28 de novembro de 2012

28 Novembro - Tehran 6

No outro dia encontrei num restaurante um casal em que ele era Finlandês e ela Japonesa. Aqui os poucos estrangeiros que se encontram metem logo conversa.  

Perguntei-lhes se era bom o que estavam a comer e como se chamava e eles disseram que sim, mas também não sabiam o nome. Tinham apontado para o que outro cliente estava a almoçar e foi assim que lhes trouxeram aquilo. Adoptei a mesma táctica e ficámos os três a comer a mesma coisa. O homem andava a viajar pela Asia há dois anos e chamou-me a atenção para um pormenor que ainda não tinha reparado: no Irão não há cães.

Depois de falar com outras pessoas confirmei o que se passa. Os Iranianos consideram o cão um animal sujo, com uma certa razão, diga-se de passagem. Como eles não estão com meias medidas decidiram que os cães são proibidos, ou seja, não são bem proibidos, mas quando alguém tem um cão, ele desaparece passado pouco tempo. Por esse motivo ninguém tem cães e nem os vemos como vadios. Simplesmente é uma espécie que está irradiada do país.

Entretanto, com a ajuda da Bahar, já comecei a perceber como se atravessa uma rua movimentada aqui em Teerão, estejamos ou não numa passagem para peões:
Entramos pela rua apinhada de transito como se nos fôssemos suicidar e depois, sem nunca parar, olhamos para os carros e motos que vêm direitos a nós e abrandamos ou aceleramos ligeiramente o passo para atravessar antes ou depois do veículo. Não podemos hesitar nem parar e muito menos voltar para trás. É confiança e... seja o que Alá quiser.

Como ainda sou um iniciado hoje a coisa correu mal e fiz uma pega de caras a uma moto. Fiquei agarrado ao farol e o homem disse qualquer coisa do género “marahar, rebéubéu pardais ao ninho” que traduzi como “que ganda fiho da pu….” Larguei o touro e ele seguiu viagem.

27 de novembro de 2012

27 Novembro - Tehran 5

Ontem e hoje andei a fazer visitas turísticas com a guia aqui do Hotel, a Bahar. Uma miúda muito gira que fala pelos cotovelos.
Fomos primeiro visitar o Palácio dos Sultões na parte baixa da cidade, depois o museu das joias, dentro do Banco Central Iraniano e hoje o Palácio dos últimos Shah, os Pahlavi pai e filho.

Com as voltas que demos pela cidade, comecei a perceber melhor os transportes públicos. Existe um metro, melhor que qualquer europeu pois foi construído há menos de dez anos e depois, além dos autocarros há não só os táxis normais como outros, idênticos, mas que fazem trajetos fixos e que estão parados numa praça à espera de terem dois ou mais clientes para arrancarem. 

Estes funcionam como autocarros. Se houver três ou quatro clientes diferentes vão todos no mesmo táxi e cada um paga um preço fixo. Para além disso há as moto táxi que são 125 que se desembaraçam do transito como ninguém e levam os clientes à pendura. Quando não morrem de ataque cardíaco chegam mais rapidamente ao destino. Como todos os transportes são baratos, mesmo para eles, fiquei com a sensação que só utilizam estes moto táxi quando estão atrasados para qualquer encontro importante.

No metro existem carruagens reservadas para mulheres e, ao entrar no primeiro autocarro atrás da Bahar ela disse-me “Não. Não pode entrar por este lado. Vá pela direita” A parte direita da porta lateral encaminha-nos para a parte da frente do autocarro, reservada aos homens, enquanto as mulheres viajam na parte de trás. Elas podem vir para o nosso lado, embora não seja muito comum, mas os homens jamais podem entrar na parte das mulheres. As duas secções estão separadas por uma barra e pudemos ficar, junto à barra, a falar um com o outro. Não fiquei com a sensação que estivéssemos a pecar.

Quando vínhamos de regresso do Palácio ao meu lado, na parte dos homens, vinham duas mulheres sentadas. Às tantas uma levantou-se para sair e um homem, sem reparar que era uma mulher que ali estava sentada, preparava-se para se sentar ao lado dela. Quando reparou, deu um salto e fugiu para a parte da frente do autocarro, não fosse alguém ver que ele ia cometendo o sacrilégio de se sentar ao lado de uma mulher. A mulher também fez um ar indignado como quem diz: “olha a lata do bicho, que se ia sentar aqui ao meu lado?!”

Como já tinha referido as mulheres são obrigadas a andar com a cabeça tapada e quando, antes de ontem, perguntei à minha amiga Hasala o que acontecia se a polícia as visse sem lenço na cabeça, ela disse-me que iam presas e apanhavam umas vergastadas nas pernas de maneira que é remédio santo: nenhuma se atreve. O extremismo é tal para evitar contacto entre homens e mulheres que a Bahar me contou que o mês passado um polícia a viu a despedir-se de uns clientes, à porta do Hotel, de aperto de mão e veio confirmar se ela tinha dado um aperto de mão aqueles homens. Ela teve que negar veementemente para não ir parar à esquadra. E com isto tudo lá namoram e casam e têm filhos.

Visitei os palácios, tanto dos antigos Sultões como dos mais recentes Shah mas não me impressionaram por aí além. Claro que são fantásticos mas não são de ficar com a boca aberta, a não ser pelos extraordinários tapetes.

O que verdadeiramente impressiona é a coleção de joias, entre as quais está o maior diamante do mundo e centenas de peças como espadas, frascos e caixas, acessórios para os cavalos, etc. com milhares de diamantes, rubis, esmeraldas, ouro e venha o diabo e escolha, de valor verdadeiramente incalculável, expostas no museu do banco nacional, protegidas por um sofisticado sistema de alarme e portas com um metro de espessura.

26 de novembro de 2012

26 Novembro - Tehran 4

Ontem fui com a minha amiga Hasala assistir ao último dia das comemorações da morte do Iman Hossein, que deu a vida pelo Islão há 1400 anos. Está um dia de sol lindo e a minha amiga conta-me, com uma certeza inabalável, que naquele dia, mesmo quando antes e depois estão tempos de tempestade, o sol brilha e não há nuvens no céu.

Aqui as semanas têm a mesma duração que as nossas, mas metade dos meses do ano têm 29 dias e a outra metade 30. Os meses começam em alturas diferentes (ontem foi dia 10 do mês de Moharam), enquanto os fins-de-semana são à nossa quinta e sexta feiras. A passagem do ano, por exemplo, que a eles calha no início da Primavera, nunca é no mesmo dia do ano, pois os 12 meses somam apenas 354 dias.

De manhã começámos por ir ver os desfiles no bairro dela, talvez os mais espectaculares aqui de Teerão. Novos e velhos não só percorrem as ruas com correntes a bater nas próprias costas, ao som de enormes tambores e com um pregador ao microfone de uma carrinha de caixa aberta que os segue a passo de tartaruga, como alguns rapazes se revezam para transportar sozinhos enormes estruturas metálicas, com estátuas de dragões e outras figuras, que se estendem pela largura das artérias do bairro. Conseguem dar poucos passos com aquele peso às costas e acreditam que só o podem fazer ajudados pela força sobrenatural que o Imã Hossein lhes transmite. Depois passam o fardo a outro candidato que enfia as correias nas costas onde apoia a armação. Os mais velhos encorajam aqueles rapazes com apoio moral e beijos na cara. É um pouco a versão deles de ir a pé a Fátima, neste caso talvez mais próxima de dar a volta ao recinto de joelhos.

Numa grande praça com um jardim e lago no meio outro animador leva as pessoas a rezarem enquanto andam à volta do lago a bater com a mão no peito.

As cenas espalham-se por várias ruas com grandes grupos, numa enorme algazarra de tambores e barulho de correntes a baterem nas costas dos dedicados fiéis, gerando a confusão no trânsito.

Passeámos de grupo em grupo e a Hasala até me perguntou se não me queria juntar ao sacrifício, reservado aos homens. Disse-lhe que estava melhor no papel de espectador e ficou um pouco desiludida.

Da parte da tarde fomos assistir a uma espécie de teatro que decorre num enorme espaço em terra batida, do tamanho aproximado de um campo de futebol e onde recriam a cena em que, há 1400 anos, depois de terem sacrificado o Iman Hossein, mataram toda a sua família, incluindo mulheres e crianças, para tal arrastando os miúdos pelo chão e pegando fogo às tendas onde viviam.

Esta cena começa com um homem a chorar aos altifalantes, enquanto conta a história do massacre, entusiasmando as pessoas para se juntarem a ele no choro. Vi mulheres a soluçarem, comovidas com aquela recordação de há 14 séculos. A fase mais espectacular é quando os supostos malfeitores pegam fogo às tendas que quase explodem com o combustível que têm dentro. A cena acaba com as crianças, presas por correntes, algumas com ar assustado perante tanta confusão e outras verdadeiros artistas a fingirem ser pontapeados e arrastados por homens armados de enormes espadas.

O teatro ao ar livre envolve camelos, o suposto cavalo de Hossein com manchas de sangue no dorso e homens que transportam lanças com réplicas de cabeças humanas espetadas na ponta.

Um espectáculo único.

22 de novembro de 2012

22 Novembro - Tehran 3

Ontem conheci uma miúda muito simpática, quando estava à procura de um  fotografo. Ela insistiu em acompanhar-me à loja e ficou à espera que eu tirasse a fotografia, para ver se tinha ficado tão giro como ao vivo.

A seguir parti para a embaixada da Índia e pediu-me o meu numero de telefone. Ligou mais tarde e combinámos que hoje me iria mostrar a cidade. Fui ter com ela ao local onde nos tínhamos encontrado no dia anterior, junto a uma estação de metro, e lá estava a miúda, impaciente. Levou-me até junto a um carro, mandou-me entrar para trás, sentou-se ao meu lado e apresentou-me a condutora …. a sua mãe. Não queria acreditar mas já não podia fugir. A mãe era uma mulher forte e grande que, se me desse uma lambada, virava-me ao contrário. Tinha o cabelo pintado de loiro e botox na boca. Assustadora.

Soube depois que o marido era militar e morreu na guerra, se calhar feita por ela.
Lá partimos os três, eu e a miúda sentados no banco de trás e a mãe ao volante, não para a programada visita à cidade, mas a caminho de um centro comercial onde a mãe pretendia fazer compras.

O centro comercial era daqueles que poderíamos ver num sítio como a Amadora, bastante pindérico, mas que a miúda me disse ser fantástico. Quando lá chegámos ficou muito espantada por eu não estar encantado com aquilo e não se cansava de me mostrar todas as “maravilhas” que lá havia como uns copos em vidro pintado e lojas iguais a todas as outras. A mãe, supostamente viciada em compras, enfiou-se numa sala de provas onde mal cabia a tentar enfiar uns jeans. De vez em quando chamava a filha para lhe perguntar se estavam bem e calculo que os conseguiu vestir porque acabou por comprá-los. De ali partimos para uma sapataria à procura de um par de sapatos que desse com os jeans. A filha continuava a dizer que a mãe passava a vida em compras. De vez em quando a mulher punha um comprimido ao buxo. A filha explicava que era por ter muito stress e eu só pedia que ela fosse tomando muitos daqueles comprimidos para não ter stress nenhum porque quando escolheu um par de sapatos “foleiro a olho” e me pediu a opinião eu disse que não gostava muito e aí deixou de ser simpática. Antes tinha-me convidado para um jantar de amigos onde haveria vinho e whisky. Eu perguntei à filha se ia e ela disse que claro, se eu ia ela também vinha. A mãe não gostou e passado pouco tempo o jantar já se tinha evaporado. Acabámos por almoçar à pressa e deixou-me num táxi.

Entretanto a filha tinha combinado irmos amanhã fazer ski, numa montanha aqui perto. Já me mandou mensagem para nos encontrarmos amanhã à mesma hora. Será que vou poder ir outra vez no banco de trás?

21 de novembro de 2012

21 Novembro - Tehran 2

Ontem estava de rastos, depois da viagem noturna de autocarro e da correria pelas embaixadas mal cá cheguei. Deitei-me cedo e hoje, pelas 9.30 estava na Embaixada da China, cujos guichets abriam às dez. Claro que o impresso que tirei da Internet não era o certo e faltavam fotografias e fotocópias disto e daquilo. Fui com um canadiano que estava no mesmo “embrulho” que eu a uma loja net e lá consegui o impresso correto e tirar fotografias e fotocópias a tempo de entregar os papéis antes do meio dia. 

É que aqui o fim de semana é à quinta e sexta e nos próximos Sábado e Domingo é feriado por serem os últimos dias dedicados ao Iman Hossein, o tal que morreu pelo Islão e por quem hoje em dia os Iranianos mais devotos chicoteiam as próprias costas com correntes. Reparei é que, tal como em Portugal com as procissões, aqui também esses costumes têm mais adeptos na província. Em Teerão ainda não vi ninguém a auto flagelar-se. Tenho visto é muita gente quase a ser atropelada. O transito é infernal e a regra estabelecida é que a prioridade é dos mais fortes. Assim os carros têm prioridade sobre as motos e ambos sobre os peões, haja passadeira ou não.

Atravessar uma rua movimentada é uma lotaria. Os peões atiram-se lá para dentro e vão fazendo de toureiros com os carros e motos que lhes fazem razias de um lado e outro. Habituados à cena todos avançam sem medo, sejam homens, crianças ou mulheres de burca.

Eu pareço um tótó à procura de uma folga para atravessar. Quando um taxista me atirou para o meio daquela selva porque o carro estava do outro lado da rua, eu às tantas agarrei-o porque achei que ele ia ser atropelado por uma moto. O homem desatou-se a rir e puxou-me para a frente tipo: vamos embora, seu nabo. Mesmo quando o sinal está encarnado para os carros é preciso ter imensa atenção porque muitas das motos não param no sinal, nem quando estão peões a atravessar na passadeira. Uma loucura, mas ainda não assisti a nenhum desastre.

Da parte da tarde fui visitar um dos poucos museus da cidade que exibia, essencialmente, cerâmica entre os séculos 1º e 5º AC. Almocei por perto, fiquei uma hora a ler num jardim junto ao Museu e regressei ao Hotel.

Aqui quase toda a gente se queixa do regime. Não gostam dos ayatollah nem do Presidente Ahmadinejad. Ao contrário do que eu pensava quem manda no país e põe e dispõe sobre as leis a vigorar não é o Presidente mas o Ayatollah Khamenei, sucessor de Khomeini. As pessoas de um modo geral não estão nada de acordo com estas leis facciosas e absurdas, mas resignam-se. É um povo muito simpático e espero que consigam um dia mudar o regime sem guerra ou ataques estrangeiros.

Hoje uma miúda contava-me que era uma tristeza porque não podiam ouvir música nem dançar e que o país era muito bom quando tinham o Chá no poder. O engraçado é que ela tinha 20 anos e o Chá foi deposto há 33.

20 de novembro de 2012

20 Novembro - Tehran

Durante a noite vim de autocarro para Teerão. Parti às dez da noite para aqui chegar às 8 da manhã. Espantosamente era de luxo. Muito confortável e com enorme espaço para cada banco que reclinava, levantava um apoio para pés, etc.

A família  Sheakhloo veio trazer-me ao autocarro. Um programa diferente, para variar dos homens que massacram as costas e cujo espetáculo representa o entretimento de homens e mulheres nestes primeiros dez serões do seu mês de Mohrram.

Quando chegámos aos escritórios da companhia de camionagem abri a porta e disse à mãe Sheakhloo para passar à frente, o que fez muito hesitante. Os três homens, criança incluída, desmancharam-se a rir com a minha atitude, totalmente radical na cultura deles.

Dormi razoavelmente no autocarro e tinha combinado com um motorista de táxi esperar por mim nos escritórios da companhia ALD. O mal é que ali todos os nomes estavam em Árabe, de maneira que não consegui ler os letreiros. Depois de andar 10 minutos para a frente e para trás à procura de quem falasse inglês, de entre centenas de pessoas lá me encontraram um recepcionista que, tendo vivido em vários países europeus, arranhava umas coisas. Ligou para o homem que era suposto esperar-me mas ele estava longe e rapidamente sugeriu ser ele a fazer o transporte, pois também tinha um táxi. Quando aceitei, o homem deixou os vários telefones que estava a atender, continuamente a tocarem, e arrancou comigo para o que ele apelidava do seu táxi. É mais lucrativa uma viagem de táxi ao centro de Teerão que passar a manhã a atender telefones. A viatura era um destes pequenos carros fabricados no Irão, a cair de podre e de cor cinzenta quando os táxis  aqui são amarelos ou verdes. O homem tirou um indicativo de táxi da mala que colocou no tejadilho e ficou pronto para a viagem. Como não tinha grande alternativa, pois parecia ser a única pessoa numa área de vários quilómetros quadrados a arranhar qualquer coisa de inglês, fizemo-nos à estrada, primeiro em direção à embaixada portuguesa, onde precisava de obter um papel para pedir o visto indiano, e depois à confusão que representa a embaixada Indiana.

O transito em Teerão é caótico, como seria de imaginar numa cidade com 10 milhões de habitantes em que cada um tenta furar por entre outros carros, peões e uma quantidade enorme de motos de 125 c.c. de fabricação local e que parecem cópias de Hondas antigas. Também cá fabricam o Peugeot 405 com motor 1600 a gasolina que aqui custa o equivalente a cerca de 13.000 euros, comparado com os 50.000 de um carro importado, como um Hyundai dos grandes.

Muitos carros têm pequenas moças mas não se percebe como não batem mais nem atiram com muitas motos ao chão. Cheguei à conclusão que é por não haver movimentos bruscos. Eles avançam diretos aos peões, estejam ou não nas passadeiras, e outros carros e motos com vontade mas sem fazerem movimentos bruscos o que faz com que todos vão percebendo as reações de cada um.

Durante estes dez dias de memória ao Iman Hossein, não se pode ouvir música, nem no carro e quando o meu amigo Hossein a ligou a caminho do autocarro a mãe pediu que desligasse.

Este semi taxista só dizia mal dos governantes, fossem eles Imã ou Presidente e mal entrou no pequeno charuto tratou logo de colocar uma cassete, à antiga, com música rock dos anos 70. Ainda não tínhamos chegado à primeira embaixada quando o homem deixou o carro ir abaixo e não voltou a pegar. Fiz ali uma revisão eléctrica à borda da estrada, no meio de carros a apitarem,  incluindo fusíveis e ligações do motor de arranque, e cheguei à conclusão que o problema era causado por verdete numa das fichas. Mostrei aquilo ao homem, raspei um pouco do verdete e tivemos outra vez viatura.

O transito é tão caótico que saímos às oito e meia do parque de camionagem, à entrada da cidade, passamos na Embaixada portuguesa, onde me demorei uma meia hora e quando chegámos à da India já era meio dia e estava a fechar. Ainda me deram os papéis para preencher mas disseram que regressasse amanhã.

19 de novembro de 2012

19 Novembro - Urmia 2

Quando vinha para Urmia no carro com este novo amigo Hossein e lhe perguntei se conhecia um Hotel onde eu pudesse ficar ele sugeriu que ficasse em sua casa, onde costumam alugar um quarto a viajantes. Aceitei e instalei-me aqui na pequena e modesta casa da família Sheakhloo.
O Hossein tem 21 anos e além do pai e da mãe vivem aqui um irmão de 8 anos, que não pára um segundo, e uma irmã de 18, que trabalha numa fábrica de bolachas. É uma família típica iraniana do que aqui se poderá considerar classe media. Está a ser uma experiencia única. Ao entrar em casa todos tiramos os sapatos, que ficam do lado de fora da casa.
Tinha dito ao Hossein que pretendia comer qualquer coisa de maneira que,  chegados a casa dos Sheakhloo a mãe rapidamente preparou uma refeição. Estendeu uma toalha no chão da sala, onde se servem sempre as refeições, e fritou umas salsichas que comemos acompanhadas de pão iraniano e iogurte,  sentados no chão. Aliás não é só na sala que se sentam no chão. Muitas vezes a mãe está sentada no chão da cozinha, que tem apenas um balcão a separá-la da sala, a tratar da refeição e quando a chamam surge por detrás do balcão.
 No Irão não se vende nem bebe álcool pelo que o pai Shaekhloo se sentou ao meu lado depois de almoço e, no seu parco inglês, me fez um inquérito sobre em que sítios se vendia álcool em Portugal, se eu já tinha provado whisky e se o preferia ao Vodka. Tanto ele como o filho ficaram muito espantados quando lhes disse que os miúdos em Portugal saíam à noite com 16 anos e bebiam álcool.
Aqui as mulheres não podem sair à rua ou trabalhar com a cabeça destapada nem se misturam com homens em locais como Mesquitas ou festas. Quando fui hoje a um restaurante almoçar com o Hossein ao lado havia uma loja de roupas para mulheres com saias curtas nas montras. Fiquei espantado e perguntei ao meu amigo como era possível venderem aquelas roupas se nas ruas e escritórios estão todas com saias muito mais compridas. Nas festas, contou-me ele, mas só para as outras mulheres verem pois mesmo nas festas de casamento, as mulheres estão numa sala e os homens noutra.
-          O quê? E então o que fazem nessas festas se nem sequer podem beber?
-          Falamos e dançamos?
-          Dançam? Como?
-          Homens com homens e mulheres com mulheres.
Não há sexo antes do casamento porque as mulheres, se perderem a virgindade, já não podem casar. A excepção são as divorciadas, que podem voltar a casar.
 Aqui têm um calendário diferente assim como a mudança de hora em relação à Turquia que não é de uma hora nem duas mas de uma hora e meia.
Quando cheguei ontem era o terceiro dia do mês de Mohrram no qual, os primeiros dez dias são dedicados ao Iman Hossein, que morreu pelo Islão. A forma de sofrerem por ele é irem para algumas praças da cidade, reunirem-se em grupos e, ao som de música, tambores e um incentivador num altifalante, baterem com umas correntes nas próprias costas, ao ritmo da música ou dos tambores. Um espectáculo impressionante. Tanto o Hossein como o irmão têm as suas próprias correntes e embora desta vez só o mais novo tenha entrado na cena, foi a família toda assistir a este espectáculo que representa o entretenimento nocturno destes dez dias. Há quem poupe as costas, como obviamente os miúdos que estão ali a treinar para quando forem grandes, mas há os que batem com força. Pelas onze da noite, já com as costas massacradas, os protagonistas vão para a Mesquita, onde é servido chá e uma espécie de bolas de berlim com creme mas sem açúcar. Acompanhei família masculina e amigos. Sapatos à porta e entramos numa pequena mesquita de bairro com construção de baixa qualidade mas fabulosos tapetes persas a cobrirem o chão. Sentamo-nos alguns no chão e outros em cadeiras junto às paredes. Fiquei perto de uma esquina e três lugares ao meu lado, na outra parede, está o guarda da mesquita, de metralhadora ao colo. Reparei que a metralhadora, por azar, estava apontada a mim pelo que mudei para o lugar ao lado, que estava livre. Toda a gente que vai saindo despede-se do guarda e fico com a sensação que é mais por respeito à metralhadora que ao homem em si. Às tantas houve um telemóvel de um amigo do Hossein que tocou, mais que uma vez. À segunda um homem refilou com o rapaz, que resmungou qualquer coisa. O guarda olhou com ar critico e no fim ralhou com outro dos amigos de Hossein ao que este, zangado, atirou com a sua echarpe com força contra um dos tabuleiros do chá. Estive para lhe dizer que era melhor não se zangar com o homem da metralhadora mas achei mais sensato não me meter no assunto.
Hoje à noite vou de autocarro para Teerão, para visitar a cidade e tratar dos vistos para a Índia e Emirados enquanto espero pela chegada do Carnet da moto que me permitirá ir buscá-la à fronteira, onde ficou ontem, para poder seguir viagem.