16 de novembro de 2012

16 Novembro - Erzurum 2

Quando cheguei ontem a Erzurum, fui direito ao consulado iraniano. Já me tinham dito que são homens difíceis, que não dão vistos a qualquer um. À noite o dono do Hotel contou-me que tinha cá tido um Inglês o mês passado que ficou dez dias à espera do visto e no fim . . . não lho deram. Também percebe-se, era bife. Nós pelo menos nunca ameaçámos que bombardeávamos Teerão, não fossem eles responder à ameaça e tínhamos todos que fugir para Espanha. A porta está fechada e demoram a atender a campainha. Finalmente entrei. Sou recebido por um homem que me pergunta se já tenho o código.
- Não.
Qual código?
- Não tem código? Disse com ar espantado. Tem que ter um numero de código.
- E como obtenho esse numero de código?
Escreveu-me o nome de um site governamental num papel rasgado e disse para me inscrever lá que passados três dias me dariam um código.
- Três dias??? Só para ter o código? E depois?
- Depois vem aqui e eu trato-lhe do visto.
Fui resignado procurar um Hotel para chegar à internet. Não se conseguia entrar no site. Depois de muito rebuscar consegui abrir um parecido, mas estava escrito em árabe. Voltei para a reabertura das duas e meia. Um miúdo alemão com bom aspecto mas com a sujidade de andar de mochila às costas a acampar pelos cantos, esperava pelo seu visto. Estava há três dias à volta do processo mas a ele não tinham pedido código. Disseram-lhe para voltar às cinco. Ele, sem nada que fazer até às cinco, pediu se podia esperar ali que estava frio na rua. Responderam que sim e passados cinco minutos apareceram com o passaporte dele com o visto. O miúdo parecia ter ganho a lotaria. Anda há dois meses à boleia e já tinha estado na fronteira mas mandaram-no aqui de volta tratar do visto. Contou que só podia pedir boleia de dia porque quando fica noite param homens a perguntar: “do you want to have sex”?
Quando fui atendido expliquei que não tinha conseguido entrar no site. O homem mandou-me esperar e desapareceu durante meia hora. Surgiu depois para me dizer que o Cônsul ia falar comigo. Comecei a ver o caso mal parado. Esperei mais meia hora numa sala com meia dúzia de cadeiras vazias sob o olhar de uma câmara. Fiz um ar de santinho de esquerda porque achei que estava a ser observado pelo cônsul. Penso que o tempo de espera também faz parte do processo de avaliação dos candidatos. O empregado do consulado deve estar lá dentro com o cônsul a olharem para o ecrã com as imagens da sala e perguntar: - Sr. Cônsul, acha que este já esperou tempo suficiente? Se ainda não se foi embora quer dizer que quer mesmo ir lá ao Irão. Ao que o cônsul responde:
- Não. Aguenta mais um bocadinho para ver se o homem está mesmo empenhado em lá ir.
Por fim lá voltou a surgir de lá de dentro e passou-me um telefone dos ainda com fio. Do outro lado a voz rouca e calma do Cônsul.
- Yes?
- Contei-lhe o meu esforço inglório para obter o famoso código. Pareceu compreensivo. Perguntou-me de onde era, o que fazia, etc. Não me perguntou a cor dos olhos porque já devia saber. Achei que aquela câmara, enquanto me filmava, estava a fazer uma busca na internet. Já deviam saber se tinha chorado quando nasci. Finalmente mandou-me lá voltar hoje às nove com uma promessa de visto.
Sempre que me levanto cedo o dia começa mal. Ontem à noite o dono do Hotel, que fica no centro da cidade, tinha-me dito para pôr a moto na entrada, um corredor estreito antes de uma escada que dá para a recepção no primeiro andar. Aquilo tinha um degrau alto e eu hesitei mas, perante a insistência do homem, que a moto ficava mais segura ali, lá a coloquei no corredor. Hoje de manhã, para a tirar, desci o alto degrau com a moto à mão e . . . patapum, motorizada no chão contra o letreiro luminoso do Hotel, que se desfez em cacos. A moto só partiu a proteção do punho do lado direito. Como a do lado esquerdo já estava partida ficou equilibrada.
Lá fui ao consulado. Mandaram-me preencher um papel, trazer duas fotografias e uma prova de depósito na conta deles de 75 euros. Nem dólares, nem liras turcas ou moeda iraniana. Euros, em “cash”. Por caso ainda tinha. Ao fim da manhã fui entregar a papelada e às cinco recolher o passaporte já com o famoso visto. Huf.

15 de novembro de 2012

15 Novembro

Erzurum

Ontem à noite falei com um contacto que arranjei no Irão e ele disse-me que era impossível tratar do visto na fronteira de maneira que poupei-me a enfrentar já os últimos 100 Km antes de entrar no Irão, de serra com neve, para depois ter que voltar 300 para trás. Assim fiz 180 Km até Erzurum onde existe um consulado iraniano. 
Como me levantei mais cedo que o habitual e saí às nove da manh
ã ainda estava com sono e esqueci-me de pôr gasolina. 


Passados uns cem quilómetros olhei por acaso para o indicador de nível de gasolina e marcava _ _ ou seja zero, niqueles. E o mal é que a “Cross Tourer” já tem daqueles indicadores como os carros de agora que, quando entra na reserva marca os quilómetros que ainda faz com a gasolina que tem. Marcava 0 quilómetros e nem sabia desde quando. Passado pouco mais de 1 Km parecia que tinha tido sorte porque surgiu uma bomba. Parei e o homem diz-me: “benzine o.k.” e eu repito enquanto abro o depósito “benzine o.k”. Aí ele diz outra vez: “benzine o.k.” e eu: “sim, benzine o.k.”. Só à terceira percebi que ele com aquilo queria dizer que a gasolina estava esgotada. Voltei a arrancar e passados 2 quilómetros outra bomba. Igualmente esgotada. Entrava numa vila com mais cinco bombas de combustível e nenhuma tinha gasolina. Bem, decidi, vou fazer-me à estrada e seja o que Deus quiser. Arranquei por estas estradas desérticas e, como sou ateu decidi rezar a Alá porque pensei que devia ligar mais ao que se passa por estas bandas.
Fui repetindo abaduuuuu, balubaluuuuuu, badubadabuuuuuuuu.
Passados meia dúzia de quilómetros, a 80, só com um cheirinho de acelerador, uma bomba, ou seja, uma espécie de bomba. Parei junto a um dos pontos de reabastecimento que parecia não funcionar há anos, com as mangueiras já ressequidas e descoloradas do sol. Não estava ninguém. Até que, passado um minuto sai um homem por detrás da barraca. “Benzine?”. “Yes, benzine” respondi eu à espera de ouvir outra nega. “benzine very good” Mau. “Very good”?? E porque é que não haveria de ser “very good”? E o homem repetiu vezes sem conta que a gasolina dele era muito boa. Pensei logo que devia ser água. Hesitei em pedir um copo para a provar antes que ele a pusesse no depósito da Honda mas como não tinha alternativa decidi arriscar. “Ponha-me lá dessa benzina maravilhosa”. “what?” “Sim, bute, vamos embora”. E não é que a “Cross Tourer” não se queixou?
Lá cheguei a Erzurum. Pelo caminho ainda apanhei um autocarro de passageiros que vinha a fazer uma trajetória impecável, numa curva cega do meio da serra. Só que o ponto de corda era onde eu ia passar. A estrada era toda dele. Por sorte lá me viu a tempo. Não há duvida que é bom as motos hoje em dia andarem sempre de luzes acesas.

14 de novembro de 2012

14 Novembro

Boas estradas no meio de planícies e montanhas muito áridas. No espelho da moto
vê-se, ao fundo, parte da cordilheira coberta de neve que vou ter que atravessar
para chegar ao Irão.
Agri

Hoje tive um dia calmo e fiz mais de 400 Km numa estrada com longas rectas, onde me senti o Peter Fonda no “Easy Rider”, a circular a 120/130 só que sem estar pedrado. Pelo meio duas partes montanhosas com algumas curvas boas e onde a temperatura baixou dos 8 a 12º com que circulei a maior parte do dia, para 5º. A paisagem continuava árida, a fazer lembrar certas zonas de Marrocos.


Pelas duas da tarde parei numa tasca manhosa, junto a uma bomba de gasolina, onde comi qualquer coisa que tinha um ovo estrelado e era picante, não sei se por o ovo estar estragado ou se era mesmo assim. De qualquer forma não me fez mal. Bebi uma Fanta laranja, a segunda bebida oficial dos Turcos. A primeira é o chá que, tal como no sul do Brasil com o café, oferecem a cada oportunidade “free of charge”.


Depois daquele almoço, para desenjoar parei na bomba seguinte e comi umas bananas que tinha no saco desde o dia anterior, das quais consegui aproveitar três metades menos podres. O homem da bomba convidou-me para beber um chá e lá fiquei a tomar chá à conversa com um camionista durante uma meia hora. O engraçado é dizer à conversa porque ele só falava turco e eu ia dizendo palavras em várias línguas conforme a que me apetecesse no momento. Era indiferente o que era porque ele não percebia nenhuma.


É espantoso como há três dias que não encontro ninguém que fale outra coisa senão turco e tenho-me feito entender.
Na conversa com este simpático camionista ele perguntou-me de onde eu era e depois se falávamos a mesma língua que os Espanhóis e os Mexicanos, que países havia a seguir a Portugal, etc. Falámos sobre o frio que eu ia apanhar no Irão, sei lá, uma longa conversa baseada em gestos, palavras inventadas e expressões com que nos fizemos entender perfeitamente. Apareceu outro amigo a quem ele lhe disse de onde eu era e por fim despedimo-nos e cada um partiu na sua direção. O transito por ali é quase só camiões e como estamos perto da fronteira com o Irão e não longe da fronteira com a Síria começam-se a ver mais veículos militares que carros de polícia e passei mesmo por uma operação “stop” em sentido contrario ao que eu circulava que era feita por militares de metralhadora ao ombro e não por policias. Provavelmente também para controlarem as movimentações dos rebeldes curdos do PKK.


Amanhã vou tentar entrar no Irão mas o mais provável é ainda não ser possível. Nesse caso terei que voltar a uma cidade a 300 Km da fronteira onde há um consulado Iraniano, para pedir os papéis que me exigirem.


Se entrar só espero que os Americanos ou Israelitas não se lembrem de bombardear o país na semana em que lá estiver. Não que tenha medo de levar com uma bomba, que é pouco provável, mas receio que se isso acontecer o pessoal lá fique com mau humor para com quem vem deste lado.


Está-me a pingar água em cima do computador. Estes hotéis que eu arranjo ...
Há bocado, para explicar que não havia toalhas na casa de banho fiz sinal ao recepcionista como se estivesse a esfregar as costas mas ele deve ter pensado que eu estava a pedir um banho turco ou qualquer coisa do género. Fez uma careta como quem diz “não temos cá disso” e falou para uma miúda que era suposto falar inglês mas ... bute, não percebia nada. Até que ela disse: “então eu vou aí ao Hotel dentro de 5 minutos. Quando chegou mostrei-lhe o toalheiro vazio e então resolveu-se o enigma. O camionista teria percebido à primeira.

13 de novembro de 2012

13 Novembro

Erzingan

Ontem à noite fiquei numa pequena cidade de província, que não são nada atrativas, e hoje arranquei pelas onze da manhã rumo a Oriente. O céu estava pouco nublado e a temperatura mais estável que ontem, entre os 8 e os 12º que, com o fato da Sidi, é agradável. A estrada era em piso que variava entre o bom e o razoável, com grandes rectas e muito pouco movimento. Talvez por a gasolina aqu
i ser das mais caras de europa, perto de dois euros por litro, e a população ter pouco poder de compra, a maioria dos turcos deve viajar em transportes públicos e reservam os carros só para circular em cidade.



Não sendo produtores de petróleo têm que o comprar aos vizinhos árabes e como o governo tem feito um esforço para se aproximar do Ocidente, chegando ao ponto de quererem insistentemente entrar para a Comunidade Europeia, quando só 30% do seu território é na Europa, os Iranianos e outros vizinhos não devem gostar da atitude e vendem-lhes o petróleo mais caro, mesmo se ele é aqui refinado.



Circulo largas dezenas de quilómetros a cruzar-me com meia dúzia de carros numa paisagem muito árida de pequenas elevações. Algumas vilas pelo caminho sempre com a imprescindível Mesquita com duas torres altas e estreitas de onde antes o imã local devia gritar para a população as rezas constantes, agora transmitidas através de potentes altifalantes que, nas cidades que têm duas ou três Mesquitas fazem concorrência entre si na captação de fiéis. Aliás não devem ter falta de clientes porque 97% da população é muçulmana e a maioria parece praticante assíduo. Também nestas pequenas vilas não deve haver melhor programa do que ir até à Mesquita rezar um pouco. No Hotel em que estou agora estava até um pequeno tapete dobrado em cima da mesa, do tipo tapete Persa individual feito na China, com uma espécie de terço deles por cima para se eu quisesse rezar quando ouvisse a voz do Imã nos altifalantes da Mesquita. O terço é diferente do dos católicos pois quase todas as contas são idênticas e estão juntas. Não me admira porque a reza deles parece-me muito repetitiva. Não têm aquela coisa de rezarem 10 Avé Marias e depois um Glória a Deus seguido de um Pai Nosso, etc. Aqui é sempre abdaluuuuuuuu la luuuuuu la luuuuuuu abdaluuuuuu.



Almocei num restaurante simpático e giro, saído do nada, com um carocha pendurado na entrada, e fiquei um pouco a ler ao sol antes de arrancar, para meia dúzia de quilómetros depois ser apanhado por um radar, que ali devia estar só para mim. Ainda pensei que como naquela parte do país a vida era mais barata as multas acompanhassem o nível de vida mas não. 154 Coroas turcas, ou seja 70 das nossas. Não veio nada a calhar.


Quando chegou o fim da tarde parei na primeira vila que encontrei para procurar um Hotel. A povoação tinha um ar sinistro mas entrei até à praça principal e única, com o pavimento escavacado, depois de atravessar uma ponte sobre um rio muito poluído a passar ao lado de prédios decrépitos a rodearem um supermercado novo. Quase toda a vila parou para ver este homem de moto com um fato estranho. Aliás não me admira porque a única moto que vi nos últimos três dias foi a minha. Voltei a ter uma conversa que já se tornou habitual. Quando eu pergunto: “Do you speak English?” respondem-me invariavelmente “No. Do you speak Turkish?” E por ali ficamos.



Perguntei a um rapaz por um Hotel que por acaso se diz Otel em Turco, e ele apontou-me um prédio com a largura de cinco metros na eminência de cair. De início pensei que estava a gozar mas logo surgiu um velho que perguntou: “Hotel?” E pôs-se a correr à frente da moto a fazer sinal para o seguir. Segui-o sem nenhuma vontade até um beco em terra batida polida por óleo e lixo calcados até às traseiras do dito prédio. Agradeci-lhe muito mas para seu desconsolo dei meia volta e voltei à estrada. Ficou noite e entrei numa serra onde a temperatura baixou para os 5º, que é o limite do desconfortável, mesmo com o aquecimento dos punhos ligado. Para agravar a situação a estrada a meio estava em obras e passei para uma estrada de terra, felizmente só por dois quilómetros. 70 Km depois cheguei a uma cidade mais decente e encontrei um Hotel possível, com tapete de reza e terço muçulmano à minha disposição, em vez da habitual Bíblia.

12 de novembro de 2012

12 Novembro

Ruela perto do Topkapi em Istanbul


Yozgat

Ontem fiquei por Ankara. Não só a recuperar fisicamente, porque quando caí em Istanbul abri o pulso e ontem mal conseguia carregar na embraiagem, mas também porque era Domingo e queria passar no Consulado do Irão.
Entretanto de momento estou sem fotografias pois o I phone com que as estava a tirar pifou. Passei num agente da Apple mas não conseguiram fazer nada. Dizem ser um problema de “hardware”.


Ankara, embora seja a capital, é uma cidade mais pequena que Istanbul, não só em área mas também em população, com cerca de um terço dos habitantes de Istanbul.

Em Istanbul ainda se vêm algumas scooters e 125’s mas aqui é raríssimo passar por outra moto ou scooter. Tanto numa cidade como noutra os turcos não só vivem com a mão na buzina como estão sempre a furar o transito à procura do mais ínfimo espaço onde caiba o carro. Tratam as motos da mesma forma que os outros veículos de maneira que tenho que andar com enorme atenção ao que se passa à volta mas sem deixar de acompanhar o ritmo do transito. Tenho a sensação que, se abrando, passam-me a ferro.

As temperaturas do ar têm grandes oscilações. Fiz a viagem para Ankara debaixo de chuva e com temperaturas que chegaram a baixar até aos 3º. Ontem também estava frio na rua, talvez uns 7 ou 8 graus mas quando arranquei hoje, por volta das onze da manhã, o termómetro da moto marcava 23º e estava um dial indo. Mal saí da cidade a temperatura baixou para 17º e quando aqui cheguei a Yozgat já estava nos 11º.


Fiz cerca de 200 Km primeiro numa via rápida para depois entrar numa parte do país onde a paisagem é muito árida, um planalto com muito pouca vegetação. O transito por aqui é muito reduzido e não se encontra ninguém na estrada, nem casas ou outras construções. De vez em quando atravesso pequenas vilas com meia dúzia de casas, uma bomba de gasolina, um café e uma mercearia. Almocei numa delas um pacote de batatas fritas, um pêro e um sumo. Acabei por ficar aqui em Yozgat porque se continuasse a andar só tinha outra a mais 200 Km, onde chegaria já de noite.


Aqui já não há turistas, que só frequentam Istanbul e o sul do país, junto ao Mediterrâneo. Os que falam inglês arranham só meia dúzia de palavras e percebem pouco do que digo por isso tenho exercitado muito a minha mímica.


A Turquia é um país que se pode considerar rico. É uma potencia da zona e vive não só do turismo como de uma Industria forte. São um grande construtor naval para além de fabricarem mais carros por ano que os italianos e terem outras industrias como a de electrodomésticos. Vi uma demonstração de uma máquina de lavar roupa turca num centro comercial e fiquei espantado. Parecia um Rolls em qualidade de construção e suavidade de funcionamento.


Embora seja um país que se pode considerar rico e tenha umas área oito vezes superior à nossa, têm muito 


menos quilómetros de auto estrada que nós só que eles ... fizeram-nas com o dinheiro deles.

10 de novembro de 2012

10 Novembro - Istanbul - Jardim do Palácio Toktapi - Ankara

Ankara

Eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, isto voltava a acontecer. Hoje de manhã, quando cheguei à garagem do Hotel onde tinha a moto guardada, cheguei à “Cross Tourer” por trás, pus a chave na ignição e liguei para a carregar na recepção, primeira, arranco e….. pumba, chão. Tinha-me esquecido do cadeado no disco da frente. Aquilo agora tem uma fita cor 
de laranja ligada à maneta mas como não cheguei a ver a frente da moto ….



Por sorte não parti o disco mas magoei-me na mão e parti o plástico protetor da maneta. Felizmente nenhum dos dois males foi grave. Só que cair de moto, mesmo devagar, cansa.



Para complicar mais o dia estava um transito medonho para sair de Istanbul pois tinham cortado uma das vias da ponte sobre o Bósforo e, cinco minutos depois de ter arrancado, começou a chover, primeiro ao de leve mas depois com muita força. 



Entrava na Ásia. Fiz perto de cem quilómetros ainda na auto estrada que liga Istanbul a Ankara debaixo de uma nuvem de água levantada pelo grande movimento de camiões.
Curioso que até em algumas bombas de gasolina os Turcos têm salas para rezarem, onde deixam os sapatos à porta. E tinham gente. Não há dúvida que os Muçulmanos, principalmente do sexo masculino, são muito mais devotos que os Católicos.



Passei depois para a estrada nacional onde percorri cerca de 300 Km até Ankara, entre planície e montanha. As cidades do interior não têm prédios altos mas são feias, com a maioria das casas de dois andares em cores diversas e pouco atrativas. Pela primeira vez tive frio na moto nesta viagem. Na parte montanhosa a temperatura desceu até aos 3º e embora o fato proteja bastante não faz milagres. Os punhos aquecidos caíram do céu. Quando aí na Honda me montaram faróis de nevoeiro e punhos aquecidos na moto pensei que era mais uma tralha que nuca iria utilizar. Afinal estava errado pois tanto um como o outro extra já me deram um enorme jeito.
Esta parte da Turquia já não tem turistas e aqui em Ankara pouca gente fala ou percebe alguma coisa de Inglês. 


Quando cheguei ao Hotel a Internet não funcionava e, por mais que eu lhes tentasse explicar que o problema era do sistema deles, não se convenciam. Até que encontrei um criado que arranhava francês e lá consegui esclarecer a situação, acabando por me arranjarem um cabo de ligação que resolveu o problema.



Outra curiosidade que já tinha constatado em Istanbul é que nos restaurantes frequentados pelos locais, pelo menos nos de baixo nível a que tenho ido, nunca põem facas, não sei se para os clientes não se matarem uns aos outros ou por também não as utilizarem em casa. Só garfo e colher, que eles aceitam sem se queixarem.

9 de novembro de 2012

9 Novembro - Istanbul

Hora da reza à porta do Hotel

Istanbul

Lembram-se quando nos aviões da TAP, em classe económica, o espaço entre os bancos era o dobro e se comia um bom bife ao jantar, com vinho tinto a acompanhar? Na Turkish Airways ainda é assim. E foi o bilhete mais barato que encontrei.

Voltei ontem a Istanbul, onde tenho a moto. Logo no aeroporto entramos noutro mundo. Milhares de mulheres de cabeça coberta e homens de túnica e barbas misturam-se com turistas vindos dos quatro cantos do mundo numa confusão de grandes filas para carimbar passaportes. Alguns árabes saltam por cima das vedações para ganharem 10 lugares na fila e levam atrás velhos sem que eles próprios percebam a razão da pressa. Meia hora depois estou dentro de um pequeno táxi a caminho do Hotel. Quando aqui cheguei, a semana passada, andei a passear de moto pela cidade e a procurar um concessionário Honda, de maneira que, quando quis arranjar Hotel já era tarde e acabei por só encontrar um Novotel que me custou mais de cem euros. Agora decidi procurar uma coisa barata na Internet. Encontrei um Hotel Yasmin que na fotografia não tinha muito mau aspecto, mesmo se custava 20 euros por noite, com pequeno almoço incluído. Fiquei logo desconfiado por o homem do táxi não fazer ideia onde ficava. 





Olhou para mim como quem diz: tens ideia onde te vais meter?, fez uma careta e avançou para a cidade. Quando enfiou para dentro de um bairro muçulmano de ruas estreitas com ar sinistro arrependi-me daquela reserva mas, já que ali estava, decidi avançar. Depois de muitas voltas e vários telefonemas, encontrámos a espelunca. O homem que tinha conversado com o motorista do táxi pelo telefone saiu da porta do hotel e veio cá fora desancar o desgraçado por não ter encontrado aquele “palácio”. A recepção tinha uns três metros por seis e era também sala de estar e restaurante. Perguntei se a Internet funcionava bem no quarto e o rapaz, magnânimo, disse que para que funcionasse melhor me ía dar um quarto triplo, muito superior ao que tinha reservado, mais próximo do “router”. Entrei no quarto. Tinha um terço do tamanho da recepção, com um beliche, uma cama de casal e pouco espaço para me mexer entre os dois. As paredes e o tecto apresentavam infiltrações graves, os estores estavam desfeitos e do lado de fora de uma das janelas um parapeito acumulava lixo de anos. O tamanho da casa de banho obrigava a que o duche fosse simplesmente a mangueira, sendo o fundo o próprio chão do minúsculo compartimento. Na prateleira por cima do lavatório uma pasta e escova de dentes usadas, que não percebi se teriam sido esquecidas pelo ultimo cliente ou eram simplesmente um extra oferecido pela gerência neste quarto de nível superior. 





Pedi se tinham uma garrafa de água e mandaram-me a uma frutaria que, embora passasse da meia noite, ainda estava aberta do outro lado da rua. Caí na cama perto da uma e, pelas sete da manhã, acordei com o Imã da pequena mesquita de bairro que havia do outro lado da rua a rezar aos altifalantes. Voltei a adormecer mesmo com a luz do dia a entrar pelas aberturas dos estores partidos e levantei-me às nove. Ao pequeno almoço, um homem de boné azul forte e duas mulheres de cabeça tapada assistiam a um filme na televisão onde uma mulher saía de uma mesquita, levantava a burca e desatava a chorar. Finalmente saí à rua e fiquei fascinado. Não estava definitivamente numa zona turística. Não havia um único estrangeiro nas redondezas daquele hotel de quinta categoria para turcos. A rua tinha uma animação louca, com comerciantes a venderem frutas e sumos a vulso, três miúdas dos seus quatro ou cinco anos com uma velha balança a perguntarem quem se queria pesar; aceitei ver se estava a perder peso mas o aparelho não funcionava. Homens com carrinhos de mão a puxarem rolos de tapetes e caixa de tudo quanto há numa azáfama animada e louca. Pensei logo que não podia ter ficado em melhor sítio. Estava no coração da cidade, no meio da população local, embora a poucas centenas de metros dos monumentos e ruas onde turistas de todo o lado se acotovelam.


Quando voltei ao Hotel, pouco depois do meio dia, para carregar o telefone, em frente à porta centenas de homens estavam sentados na rua, com os sapatos ao lado, virados para Meca. Hoje é sexta feira. Voltava a ouvir a voz do Imã que me tinha acordado aos altifalantes da mesquita do bairro que, por ser pequena, obrigava toda esta gente a ficar sentada no meio da estrada. Muitos traziam pequenos tapetes onde se sentavam mas outros improvisavam apenas um cartão enquanto um miúdo se sentava num bocado amarrotado de papel pardo. Parecia estar ali toda a população masculina do bairro. Tive que saltar por entre pares de sapatos, tapetes e homens sentados para passar para a parte de cima da rua.


Da parte da tarde continuei a visita turística pela espetacular Mesquita Azul, com as suas enormes cúpulas e centenas de vitrais em tons de azul onde turistas passam junto a homens e mulheres que rezam em secções separadas, com os sapatos na mão para não sujarem a impecável alcatifa.


Depois fui até ao Palácio Topkapi onde estão expostas algumas das mais valiosas peças de joalharia existentes no mundo, pertença dos Sultões que ali viveram nos séculos 16, 17 e 18, assim como armas cobertas de ouro e diamantes ou tronos em ouro e esmeraldas. Impressionante.


Amanhã sigo para Ankara, a caminho do Irão.