10 de novembro de 2012

10 Novembro - Istanbul - Jardim do Palácio Toktapi - Ankara

Ankara

Eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, isto voltava a acontecer. Hoje de manhã, quando cheguei à garagem do Hotel onde tinha a moto guardada, cheguei à “Cross Tourer” por trás, pus a chave na ignição e liguei para a carregar na recepção, primeira, arranco e….. pumba, chão. Tinha-me esquecido do cadeado no disco da frente. Aquilo agora tem uma fita cor 
de laranja ligada à maneta mas como não cheguei a ver a frente da moto ….



Por sorte não parti o disco mas magoei-me na mão e parti o plástico protetor da maneta. Felizmente nenhum dos dois males foi grave. Só que cair de moto, mesmo devagar, cansa.



Para complicar mais o dia estava um transito medonho para sair de Istanbul pois tinham cortado uma das vias da ponte sobre o Bósforo e, cinco minutos depois de ter arrancado, começou a chover, primeiro ao de leve mas depois com muita força. 



Entrava na Ásia. Fiz perto de cem quilómetros ainda na auto estrada que liga Istanbul a Ankara debaixo de uma nuvem de água levantada pelo grande movimento de camiões.
Curioso que até em algumas bombas de gasolina os Turcos têm salas para rezarem, onde deixam os sapatos à porta. E tinham gente. Não há dúvida que os Muçulmanos, principalmente do sexo masculino, são muito mais devotos que os Católicos.



Passei depois para a estrada nacional onde percorri cerca de 300 Km até Ankara, entre planície e montanha. As cidades do interior não têm prédios altos mas são feias, com a maioria das casas de dois andares em cores diversas e pouco atrativas. Pela primeira vez tive frio na moto nesta viagem. Na parte montanhosa a temperatura desceu até aos 3º e embora o fato proteja bastante não faz milagres. Os punhos aquecidos caíram do céu. Quando aí na Honda me montaram faróis de nevoeiro e punhos aquecidos na moto pensei que era mais uma tralha que nuca iria utilizar. Afinal estava errado pois tanto um como o outro extra já me deram um enorme jeito.
Esta parte da Turquia já não tem turistas e aqui em Ankara pouca gente fala ou percebe alguma coisa de Inglês. 


Quando cheguei ao Hotel a Internet não funcionava e, por mais que eu lhes tentasse explicar que o problema era do sistema deles, não se convenciam. Até que encontrei um criado que arranhava francês e lá consegui esclarecer a situação, acabando por me arranjarem um cabo de ligação que resolveu o problema.



Outra curiosidade que já tinha constatado em Istanbul é que nos restaurantes frequentados pelos locais, pelo menos nos de baixo nível a que tenho ido, nunca põem facas, não sei se para os clientes não se matarem uns aos outros ou por também não as utilizarem em casa. Só garfo e colher, que eles aceitam sem se queixarem.

9 de novembro de 2012

9 Novembro - Istanbul

Hora da reza à porta do Hotel

Istanbul

Lembram-se quando nos aviões da TAP, em classe económica, o espaço entre os bancos era o dobro e se comia um bom bife ao jantar, com vinho tinto a acompanhar? Na Turkish Airways ainda é assim. E foi o bilhete mais barato que encontrei.

Voltei ontem a Istanbul, onde tenho a moto. Logo no aeroporto entramos noutro mundo. Milhares de mulheres de cabeça coberta e homens de túnica e barbas misturam-se com turistas vindos dos quatro cantos do mundo numa confusão de grandes filas para carimbar passaportes. Alguns árabes saltam por cima das vedações para ganharem 10 lugares na fila e levam atrás velhos sem que eles próprios percebam a razão da pressa. Meia hora depois estou dentro de um pequeno táxi a caminho do Hotel. Quando aqui cheguei, a semana passada, andei a passear de moto pela cidade e a procurar um concessionário Honda, de maneira que, quando quis arranjar Hotel já era tarde e acabei por só encontrar um Novotel que me custou mais de cem euros. Agora decidi procurar uma coisa barata na Internet. Encontrei um Hotel Yasmin que na fotografia não tinha muito mau aspecto, mesmo se custava 20 euros por noite, com pequeno almoço incluído. Fiquei logo desconfiado por o homem do táxi não fazer ideia onde ficava. 





Olhou para mim como quem diz: tens ideia onde te vais meter?, fez uma careta e avançou para a cidade. Quando enfiou para dentro de um bairro muçulmano de ruas estreitas com ar sinistro arrependi-me daquela reserva mas, já que ali estava, decidi avançar. Depois de muitas voltas e vários telefonemas, encontrámos a espelunca. O homem que tinha conversado com o motorista do táxi pelo telefone saiu da porta do hotel e veio cá fora desancar o desgraçado por não ter encontrado aquele “palácio”. A recepção tinha uns três metros por seis e era também sala de estar e restaurante. Perguntei se a Internet funcionava bem no quarto e o rapaz, magnânimo, disse que para que funcionasse melhor me ía dar um quarto triplo, muito superior ao que tinha reservado, mais próximo do “router”. Entrei no quarto. Tinha um terço do tamanho da recepção, com um beliche, uma cama de casal e pouco espaço para me mexer entre os dois. As paredes e o tecto apresentavam infiltrações graves, os estores estavam desfeitos e do lado de fora de uma das janelas um parapeito acumulava lixo de anos. O tamanho da casa de banho obrigava a que o duche fosse simplesmente a mangueira, sendo o fundo o próprio chão do minúsculo compartimento. Na prateleira por cima do lavatório uma pasta e escova de dentes usadas, que não percebi se teriam sido esquecidas pelo ultimo cliente ou eram simplesmente um extra oferecido pela gerência neste quarto de nível superior. 





Pedi se tinham uma garrafa de água e mandaram-me a uma frutaria que, embora passasse da meia noite, ainda estava aberta do outro lado da rua. Caí na cama perto da uma e, pelas sete da manhã, acordei com o Imã da pequena mesquita de bairro que havia do outro lado da rua a rezar aos altifalantes. Voltei a adormecer mesmo com a luz do dia a entrar pelas aberturas dos estores partidos e levantei-me às nove. Ao pequeno almoço, um homem de boné azul forte e duas mulheres de cabeça tapada assistiam a um filme na televisão onde uma mulher saía de uma mesquita, levantava a burca e desatava a chorar. Finalmente saí à rua e fiquei fascinado. Não estava definitivamente numa zona turística. Não havia um único estrangeiro nas redondezas daquele hotel de quinta categoria para turcos. A rua tinha uma animação louca, com comerciantes a venderem frutas e sumos a vulso, três miúdas dos seus quatro ou cinco anos com uma velha balança a perguntarem quem se queria pesar; aceitei ver se estava a perder peso mas o aparelho não funcionava. Homens com carrinhos de mão a puxarem rolos de tapetes e caixa de tudo quanto há numa azáfama animada e louca. Pensei logo que não podia ter ficado em melhor sítio. Estava no coração da cidade, no meio da população local, embora a poucas centenas de metros dos monumentos e ruas onde turistas de todo o lado se acotovelam.


Quando voltei ao Hotel, pouco depois do meio dia, para carregar o telefone, em frente à porta centenas de homens estavam sentados na rua, com os sapatos ao lado, virados para Meca. Hoje é sexta feira. Voltava a ouvir a voz do Imã que me tinha acordado aos altifalantes da mesquita do bairro que, por ser pequena, obrigava toda esta gente a ficar sentada no meio da estrada. Muitos traziam pequenos tapetes onde se sentavam mas outros improvisavam apenas um cartão enquanto um miúdo se sentava num bocado amarrotado de papel pardo. Parecia estar ali toda a população masculina do bairro. Tive que saltar por entre pares de sapatos, tapetes e homens sentados para passar para a parte de cima da rua.


Da parte da tarde continuei a visita turística pela espetacular Mesquita Azul, com as suas enormes cúpulas e centenas de vitrais em tons de azul onde turistas passam junto a homens e mulheres que rezam em secções separadas, com os sapatos na mão para não sujarem a impecável alcatifa.


Depois fui até ao Palácio Topkapi onde estão expostas algumas das mais valiosas peças de joalharia existentes no mundo, pertença dos Sultões que ali viveram nos séculos 16, 17 e 18, assim como armas cobertas de ouro e diamantes ou tronos em ouro e esmeraldas. Impressionante.


Amanhã sigo para Ankara, a caminho do Irão.

1 de novembro de 2012

1 Novembro - Istambul


Hoje saí de Alexandroupoli, a ultima cidade Grega antes da fronteira, por uma recta que só acabou em Istanbul, 300 Km depois. Não é assim, mas quase. A estrada percorre uma longa planície na qual rodamos parte do tempo junto ao Mar de Marmara, que faz a ligação entre o Mediterrâneo e o Mar Negro, separando a Europa da Ásia. É tão largo que não se vê a outra margem.

Na fronteira Turca passo por quatro controles onde nunca sei o que querem. Ora pedem o livrete da moto, ora o passaporte, ora o seguro, ora o visto. Ficamos com a sensação que é o que cada um lhe apetece pedir naquele dia. O ultimo é o da Alfandega que diz para eu encostar um pouco à frente para revistar as minhas malas mas, como eu estava a empatar o transito e o carro de trás já buzinava, ele desistiu da revista e mandou-me seguir viagem e desimpedir o caminho.

Passados uns quilómetros parei junto a três miúdos que viajavam de bicicleta porque estavam sentados à beira da estrada e parecia terem algum problema numa das bicicletas. Eram “bifes” que não teriam mais de vinte anos e tinham vindo de Inglaterra nas suas Raleigh, típicas inglesas. Iam até Istanbul para regressarem a Inglaterra de avião, acompanhados das bicicletas. Estavam simplesmente a almoçar as sandwiches que traziam.

Já tinha estado em Istanbul. É uma cidade que impressiona pela movimentação e vida que tem. Milhares de pessoas circulam nas ruas de um lado para o outro. Todas parecem ter pressa para chagar a algum lado, os carros apitam e furam caminho por todas as nesgas de alcatrão. De moto é um inferno circular ali. Temos que ir com os olhos bem abertos e acompanhar o ritmo do transito para não sermos esmagados. Raspei com uma das malas no para choques de um carro mas acho que ele nem deu por isso. Muitos vão ao telefone nos carros e guiam com uma mão da qual um dos dedos em cima da buzina.

Quando entramos pelo lado de cima, como foi o meu caso, a cidade é muito pouco atractiva, com prédios grandes e feios, centros comerciais inestéticos e uma confusão de cruzamentos e viadutos. Andei duas ou três horas às voltas por Istanbul, primeiro à procura de um concessionário Honda, indicado por um simpático homem que tinha uma Honda 125 e que sem falar uma palavra de inglês, percebeu o que eu queria e falou para o concessionário do seu telemóvel para depois preencher a morada no meu GPS.

Depois, procurei um Hotel barato mas com garagem, coisa impossível de encontrar em Istanbul.

Toda a zona junto ao estreito de Bósforo é espectacular, desde a muralha da cidade, passando pelos excelentes restaurantes que dão para o canal e acabando no porto, com uma movimentação louca de barcos em todas as direcções e passageiros que entram e saem dos pequenos ferrys ou de enormes navios de passageiros encostados ao cais, é uma azáfama extraordinária. Depois, no alto de um monte, a enorme mesquita e do outro lado o Palácio Topkapi com as sua fabulosa colecção de joias.

Mas vou fazer um intervalo de uma semana, pois tenho que ir a Portugal em trabalho e quando aqui voltar, dia 9, faço uma visita à cidade para vos contar mais sobre Istanbul. Acho que vale a pena.

Nesta altura em que vou deixar a Europa para entrar na Ásia, percorri 8.000 Km desde que saí de Lisboa, no dia 28 de Outubro, ou seja, um pouco mais de 10% da viagem.

Até para a semana.
Parte da Muralha que rodeia Istanbul. O Estreito de Bósforo por trás. Do outro lado, a Ásia.

31 de outubro de 2012

31 Outubro


Ainda ontem, durante a volta à península de Halkidiki.

Monte Athos
Ontem tinha chegado perto de Lerissos, a Oupavono, onde começa o Monte Athos, a sede dos Cristãos Ortodoxos, um Estado Independente que há séculos não permite a entrada de mulheres no seu território.

À noite, no restaurante onde jantava, três russos grandes e muito bêbados, com os seus trinta e tal anos, davam ares de serem donos da terra. No fim da refeição um deles virou-se para o homem do táxi que os tinha trazido, que jantava numa mesa à parte e disse: “You can go back to your town” ao que o Grego respondeu: “o.k. It’s 700 euros”. “No problem”, respondeu o Russo, que sacou de um maço de notas do bolso e contou 700 euros que entregou ao feliz taxista. Saíram os três a cantar aos SSS pela rua fora. Já me tinham dito que, hoje em dia, milionários russos são os grandes financiadores do Monte Athos e que o Abramovich vem cá muito rezar.

Hoje, pelas oito e um quarto da manhã, estava no escritório que serve de alfandega para ver se conseguia o imprescindível visto para apanhar o barco de visita ao território e os seus vinte mosteiros onde vivem cerca de 2000 monges.

Tinham-me avisado que era tarefa difícil. “É preciso marcar com seis meses de antecedência”, contou-me a dona da hospedaria onde tinha ficado na noite anterior. Pensei ser apenas inveja por não poder lá ir.

Cinco destes misteriosos monges estavam por trás do balcão de atendimento. Num banco corrido visitantes com ar de “habitués”, alguns com a imprescindível barba, batina e chapéu pretos, conversavam com o à vontade de quem tem a entrada garantida no “céu” que representa para eles aquele local.

Sentia-me como se fosse para um exame da quarta classe. Fiz o meu melhor ar de santo e estendi o passaporte, com a mão trémula, a um monge de barba e bigode cuja cara parecia ter saído do frigorifico.

Olhou para o passaporte e levantou a cara para mim, como que a examinar-me. Se consegui ler os seus pensamentos eram:

-Nãã. Este tem mesmo cara de pecador. Aposto que até sai com mulheres.

Perante a sua demora em tomar uma decisão, o colega do lado perguntou-lhe qualquer coisa em Grego a que ele respondeu: portugalía. O outro disse mais qualquer coisa e senti que a decisão estava tomada.

“No. Impossible to visit today”

“And tomorrow?

“Tomorrow not possible”.

Estive para lhe dizer que os meus avós eram russos ou que odiava mulheres mas não tive coragem.

Resignado, com ar cabisbaixo, fui-me embora perante a falta de coração daqueles cristãos.
Peguei na “Cross Tourer” e fiz-me à estrada a caminho da fronteira com a Turquia. Cheguei à ultima cidade grega perto das cinco da tarde e, com o sol quase a pôr-se, com medo de não arranjar logo lugar onde ficar do outro lado da fronteira, decidi ficar por aqui e amanhã partir para Istambul, ultima etapa desta primeira fase da viagem.

30 de outubro de 2012

30 Outubro - Halkidiki – Grécia


Hoje acordei com um dia lindo de sol e decidi percorrer toda a costa da península de Halkidiki, onde tinha chegado já de noite.

Foi um óptimo passeio de cerca de 150 Km ao longo dessa costa onde existem pequenos Hoteis, de duas a cinco estrelas, um empreendimento fantástico com campo de Golf, Marina com grandes iates, dois Hoteis, etc. mas também alguns Parques de Campismo, ou seja, praia e mar para todas as bolsas.

Mas toda a zona tem uma muito baixa densidade de construção e muita vegetação. Só que agora, que acabou a época de verão, está tudo deserto e quando digo deserto é que estão mesmo os hoteis fechados, as casas desabitadas e os parques de campismo de corrente à porta. É como se fechasse a península e ficassem apenas os habitantes das poucas aldeias ali existentes.

As estradas deixam de ser limpas e ía ficando atolado numa que passava junto ao mar e com as ondas tinha sido invadida por água e terra.

Parei numa das pequenas vilas para almoçar, junto ao mar e à tarde fui até Ouranoupolis onde fiquei.

Aqui vou tentar amanhã conseguir autorização para visitar o Monte Athos.

Só há dois dias ouvi falar neste estado independente pertencente à Igreja Ortodoxa que é uma espécie de Vaticano dos Ortodoxos só que muito maior. O território é uma península de cerca de 50 Km por 12 Km onde existem 20 mosteiros. Pode visitar-se de barco porque a passagem por terra é reservada aos monges mas dizem-me que existe uma lista de espera de meses para a visita pois só autorizam 150 visitantes por dia e, curiosidade ainda maior: não é permitida a entrada a mulheres neste estado independente, para não destabilizarem os cerca de 2000 monges que lá vivem.

Contaram-me que são riquíssimos pois muitos milionários dão fortunas para essa sede da igreja ortodoxa, nomeadamente os russos.

Há uns anos houve um importante patriarca que aqui morreu quando chegava com 16 acompanhantes e o seu helicóptero caíu.

Deus queira que me deixem entrar. Estou muito curioso. Sem mulheres deve ser um sossego.

29 de outubro de 2012

29 Outubro - Grécia – Costa Oriental


Esta manhã saí finalmente com bom tempo.

Tinha ficado numa pequena cidade a 2/3 do caminho entre a costa Ocidental e a Oriental.

Comecei por rodar numa óptima estrada de montanha com bom piso e seco, para variar, e passei depois para uma estrada de campo numa longa planície.

Pelas duas da tarde cheguei a Thessalonika uma cidade costeira onde almocei.

Antes tinha parado numa oficina de tratores que encontrei no caminho para olear a maneta da embraiagem que, com as chuvadas, estava barulhenta. O homem, quando soube que vinha de Portugal, convidou-me para beber um café e, ao ver o trajeto que tinha feito no dia anterior no mapa, disse-me que nas notícias tinham mostrado a grande tempestade que se abateu sobre essa zona.

Senti-a no pelo.

Da parte da tarde, quando procurava uma estrada mal assinalada que me levaria a uma península que recomendaram visitar, andei perdido cerca de 80 Km. Já era tarde e rapidamente anoiteceu. Como circulava nessa altura numa estreita estrada de campo com algum mau piso e curvas com humidade agradeci que na Honda se tivessem lembrado de montar o kit de faróis de nevoeiro que iluminam muito bem as bermas pois o farol de origem da “Cross Tourer” não é grande coisa em termos de luminosidade. Talvez devesse ter montado uma lâmpada mais forte.

O que vale é que estava uma noite de lua cheia, o termómetro da moto marcava 20 º e um céu pouco nublado mas onde, ao longe, se viam raios. Fantástico.

Depois de conhecer um pouco melhor este país e ter falado com várias pessoas penso que a situação é ainda mais preocupante de que parece. Nos muitos quilómetros que fiz pela Grécia não vi uma única industria. De facto a Grécia vive praticamente do turismo, para além da exploração da sua frota marítima, que já foi das maiores do mundo, no tempo dos Onassis e Niarchos. Os gregos parecem não ter bem noção da situação em que vivem pois a vida é mais cara que na Croácia, por exemplo, que estou certo vai ficar com muito do turismo grego e até Portugal, principalmente se soubermos explorar bem três zonas de enorme potencial e que ainda não estão estragadas: a região interior norte, incluindo o Douro, a Costa Alentejana e a zona do Alqueva.

Por outro lado em Portugal já estávamos habituados a viver com pouco dinheiro e por isso vamos aguentar melhor o esforço que os gregos que têm ordenados médios bastante superiores aos nossos e vão obrigatoriamente sofrer reduções drásticas. Penso que a situação aqui vai piorar muito nos próximos dez anos e quem emprestou dinheiro ao país, incluindo alguns bancos portugueses, que o esqueçam porque nunca o vão poder pagar. Estou convencido também que, por mais engenharias financeiras que a europa faça, é uma questão de meses para entrarem em incumprimento.

Enfim, foi só um desabafo. Penso que muito bem estamos nós quando comparados com eles.

28 de outubro de 2012

28 Outubro - Grécia


Ontem ao fim da tarde, quando andava naquela serra, debaixo de chuva, à procura de sítio onde ficar, parei num restaurante de borda de estrada que tinha ar de fechado mas lá dentro estava um rapaz e uma rapariga dos seus vinte anos a esquartejar uma carcaça que seria de um porco ou cabrito. Chamaram outro que perceberia alguma coisa de inglês, aliás é extraordinário que na Albânia que supostamente é um país mais atrasado todos os miúdos falam inglês e alguns com óptima pronuncia e na Grécia é raro o que diz duas palavras, e esse outro indicou-me uma aldeia vinte quilómetros à frente onde acabei por arranjar onde dormir.

Quando quis jantar entrei no único restaurante da aldeia, que funcionava como uma espécie de clube, ou seja, estava praticamente cheio mas só numa mesa é que estavam a jantar, os outros estavam a beber copos e petiscar. Por cima de um fogão a lenha assava um cabrito e o dono, extrovertido, achou divertidíssimo entrar ali um estrangeiro. Fartou-se de falar comigo sem dizer uma palavra de inglês e eu de grego. Apontava para o cabrito para saber se era aquilo que eu queria, depois pegava com a mão uma batata frita que estava numa travessa e comia a fazer sinal que estavam muito boas enquanto a mulher levantava uma folha de alface e um tomate no ar. Pedi tudo aquilo que me ofereciam e acabei por comer o melhor cabrito da minha vida, acompanhado por um rosé da casa. O homem às tantas sentou-se na minha mesa, pegou numa conta de um restaurante Croata que eu tinha a marcar o livro que estava a ler, e foi mostrar a todo o restaurante aquela conta, que ele presumia ser em euros como quem diz: “que grande martelada que o amigo levou”. Todos viram e riram com a conta até eu conseguir explicar que aquilo não eram euros. Enfim, foi uma noite animada.

Hoje de manhã estava na rua da aldeia a ver passar um desfile de miúdos por fazer anos que os gregos tinham expulso os alemães do território na segunda guerra, quando apareceu o meu tradutor do restaurante da berma de estrada do meio da serra a convidar-me para um café com os amigos. Fomos beber café e jogar gamão e acabei por sair só depois do meio dia, debaixo de chuva e vento devastadores. Levei uma eternidade a fazer os primeiros 60 quilómetros pelo meio da serra. O vento e a chuva estavam fortíssimos, a estrada muito escorregadia e com derrocadas de pedras de todos os tamanhos e rios de lama a atravessarem. Nesses 60 Km não vi um único carro e acabei por parar numa tasca de beira de estrada que era mais uma casa particular onde decidi almoçar, mesmo se ainda não tinha fome. Pensei que, provavelmente seria a minha ultima refeição do dia pois por vezes não conseguia passar dos 20, 30 Km/h e não sabia quando chegaria a uma povoação. A seguir ao almoço a chuva e o vento acalmaram e a coisa correu melhor. Pude finalmente apreciar a paisagem fantástica de cedros enormes e, pelas quatro da tarde, tinha atravessado a serra.

Rodei até às cinco e meia, com uns últimos 20 Km divertidos numa estrada de montanha larga, com curvas rápidas e piso ainda húmido mas com boa aderência. Estou numa pequena cidade no meio da Grécia chamada Elassona.