29 de outubro de 2012

29 Outubro - Grécia – Costa Oriental


Esta manhã saí finalmente com bom tempo.

Tinha ficado numa pequena cidade a 2/3 do caminho entre a costa Ocidental e a Oriental.

Comecei por rodar numa óptima estrada de montanha com bom piso e seco, para variar, e passei depois para uma estrada de campo numa longa planície.

Pelas duas da tarde cheguei a Thessalonika uma cidade costeira onde almocei.

Antes tinha parado numa oficina de tratores que encontrei no caminho para olear a maneta da embraiagem que, com as chuvadas, estava barulhenta. O homem, quando soube que vinha de Portugal, convidou-me para beber um café e, ao ver o trajeto que tinha feito no dia anterior no mapa, disse-me que nas notícias tinham mostrado a grande tempestade que se abateu sobre essa zona.

Senti-a no pelo.

Da parte da tarde, quando procurava uma estrada mal assinalada que me levaria a uma península que recomendaram visitar, andei perdido cerca de 80 Km. Já era tarde e rapidamente anoiteceu. Como circulava nessa altura numa estreita estrada de campo com algum mau piso e curvas com humidade agradeci que na Honda se tivessem lembrado de montar o kit de faróis de nevoeiro que iluminam muito bem as bermas pois o farol de origem da “Cross Tourer” não é grande coisa em termos de luminosidade. Talvez devesse ter montado uma lâmpada mais forte.

O que vale é que estava uma noite de lua cheia, o termómetro da moto marcava 20 º e um céu pouco nublado mas onde, ao longe, se viam raios. Fantástico.

Depois de conhecer um pouco melhor este país e ter falado com várias pessoas penso que a situação é ainda mais preocupante de que parece. Nos muitos quilómetros que fiz pela Grécia não vi uma única industria. De facto a Grécia vive praticamente do turismo, para além da exploração da sua frota marítima, que já foi das maiores do mundo, no tempo dos Onassis e Niarchos. Os gregos parecem não ter bem noção da situação em que vivem pois a vida é mais cara que na Croácia, por exemplo, que estou certo vai ficar com muito do turismo grego e até Portugal, principalmente se soubermos explorar bem três zonas de enorme potencial e que ainda não estão estragadas: a região interior norte, incluindo o Douro, a Costa Alentejana e a zona do Alqueva.

Por outro lado em Portugal já estávamos habituados a viver com pouco dinheiro e por isso vamos aguentar melhor o esforço que os gregos que têm ordenados médios bastante superiores aos nossos e vão obrigatoriamente sofrer reduções drásticas. Penso que a situação aqui vai piorar muito nos próximos dez anos e quem emprestou dinheiro ao país, incluindo alguns bancos portugueses, que o esqueçam porque nunca o vão poder pagar. Estou convencido também que, por mais engenharias financeiras que a europa faça, é uma questão de meses para entrarem em incumprimento.

Enfim, foi só um desabafo. Penso que muito bem estamos nós quando comparados com eles.

28 de outubro de 2012

28 Outubro - Grécia


Ontem ao fim da tarde, quando andava naquela serra, debaixo de chuva, à procura de sítio onde ficar, parei num restaurante de borda de estrada que tinha ar de fechado mas lá dentro estava um rapaz e uma rapariga dos seus vinte anos a esquartejar uma carcaça que seria de um porco ou cabrito. Chamaram outro que perceberia alguma coisa de inglês, aliás é extraordinário que na Albânia que supostamente é um país mais atrasado todos os miúdos falam inglês e alguns com óptima pronuncia e na Grécia é raro o que diz duas palavras, e esse outro indicou-me uma aldeia vinte quilómetros à frente onde acabei por arranjar onde dormir.

Quando quis jantar entrei no único restaurante da aldeia, que funcionava como uma espécie de clube, ou seja, estava praticamente cheio mas só numa mesa é que estavam a jantar, os outros estavam a beber copos e petiscar. Por cima de um fogão a lenha assava um cabrito e o dono, extrovertido, achou divertidíssimo entrar ali um estrangeiro. Fartou-se de falar comigo sem dizer uma palavra de inglês e eu de grego. Apontava para o cabrito para saber se era aquilo que eu queria, depois pegava com a mão uma batata frita que estava numa travessa e comia a fazer sinal que estavam muito boas enquanto a mulher levantava uma folha de alface e um tomate no ar. Pedi tudo aquilo que me ofereciam e acabei por comer o melhor cabrito da minha vida, acompanhado por um rosé da casa. O homem às tantas sentou-se na minha mesa, pegou numa conta de um restaurante Croata que eu tinha a marcar o livro que estava a ler, e foi mostrar a todo o restaurante aquela conta, que ele presumia ser em euros como quem diz: “que grande martelada que o amigo levou”. Todos viram e riram com a conta até eu conseguir explicar que aquilo não eram euros. Enfim, foi uma noite animada.

Hoje de manhã estava na rua da aldeia a ver passar um desfile de miúdos por fazer anos que os gregos tinham expulso os alemães do território na segunda guerra, quando apareceu o meu tradutor do restaurante da berma de estrada do meio da serra a convidar-me para um café com os amigos. Fomos beber café e jogar gamão e acabei por sair só depois do meio dia, debaixo de chuva e vento devastadores. Levei uma eternidade a fazer os primeiros 60 quilómetros pelo meio da serra. O vento e a chuva estavam fortíssimos, a estrada muito escorregadia e com derrocadas de pedras de todos os tamanhos e rios de lama a atravessarem. Nesses 60 Km não vi um único carro e acabei por parar numa tasca de beira de estrada que era mais uma casa particular onde decidi almoçar, mesmo se ainda não tinha fome. Pensei que, provavelmente seria a minha ultima refeição do dia pois por vezes não conseguia passar dos 20, 30 Km/h e não sabia quando chegaria a uma povoação. A seguir ao almoço a chuva e o vento acalmaram e a coisa correu melhor. Pude finalmente apreciar a paisagem fantástica de cedros enormes e, pelas quatro da tarde, tinha atravessado a serra.

Rodei até às cinco e meia, com uns últimos 20 Km divertidos numa estrada de montanha larga, com curvas rápidas e piso ainda húmido mas com boa aderência. Estou numa pequena cidade no meio da Grécia chamada Elassona.

27 de outubro de 2012

27 Outubro - Da Albânia para a Grécia


Ontem à noite, depois de me instalar naquele Hotel saído do nada, como que miragem no deserto, fui jantar ao único sítio que havia por perto. O miúdo recomendou-me o frango que era criado no próprio jardim e perguntou se não os queria ir ver. Preferi vê-lo já no prato e era excelente.

Hoje de manhã saí pelas 9,30 h com vento e chuva fortes. Por sorte a estrada a partir desta vila de Tepelene era boa e só tive que me aperceber, aos poucos, dos limites de aderência da “Sport Tourer” naquelas condições. O único percalço eram as quedas de pedras para a estrada, vindas da escarpa e que me obrigavam a máxima atenção.

Fui em direção a uma suposta estância balnear no sul da Albânia, sempre debaixo de chuva intensa, porque tinha curiosidade de saber se, ao menos nestes locais supostamente mais turísticos, o tipo de construção era melhor que no resto do país. Cheguei à conclusão que a melhoria não é significativa e que a Albânia, para além da paisagem natural, só se aproveita porque tem um povo encantador. Quando entrei no país não tinha a mínima ideia do que me esperava e fiquei assustado com a primeira impressão: as mulheres eram bonitas mas os homens que via naquelas vilas e cidades sinistras de feias tinham todos caras de assassinos. Depois, aos poucos, fiquei a saber que é uma gente fantástica, extremamente simples e simpática.

Mas as estradas não são melhores que o resto da construção e, mal tive que sair da estrada principal, apanhei uma estrada de montanha, cheia de ganchos, pedras no caminho e extremamente escorregadia, talvez por serem as primeiras chuvas depois do verão.

Quando saí da estância balnear de Sarante, decidi cortar caminho por uma via secundária e voltei a apanhar daquelas estradas albanesas inacreditáveis em que parte é em terra, parte em alcatrão esburacado e a terceira parte tão estreita que mal se cruzam dois carros. Pelo meio uma travessia de rio numa barcaça movimentada por cabos.

Passei para a Grécia e o panorama muda radicalmente. As estradas são como as nossas e a construção, sem ser brilhante, dá dez a zero aos Albaneses. Mas as cidades e vilas parecem desertas. Ninguém sai à rua nestes tempos de crise e mau tempo. Desci cem quilómetros junto à costa ocidental para depois rumar ao interior a caminho da costa oriental. Tinha decidido não visitar Atenas por já a conhecer bem. Acabei por ficar numa aldeia no alto de uma serra, com um barulhento riacho a correr junto ao quarto. Acho que vou dormir bem.

26 de outubro de 2012

26 Outubro


Saí de Tirana pelas dez da manhã com o sol a que já me habituei. Na balburdia do transito da capital ao meu lado no sinal encarnado está um velho numa scooter com as duas netas à pendura, com os seus oito e nove anos. Giríssimas, a caminho do colégio, com as mochilas às costas. Os três sem capacete, claro. Aliás a única 50 que vi em que o condutor levava capacete foi no campo e atrás trazia a mulher, essa sem capacete e sentada à amazona. Era uma imagem de que já não me lembrava mas que se via em Portugal no final dos anos 60.

Entro no que eles chamam autoestrada a caminho de Berat, uma cidade fortificada pelos romanos em 200 AC e que foi classificada como património mundial pela Unesco.

A auto estrada tanto tem separador central como não, não tem traços marcados no piso e desde carros parados nas bermas até pessoas a pé e scooters a circularem em sentido contrário há de tudo. O piso aqui nem é mau mas a auto estrada acaba de repente com uma camioneta atravessada no meio da estrada, a vender cebolas. Do outro lado ainda não há estrada e passo por um caminho de terra para a antiga estrada, muito esburacada.

Poço de petroleo na Albania
As vilas e cidades são tão feias que não há discrição. Temos a sensação que para remediar o país só deitando tudo a abaixo e construindo de novo. E a Albania não é tão pobre como parece. Têm petróleo, embora em pequenas quantidades, aliás esta fotografia é de um verdadeiro poço de petróleo que há uma semana estava a funcionar e agora, segundo me disseram os responsáveis, estavam a tratar de trocar a bomba por uma mais moderna, têm gaz natural, alguns minérios e são autosuficientes na agricultura. Vivem com pouco mas a única coisa a que não resistem é um Mercedes. É de longe o carro que se vê mais, mesmo se muitos deles são 124’s com vinte anos, certamente comprados usados na Alemanha, mas também há recentes e vi vários classe S em Tirana, BMW’s X5 e X6 e por aí fora. Penso sinceramente que a percentagem de Mercedes é maior que na Alemanha. No fundo é um pouco o espírito dos portugueses: Mercedes à porta da barraca.

Ao fim da manhã visitei o castelo de Berat, e as casas que tem dentro as únicas construções bonitas que encontrei na Albania.

Da parte da tarde decidi cortar caminho por uma estrada secundária e fiz quarenta quilómetros numa hora numa combinação de estrada alcatroada muito esburacada com estradas de terra também cheias de buracos. A Cross Tourer levou uma grande coça mas aguentou-se. O meu pânico era ter um furo mas os pneus também resistiram ao mau tratamento. A parte positiva foi que me habituei a guiar este tanque com mais de 300 Kg em todo o terreno e já estou muito mais à vontade neste tipo de piso.

Só que de repente o sol começou a por-se e eu só via montanhas à minha volta, sem fim à vista. Finalmente encontrei uma vila onde me disseram que teria que fazer mais 100 Km para chegar onde queria. Fiz-me à estrada mas 30 quilómetros depois, saído do nada, um Hotel junto a uma bomba de gasolina onde fiquei instalado. 15 euros pelo quarto. Espectáculo.

25 de outubro de 2012

25 Outubro


Saí de Dubrovnik pelas dez da manhã a caminho de Montenegro. É um país pequeno, com uma área de cerca de 1/6 de Portugal continental, com uma paisagem muito parecida com a da Croácia mas mais mal tratado. Como curiosidade refira-se que embora ainda não pertençam à Comunidade Europeia, a moeda deles é o Euro. Quando uns a estão a perder outros ganham-na antes de tempo.

Logo na entrada de Monte Negro, junto à fronteira, apanhei a estrada em reparação, tendo que fazer quatro ou cinco quilómetros não em estrada de terra normal, que isso não seria problema, mas numa estrada de pedra solta. A direcção da Cross Tourer não parava quieta e tive que segurar o guiador com força e ir sempre em aceleração para a conseguir aguentar. Ainda não foi desta que fui ao charco mas cheguei à conclusão que em Africa vou mesmo ter que montar pneus de cross ou mistos porque com o peso que a moto leva é muito difícil de domar em estradas deste tipo.

Parei para almoçar em Koper, uma cidade medieval que não tem nada a ver com Dubrovnik mas é a mais emblemática de Monte Negro. O que tem graça é que os navios de passageiros atracam mesmo às portas da cidade. O "windsurf" que se vê na imagem, estava ontem na Croácia e tem a curiosidade de ser um navio de milhares de passageiros mas com velas, daí o seu nome.

Depois de almoço apanhei uma estrada de montanha, a caminho da Albania, com muitas ratoeiras. Desde pedras soltas no meio da estrada que caíam da escarpa até metade da estrada que tinha caído e estavam a reparar para além de curvas humidas a meio, onde havia sombras, e grandes rachas no alcatrão, com desniveis acentuados.

A Albania é um país mais pobre embora seja dos poucos na Europa em que a economia continua a crescer. Têm gaz e algum petróleo. A paisagem natural é bonita mas a construção é uma lástima. Os arredores de Tirana fazem lembrar as capitais africanas mais degradadas e o transito é difícil, agravado pelo facto das scooters circularem tanto na sua faixa como em sentido contrário a grande velocidade, conforme lhes apetece, Confesso que cheguei cansado a Tirana, onde estou agora. Amanhã sigo rumo a Sul e à Grécia.



24 de outubro de 2012

24 Outubro - Amazing Dubrovnik


Ontem cheguei já ao final da tarde a Trebinje, na Bósnia Herzgovina e hoje arranquei, pelas onze da manhã, com intenções de atravessar Montenegro e até possívelmente toda a Albania e ir ficar à Grécia. Só que, com um pequeno desvio, decidi passar em Dubrovnik, no extremo Sul da Croácia. Quando ainda vinha na Bósnia e avistei, do alto do Planalto, a baía de Dubrovnik fiquei maravilhado. A má fotografia que tirei não dá a entender a grandiosidade da paisagem, com o vale lá em baixo e o mar ao fundo, com as ilhas. "breathtaking".

Parei à entrada das muralhas e quando vi uma esplanada com óptimo aspecto e vista sobre o castelo e o mar fiquei a almoçar, mesmo se ainda era meio dia.

Depois, entrei na cidade velha de Dubrovnik e fiquei fascinado. Decidi ficar por ali e assim hoje percorri a fantástica quilometragem de .... 30 Km.

A cidade medieval, dentro das muralhas é linda e tem uma vida fantástica, com restaurantes bem arranjados nas praças e um pequeno porto de onde partem barcos a fazer visitas à ilha próxima. No verão têm concertos de musica clássica e balets ao ar livre. Muito civilizado.

Dubrovnik
Visitei a cidade, esta sim cheia de turistas de todas as nacionalidades, bebi um copo num bar/restaurante da praça principal e da parte da tarde fui dar um passeio de barco.

É daquelas cidades em que pensamos: "era capaz de viver aqui".

Amanhã arranco rumo ao Sul, com passagem por Montenegro e Albania. Já me preveni com mais umas bananas e até um pacote de arroz não vá o diabo tecelas e não encontrar onde comer qualquer coisa.


23 de outubro de 2012

23 Outubro


Hoje saí de Vodice pelas 11 com mais um dia de verão. Na noite anterior tinha estado num simpático bar, junto à Marina, até à meia noite, à conversa com as empregadas, pois era o único cliente e na brincadeira do "face book".

Desci primeiro junto à costa Croata que é fantástica nesta zona, salpicada por largas dezenas de ilhas, a maior parte delas desabitadas. Potencialidades extraordinárias de exploração turistica ainda nos primeiros passos. Mas as dezenas de Marinas desta costa já estão cheias de barcos.

Um pouco abaixo de Split rumei ao interior a caminho da Bósnia e o cenário muda radicalmente. A Bósnia é nitidamente mais pobre e embora tenha partes montanhosas magnificas toda a construção é horrivel e a maioria das cidades e vilas muito pouco atractivas. Há pouco transito nas estradas que, para meu espanto, até estão em bom estado de um modo geral. Não se vê um unico estrangeiro e voltei a fazer dezenas de quilómetros a cruzar-me apenas com dois ou três carros. Antes de sair da Croácia tinha parado num mercado de rua onde comprei duas bananas e três laranjas. Como previa acabaram por ser o meu almoço porque não encontrei nenhum restaurante onde pudesse comer alguma coisa. Pelas cinco da tarde, como de costume, comecei a procurar sítio onde ficar mas em cada vila ou pequena cidade onde parava diziam-me sempre que não havia nem hoteis nem quartos para alugar. E percebe-se. Alugar a quem?

Continuei rumo a sul e embora evite andar ao fim de tarde, porque complica mais a vida se tiver algum problema, os ultimos 70 Km de uma estrada sinuosa mas de curvas rápidas deram-me imenso gozo.

Finalmente cheguei a Trebinje, no sul, onde, para meu espanto, fui encontrar um Hotel óptimo por um preço de quarto alugado.

Amanhã sigo para a Albânia que deve ser outro filme do mesmo género.

Neste momento já ultrapassei os 5500 Km desde que saí de Lisboa, incluindo os 700 Km que fiz na semana em que estive em Barcelona.