22 de novembro de 2012

22 Novembro - Tehran 3

Ontem conheci uma miúda muito simpática, quando estava à procura de um  fotografo. Ela insistiu em acompanhar-me à loja e ficou à espera que eu tirasse a fotografia, para ver se tinha ficado tão giro como ao vivo.

A seguir parti para a embaixada da Índia e pediu-me o meu numero de telefone. Ligou mais tarde e combinámos que hoje me iria mostrar a cidade. Fui ter com ela ao local onde nos tínhamos encontrado no dia anterior, junto a uma estação de metro, e lá estava a miúda, impaciente. Levou-me até junto a um carro, mandou-me entrar para trás, sentou-se ao meu lado e apresentou-me a condutora …. a sua mãe. Não queria acreditar mas já não podia fugir. A mãe era uma mulher forte e grande que, se me desse uma lambada, virava-me ao contrário. Tinha o cabelo pintado de loiro e botox na boca. Assustadora.

Soube depois que o marido era militar e morreu na guerra, se calhar feita por ela.
Lá partimos os três, eu e a miúda sentados no banco de trás e a mãe ao volante, não para a programada visita à cidade, mas a caminho de um centro comercial onde a mãe pretendia fazer compras.

O centro comercial era daqueles que poderíamos ver num sítio como a Amadora, bastante pindérico, mas que a miúda me disse ser fantástico. Quando lá chegámos ficou muito espantada por eu não estar encantado com aquilo e não se cansava de me mostrar todas as “maravilhas” que lá havia como uns copos em vidro pintado e lojas iguais a todas as outras. A mãe, supostamente viciada em compras, enfiou-se numa sala de provas onde mal cabia a tentar enfiar uns jeans. De vez em quando chamava a filha para lhe perguntar se estavam bem e calculo que os conseguiu vestir porque acabou por comprá-los. De ali partimos para uma sapataria à procura de um par de sapatos que desse com os jeans. A filha continuava a dizer que a mãe passava a vida em compras. De vez em quando a mulher punha um comprimido ao buxo. A filha explicava que era por ter muito stress e eu só pedia que ela fosse tomando muitos daqueles comprimidos para não ter stress nenhum porque quando escolheu um par de sapatos “foleiro a olho” e me pediu a opinião eu disse que não gostava muito e aí deixou de ser simpática. Antes tinha-me convidado para um jantar de amigos onde haveria vinho e whisky. Eu perguntei à filha se ia e ela disse que claro, se eu ia ela também vinha. A mãe não gostou e passado pouco tempo o jantar já se tinha evaporado. Acabámos por almoçar à pressa e deixou-me num táxi.

Entretanto a filha tinha combinado irmos amanhã fazer ski, numa montanha aqui perto. Já me mandou mensagem para nos encontrarmos amanhã à mesma hora. Será que vou poder ir outra vez no banco de trás?

21 de novembro de 2012

21 Novembro - Tehran 2

Ontem estava de rastos, depois da viagem noturna de autocarro e da correria pelas embaixadas mal cá cheguei. Deitei-me cedo e hoje, pelas 9.30 estava na Embaixada da China, cujos guichets abriam às dez. Claro que o impresso que tirei da Internet não era o certo e faltavam fotografias e fotocópias disto e daquilo. Fui com um canadiano que estava no mesmo “embrulho” que eu a uma loja net e lá consegui o impresso correto e tirar fotografias e fotocópias a tempo de entregar os papéis antes do meio dia. 

É que aqui o fim de semana é à quinta e sexta e nos próximos Sábado e Domingo é feriado por serem os últimos dias dedicados ao Iman Hossein, o tal que morreu pelo Islão e por quem hoje em dia os Iranianos mais devotos chicoteiam as próprias costas com correntes. Reparei é que, tal como em Portugal com as procissões, aqui também esses costumes têm mais adeptos na província. Em Teerão ainda não vi ninguém a auto flagelar-se. Tenho visto é muita gente quase a ser atropelada. O transito é infernal e a regra estabelecida é que a prioridade é dos mais fortes. Assim os carros têm prioridade sobre as motos e ambos sobre os peões, haja passadeira ou não.

Atravessar uma rua movimentada é uma lotaria. Os peões atiram-se lá para dentro e vão fazendo de toureiros com os carros e motos que lhes fazem razias de um lado e outro. Habituados à cena todos avançam sem medo, sejam homens, crianças ou mulheres de burca.

Eu pareço um tótó à procura de uma folga para atravessar. Quando um taxista me atirou para o meio daquela selva porque o carro estava do outro lado da rua, eu às tantas agarrei-o porque achei que ele ia ser atropelado por uma moto. O homem desatou-se a rir e puxou-me para a frente tipo: vamos embora, seu nabo. Mesmo quando o sinal está encarnado para os carros é preciso ter imensa atenção porque muitas das motos não param no sinal, nem quando estão peões a atravessar na passadeira. Uma loucura, mas ainda não assisti a nenhum desastre.

Da parte da tarde fui visitar um dos poucos museus da cidade que exibia, essencialmente, cerâmica entre os séculos 1º e 5º AC. Almocei por perto, fiquei uma hora a ler num jardim junto ao Museu e regressei ao Hotel.

Aqui quase toda a gente se queixa do regime. Não gostam dos ayatollah nem do Presidente Ahmadinejad. Ao contrário do que eu pensava quem manda no país e põe e dispõe sobre as leis a vigorar não é o Presidente mas o Ayatollah Khamenei, sucessor de Khomeini. As pessoas de um modo geral não estão nada de acordo com estas leis facciosas e absurdas, mas resignam-se. É um povo muito simpático e espero que consigam um dia mudar o regime sem guerra ou ataques estrangeiros.

Hoje uma miúda contava-me que era uma tristeza porque não podiam ouvir música nem dançar e que o país era muito bom quando tinham o Chá no poder. O engraçado é que ela tinha 20 anos e o Chá foi deposto há 33.

20 de novembro de 2012

20 Novembro - Tehran

Durante a noite vim de autocarro para Teerão. Parti às dez da noite para aqui chegar às 8 da manhã. Espantosamente era de luxo. Muito confortável e com enorme espaço para cada banco que reclinava, levantava um apoio para pés, etc.

A família  Sheakhloo veio trazer-me ao autocarro. Um programa diferente, para variar dos homens que massacram as costas e cujo espetáculo representa o entretimento de homens e mulheres nestes primeiros dez serões do seu mês de Mohrram.

Quando chegámos aos escritórios da companhia de camionagem abri a porta e disse à mãe Sheakhloo para passar à frente, o que fez muito hesitante. Os três homens, criança incluída, desmancharam-se a rir com a minha atitude, totalmente radical na cultura deles.

Dormi razoavelmente no autocarro e tinha combinado com um motorista de táxi esperar por mim nos escritórios da companhia ALD. O mal é que ali todos os nomes estavam em Árabe, de maneira que não consegui ler os letreiros. Depois de andar 10 minutos para a frente e para trás à procura de quem falasse inglês, de entre centenas de pessoas lá me encontraram um recepcionista que, tendo vivido em vários países europeus, arranhava umas coisas. Ligou para o homem que era suposto esperar-me mas ele estava longe e rapidamente sugeriu ser ele a fazer o transporte, pois também tinha um táxi. Quando aceitei, o homem deixou os vários telefones que estava a atender, continuamente a tocarem, e arrancou comigo para o que ele apelidava do seu táxi. É mais lucrativa uma viagem de táxi ao centro de Teerão que passar a manhã a atender telefones. A viatura era um destes pequenos carros fabricados no Irão, a cair de podre e de cor cinzenta quando os táxis  aqui são amarelos ou verdes. O homem tirou um indicativo de táxi da mala que colocou no tejadilho e ficou pronto para a viagem. Como não tinha grande alternativa, pois parecia ser a única pessoa numa área de vários quilómetros quadrados a arranhar qualquer coisa de inglês, fizemo-nos à estrada, primeiro em direção à embaixada portuguesa, onde precisava de obter um papel para pedir o visto indiano, e depois à confusão que representa a embaixada Indiana.

O transito em Teerão é caótico, como seria de imaginar numa cidade com 10 milhões de habitantes em que cada um tenta furar por entre outros carros, peões e uma quantidade enorme de motos de 125 c.c. de fabricação local e que parecem cópias de Hondas antigas. Também cá fabricam o Peugeot 405 com motor 1600 a gasolina que aqui custa o equivalente a cerca de 13.000 euros, comparado com os 50.000 de um carro importado, como um Hyundai dos grandes.

Muitos carros têm pequenas moças mas não se percebe como não batem mais nem atiram com muitas motos ao chão. Cheguei à conclusão que é por não haver movimentos bruscos. Eles avançam diretos aos peões, estejam ou não nas passadeiras, e outros carros e motos com vontade mas sem fazerem movimentos bruscos o que faz com que todos vão percebendo as reações de cada um.

Durante estes dez dias de memória ao Iman Hossein, não se pode ouvir música, nem no carro e quando o meu amigo Hossein a ligou a caminho do autocarro a mãe pediu que desligasse.

Este semi taxista só dizia mal dos governantes, fossem eles Imã ou Presidente e mal entrou no pequeno charuto tratou logo de colocar uma cassete, à antiga, com música rock dos anos 70. Ainda não tínhamos chegado à primeira embaixada quando o homem deixou o carro ir abaixo e não voltou a pegar. Fiz ali uma revisão eléctrica à borda da estrada, no meio de carros a apitarem,  incluindo fusíveis e ligações do motor de arranque, e cheguei à conclusão que o problema era causado por verdete numa das fichas. Mostrei aquilo ao homem, raspei um pouco do verdete e tivemos outra vez viatura.

O transito é tão caótico que saímos às oito e meia do parque de camionagem, à entrada da cidade, passamos na Embaixada portuguesa, onde me demorei uma meia hora e quando chegámos à da India já era meio dia e estava a fechar. Ainda me deram os papéis para preencher mas disseram que regressasse amanhã.

19 de novembro de 2012

19 Novembro - Urmia 2

Quando vinha para Urmia no carro com este novo amigo Hossein e lhe perguntei se conhecia um Hotel onde eu pudesse ficar ele sugeriu que ficasse em sua casa, onde costumam alugar um quarto a viajantes. Aceitei e instalei-me aqui na pequena e modesta casa da família Sheakhloo.
O Hossein tem 21 anos e além do pai e da mãe vivem aqui um irmão de 8 anos, que não pára um segundo, e uma irmã de 18, que trabalha numa fábrica de bolachas. É uma família típica iraniana do que aqui se poderá considerar classe media. Está a ser uma experiencia única. Ao entrar em casa todos tiramos os sapatos, que ficam do lado de fora da casa.
Tinha dito ao Hossein que pretendia comer qualquer coisa de maneira que,  chegados a casa dos Sheakhloo a mãe rapidamente preparou uma refeição. Estendeu uma toalha no chão da sala, onde se servem sempre as refeições, e fritou umas salsichas que comemos acompanhadas de pão iraniano e iogurte,  sentados no chão. Aliás não é só na sala que se sentam no chão. Muitas vezes a mãe está sentada no chão da cozinha, que tem apenas um balcão a separá-la da sala, a tratar da refeição e quando a chamam surge por detrás do balcão.
 No Irão não se vende nem bebe álcool pelo que o pai Shaekhloo se sentou ao meu lado depois de almoço e, no seu parco inglês, me fez um inquérito sobre em que sítios se vendia álcool em Portugal, se eu já tinha provado whisky e se o preferia ao Vodka. Tanto ele como o filho ficaram muito espantados quando lhes disse que os miúdos em Portugal saíam à noite com 16 anos e bebiam álcool.
Aqui as mulheres não podem sair à rua ou trabalhar com a cabeça destapada nem se misturam com homens em locais como Mesquitas ou festas. Quando fui hoje a um restaurante almoçar com o Hossein ao lado havia uma loja de roupas para mulheres com saias curtas nas montras. Fiquei espantado e perguntei ao meu amigo como era possível venderem aquelas roupas se nas ruas e escritórios estão todas com saias muito mais compridas. Nas festas, contou-me ele, mas só para as outras mulheres verem pois mesmo nas festas de casamento, as mulheres estão numa sala e os homens noutra.
-          O quê? E então o que fazem nessas festas se nem sequer podem beber?
-          Falamos e dançamos?
-          Dançam? Como?
-          Homens com homens e mulheres com mulheres.
Não há sexo antes do casamento porque as mulheres, se perderem a virgindade, já não podem casar. A excepção são as divorciadas, que podem voltar a casar.
 Aqui têm um calendário diferente assim como a mudança de hora em relação à Turquia que não é de uma hora nem duas mas de uma hora e meia.
Quando cheguei ontem era o terceiro dia do mês de Mohrram no qual, os primeiros dez dias são dedicados ao Iman Hossein, que morreu pelo Islão. A forma de sofrerem por ele é irem para algumas praças da cidade, reunirem-se em grupos e, ao som de música, tambores e um incentivador num altifalante, baterem com umas correntes nas próprias costas, ao ritmo da música ou dos tambores. Um espectáculo impressionante. Tanto o Hossein como o irmão têm as suas próprias correntes e embora desta vez só o mais novo tenha entrado na cena, foi a família toda assistir a este espectáculo que representa o entretenimento nocturno destes dez dias. Há quem poupe as costas, como obviamente os miúdos que estão ali a treinar para quando forem grandes, mas há os que batem com força. Pelas onze da noite, já com as costas massacradas, os protagonistas vão para a Mesquita, onde é servido chá e uma espécie de bolas de berlim com creme mas sem açúcar. Acompanhei família masculina e amigos. Sapatos à porta e entramos numa pequena mesquita de bairro com construção de baixa qualidade mas fabulosos tapetes persas a cobrirem o chão. Sentamo-nos alguns no chão e outros em cadeiras junto às paredes. Fiquei perto de uma esquina e três lugares ao meu lado, na outra parede, está o guarda da mesquita, de metralhadora ao colo. Reparei que a metralhadora, por azar, estava apontada a mim pelo que mudei para o lugar ao lado, que estava livre. Toda a gente que vai saindo despede-se do guarda e fico com a sensação que é mais por respeito à metralhadora que ao homem em si. Às tantas houve um telemóvel de um amigo do Hossein que tocou, mais que uma vez. À segunda um homem refilou com o rapaz, que resmungou qualquer coisa. O guarda olhou com ar critico e no fim ralhou com outro dos amigos de Hossein ao que este, zangado, atirou com a sua echarpe com força contra um dos tabuleiros do chá. Estive para lhe dizer que era melhor não se zangar com o homem da metralhadora mas achei mais sensato não me meter no assunto.
Hoje à noite vou de autocarro para Teerão, para visitar a cidade e tratar dos vistos para a Índia e Emirados enquanto espero pela chegada do Carnet da moto que me permitirá ir buscá-la à fronteira, onde ficou ontem, para poder seguir viagem.

18 de novembro de 2012

18 Novembro - Urmia 1

Ontem à noite, depois de ouvir aquela discussão política entre três amigos fui almoçar a uma tasca a uns 200 metros daquele Hotel que tinha uma vista fantástica sobre o lago, mas as cortinas do restaurante  estavam fechadas, mesmo durante o dia. Por um lado não admira porque quando as abri o jardim sobre o lago estava com chapéus de sol podres no chão e lixo por todo o lado.
O criado da tasca, que não dizia uma palavra de inglês, perguntou-me, no fim do jantar, como todos fazem, se queria um chá. Respondi que sim e então, com a maior das naturalidades, trouxe dois e sentou-se à minha mesa a tomar chá comigo. Não dissemos nada um ao outro, mas ele achou que fazia parte beber um chá com o cliente.
Hoje saí às nove e meia com intenção de tentar passar a fronteira à hora de almoço. A estrada variava entre grandes rectas bem alcatroadas até troços muito ondulados e outros em reparação, com partes em gravilha.
A cerca de 150 Km da fronteira uma situação curiosa: estão a montar um oleoduto em direção ao Irão com quilómetros de tubo com cerca de metro e meio de diâmetro estendidos ao longo da estrada e outros já colocados. No entanto, hoje em dia é proibida a importação de petróleo do Irão, uma sanção estabelecida pelas nações unidas. Será que estão a montar este oleoduto já a pensar que a sanção vai durar pouco ou que estão à espera que os Americanos ataquem o Irão e fiquem eles a controlar a exploração petrolífera, como fazem no Iraque?
Mais à frente a primeira de várias operações stop feitas por militares. Nesta  estavam a revistar todos os carros dos convidados de um casamento enquanto o carro da noiva, parado cem metros à frente, já tinha sido visto e esperava que todos os convidados recuperassem o seu lugar na caravana. Aliás hoje, não sei se por ser domingo, passei por várias caravanas de convidados de casamento com o carro da noiva à frente, decorado com fitas não brancas mas coloridas, não sei se com as cores da bandeira curda. Estas caravanas que são formadas por muita charutada e duas ou três Ford Transit que transportam os convidados sem carro, levam por vezes uma pick up à frente com vários homens na caixa de carga a filmarem ou tirarem fotografias. Quando ultrapassei uma das caravanas estes homens da pick up fizeram-me sinal para esperar mais um pouco atrás deles e assim vou fazer parte do filme de um casamento curdo.
Mais à frente os militares de outra operação stop mandaram-me parar só para saberem de que nacionalidade era e para onde ia.
Na ultima cidade antes da fronteira alguns deste militares faziam a operação stop vestidos à paisana, de metralhadora na mão. Até pensei que fossem revolucionários mas não, na fronteira disseram-me que se fossem revolucionários já estariam presos.
Cheguei à fronteira no meio de uma confusão de camiões e carrinhas Ford Transit, que aqui são o transporte mais utilizado nas deslocações entre cidades. Formavam um tal caos que, ao passar por eles, não percebi que tinha atravessado o lado turco da fronteira sem parar na polícia ou alfandega. Já estava em território iraniano quando um guarda turco me chamou, do lado de fora, a dizer para eu voltar atrás com a moto e cumprir os trâmites. Dei meia volta e ele destacou um miúdo dos seus 12 anos que foi comigo, a correr ao lado da moto, aos vários postos de controle. Lá resolvemos a situação naquela alfândega decrépita e passei para o lado iraniano. Aqui, depois de me revistarem as malas
mandaram-me falar com o chefe que, embora eu já tivesse o selo do visto, iria analisar novamente o meu processo para ver se me dava ordem de passagem. Um soldado levou-me por entre o povo até ao gabinete do chefe. Era um miúdo que não teria trinta anos. Mandou-me sentar numa cadeira afastada uns 5 metros da dele, olhou para o meu passaporte e passou meia hora ora a colocar o passaporte numa máquina de laser, ora a consultar o computador ora a olhar uma vez mais para o Passaporte. Fez-me poucas perguntas e deu sempre o ar que estava a hesitar deixar-me entrar. Por que cidades pretende passar? Porquê?
Passada meia hora mandou o ajudante carimbar o passaporte e passou-mo para as mãos. Quando estava convencido que podia partir com a moto surge outro chefe, este responsável pela entrada de veículos, que me disse logo que não havia qualquer hipótese de passar com a moto sem Carnet. Resultado: a moto ficou na fronteira à espera da chegada do Carnet e eu segui até uma cidade próxima com um rapaz de quem me tinham dado o contacto.

17 de novembro de 2012

17 Novembro - Gevas

Ontem ao fim do dia, quando estava a arrumar a moto em cima do passeio, em frente ao Hotel, voltei a cair. Ia em primeira pelo passeio, devagar e, para desviar de umas pessoas encostei demais a um pilar de cimento, bati com a mala esquerda no pilar e…. pumba, saltou a mala fora e eu caí para a direita. Felizmente só se partiu o suporte inferior da mala mas está lá no sítio e veio bem.
O dono do Hotel convidou-me para jantar com mais um amigo e ficámos na conversa até tarde. Falavam os dois inglês. Já tinha saudades de ter uma conversa sem ser por gestos.
De manhã, quando saí do Hotel, pelas 10.30, duas miúdas, por acaso bem giras, saíam do cabeleireiro ao lado com o ar de quem vinham de fazer um penteado lindo. Com elas um tipo com mau aspecto que mandou uma afastar-se para eu passar. Até aqui tudo normal naquela cultura. O caricato é que as duas miúdas eram daquelas que usam um lenço a tapar a cabeça. E não o usam só para andar na rua. Quando o têm é para não o tirarem quando vão ao restaurante ou, calculo, quando têm alguém a jantar em casa. Ou seja, o penteado maravilhoso é para ser visto não se sabe bem por quem. O que faz confusão é que nem todas andam com a cabeça tapada. Algumas andam vestidas à ocidental sem nada na cabeça enquanto as mulheres mais velhas e as novas com pais mais radicais vestem túnicas pretas com a cara tapada e só os olhos à vista.
O dia de hoje foi um passeio lindo. A cidade onde estava, Erzurum, fica num planalto, a 2000 metros de altitude. Comecei por rodar uns 150 Km nesse planalto, no meio de uma serra onde por vezes subia a mais de 2500 metros, para depois descer, junto a um rio, para perto do nível do mar, com a paisagem a ganhar alguns verdes e acabar num enorme lago.
Antes de descer do planalto o GPS enviou-me por uma estrada secundária onde poupava cerca de 30 Km. Hesitei mas acabei por aceitar o pedido do aparelho e andei por uma estrada primeiro muito estreita de mau piso para depois passar para uma em reparação onde cerca de 10 Km eram em terra com muita gravilha solta. Neste tipo de piso a “Cross Tourer” com estes pneus de estrada fica difícil de guiar porque vai como que a flutuar em cima da gravilha, a escorregar muito. Já estava habituado à situação e sabia que não podia ir devagar de mais. Correu tudo bem.
Rodei depois junto ao lago, com mais uma paisagem fantástica, com o lago dum lado e montanhas com neve no topo do outro.
Como já estou perto da fronteira iraniana, além de às vezes haver aqui ações revoltosas dos curdos do PKK, voltei a encontrar uma operação stop feita por militares armados mas, não me acharam com ar de terrorista, e mandaram-me seguir viagem. Vi aqui na net que tinham prendido na região 22 membros do PKK nas ultimas 24 horas. Aliás tenho a impressão que tenho aqui uma reunião política na sala do Hotel manhoso a que vim parar, como de costume. Tive que vir para a sala porque a Internet não funciona no quarto e estão três homens numa grande discussão em que a única coisa que percebo é Arafat. Um deles fala muito do Arafat. Deve estar a dizer: “quando o Arafat era vivo ajudava-nos sempre. Agora é uma desgraça, ninguém nos apoia e ainda acabamos presos”.
Muito chá bebem estes tipos. Qualquer motivo é bom para mais um chá. Já beberam três cada um. Eu que não bebia chá lá me tenho safado a beber só três ou quatro por dia porque às vezes não posso mesmo recusar. Agora já está aqui mais um copo à minha frente. Vou disfarçar.
Amanhã vou tentar passar a fronteira para o Irão, mesmo se ainda não tenho o Carnet da moto. Se não me deixarem terei que me instalar numa cidade deste lado da fronteira a esperar pela chegada do Carnet, que estão a tratar aí na Honda.

16 de novembro de 2012

16 Novembro - Erzurum 2

Quando cheguei ontem a Erzurum, fui direito ao consulado iraniano. Já me tinham dito que são homens difíceis, que não dão vistos a qualquer um. À noite o dono do Hotel contou-me que tinha cá tido um Inglês o mês passado que ficou dez dias à espera do visto e no fim . . . não lho deram. Também percebe-se, era bife. Nós pelo menos nunca ameaçámos que bombardeávamos Teerão, não fossem eles responder à ameaça e tínhamos todos que fugir para Espanha. A porta está fechada e demoram a atender a campainha. Finalmente entrei. Sou recebido por um homem que me pergunta se já tenho o código.
- Não.
Qual código?
- Não tem código? Disse com ar espantado. Tem que ter um numero de código.
- E como obtenho esse numero de código?
Escreveu-me o nome de um site governamental num papel rasgado e disse para me inscrever lá que passados três dias me dariam um código.
- Três dias??? Só para ter o código? E depois?
- Depois vem aqui e eu trato-lhe do visto.
Fui resignado procurar um Hotel para chegar à internet. Não se conseguia entrar no site. Depois de muito rebuscar consegui abrir um parecido, mas estava escrito em árabe. Voltei para a reabertura das duas e meia. Um miúdo alemão com bom aspecto mas com a sujidade de andar de mochila às costas a acampar pelos cantos, esperava pelo seu visto. Estava há três dias à volta do processo mas a ele não tinham pedido código. Disseram-lhe para voltar às cinco. Ele, sem nada que fazer até às cinco, pediu se podia esperar ali que estava frio na rua. Responderam que sim e passados cinco minutos apareceram com o passaporte dele com o visto. O miúdo parecia ter ganho a lotaria. Anda há dois meses à boleia e já tinha estado na fronteira mas mandaram-no aqui de volta tratar do visto. Contou que só podia pedir boleia de dia porque quando fica noite param homens a perguntar: “do you want to have sex”?
Quando fui atendido expliquei que não tinha conseguido entrar no site. O homem mandou-me esperar e desapareceu durante meia hora. Surgiu depois para me dizer que o Cônsul ia falar comigo. Comecei a ver o caso mal parado. Esperei mais meia hora numa sala com meia dúzia de cadeiras vazias sob o olhar de uma câmara. Fiz um ar de santinho de esquerda porque achei que estava a ser observado pelo cônsul. Penso que o tempo de espera também faz parte do processo de avaliação dos candidatos. O empregado do consulado deve estar lá dentro com o cônsul a olharem para o ecrã com as imagens da sala e perguntar: - Sr. Cônsul, acha que este já esperou tempo suficiente? Se ainda não se foi embora quer dizer que quer mesmo ir lá ao Irão. Ao que o cônsul responde:
- Não. Aguenta mais um bocadinho para ver se o homem está mesmo empenhado em lá ir.
Por fim lá voltou a surgir de lá de dentro e passou-me um telefone dos ainda com fio. Do outro lado a voz rouca e calma do Cônsul.
- Yes?
- Contei-lhe o meu esforço inglório para obter o famoso código. Pareceu compreensivo. Perguntou-me de onde era, o que fazia, etc. Não me perguntou a cor dos olhos porque já devia saber. Achei que aquela câmara, enquanto me filmava, estava a fazer uma busca na internet. Já deviam saber se tinha chorado quando nasci. Finalmente mandou-me lá voltar hoje às nove com uma promessa de visto.
Sempre que me levanto cedo o dia começa mal. Ontem à noite o dono do Hotel, que fica no centro da cidade, tinha-me dito para pôr a moto na entrada, um corredor estreito antes de uma escada que dá para a recepção no primeiro andar. Aquilo tinha um degrau alto e eu hesitei mas, perante a insistência do homem, que a moto ficava mais segura ali, lá a coloquei no corredor. Hoje de manhã, para a tirar, desci o alto degrau com a moto à mão e . . . patapum, motorizada no chão contra o letreiro luminoso do Hotel, que se desfez em cacos. A moto só partiu a proteção do punho do lado direito. Como a do lado esquerdo já estava partida ficou equilibrada.
Lá fui ao consulado. Mandaram-me preencher um papel, trazer duas fotografias e uma prova de depósito na conta deles de 75 euros. Nem dólares, nem liras turcas ou moeda iraniana. Euros, em “cash”. Por caso ainda tinha. Ao fim da manhã fui entregar a papelada e às cinco recolher o passaporte já com o famoso visto. Huf.