cães são proibidos, ou seja, não são bem proibidos, mas quando alguém tem um cão, ele desaparece passado pouco tempo. Por esse motivo ninguém tem cães e nem os vemos como vadios. Simplesmente é uma espécie que está irradiada do país.

Entretanto, com a ajuda da Bahar, já comecei a perceber como se atravessa uma rua movimentada aqui em Teerão, estejamos ou não numa passagem para peões:
Entramos pela rua apinhada de transito como se nos fôssemos suicidar e depois, sem nunca parar, olhamos para os carros e motos que vêm direitos a nós e abrandamos ou aceleramos ligeiramente o passo para atravessar antes ou depois do veículo. Não podemos hesitar nem parar e muito menos voltar para trás. É confiança e... seja o que Alá quiser.

Como ainda sou um iniciado hoje a coisa correu mal e fiz uma pega de caras a uma moto. Fiquei agarrado ao farol e o homem disse qualquer coisa do género “marahar, rebéubéu pardais ao ninho” que traduzi como “que ganda fiho da pu….” Larguei o touro e ele seguiu viagem.

27 de novembro de 2012

27 Novembro - Tehran 5

Ontem e hoje andei a fazer visitas turísticas com a guia aqui do Hotel, a Bahar. Uma miúda muito gira que fala pelos cotovelos.
Fomos primeiro visitar o Palácio dos Sultões na parte baixa da cidade, depois o museu das joias, dentro do Banco Central Iraniano e hoje o Palácio dos últimos Shah, os Pahlavi pai e filho.

Com as voltas que demos pela cidade, comecei a perceber melhor os transportes públicos. Existe um metro, melhor que qualquer europeu pois foi construído há menos de dez anos e depois, além dos autocarros há não só os táxis normais como outros, idênticos, mas que fazem trajetos fixos e que estão parados numa praça à espera de terem dois ou mais clientes para arrancarem. 

Estes funcionam como autocarros. Se houver três ou quatro clientes diferentes vão todos no mesmo táxi e cada um paga um preço fixo. Para além disso há as moto táxi que são 125 que se desembaraçam do transito como ninguém e levam os clientes à pendura. Quando não morrem de ataque cardíaco chegam mais rapidamente ao destino. Como todos os transportes são baratos, mesmo para eles, fiquei com a sensação que só utilizam estes moto táxi quando estão atrasados para qualquer encontro importante.

No metro existem carruagens reservadas para mulheres e, ao entrar no primeiro autocarro atrás da Bahar ela disse-me “Não. Não pode entrar por este lado. Vá pela direita” A parte direita da porta lateral encaminha-nos para a parte da frente do autocarro, reservada aos homens, enquanto as mulheres viajam na parte de trás. Elas podem vir para o nosso lado, embora não seja muito comum, mas os homens jamais podem entrar na parte das mulheres. As duas secções estão separadas por uma barra e pudemos ficar, junto à barra, a falar um com o outro. Não fiquei com a sensação que estivéssemos a pecar.

Quando vínhamos de regresso do Palácio ao meu lado, na parte dos homens, vinham duas mulheres sentadas. Às tantas uma levantou-se para sair e um homem, sem reparar que era uma mulher que ali estava sentada, preparava-se para se sentar ao lado dela. Quando reparou, deu um salto e fugiu para a parte da frente do autocarro, não fosse alguém ver que ele ia cometendo o sacrilégio de se sentar ao lado de uma mulher. A mulher também fez um ar indignado como quem diz: “olha a lata do bicho, que se ia sentar aqui ao meu lado?!”

Como já tinha referido as mulheres são obrigadas a andar com a cabeça tapada e quando, antes de ontem, perguntei à minha amiga Hasala o que acontecia se a polícia as visse sem lenço na cabeça, ela disse-me que iam presas e apanhavam umas vergastadas nas pernas de maneira que é remédio santo: nenhuma se atreve. O extremismo é tal para evitar contacto entre homens e mulheres que a Bahar me contou que o mês passado um polícia a viu a despedir-se de uns clientes, à porta do Hotel, de aperto de mão e veio confirmar se ela tinha dado um aperto de mão aqueles homens. Ela teve que negar veementemente para não ir parar à esquadra. E com isto tudo lá namoram e casam e têm filhos.

Visitei os palácios, tanto dos antigos Sultões como dos mais recentes Shah mas não me impressionaram por aí além. Claro que são fantásticos mas não são de ficar com a boca aberta, a não ser pelos extraordinários tapetes.

O que verdadeiramente impressiona é a coleção de joias, entre as quais está o maior diamante do mundo e centenas de peças como espadas, frascos e caixas, acessórios para os cavalos, etc. com milhares de diamantes, rubis, esmeraldas, ouro e venha o diabo e escolha, de valor verdadeiramente incalculável, expostas no museu do banco nacional, protegidas por um sofisticado sistema de alarme e portas com um metro de espessura.

26 de novembro de 2012

26 Novembro - Tehran 4

Ontem fui com a minha amiga Hasala assistir ao último dia das comemorações da morte do Iman Hossein, que deu a vida pelo Islão há 1400 anos. Está um dia de sol lindo e a minha amiga conta-me, com uma certeza inabalável, que naquele dia, mesmo quando antes e depois estão tempos de tempestade, o sol brilha e não há nuvens no céu.

Aqui as semanas têm a mesma duração que as nossas, mas metade dos meses do ano têm 29 dias e a outra metade 30. Os meses começam em alturas diferentes (ontem foi dia 10 do mês de Moharam), enquanto os fins-de-semana são à nossa quinta e sexta feiras. A passagem do ano, por exemplo, que a eles calha no início da Primavera, nunca é no mesmo dia do ano, pois os 12 meses somam apenas 354 dias.

De manhã começámos por ir ver os desfiles no bairro dela, talvez os mais espectaculares aqui de Teerão. Novos e velhos não só percorrem as ruas com correntes a bater nas próprias costas, ao som de enormes tambores e com um pregador ao microfone de uma carrinha de caixa aberta que os segue a passo de tartaruga, como alguns rapazes se revezam para transportar sozinhos enormes estruturas metálicas, com estátuas de dragões e outras figuras, que se estendem pela largura das artérias do bairro. Conseguem dar poucos passos com aquele peso às costas e acreditam que só o podem fazer ajudados pela força sobrenatural que o Imã Hossein lhes transmite. Depois passam o fardo a outro candidato que enfia as correias nas costas onde apoia a armação. Os mais velhos encorajam aqueles rapazes com apoio moral e beijos na cara. É um pouco a versão deles de ir a pé a Fátima, neste caso talvez mais próxima de dar a volta ao recinto de joelhos.

Numa grande praça com um jardim e lago no meio outro animador leva as pessoas a rezarem enquanto andam à volta do lago a bater com a mão no peito.

As cenas espalham-se por várias ruas com grandes grupos, numa enorme algazarra de tambores e barulho de correntes a baterem nas costas dos dedicados fiéis, gerando a confusão no trânsito.

Passeámos de grupo em grupo e a Hasala até me perguntou se não me queria juntar ao sacrifício, reservado aos homens. Disse-lhe que estava melhor no papel de espectador e ficou um pouco desiludida.

Da parte da tarde fomos assistir a uma espécie de teatro que decorre num enorme espaço em terra batida, do tamanho aproximado de um campo de futebol e onde recriam a cena em que, há 1400 anos, depois de terem sacrificado o Iman Hossein, mataram toda a sua família, incluindo mulheres e crianças, para tal arrastando os miúdos pelo chão e pegando fogo às tendas onde viviam.

Esta cena começa com um homem a chorar aos altifalantes, enquanto conta a história do massacre, entusiasmando as pessoas para se juntarem a ele no choro. Vi mulheres a soluçarem, comovidas com aquela recordação de há 14 séculos. A fase mais espectacular é quando os supostos malfeitores pegam fogo às tendas que quase explodem com o combustível que têm dentro. A cena acaba com as crianças, presas por correntes, algumas com ar assustado perante tanta confusão e outras verdadeiros artistas a fingirem ser pontapeados e arrastados por homens armados de enormes espadas.

O teatro ao ar livre envolve camelos, o suposto cavalo de Hossein com manchas de sangue no dorso e homens que transportam lanças com réplicas de cabeças humanas espetadas na ponta.

Um espectáculo único.

22 de novembro de 2012

22 Novembro - Tehran 3

Ontem conheci uma miúda muito simpática, quando estava à procura de um  fotografo. Ela insistiu em acompanhar-me à loja e ficou à espera que eu tirasse a fotografia, para ver se tinha ficado tão giro como ao vivo.

A seguir parti para a embaixada da Índia e pediu-me o meu numero de telefone. Ligou mais tarde e combinámos que hoje me iria mostrar a cidade. Fui ter com ela ao local onde nos tínhamos encontrado no dia anterior, junto a uma estação de metro, e lá estava a miúda, impaciente. Levou-me até junto a um carro, mandou-me entrar para trás, sentou-se ao meu lado e apresentou-me a condutora …. a sua mãe. Não queria acreditar mas já não podia fugir. A mãe era uma mulher forte e grande que, se me desse uma lambada, virava-me ao contrário. Tinha o cabelo pintado de loiro e botox na boca. Assustadora.

Soube depois que o marido era militar e morreu na guerra, se calhar feita por ela.
Lá partimos os três, eu e a miúda sentados no banco de trás e a mãe ao volante, não para a programada visita à cidade, mas a caminho de um centro comercial onde a mãe pretendia fazer compras.

O centro comercial era daqueles que poderíamos ver num sítio como a Amadora, bastante pindérico, mas que a miúda me disse ser fantástico. Quando lá chegámos ficou muito espantada por eu não estar encantado com aquilo e não se cansava de me mostrar todas as “maravilhas” que lá havia como uns copos em vidro pintado e lojas iguais a todas as outras. A mãe, supostamente viciada em compras, enfiou-se numa sala de provas onde mal cabia a tentar enfiar uns jeans. De vez em quando chamava a filha para lhe perguntar se estavam bem e calculo que os conseguiu vestir porque acabou por comprá-los. De ali partimos para uma sapataria à procura de um par de sapatos que desse com os jeans. A filha continuava a dizer que a mãe passava a vida em compras. De vez em quando a mulher punha um comprimido ao buxo. A filha explicava que era por ter muito stress e eu só pedia que ela fosse tomando muitos daqueles comprimidos para não ter stress nenhum porque quando escolheu um par de sapatos “foleiro a olho” e me pediu a opinião eu disse que não gostava muito e aí deixou de ser simpática. Antes tinha-me convidado para um jantar de amigos onde haveria vinho e whisky. Eu perguntei à filha se ia e ela disse que claro, se eu ia ela também vinha. A mãe não gostou e passado pouco tempo o jantar já se tinha evaporado. Acabámos por almoçar à pressa e deixou-me num táxi.

Entretanto a filha tinha combinado irmos amanhã fazer ski, numa montanha aqui perto. Já me mandou mensagem para nos encontrarmos amanhã à mesma hora. Será que vou poder ir outra vez no banco de trás?

21 de novembro de 2012

21 Novembro - Tehran 2

Ontem estava de rastos, depois da viagem noturna de autocarro e da correria pelas embaixadas mal cá cheguei. Deitei-me cedo e hoje, pelas 9.30 estava na Embaixada da China, cujos guichets abriam às dez. Claro que o impresso que tirei da Internet não era o certo e faltavam fotografias e fotocópias disto e daquilo. Fui com um canadiano que estava no mesmo “embrulho” que eu a uma loja net e lá consegui o impresso correto e tirar fotografias e fotocópias a tempo de entregar os papéis antes do meio dia. 

É que aqui o fim de semana é à quinta e sexta e nos próximos Sábado e Domingo é feriado por serem os últimos dias dedicados ao Iman Hossein, o tal que morreu pelo Islão e por quem hoje em dia os Iranianos mais devotos chicoteiam as próprias costas com correntes. Reparei é que, tal como em Portugal com as procissões, aqui também esses costumes têm mais adeptos na província. Em Teerão ainda não vi ninguém a auto flagelar-se. Tenho visto é muita gente quase a ser atropelada. O transito é infernal e a regra estabelecida é que a prioridade é dos mais fortes. Assim os carros têm prioridade sobre as motos e ambos sobre os peões, haja passadeira ou não.

Atravessar uma rua movimentada é uma lotaria. Os peões atiram-se lá para dentro e vão fazendo de toureiros com os carros e motos que lhes fazem razias de um lado e outro. Habituados à cena todos avançam sem medo, sejam homens, crianças ou mulheres de burca.

Eu pareço um tótó à procura de uma folga para atravessar. Quando um taxista me atirou para o meio daquela selva porque o carro estava do outro lado da rua, eu às tantas agarrei-o porque achei que ele ia ser atropelado por uma moto. O homem desatou-se a rir e puxou-me para a frente tipo: vamos embora, seu nabo. Mesmo quando o sinal está encarnado para os carros é preciso ter imensa atenção porque muitas das motos não param no sinal, nem quando estão peões a atravessar na passadeira. Uma loucura, mas ainda não assisti a nenhum desastre.

Da parte da tarde fui visitar um dos poucos museus da cidade que exibia, essencialmente, cerâmica entre os séculos 1º e 5º AC. Almocei por perto, fiquei uma hora a ler num jardim junto ao Museu e regressei ao Hotel.

Aqui quase toda a gente se queixa do regime. Não gostam dos ayatollah nem do Presidente Ahmadinejad. Ao contrário do que eu pensava quem manda no país e põe e dispõe sobre as leis a vigorar não é o Presidente mas o Ayatollah Khamenei, sucessor de Khomeini. As pessoas de um modo geral não estão nada de acordo com estas leis facciosas e absurdas, mas resignam-se. É um povo muito simpático e espero que consigam um dia mudar o regime sem guerra ou ataques estrangeiros.

Hoje uma miúda contava-me que era uma tristeza porque não podiam ouvir música nem dançar e que o país era muito bom quando tinham o Chá no poder. O engraçado é que ela tinha 20 anos e o Chá foi deposto há 33.